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  • há 3 semanas
Um papo sobre linguagem, difusão Literária, autobiografias, contos, romances e literatura infantil.

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00:01Começa agora Vitrine Literária com o professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:19Olá pessoal, tudo bem? Mais uma edição do programa Vitrine Literária com Francisco Grijó.
00:26Eu não vou nem começar hoje a fazer nenhum tipo de preleção sobre literatura, sobre livros, etc.
00:33Eu vou direto para o meu entrevistado. Mas antes eu quero deixar claro.
00:38Existe um grande estudioso da literatura espírito-santense chamado Francisco Aurélio Ribeiro.
00:44Foi meu professor, é professor aposentado da UFIS, uma figura inteligentíssima, um grande professor e um grande estudioso.
00:54O Francisco Aurélio sempre falou, numa geração de escritores, a chamada geração de 80,
01:01que se refere justamente ao ano, à década de 1980, do século passado, do século XX,
01:10sobre aquele grupo de escritores que surgiram na universidade e que acabaram fazendo,
01:16segundo o próprio professor, uma literatura de qualidade.
01:20Dentro desse grupo, não estava o nosso entrevistado de hoje.
01:27Porque ele surge um pouquinho depois da geração de 1980, embora ele seja da minha idade.
01:35Para mim, para mim, daquela geração de escritores, é o melhor.
01:40Mas o fato de eu achar que ele é o melhor, não significa que ele concorde comigo.
01:44E não significa que você, que está me ouvindo e me vendo, também concorde.
01:50Para que você possa concordar comigo, eu sugiro que você leia os livros dele.
01:55Para que você possa ter uma visão sobre o que é literatura,
01:59dessa figura que está aqui ao meu lado, Pedro José Nunes,
02:03também conhecido como Pedro Nunes ou Pedro J. Nunes.
02:07Pedro é contista, Pedro é romancista, Pedro é editor de livros,
02:13e Pedro tem um site chamado tertulia.com.br,
02:20que é o mais importante site de divulgação da literatura feita no Espírito Santo.
02:25Tanto histórica, quanto intelectualmente.
02:29Então eu vou conversar hoje com o Pedro, vai ser um programa muito bom, eu tenho certeza.
02:34Tenho certeza de que você que está me ouvindo e você que está me vendo.
02:38Lembrando que o Vitrine Literário com o Francisco Grijó é um programa da Rede Vitória
02:44e é um programa também que vai ao ar pela rádio e vai ao ar agora também pelo podcast.
02:52Beleza?
02:53Então eu apresento a vocês Pedro José Nunes.
02:57Está aí essa grande figura, autor de livros tão representativos.
03:02Pedro, muito obrigado por você finalmente ter aceitado vir.
03:06Porque no ano passado eu chamei o Pedro para vir aqui.
03:09Eu queria que o Pedro fosse um dos primeiros.
03:11E Pedro estava relutante, falou, não, eu já não estou a fim.
03:15Charme de escritor.
03:16E aí agora o Pedro finalmente aceitou.
03:19Pedro, muito obrigado.
03:21Tudo bem com você, meu velho?
03:22Tudo bem, tudo bem.
03:24Eu que agradeço, Grijó, pela oportunidade de estar aqui.
03:29E sobretudo pelo esforço que você e a Rede Vitória têm feito em divulgar o autor e o livro Capixaba.
03:38Isso é também um trabalho de resistência.
03:42Escritor Capixaba é tido como difícil de achar.
03:45Nossos livros não se acham muito facilmente.
03:49Exatamente porque nós não temos essa visibilidade, não tínhamos essa visibilidade antes da rede social e antes de programas como
03:58o que vocês estão levando ao ar.
04:02É preciso que se diga que se eu soubesse que por escrever eu tivesse de falar tanto, eu teria desistido.
04:12Porque o dom da oratória lá em casa ficou com minha irmã Nessi, conhecida entre nós como Tata, que pega
04:19o microfone e sente absolutamente em casa, falando, facilidade que eu não tenho.
04:28Mas há que se fazer um esforço não só porque a gente tem de divulgar os livros que faz, como
04:35também deve reconhecer o esforço que fazem no sentido de divulgação da literatura e, de certa forma, contribuir com ele.
04:44Deixe-me fazer logo uma pergunta para você então, uma pergunta que talvez seja difícil de você responder.
04:50Você disse que você não consegue falar, mas você é professor ou foi professor de gramática e foi professor de
04:55inglês também.
04:57Você, quer dizer, a ideia de comunicação existia, mas eu te pergunto, os seus livros são a plataforma que você
05:05tem para conversar com o leitor?
05:08Totalmente, totalmente. Eu fui professor de inglês durante uma semana. Eu não consegui ir adiante porque não estava nos meus
05:22planos.
05:22Eu cheguei a fazer o período 1 de inglês do meu curso de letras, mas depois eu desisti.
05:28Quanto ao fato de ser professor de português, 5 minutos antes de começar a aula eu queria sair correndo dali,
05:37mas 10 minutos depois eu daria tudo para ficar.
05:39Eu estava no meu elemento, eu estava ensinando aquilo que eu sabia.
05:44Sempre tive humildade para dizer para os meus alunos que aquilo, alguma coisa que eu eventualmente não sabia, procurava apresentar
05:51na aula seguinte ou naquele mesmo dia e tudo.
05:55Mas a minha expressão, a minha comunicação, claro que eu sou um bom conversador com os meus amigos, eu levo
06:07bem uma conversa, embora eu seja muito calado,
06:10mas a minha comunicação é realmente feita por meio dos livros.
06:16Você tem ideia, eu gosto de tocar um pouquinho, embora hoje eu esteja muito limitado por questões funcionais, mas quando
06:26eu, na minha casa, ligo um gravador para me gravar tocando, eu já travo exatamente por isso.
06:32Eu acho que é uma timidez crônica, uma coisa de temperamento, uma coisa que eu herdei talvez da minha família,
06:39que exceto a minha irmã Tata, que eu já falei.
06:41Mas eu já não leciono mais há muitos anos, justamente porque eu desisti de enfrentar esse estresse anterior ao início
06:52da aula.
06:53O Debson, Debson Jorge Afonso, que você conheceu, meu amigo, e que faleceu há pouco tempo, e que era o
06:59autor de apenas um livro, chamado Batendo na Porta Errada, que eu acho uma obra-prima.
07:04O Debson, uma vez, nós vamos participar de um debate na UFIS, nos anos 1980, 87, 88, e o Debson,
07:12diante de estudantes de letras, Debson teve a coragem de dizer que os piores escritores que ele conheceu na vida
07:20eram advindos do curso de letras.
07:23Você acha que fazer letras, ou seja, fazer o curso de letras, atrapalha ou ajuda alguém a criar literatura, Pedro?
07:37Eu sou assim, eu fiz o curso de letras, sou professor e sou escritor, mas a minha opinião sobre isso
07:43não interessa, interessa a sua. E aí?
07:45Eu não vejo como tudo. Eu me lembro de ter chegado para a nossa querida Deni Gomes, que foi minha
07:53professora e foi sua professora, uma pessoa admirável em todos os aspectos.
07:58E eu me lembro de ter chegado para ela com muita honestidade e dizer, olha, o conhecimento de teoria literária
08:06está tirando o meu prazer de ler.
08:10É mesmo, Pedro? Então nós conversamos um pouco sobre isso e ela me disse assim, Pedro, continua como você está,
08:20fique como você está, esqueça a teoria literária e prossiga, prossiga nas suas escritas e nas suas leituras.
08:29Principalmente, Grigó, na minha leitura, porque entre escrever e ler eu prefiro ler, não tem nem dúvida.
08:38Mas essa lição de Deni serviu muito para mim.
08:42Agora, é inegável que toda a experiência que eu tive numa matéria chamada Morfologia, se não me engano é português
08:52C4.
08:54Ou era pelo menos o antigo currículo.
08:55Porque mudou tudo, eu me formei em 91, imagina.
08:59Todo aquele conhecimento me ajudou muito a escrever a ninhanha, por exemplo.
09:04Porque eu precisava subverter a linguagem, eu queria criar um ambiente de lixo, porque é um romance sobre o lixo.
09:14Então, me ajudou muito.
09:15E quando eu estou escrevendo, mesmo que eu faça alguma subversão, por exemplo, começar a frase com o oblíquo.
09:26Esses conhecimentos que eu adquiri na UFIS, no curso de letras e principalmente na sala de aula,
09:32porque quase tudo que eu sei, eu aprendi com os meus alunos, que me forçaram a estudar, para passar para
09:39eles a coisa correta,
09:40me ajudam muito a escrever.
09:42Entende?
09:42Me dá mais segurança na hora de escrever.
09:45De saber exatamente o que eu estou fazendo na sintaxe, na escolha das palavras, na sonoridade, essa coisa toda.
09:53Já que você citou a ninhanha, quero mostrar a vocês.
09:56Pedro, pega a ninhanha, para quem está nos vendo, mostre a capa para o pessoal aí, para que as pessoas
10:02possam ver.
10:02A ninhanha é um texto revolucionário.
10:05Mas antes de a ninhanha, existe uma outra obra que eu quero abordar, pelo seguinte.
10:11Deixa eu fazer um histórico para vocês rápido.
10:13Em 1992, eu e mais um grande amigo, que hoje é o gerente do cinema, do Cine Jardins, ali em
10:25Jardim da Penha,
10:27o Talmon, também conhecido como Juninho, nós tínhamos um sebo na UFIS.
10:33Vendimos livros usados na UFIS.
10:35E nós, para podermos fazer uma abertura, para fazer uma inauguração, nós chamamos o Pedro,
10:43que tinha acabado de lançar um livro chamado Vilarejo, e Pedro fez o lançamento lá no selo.
10:49E foi uma grande festa.
10:50Muita gente apareceu, vendemos muito livro, e claro, divulgamos o espaço.
10:55Eu quero entrar e falar para você sobre Vilarejo, Pedro.
10:59Você é um autor do interior do Espírito Santo.
11:02Você é de São José do Calçado, uma cidade que tem uma conexão com literatura muito grande.
11:08Sim.
11:10Ao ler Vilarejo, a pessoa, de cara, logo pelo título, já conecta com uma cidade do interior.
11:19Eu queria saber de você o seguinte.
11:21Vilarejo, em especial, é um texto autobiográfico?
11:26Ou seja, é Pedro José Nunes ou Pedro J. Nunes de Calçado?
11:34Não, não.
11:38Vilarejo, Grijó, para falar a verdade, foi o último conto do livro, né?
11:44É um conto mais esticado.
11:46Eu estava lendo uma coleção chamada Mar de Histórias, Paulo Rona e, se não me engano, Sérgio Buarque.
11:52Aurélio Buarque de Holanda.
11:53Uma coleção maravilhosa.
11:55E havia lá uns contos húngaros, em que não acontecia nada.
12:00Nada.
12:01O conto era aquele marasmo, não acontecia nada.
12:04Eu fiquei admirado com aquilo.
12:05Que é difícil fazer isso.
12:06Que é difícil fazer isso.
12:07Porque você espera que num conto aconteça a tensão, está o tempo todo, desde o começo do conto.
12:14E não acontecia nada.
12:15E eu, então, falei, vou fazer um conto desse, porque eu gosto, né?
12:18Eu gosto desses desafios.
12:19Vou fazer um conto desse e vou contar mais ou menos a história do meu avô, que é Pedro Nunes.
12:27Que, em 1960, aos 60 anos, em razão de um desentendimento familiar.
12:33Sensacional.
12:33Isso é verdade, né, Pedro?
12:36É verdade.
12:37Ele resolveu ir morar num lugar bastante ermo.
12:41Tanto que a epígafe do livro, prefiro ficar aqui no aprendizado das nuvens e das cobras, foi o que ele
12:47me disse.
12:48Inclusive, um dia ele me mostrou uma jiboia, que era amiga dele, a barra da cama dele.
12:54Enfim, mas eu queria fazer, porque desde criança, meu avô, então, era tido como uma pessoa excêntrica, um eufemismo para
13:05louco, né?
13:07E eu nunca achei isso do meu avô, uma pessoa muito profunda.
13:10E eu queria prestar uma homenagem a ele com esse livro.
13:16Mas acontece que, no processo de escrita, nem sempre a gente está comandando, né?
13:21A história, às vezes, começa a se comandar.
13:24E no começo do livro, para meu azar, ou para minha sorte, me aparece uma grávida, uma mendiga grávida, e
13:31se coloca na frente da casa de um coronel.
13:34E tira o coronel da rua e coloca o coronel trancado dentro de casa, e o subjuga, e o humilha,
13:41né?
13:41Até que a esposa do coronel resolve colocar essa senhora nas terras deles, bem longe, para que ela tenha lá
13:49o filho, que ela sabe que é do marido,
13:51que tinha o costume de estuprar mulheres nas estradas, mulheres de todo tipo, inclusive as mendigas.
13:59E lá nasce esse ser com uma cauda, uma marca, um estigma, que era justamente o estigma que meu avô
14:09tinha.
14:10A cauda do monstro de vilarejo é o estigma que meu avô tinha.
14:16Mas a história tomou conta de si, eu não pude evitar que ela acabasse desenvolvendo, né?
14:24Para o que se desenvolveu, ela foi acontecendo.
14:27Nada de transcendental, nada de místico, não.
14:30É o processo da criação mesmo.
14:32São as nossas experiências, as nossas projeções, as nossas leituras.
14:39Tudo isso pinta na hora da escrita, né?
14:44E isso acaba vazando, isso acaba tomando conta do nosso inconsciente criativo, vamos chamar assim, a falta de uma palavra
14:51melhor,
14:51e fazendo as coisas por si.
14:54Então, de certa forma, não é autobiográfico, mas tem por ponto de partida uma espécie de resgate da verdadeira natureza
15:05do meu avô.
15:06Olha só, Pedro, você tocou num assunto aí que eu sempre quis abordar aqui no programa.
15:15Certa vez o Hitchcock, Alfred Hitchcock, conversava com o Walt Disney.
15:20E o Hitchcock foi e reclamou que os atores eram difíceis, que ele tinha que tratar ator como gado, etc.
15:29E o Walt Disney falou que o Hitchcock estava sendo muito duro com os atores.
15:34Ele podia ser mais tranquilo, ele podia conduzir a coisa com mais tranquilidade.
15:38E o Hitchcock falou, cara, pra você é fácil, porque quando um ator seu, ele te enche o saco, você
15:44vai lá e o apaga.
15:46Já que ele trabalhava com desenho animado.
15:49Você acha realmente...
15:50Por que eu estou falando isso?
15:52Porque você realmente acredita...
15:54Eu não acredito, já digo pra você isso, não acredito.
15:57Mas você acredita que o texto literário é capaz de conduzir o autor?
16:02Como você falou aí?
16:04Você é tomado por alguma coisa e o texto literário passa a te conduzir?
16:09Acredito sim.
16:10Acredito sim.
16:11Isso aconteceu tanto no Vilarejo quanto no meu romance Menino.
16:15Esse sim tem cunho autobiográfico.
16:18É, menino eu sei, eu ia falar dele.
16:20Tem cunho autobiográfico.
16:21Então, isso aconteceu pelo menos duas vezes na escrita de Vilarejo e na escrita de Menino.
16:29Eu reconheço.
16:31Nos outros, eu mantive o domínio.
16:35Mas tem um romance meu inédito que eu planejei escrever em seis partes e acabou em doze.
16:42Doze partes.
16:42Ele ficou o dobro do tamanho que eu imaginava.
16:47E os fatos literários, os fatos da trama, os fatos dramáticos, eles vão tomando conta.
16:55Eu não acho que é nada transcendental, nada de mágico, não.
16:59Eu acho que é uma...
17:00Tanto que eu fiz quatro versões desse último romance meu.
17:03E a Ninhã eu passei cinco anos reescrevendo antes de publicar.
17:07Eu acho que é um trabalho mesmo.
17:10Mas esse acúmulo de histórias na nossa cabeça, ele começa a brotar no momento que nós estamos escrevendo.
17:19Porque é uma espécie de furúnculo.
17:22Brota, vai brotando e a gente quando vê, está sendo dominado pelas histórias que nem sabia que estavam guardadas dentro
17:30da gente.
17:32Já que você tocou no A Ninhã, eu me lembro que no final dos anos 90, eu fui ler A
17:40Ninhã.
17:42E eu sempre falava com você que eu não gostava do título e só fui realmente compreender o título ao
17:48ler o livro.
17:51Quando uma pessoa que gosta de literatura, eu vou me colocar como sendo o...
17:58É a minha subjetividade que está em jogo agora.
18:01Quando eu li A Ninhã, e eu acho que eu comentei isso com você,
18:05dentro de todas as comparações, as inevitáveis comparações,
18:11há muito de Guimarães Rosa.
18:16É muito ousadia, já que Guimarães Rosa é considerado, por muitos daqueles que leram,
18:38e principalmente pelos que não o leram, é considerado o maior escritor brasileiro do século XX.
18:46O que existe em A Ninhã de Guimarães Rosa, propositalmente?
18:53Eu diria que nada.
18:55Porque eu li o Grande Sertão Veredas, até porque rolou muito essa conversa, né?
19:04Inclusive o editor do Rio me disse isso, que recusou o meu livro, porque...
19:09Eu fiquei ilusondeado, porque era parecido demais com Guimarães Rosa.
19:14Guardadas as proporções, ô Grijó, eu me lembro que João Baldo Ribeiro,
19:18numa entrevista que eu vi outro dia no YouTube,
19:20ele reclamou dessa tirania que existe em torno dessa apropriação da linguagem,
19:31das derivações, das criações dos sufixos, né?
19:37A invenção de palavras.
19:39Porque o livro dele, o Sargento Getúlio, ele também foi acusado...
19:43Que é uma obra-prima, né?
19:44Uma obra-prima.
19:45Foi acusado de ter imitado Guimarães Rosa.
19:48José Cândido de Carvalho, o Coronel e o Lubisomem, também usa desse recurso.
19:54Criando palavras à torta e à direita.
19:58Então, o que acontece que a ninhanha, é como eu disse e vou repetir,
20:03aconteceu desse jeito porque eu fiz uma matéria,
20:08uma matéria que me agradou muito, que é a morfologia,
20:11o processo de criação de palavras.
20:13E também já tinha tido rudimentos de sintaxe, né?
20:17Que eu poderia fazer a subversão sintática do jeito que eu quisesse.
20:22Já conhecia vícios de linguagem, porque a primeira frase do livro é um vício de linguagem, né?
20:26É uma colisão, se não me falha a memória.
20:29Eu cá conto consumados casos, né?
20:33Então, assim, eu emporcalhei a linguagem com conhecimento.
20:38Eu não acredito que tenha sido essa a intenção de Guimarães Rosa.
20:42Eu precisava emporcalhar a linguagem de a ninhanha,
20:44desculpa a expressão emporcalhar, mas é isso mesmo,
20:48porque, embora ela seja extremamente elaborada,
20:50a ninhanha foi todo reescrito à mão, todo reescrito à mão.
20:54A ninhanha é uma história engraçada, não sei se eu já te contei,
20:57mas a primeira versão foi escrita em 30 dias para participar do concurso literário da Fundação.
21:03Graças a Deus perdeu, perdeu para o Leicídio de Paulo Sodré.
21:07Embora eu tenha recebido uma carta do...
21:11Aquele escritor que escrevia livros históricos,
21:14muito amigo de Luiz Guilherme,
21:17Benedita Torrião, Benedita da Sangria Desatada,
21:21como é que é o nome dele?
21:22Eu não me lembro agora.
21:23Ju, eu sei que é.
21:25Eu vou me lembrar.
21:25Eu tenho essa carta lá em casa,
21:29outro dia eu achei essa carta, fiquei surpreso,
21:31ele falando sobre a primeira versão de a ninhanha,
21:34que se chamava Maria Trinta Cruzes.
21:37A primeira versão se chamava Maria Trinta Cruzes.
21:40Que é um belo título também.
21:41É um belo título, eu gosto.
21:42Tem um poeminha de redondilhas maiores dentro do...
21:47A redondilha é do cantador, né?
21:50E tem um cantador que surge lá em um determinado momento,
21:52eu coloquei lá sete versos de sete sílabas.
21:57Na reescrita, quando o livro ficou pronto,
22:00o nosso amigo Jorge Rangel, que era gerente da Logos...
22:03Pinado Jorge.
22:04Pinado Jorge, que Deus o tenha,
22:05pegou o livro e o passou para o Carlos Nejar,
22:10sem que eu soubesse.
22:11E o Nejar, então, sugeriu,
22:14ele me escreveu uma cartinha muito simpática,
22:16está no meu site a carta, se alguém quiser ver, né?
22:20Ele me escreveu uma carta muito simpática,
22:22dizendo que ele sugeria que o título do livro fosse a ninhanha,
22:26porque foi uma palavra que ficou resbungando na cabeça dele.
22:31E é engraçado que a ninhanha é realmente um resbungo, né?
22:34É a forma não verbal, como mãe e filha se comunicavam no livro.
22:39E a ninhanha é um resbungo.
22:42A formação do nome, eu peguei o nome da minha mãe, que é a Ana,
22:47e acrescentei o resmungo nhanha.
22:49Eu criei esse nome como um resmungo,
22:51tanto que a narradora não tem nome.
22:53Não tem nome.
22:55Então, eu não vejo, eu não tenho.
22:58Agora, é claro, depois eu li.
23:00Eu li o Grande Sertão Veneza, que é um livro,
23:02É um livro, é um livro, é um livro.
23:03Eu acho um livro complicado para ler.
23:06Complicado, é.
23:07Mas é um livro realmente, é um monumento.
23:08Belíssimo livro, é.
23:10Pedro, olha só, você falou aí no seu site.
23:16Qual é o seu site?
23:18O meu site pessoal é pedrojnunes.com.br.
23:24Então, você, vocês estão ouvindo,
23:26e quem está nos vendo, está vendo aí pedrojnunes.com.br.
23:32Bem, Pedro, nós vamos interromper a nossa entrevista,
23:38porque vocês não sabem, mas eu vou fazer dois programas com o Pedro.
23:43Então, essa primeira parte vai ao ar agora, nessa quarta-feira,
23:48e na semana que vem, nós vamos ter a segunda parte com o Pedro Nunes.
23:53Por enquanto, Pedro, muito obrigado.
23:55Mas nós vamos fazer um outro programa com você.
23:58Beleza?
23:59Beleza, eu que agradeço, Gugel.
24:00Valeu, gente.
24:01Até a próxima edição com o Pedro Nunes, mais uma vez.
24:05Para que você possa, a gente vai conversar sobre literatura infantil juvenil,
24:08vamos conversar sobre o Tertúlia.
24:11Fique ligado, porque mais programa Vitrine Literária com Francisco Grijó pela frente.
24:19Você ouveu Vitrine Literária com o professor e escritor Francisco Grijó.
24:26Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.

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