- há 3 semanas
Um bate-papo sobre edições, produção de livros, papel do editor, divulgação e projetos literários.
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NotíciasTranscrição
00:01Começa agora, Vitrine Literária, com professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:19Olá pessoal, tudo bem? Mais uma edição do Vitrine Literária, aqui pelo podcast da TV Vitória, pelo YouTube.
00:28Estamos mais uma vez aqui para conversar sobre literatura, sobre edição, sobre produção literária, sobre poesia, conto, crônica, novela, tudo
00:39o que é ligado à literatura.
00:41Eu sou Francisco Grijó, sou professor de literatura, sou escritor e hoje a gente começa discutindo um assunto bem interessante.
00:50Há 20 e poucos anos eu estava em Buenos Aires e estava na Plaza Rivadab, aqui é uma praça muito
00:57bonita, e próximo a ela existe um parque.
01:00E nesse parque existe uma feira de livros, muito interessante.
01:04E havia um café, ao lado dessa feira de livros havia um café, devia ser umas 4 horas da tarde.
01:11Eu entrei no café e comecei, claro, evidentemente pedi um café, que é um costume, né, buenarense, embora eu não
01:19seja portenho,
01:20mas eu praticamente aderi ao costume deles de tomar um café às 4 horas da tarde.
01:25E de repente eu vi três meninos, que deviam ter 13 anos de idade no máximo, entrando nesse café.
01:31E os três começaram a conversar naquele espanhol, espanhol bem argentino, né, aquele espanhol bem carregado,
01:38e começaram a conversar sobre alguma coisa que um professor de geografia deles havia falado.
01:44E dois meninos começaram a discutir um com o outro.
01:47Então de repente um deles enfiou a mão na mochila, retirou um exemplar do La Nacion,
01:53que é um jornal argentino muito famoso, talvez o maior jornal da Argentina,
01:57e mostrou para o menino uma determinada matéria no jornal que falava sobre economia argentina.
02:06Aquilo me chamou a atenção porque o garoto devia ter 13 anos de idade no máximo.
02:10E eu fiquei pensando que menino no Brasil de 13 anos se interessa por economia do seu país,
02:17e mais, que menino de 13 anos leria jornais quando os jornais impressos ainda eram moda.
02:25Fiquei pensando isso, e claro, a partir dessa ideia, eu trago uma ideia para vocês,
02:31que é a ideia da leitura, que está ligada diretamente à ideia também de maturidade intelectual,
02:36e está ligada também à ideia de costume.
02:38Ou seja, os nossos meninos de 13, 14, 15 anos, 20 anos antes, eles seriam bons leitores?
02:48E vamos pensar agora, já que a gente não pode falar muito sobre o passado,
02:53porque fica sendo algo muito subjetivo, né?
02:56Fica muito próximo da lembrança, eu trago uma pergunta para agora.
03:00Como é que está a leitura desses garotos hoje?
03:04Eu fui dar uma olhada no censo, naquilo que se diz sobre o número de leitores no Brasil em 2021.
03:14O de 2022 não saiu.
03:16Segundo o censo, o último censo sobre leitura no Brasil,
03:22Tailândia, Egito, China, Índia, estão bem à frente do Brasil,
03:28colocando o Brasil como um país no qual as pessoas leem semanalmente 5,8 páginas por semana,
03:39enquanto que na Índia se lê 15 páginas por semana, por pessoa, claro, né?
03:46Claro que isso aí é dentro de toda uma estatística que se faz cientificamente.
03:51Ou seja, no Brasil nós temos poucos leitores, muita gente e poucos leitores.
03:57Por outro lado, segundo consta, alguns livreiros têm dito que nunca se vendeu tanto livro no Brasil,
04:04embora isso seja paradoxal, porque grandes livrarias estão fechando,
04:09em Vitória praticamente não há mais livrarias,
04:12poucas editoras existem em Vitória, mas, eu posso falar com tranquilidade,
04:18embora poucas editoras existam em Vitória,
04:21ainda existem mais editoras em Vitória do que existiam há 20 anos.
04:25Então, é uma situação um tanto quanto estrambótica demais,
04:30é uma situação um tanto quanto estranha.
04:33Por quê? Porque nós temos um número menor de leitores,
04:37nós temos um número maior de livros vendidos,
04:41e nós temos um número maior de editoras.
04:44E justamente para a gente discutir esse assunto,
04:47eu acho que essa discussão é pertinente a um professor,
04:51ela é pertinente aos escritores,
04:54ela é pertinente aos vendedores de livros,
04:56e ela é pertinente àqueles que produzem livros,
05:00àqueles que estão do lado de fora do processo.
05:02Do lado de fora, o que eu digo é distantes da leitura,
05:06porque, afinal, um editor em tese,
05:09em tese, apenas em tese,
05:11um editor, ele produz o livro,
05:14ele produz a capa, ele produz o miolo,
05:16ele cuida da diagramação,
05:18ele cuida do visual do livro.
05:20Mas existem editores que fazem um trabalho muito mais intenso,
05:27que são editores que leem os originais,
05:30que discutem com os seus escritores,
05:33e que chegam a um bem comum,
05:35que é fazer o livro chegar ao leitor de uma forma mais efetiva.
05:39Eu tenho aqui, como convidado muito especial para esse bate-papo,
05:44um querido amigo,
05:45que também foi meu editor,
05:47num determinado livro,
05:49que é o Saulo Ribeiro.
05:50Saulo Ribeiro está aqui,
05:51eu agradeço muito a sua presença, Saulo,
05:54foi muito generoso da sua parte,
05:56vir aqui para bater um papo com todo mundo sobre livros.
06:00Saulo é editor e é escritor.
06:02Saulo é autor de Os Incontáveis,
06:05que está aqui, que virou inclusive filme,
06:07está aqui na minha mão,
06:09Os Incontáveis,
06:10e é editor de Ponto Morto.
06:12Eu também li.
06:13Essas duas obras são obras de Saulo, escritor.
06:17Mas o Saulo, escritor,
06:20embora me interesse muito,
06:22o que me interessa mais é o papo de hoje.
06:24É o papo do Saulo,
06:27produtor de livros.
06:28É o Saulo, editor.
06:30E eu começo, Saulo,
06:31te fazendo uma pergunta,
06:32antes que você se apresente melhor
06:34para os espectadores,
06:35para quem está nos ouvindo
06:37e para quem está nos vendo,
06:38eu trago uma pergunta para você direta.
06:43Lê-se no Brasil
06:45e lê-se no Espírito Santo.
06:48Ou seja, existem leitores
06:50que fazem valer a pena
06:53a existência de uma editora?
06:55Existem leitores no Espírito Santo e no Brasil?
06:58Então, é com você, sabe?
06:59Ô Saulo.
07:02Boa, boa, boa, boa provocação, Grigior.
07:06Eu acho que sim,
07:07que existem sim leitores.
07:11Embora o perfil dos leitores,
07:14dos consumidores de livro nos últimos anos,
07:16isso mudou de uma forma
07:18que as estatísticas ainda não conseguem entender,
07:20as análises de mercado não conseguem entender,
07:24porque eu acho que existe
07:27leitura subnotificada,
07:29assim como casos de Covid,
07:31assim como isso tudo.
07:33Geralmente, quem monta
07:34esses números de livros vendidos no país
07:37são os sindicatos nacionais
07:39de livreiros,
07:40de editores e tal.
07:42E existe muita coisa
07:44que hoje em dia é produzida
07:46que não passa mais por esses caminhos.
07:48Vamos lembrar que existia um mercado,
07:51existia um mercado editorial,
07:53existia um mercado livreiro no Brasil,
07:55muito pulsante,
07:57até em períodos de crise,
07:59que funcionou no Brasil
08:01muito em virtude do poder público,
08:03das compras governamentais.
08:06Muitas vezes, um grande grupo editorial,
08:08ele tinha a sua venda expressiva
08:11em livrarias,
08:12mas não eram exatamente as livrarias
08:13que sustentavam esse grupo editorial.
08:15Eram as vendas governamentais.
08:16Afinal de contas,
08:17não se monta uma biblioteca
08:19de escola pública estadual,
08:21federal, particular,
08:23enfim, o que for,
08:24que não tenha a coleção
08:25do Carlos Durmão de Andrade,
08:26que não tenha Guimarães Rosa,
08:28que não tenha Cecília Meirelles.
08:30E é muito bom que seja assim,
08:32por exemplo.
08:35Mas, de repente,
08:37a gente teve uma crise do poder público
08:38na compra de livros.
08:39Isso afetou bastante
08:40o mercado editorial.
08:42O mercado editorial teve que começar
08:44a aprender de outra forma.
08:45os livreiros,
08:47eles também não entenderam
08:48as mudanças de mercado
08:49que estavam acontecendo também.
08:50Então, grandes livrarias fecharam.
08:52E a gente vê uma coisa renascendo agora.
08:55Assim, primeiro,
08:56enquanto pequeno editor, né?
08:58Desde aquele momento,
08:59eu já observava aquele momento,
09:00a gente está fazendo 13 anos
09:01de editor agora, né?
09:03Eu já observava aquele momento
09:04e pensava,
09:05como o nosso modelo de negócio
09:07é diferente do deles,
09:08eles vão sofrer um baque muito forte.
09:11a gente vai ficar na mesma,
09:13porque o que eles vão experimentar,
09:15a gente já experimenta.
09:17A falta de acesso a jornais,
09:20a publicações nacionais,
09:22a falta de distribuição,
09:23a falta de vitrines
09:25para colocar os livros.
09:26Eu pensava assim,
09:27de forma,
09:28isso que eles estão perdendo,
09:29a gente já não tem.
09:30Então, a gente vai passar
09:31por essa crise muito bem
09:32e vai chegar em outro momento.
09:33Certo, certo.
09:33E, de fato,
09:34a gente chegou em outro momento
09:36quando a Cousa surgiu há 13 anos,
09:39a gente surgiu no mês
09:40que faleceu o Miguel Marvila,
09:41que era da editora Floricultura, né?
09:44Então, a gente,
09:45acho que o Marvila faleceu
09:47no mês de outubro.
09:472009.
09:48Isso, 2009,
09:49e a gente surgiu naquele mês.
09:51O Marvila,
09:51ele impôs um novo parâmetro estético,
09:55um novo padrão estético
09:56para o livro feito do Espírito Santo,
09:57mas ele não conseguiu
09:58ter a distribuição,
09:59ele fazia e entregava para o autor.
10:01A gente chegou com uma outra ideia,
10:03a nossa ideia era,
10:05vamos fazer o nosso livro,
10:06vamos manter a questão
10:07do padrão estético do livro,
10:09vamos fazer esse livro
10:09ficar diferente, bonito,
10:11para ele ser confundido
10:11com o livro de qualquer grande editora,
10:13mas vamos pensar formas
10:14de distribuição
10:14e é o que a gente vem fazendo
10:15desde então.
10:16E isso acontece
10:17em todos os estados,
10:19em municípios grandes,
10:20municípios pequenos.
10:21Hoje em dia,
10:22a gente tem uma,
10:24editoras pelo país,
10:26pequenas,
10:27que estão produzindo,
10:28que há de melhor
10:29na literatura nacional.
10:31Eu te faço
10:31uma outra provocação,
10:32então,
10:33que é a seguinte,
10:33é a internet,
10:35a internet,
10:36o meio digital,
10:37ele facilitou muito
10:39a publicação,
10:40não é a publicação antiga,
10:42aquela publicação em papel,
10:43o paperback,
10:44a publicação em livro,
10:46o livro tradicional,
10:47aquele livro proposto
10:48por Gutenberg
10:49há 500 anos,
10:51não,
10:52a internet,
10:52ela permite
10:54que se veicule
10:55a literatura,
10:56poema,
10:57conto,
10:57crônica,
10:58romance,
10:59é pelo meio digital,
11:00ou seja,
11:01o custo com papel
11:02é zero
11:03e praticamente
11:04o custo
11:05para divulgação
11:06também é zero,
11:07exceto a energia
11:08que você paga
11:09para manter o servidor.
11:12Para quem não sabe,
11:14o Saulo
11:14é o chefe,
11:18é o poderoso chefão
11:19da editora Cousa,
11:20a editora Cousa,
11:21ela editou
11:22muitos autores
11:23bons
11:24em pouco tempo,
11:25e ela fez um papel
11:26que a Fundação
11:28Siciliana Bel de Almeida
11:29fazia nos anos
11:3070 e 80,
11:31que era o poder público,
11:33porque a Fundação
11:35é ligada até hoje
11:37à Universidade Federal
11:38do Espírito Santo,
11:39e ela tinha um volume
11:40chamado
11:41Coleção Letras Capixabas,
11:43que era, inclusive,
11:44capitaneada
11:45por Reinaldo Santos Neves,
11:46e que publicou
11:47muita gente boa,
11:48e a Cousa
11:49fez mais ou menos
11:50esse trabalho.
11:51Ela referenciou
11:51a literatura dos 80,
11:5390,
11:53foi referenciada
11:54toda por essa coleção.
11:54Exatamente.
11:55A minha pergunta
11:55para você é,
11:56como é que a Cousa
11:58entra nesse papel
11:59de audiobook
12:00e de livro online,
12:04o livro digital,
12:09e me diga,
12:10caso alguém
12:12que esteja nos ouvindo
12:13ou vendo,
12:14que queira editar o livro,
12:16procura você?
12:17Procura você diretamente?
12:19O que que o indivíduo
12:21que quer ler,
12:24quer escrever um livro,
12:25tem talento,
12:26consegue escrever o livro,
12:28mas ele quer fazer o livro
12:29chegar ao leitor?
12:30Como é que Saulo,
12:32como é que a editora Cousa
12:33facilita isso para ele?
12:36A Cousa não facilita.
12:37Não facilita.
12:39Eu imagino que
12:42essa tecnologia toda
12:43que chegou,
12:45ela trouxe uma coisa
12:47muito interessante,
12:47primeiro,
12:48ela trouxe uma possibilidade
12:49da gente chegar
12:50com o livro físico
12:51em outros lugares,
12:52a partir do momento
12:53que eu consegui montar
12:54meu sistema de e-commerce,
12:55que era uma coisa
12:56muito cara antes,
12:57mas barateada,
12:58ela me deu possibilidade
13:00de mídia,
13:01de chegar em leitores
13:02via redes sociais,
13:03que eu não tinha antes,
13:04então,
13:05as redes,
13:06elas ajudaram muito,
13:07mas tem uma outra coisa
13:08também,
13:09que ela criou um novo
13:09fenômeno de leitura também,
13:11hoje em dia,
13:12eu digo,
13:13assim,
13:13a gente,
13:14certamente,
13:15vende mais livros
13:16no Brasil
13:16do que vendia antes,
13:18mas eu não estou dizendo
13:18que vende 15,
13:1930 mil de um mesmo livro,
13:21vende 20,
13:22de um,
13:2230 de outro,
13:2350 de outro,
13:24100 de outro,
13:25porque pulverizou muito,
13:26e esse também é um fenômeno
13:28também,
13:28porque as pessoas passaram
13:30a consumir a literatura
13:32de maneira virtual também,
13:33elas passaram a consumir
13:34o texto do escritor
13:36que ela gosta no Instagram,
13:37do escritor que ela gosta
13:38no Facebook,
13:40do escritor que ela gosta
13:41nos sites de produção
13:44de texto
13:44e de difusão de leitura,
13:46elas passaram a copiar
13:47os autores
13:48que elas gostavam
13:49escrevendo histórias,
13:50continuando histórias
13:51desses autores,
13:52então,
13:53eu acho que hoje em dia
13:54tem uma molecada
13:55que lê pra caramba
13:55e produz pra caramba,
13:56tem uma galera
13:57de outras gerações
13:58que produz muito
13:59e que lê muito,
14:00e as editoras
14:01não dão mais conta disso,
14:02porque senão
14:02vão virar uma editora
14:03de autores,
14:06eu recebo mais,
14:07assim,
14:08toda vez que tem
14:09uma mensagem
14:10lá na editora,
14:11você pode,
14:11de 10 mensagens,
14:12uma está querendo um livro,
14:13nove está querendo publicar,
14:15eu acho que
14:15isso é interessante,
14:16isso é bacana,
14:17mas cada um tem que buscar
14:18também uma forma
14:18de fazer o texto chegar,
14:19que não seja exatamente
14:20através de editoras,
14:22pode ser que,
14:23eu conheço por exemplo
14:23um caso,
14:24que eu acho lindo,
14:25da Fabiola Mazini,
14:28que grande poeta,
14:29grande poeta,
14:30grande poeta,
14:32e gastou o Facebook
14:33ali com a obra dela ali,
14:35sabe,
14:35até o limite
14:36daquilo tudo
14:36e sem limite,
14:37quer dizer,
14:37ela foi pra um formato livro,
14:39sem precisar do formato livro,
14:40porque ela já era poeta
14:42com o Facebook,
14:43e grande poeta,
14:45né,
14:46poetas com quilos de papel
14:48não tinham o quilate
14:49da Fabiola
14:50com seus bytes,
14:52né,
14:52e está em papel agora,
14:53mas o,
14:54eu acho que
14:55o papel,
14:58o papel precisou da Fabiola,
15:00não a Fabiola precisou do papel,
15:02eu acho que a gente tem que buscar
15:03esses caminhos também,
15:04porque senão a gente vai virar
15:05editora de autores.
15:06Mas isso não é um contrassenso?
15:09Um editor dizendo,
15:12esqueçam a publicação de livros
15:13e comecem a publicar via internet.
15:15Não.
15:15Isso não é um contrassenso?
15:16O editor tem que ficar preocupado
15:17antes de mais nada
15:18com a leitura,
15:19não com o formato,
15:21não com o que vem ali.
15:23Afinal de contas,
15:24desde os primeiros tempos
15:28da leitura,
15:29né,
15:29e da difusão,
15:30a leitura experimentou
15:31vários formatos
15:32de várias formas
15:33de ser gravada,
15:34de ser difundida,
15:35e nós estamos
15:36em vários formatos agora.
15:38Eu sou um ativista
15:39de leitura.
15:40Mas você não acha
15:41que a internet,
15:41ela contribui
15:43para a derrocada
15:44das editoras?
15:45Não,
15:45acho que não.
15:46Para a falência
15:46das editoras?
15:47Não.
15:47Para a falência
15:48do comércio de livros,
15:49você acha que não?
15:50Acho que não,
15:50acho que pelo contrário,
15:51hoje em dia,
15:52a gente tem que,
15:53hoje em dia,
15:54essas duas coisas
15:55estão se juntando
15:56e textos que estão
15:57na internet
15:57facilmente viram livros,
15:58não necessariamente
15:59através de um mercado
16:00agora organizado,
16:01de uma editora.
16:02O que está em crise
16:02hoje em dia
16:03é a editora
16:04que tenta publicar
16:07os livros
16:07e vender
16:08e captar dinheiro
16:09para poder bancar
16:10o seu modelo de negócio.
16:11Isso está em crise,
16:13mas isso é uma crise
16:14do próprio modelo capitalista
16:17e a sua forma
16:18de sobrevivência
16:19e a sua forma
16:20de reprodução.
16:22Eu creio que
16:23quando a coisa começou,
16:25a gente estava sozinho.
16:26Hoje a gente tem
16:27a Cândida,
16:29tem a Maré,
16:30tem a Pedregura
16:30publicando aqui
16:31no Espírito Santo
16:31com muita qualidade.
16:32Isso, isso.
16:33Então,
16:34isso dá uma tranquilidade
16:36para a gente,
16:36inclusive,
16:37de pensar outras coisas,
16:38assim,
16:39tipo a Cousa agora
16:39ela quer publicar pouco.
16:41Eu quero que...
16:43A nossa meta
16:44é publicar menos,
16:45cada vez menos,
16:46para poder pensar
16:47a difusão.
16:49Não adianta mais
16:50a gente pensar
16:51que uma editora hoje
16:53tem que publicar livros
16:54e colocar livros
16:55no mercado.
16:55Para quem?
16:57Para onde?
16:58Como?
16:58Por quê?
16:59Quando o Guedes
17:00falou lá
17:01que a população brasileira
17:02era só a elite
17:03que lia,
17:04que não precisava
17:04de ter subsídio
17:05para livro,
17:05caramba,
17:06eu estava no meio
17:07de São Pedro
17:08entregando livro
17:10da editora,
17:11nossos canais de venda
17:12e tal,
17:12que a gente faz
17:13o delivery e tal.
17:14A gente faz...
17:15A gente bota a editora
17:16na rua
17:16e entra em feira livre,
17:19a gente pega aqueles livros
17:21que a gente já tem
17:21que estão pagos e tal,
17:23ou que são patrocinados
17:24de alguma forma
17:24via editais e tal,
17:25bota lá aquilo.
17:26A população faz fila
17:28para poder pegar...
17:29O Estel Miranda,
17:30o Estel Miranda,
17:31que é inclusive editado
17:32pela Cousa,
17:33o Estel esteve aqui
17:34na terceira ou quarta edição
17:36do...
17:38do Dutrine
17:39e nós conversamos
17:40sobre isso,
17:41sobre a questão
17:41de como é que o livro
17:42pode chegar à periferia.
17:45Mas,
17:46naquele formato antigo,
17:48no formato livro,
17:49livro impresso
17:50e indo para as livrarias
17:52a um preço
17:53que para muita gente
17:54é exorbitante,
17:56esse livro não chegaria
17:57à periferia.
17:58Ele precisa chegar
17:59à periferia
17:59de outra maneira.
18:00Tem que chegar
18:00de outra maneira.
18:01De outra maneira.
18:02Agora, eu pergunto a você
18:02o seguinte,
18:03o grande gargalo,
18:04o grande problema,
18:06eu nem chamo de gargalo
18:06porque eu acho
18:07que esse termo é
18:07um termo depreciativo
18:09com que diz respeito
18:10à literatura,
18:11mas o grande problema
18:12do escritor,
18:15do poeta,
18:16principalmente do poeta,
18:17mas do escritor também,
18:18é produzir um livro
18:20e fazer o livro
18:21chegar ao leitor.
18:23Ou seja,
18:24o trabalho de distribuição.
18:26O que você tem
18:27a dizer para a gente
18:27é como é que poderia,
18:29esqueçamos a internet,
18:31esqueçamos a produção
18:33pela internet,
18:34podemos usar a internet
18:35como um difusor,
18:36como um comunicador
18:39para fazer o livro
18:40chegar a esse leitor.
18:42O que se pode fazer
18:44para que o livro chegue
18:45a quem se interessa por ele?
18:47Bom,
18:48eu acho que
18:49se o leitor
18:50está interessado,
18:51ele busca.
18:52A grande diferença
18:53entre uma editora
18:53independente,
18:54pequena e uma grande editora
18:55é que numa grande editora,
18:57os livros chegam
18:58até os leitores.
18:59Numa editora pequena,
19:01o leitor chega até a editora
19:02buscando um autor
19:03que ela publicou
19:03de muita relevância.
19:04Mas se ele não souber,
19:05se ele não souber
19:06que um determinado autor,
19:07se ele não souber
19:08que Estel Miranda
19:08foi publicado
19:09pela Cousa,
19:11Estel lançou um segundo livro.
19:12O cara adorou
19:13o primeiro livro de Estel,
19:14mas ele quer saber
19:15se Estel lançou
19:16um segundo livro.
19:18Enquanto não chega
19:19essa informação para ele,
19:20ele vai buscar.
19:20Se o primeiro livro
19:21chegou para ele,
19:22é que está,
19:22porque esses leitores
19:23hoje não são mais passivos,
19:25eles estão no Instagram,
19:26no Facebook,
19:27eles querem interagir,
19:28eles estão nos grupos
19:29de leitura.
19:30Então,
19:30quando você gera
19:30mídia sobre isso,
19:31chega.
19:32Na Cousa,
19:33por exemplo,
19:33a gente pensa que
19:35esse modelo
19:36está ultrapassado,
19:36esse modelo de fazer um livro
19:38e colocar numa vitrine
19:39está ultrapassado.
19:40Fazer um livro,
19:41divulgar,
19:42publicamos esse livro,
19:43comprem,
19:43está ultrapassado.
19:44Isso é uma coisa
19:46que surgiu
19:47com a difusão
19:48das redes sociais,
19:49da internet,
19:50e já acabou agora,
19:51a gente tem que pensar
19:51de uma maneira diferente.
19:53Como é que se faz
19:54para o cinema
19:55chegar nas pessoas?
19:56Como é que você faz
19:57um filme,
19:58banca um filme
19:59e faz ele chegar
19:59nas pessoas?
20:00Ele vai custar
20:00dois milhões,
20:01três milhões.
20:01É possível a gente
20:02bancar isso com bilheteria,
20:03Grigó?
20:04Não.
20:05Como é que o teatro
20:05chega nas pessoas?
20:06Uma peça que custa
20:0750 mil,
20:0880 mil,
20:08100 mil,
20:09200 mil,
20:10ela se paga
20:11com ingresso,
20:12Grigó?
20:13Não.
20:13Não.
20:14E por que o livro
20:14vai se pagar?
20:16O nosso modelo agora
20:17é de produção cultural.
20:19A gente tem que viabilizar
20:20o patrocínio do livro
20:21e fazer o projeto de leitura.
20:22A gente tem que estar agora
20:23no lugar
20:25onde tem um vácuo
20:26de leitura no país.
20:27Os meninos estão lendo
20:28até o ensino fundamental,
20:29eles mal leem,
20:31porque ainda existe
20:32o incentivo governamental
20:33de chegar livre na escola,
20:35tem o contador de história,
20:36tem o palhacinho,
20:37tem isso.
20:37Vão lá falar
20:38a professora trabalha
20:39com leitura
20:39porque está lá
20:40nos PCN dela,
20:41ela é obrigada
20:41a trabalhar com leitura.
20:43Ótimo.
20:43Quando chega no ensino médio,
20:45vácuo.
20:46Por quê?
20:46Porque não tem livro
20:47chegando na escola,
20:48porque não tem projeto
20:49de leitura,
20:50porque não tem nada
20:50que substitui o contador
20:51de história
20:52por essa galera
20:53do ensino médio.
20:54E aí a gente perdeu
20:55o leitor ali.
20:56Então a gente,
20:57hoje em dia,
20:57na Cousa,
20:58a gente está focando
20:59em projetos de leitura
21:00para o ensino médio,
21:01a gente pensa
21:02na publicação do livro,
21:03de publicar o Estel,
21:03publicar uma série de pessoas,
21:05mas a gente quer conseguir
21:06bancar uma tiragem
21:07de mil,
21:07dois mil exemplares,
21:09mas não agora,
21:10mas pensando na venda.
21:11A gente está pensando agora
21:12nos projetos de leitura,
21:14de levar o bate-papo.
21:16A gente vai para as escolas,
21:17por exemplo,
21:17faz bate-papo sobre edição,
21:19conta na história do livro.
21:20A gente fala do livro lá
21:21desde o formato da pedra,
21:23da ideia chegando
21:25de maneira escrita,
21:25até agora,
21:26das editoras.
21:27Isso tem um custo.
21:28O Estado tem que bancar isso,
21:29o patrocinador tem que bancar isso,
21:30as empresas que são responsáveis
21:31pelo ambiente,
21:32que elas estão ali,
21:33não tem que bancar isso.
21:34Mas se você coloca
21:35que o Estado tem que bancar isso,
21:36a gente volta àquela questão inicial
21:38de que,
21:39sem o poder público...
21:40Não apenas o Estado.
21:41Ah, tá.
21:42Não apenas o Estado,
21:42mas o Estado também.
21:43Então você acha que o poder público
21:45tem essa obrigação.
21:46E eu também acho.
21:46Eu também acho.
21:47E o nosso modelo agora
21:48não tem mais que ser o modelo
21:49apenas do editor.
21:50O editor agora não é só um cara
21:51que faz livro.
21:52Ele tem que ser um cara
21:52que faz livro,
21:53mas tem que pensar de maneira,
21:54em termos de produção cultural.
21:56Perfeito.
21:56O nosso modelo agora é o do teatro,
21:58é o do cinema,
21:59A literatura tem que sair dela, né?
22:01A literatura sai dela.
22:02Ela sai dela,
22:03mas sem sair dela, né?
22:03Sim.
22:04Ela sai dela para levar
22:05para outros espaços, né?
22:06Para outros espaços.
22:06Porque não adianta mais
22:08enfiar esse livro
22:09lá na vitrine da travessa.
22:11Eu vou chegar,
22:12eu vou vender alguns livros,
22:13mas eu vou chegar
22:14para a população toda,
22:15eu vou chegar a todo mundo,
22:16eu não vou chegar.
22:17Já não chegava antes.
22:18As redes sociais
22:19não conseguem fazer isso, não?
22:19As redes sociais conseguem
22:21dar o seu gás.
22:22Mas como é que o menino
22:22vai comprar o livro?
22:23O Start.
22:23É, como é que ele...
22:24Ele consegue ter a internet
22:25chegar lá.
22:25Você quer que o livro
22:26chegue a ele
22:27sem custo para ele?
22:28Eu quero que chegue
22:28sem custo para ele,
22:29eu quero que chegue
22:29com custo mínimo.
22:30Maravilha.
22:31Isso é um projeto maravilhoso.
22:33Vamos tentar ou subsidiar,
22:34ou, né, por exemplo,
22:35está tão caro o sistema
22:36hoje no país,
22:36está tão caro,
22:38que hoje um livro de...
22:39Uma editora grande,
22:40que ela faz 2, 3 mil exemplares,
22:42ela consegue vender
22:43um livro aí a 40 reais.
22:45Uma editora pequena
22:46que tem tirado
22:46de 150, 200 exemplares,
22:48sabe quanto menos livros,
22:49mais você dilui ali
22:50um custo, né?
22:52Algumas editoras pequenas,
22:53o próprio editor
22:53é o designer
22:54ou é o revisor.
22:55A coisa, não é?
22:56A coisa tem um custo
22:57operacional gigantesco,
22:57porque a coisa tem que pagar
22:58design, tem que pagar
22:59revisor, tem que pagar tudo, né?
23:01Então, quanto menos
23:02a gente cai a tiragem,
23:04o livro fica
23:05no valor impossível.
23:06As editoras independentes
23:07estão trabalhando
23:07com 50, 60 reais
23:09um livro de 150 páginas,
23:11porque não está mais
23:12conseguindo, sabe, chegar.
23:13A gente tenta subsidiar tudo
23:16para chegar a 30,
23:17para chegar a 25,
23:18para chegar a 35.
23:18Nós estamos no final?
23:20E dá de graça
23:20para quem não pode pagar ainda.
23:21Então, olha só, Saulo,
23:22eu quero muito
23:23que você venha aqui,
23:24que você volte aqui
23:25para a gente bater um papo
23:26sobre esse projeto, tá?
23:28Porque esse projeto,
23:29ele interessa
23:30não somente
23:31ao vitrine, óbvio,
23:33mas ele interessa
23:34a todos aqueles
23:35que amam literatura
23:35e querem ler.
23:36Esses projetos são gigantescos.
23:37Isso, e eu quero
23:38que você volte aqui
23:38para falar da Combiosa,
23:40que é um projeto
23:41interessantíssimo.
23:41é, da Caravana,
23:43e quero também
23:44que você possa explicar
23:48para todo mundo
23:48o passo a passo
23:50de produzir um livro.
23:53Beleza?
23:53A gente faz isso.
23:54Então, eu agradeço
23:54muito a sua presença,
23:56valeu mesmo,
23:57muito obrigado,
23:58e espero que vocês
23:59tenham gostado do papo.
24:01Na próxima semana,
24:02nós vamos conversar
24:03com Anaximandro Amorim
24:05e vamos falar
24:06sobre erotismo.
24:08Um grande abraço,
24:09gente, muito obrigado.
24:10Grande abraço
24:11para vocês todos.
24:12Saulo, muito obrigado
24:13mais uma vez, querido.
24:14Valeu.
24:15Você ouviu
24:17Vitrine Literária
24:19com o professor
24:20e escritor Francisco Grijó.
24:22Tudo sobre literatura
24:23contemporânea,
24:24temas, autores,
24:26obras, debates,
24:27análises,
24:28curiosidades
24:29e bate-papo
24:30com autores e editores.