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  • há 3 semanas
Marcos Tavares, poeta e contista. Conversas sobre linguagens, musicalidade, rimas, jogos de palavras em poemas e narrativas.

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00:01Vitrine Literária, com o professor e escritor Francisco Grijó.
00:06Tudo sobre literatura contemporânea.
00:08Temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:20Olá pessoal, tudo bem?
00:21Mais uma edição do Vitrine Literária com Francisco Grijó.
00:24Vocês sabem que o Vitrine Literária é um programa sobre literatura,
00:30em que a gente conversa com editores, poetas, contistas, romancistas, leitores,
00:37ou seja, pessoas ligadas à literatura e à produção literária.
00:42O programa fica disponível em podcast e na página de vídeo do Folha Vitória.
00:47Hoje nós temos um convidado muito especial.
00:49Um convidado que é competente tanto na área da prosa, quanto na área da poesia.
00:57Mas eu queria fazer um histórico aqui antes.
01:01Em 1982, quando eu era estudante do curso de letras,
01:06e esse meu convidado já era um poeta tarimbado,
01:09a saudosíssima Deni Gomes, quando eu falo saudosa,
01:14é porque ela parou de dar aula,
01:15mas continua orientando muita gente e inspirando muita gente na seara literária.
01:23Deni Gomes, na universidade, montou um grupo de jovens estudantes interessados em literatura
01:31e fez um espetáculo chamado Mostrarte.
01:36Nesse espetáculo, eu, que era um dos componentes do grupo,
01:40eu lia um poema chamado Ou as Outras.
01:44Esse poema, eu gostaria, inclusive, vou até pegar meus óculos,
01:49eu gostaria de mostrar a vocês rapidamente o seguinte.
01:53É um poema difícil, é um poema que eu declamava muito rapidamente,
02:00que dizia o seguinte.
02:01Primeiro, da primeira vez, ameia por inteiro,
02:05com o mesmo amor, da primeira vez, da segunda mulher.
02:10Amava vez ou outra, mas mais vezes do que outra, cada vez mais.
02:15Volta e meia, voltava e amava toda a outra metade de mim, deixada nela.
02:20E éramos um, como uns, como um só corpo, como uma só alma, fundidos os dois.
02:26Como um todo, nela, ameia e ameia com todo o conteúdo de amor possível,
02:31em um só, com tudo.
02:33Depois, porque houvesse outras, mulheres e vezes, ameia não por inteiro,
02:39mas meio a meio com as outras,
02:41de tal forma que, somados os amores,
02:44restaria ainda para amar outras.
02:46Amalaia outras vezes.
02:48Não houvesse no meio outras mulheres,
02:51partidas de outros homens partidos para outras mulheres.
02:54Então, rompidos os elos de mim a ela,
02:58nus um do outro,
02:59somos anel e dedo,
03:01separados daquele anelo de um no outro.
03:04Em suma, somos a soma do que resulta nulo.
03:09Esse, para mim, é um dos melhores poemas que eu já li,
03:12escrito por um capixaba.
03:14E esse capixaba está aqui ao meu lado,
03:16se chama Marcos Tavares,
03:18é poeta,
03:21é prosador,
03:22autor de dois livros
03:24que eu recomendo imediatamente a vocês.
03:28Quem está nos vendo pelo vídeo,
03:30pelo YouTube,
03:31vai poder ver a capa do livro de poemas,
03:34chamado Gemagem,
03:36que saiu pela editora Floricultura,
03:38e a capa de No Escuro Armados,
03:42que originalmente saiu por uma editora do Rio de Janeiro,
03:44chamada Imã.
03:46em colaboração, em coedição,
03:50com a editora da Fundação Siciliana Bel de Almeida,
03:53ligada à Universidade Federal do Espírito Santo.
03:56Bem, aqui está Marcos Tavares,
03:58com quem a gente vai conversar,
04:00e eu trago logo de cara uma questão para o Marcos.
04:03Marcos,
04:04você escreve um livro de poemas,
04:06chamado Gemagem,
04:07e escreve um livro chamado No Escuro Armados.
04:10Dois livros que eu reputo como excelentes.
04:15Prosa ou poesia?
04:16Marcos Tavares é mais poeta,
04:19ou Marcos Tavares é mais prosador?
04:23Inicialmente, como quase todo jovem,
04:25eu comecei pelo poema.
04:27Escrevendo poemas de viés romântico,
04:30naqueles voltados para o culto,
04:33a natureza,
04:34e depois,
04:35já amadurecido,
04:38eu estou caminhando para a prosa.
04:40Ultimamente, eu estou mais prosador.
04:42Eu até disse no último evento literário
04:45que eu até tinha um certo pudor
04:47de ser chamado poeta.
04:48As pessoas insistem,
04:49para todos que veem um literato,
04:52ele é o eterno poeta.
04:53Mas eu estou mais prosador.
04:56Inclusive, na minha prosa,
04:57há muito de poesia,
04:59porque essa vertente aí
05:01é que eu persigo.
05:04Tentar adotar a minha prosa
05:06de elementos poéticos,
05:07conforme já estudados,
05:10alguns ensaios críticos
05:11já publicados.
05:12Você é matemático, né?
05:15Sim.
05:15Você é formado em matemática.
05:16Originalmente,
05:17nesse período da UFSC
05:18a que você se referiu,
05:19eu lá fazia curso de matemática.
05:22Me diga uma coisa,
05:23a ideia de,
05:26quando você escreve,
05:26eu percebo
05:27que você tem um trabalho
05:28com a linguagem,
05:30um trabalho,
05:30tem uma preocupação muito grande
05:32com a linguagem.
05:32Tudo bem,
05:33literatura é linguagem,
05:34ninguém discute isso.
05:35literatura não basta você
05:37contar uma história, né?
05:39O importante na literatura
05:40é como você conta uma história.
05:42Literatura não é poesia
05:43ou escrever um poema,
05:45não é só expressar uma emoção,
05:48expressar uma visão de mundo.
05:50É como você faz isso.
05:52Você tem uma preocupação
05:53muito grande
05:53com o jogo de palavras.
05:55Isso não chega
05:56a atrapalhar você, não?
05:58Não, hoje eu estou mais,
06:00cada vez mais treinado para isso.
06:02Por exemplo,
06:03eu reservo para o final hoje
06:05o que há de mais significativo
06:08no texto.
06:09Ao invés de deixar no início,
06:10conforme eu vejo
06:11alguns autores fazendo,
06:13eu já deixo para o final.
06:14Eu acho que a dose maior,
06:17a palavra mais impactante,
06:19deva ficar no final.
06:20Aí o trabalho é articular esse...
06:22Eu vejo o texto
06:23como sendo uma equação, né?
06:26Minha visão matemática é essa,
06:27sobretudo.
06:28Ver como é uma equação.
06:29Então tem que equacionar
06:31aqueles problemas,
06:32buscar soluções.
06:34Quase todo dia
06:35estou revendo meus textos.
06:37Pensando meus textos,
06:38eu não nos abandono nunca.
06:39Eu tenho até um problema
06:40para publicar, né?
06:42Habitualmente.
06:42Às vezes eu lanço
06:43com um balão de ensaio
06:45hoje na rede social,
06:46as pessoas opinam,
06:47acho que está ótimo,
06:48maravilhoso,
06:49mas quase todo dia
06:50eu estou mudando uma palavra,
06:51um termo,
06:53deslocando a sintaxe,
06:54por exemplo,
06:55a ordem frasal, né?
06:56Eu tenho essa preocupação também.
06:58Sempre buscando efeitos, né?
07:00Como eu busco,
07:01a princípio,
07:02a originalidade, né?
07:04Por exemplo,
07:05um texto que seja muito paralelo,
07:09o cão correu atrás do gato,
07:11o gato foi atrás do rato,
07:12o rato comeu o queijo,
07:14o queijo é de Minas,
07:16entendeu?
07:17Ou essa sequência de artigo,
07:19a mesma entonação,
07:21tende à monotonia.
07:22Então, eu acho que
07:23o autor deve buscar
07:25um certo malabarismo verbal,
07:28essa é a minha concepção, né?
07:30Para tornar mais desenvolto
07:31o texto,
07:32fluir como um rio,
07:34ele corre no vale,
07:39eu penso assim.
07:41Você falou em matemática,
07:42você falou que
07:44a poesia,
07:45ou o poema, né?
07:46A poesia seria o conjunto,
07:48o poema,
07:49especificamente,
07:50um texto.
07:52Você acha que
07:54esse cartesianismo
07:56que você traz dentro de si,
07:57porque é um indivíduo
07:58que estudou matemática
07:59durante um bom tempo,
08:01no mínimo,
08:01ele tem uma afinidade
08:03com o cartesiano.
08:05Esse cartesianismo,
08:06ele auxilia você
08:08na criação literária?
08:10Auxilia.
08:11Como é que isso acontece?
08:12Esse livro de imagem,
08:13por exemplo,
08:13é muito reflexo
08:14de meu tempo de cursinho,
08:17nem é do tempo da UFIS.
08:20É mais do tempo de estudante
08:23pré-universitário,
08:23onde a gente fazia
08:24aquele obrigatório cursinho
08:25para passar no vestibular.
08:26Então, há muito de química,
08:28há muito de física.
08:29Esse próprio poema
08:30que você acabou de ler,
08:31tem ali a soma de simétricos,
08:33que resulta em zero, né?
08:36A analogia,
08:37o título do poema,
08:38ou as outras,
08:39encerra um polinômio, né?
08:42Ou ainda,
08:43ele pode ser sintetizado
08:44num polinômio.
08:46Ou o as, né?
08:47É recorrente ali.
08:48Então,
08:49a gente pode transformar
08:51aquilo ali numa fórmula,
08:54num binômio,
08:55como eu disse,
08:56um polinômio.
08:56Mas isso é intencional?
08:59Ah, sim.
09:00Eu sempre busco
09:01essa intencionalidade,
09:02esse jogo verbal.
09:03Porque eu vejo assim,
09:05que o que me leva
09:06a impulsão a escrever
09:07é um pouco de
09:09transtorno obsessivo compulsivo,
09:11que desde criança,
09:12acho que eu não diria
09:13que seja vítima,
09:14mas talvez um privilegiado, né?
09:18Porque isso me facilitou
09:18o estudo de matemática.
09:20Até hoje,
09:21eu me pego fazendo fórmulas,
09:24decifrando, sabe?
09:27Medidas.
09:28Enfim,
09:29tem essa obsessão
09:29em medidas,
09:30em contagens.
09:31Então,
09:32isso vem de criança,
09:32veio desde criança.
09:34Aprendi a ler
09:36prematuramente
09:36numa cartilha Sodré,
09:38onde eles usavam muito
09:39os anagramas.
09:41Então,
09:42eu especulando
09:43sobre mim mesmo,
09:44sobre a minha produção,
09:46eu falo,
09:46isso é da cartilha Sodré,
09:47a emblemática cartilha Sodré
09:49de Benedita Stahl Sodré.
09:51Havia muito do anagrama,
09:53então,
09:53acho que é um pouco
09:54reflexo disso.
09:55Porque eu entendo,
09:56eu consigo,
09:58dentro de todas
09:59as minhas limitações,
10:00eu consigo compreender
10:01como é que um poeta,
10:04ele tem uma ligação
10:05matemática.
10:05Porque a própria estrutura
10:07do verso,
10:07ela pode ser matemática,
10:09ela pode ser
10:12estruturada
10:13de forma a ter
10:14um número de versos
10:15que são iguais
10:17e assim por diante.
10:18É claro que existe
10:19o verso livre também,
10:20mas estamos falando
10:21do verso metrificado.
10:22Ele é matemático,
10:24assim como ele é musical também,
10:25e a música tem
10:26muito de matemática.
10:27Mas,
10:27eu fico pensando,
10:28na prosa,
10:29contar uma história
10:30e ter uma preocupação,
10:33uma base cartesiana,
10:35não parece uma coisa
10:37meio incongruente
10:37para você, não?
10:40É,
10:40o autor pode,
10:41no meu caso,
10:42eu não conheço
10:43outro caso
10:44a esse respeito.
10:46Nem eu,
10:46nem eu.
10:47Nem João Cabral
10:48de Melo Neto,
10:49que também
10:49tinha um namoro
10:50com a matemática,
10:51com a ciência exata.
10:52Mas na poesia,
10:53não na prosa.
10:54Eu lembro que,
10:54há pouco tempo,
10:56eu fiquei em segundo lugar
10:56no concurso em nível nacional.
10:58Concurso,
10:58posso falar?
10:59Claro, deve, deve.
11:00Off e flip.
11:01Então,
11:02o título do poema
11:04é crônica,
11:06pode ser interpretado
11:07como conto também,
11:08né?
11:09Sina Suína,
11:10o título.
11:11Então,
11:11eu faço um jogo
11:13verbal,
11:14a partir da palavra
11:15porco,
11:16aí vem o porquê,
11:19o porquê junto,
11:20com o acento circunflexo,
11:21o porquê separado,
11:23né?
11:24O porquê junto,
11:26sem o acento circunflexo,
11:27e por aí afora
11:29tem aquele jogo,
11:29o jogo.
11:30Sina,
11:31assassina,
11:32suína,
11:33sui,
11:33sui generis,
11:34enfim,
11:35há toda uma especulação
11:38em torno da palavra original,
11:40né?
11:42No caso,
11:43porco,
11:43suídio,
11:44enfim.
11:45Então,
11:46o meu trabalho é esse,
11:48escolher as palavras,
11:49eleger esta ou aquela palavra,
11:50porque as palavras
11:51têm um peso,
11:52a meu ver.
11:52Perfeito,
11:53perfeito.
11:53Elas têm um peso,
11:54então,
11:54ela pode acentuar
11:56ou minimizar o efeito.
11:57Mas é disso que a gente está falando.
11:58Porque,
11:59porque,
12:00todo jovem escritor,
12:02a preocupação de um jovem,
12:04todo não,
12:04também,
12:05qualquer tipo de,
12:06de,
12:07de,
12:07de unanimidade,
12:09como diria o nosso Rodrigues,
12:10ela é burra, né?
12:11Muitos jovens escritores,
12:13e principalmente muitos jovens poetas,
12:15têm uma preocupação muito grande
12:17em colocar no papel
12:19o que sentem.
12:21Colocar no papel
12:22a visão que eles têm do mundo.
12:24Colocar no papel
12:25um determinado elemento
12:27baseado na subjetividade deles.
12:30A literatura,
12:32basicamente,
12:32é isso.
12:33Só que,
12:34quando você,
12:35esse é o meu questionamento,
12:36eu já te fiz esse questionamento
12:37há uns 40 anos.
12:39Quando você
12:40vai colocar no papel
12:42uma ideia,
12:43e você
12:45resolve
12:46modificar a ideia,
12:48porque
12:48você quer colocar uma frase
12:50com trocadilho,
12:52uma frase
12:54com mais efeito,
12:55você não acha
12:56que você está traindo
12:57a si mesmo?
12:59Bom,
12:59desde garoto,
13:00eu sempre gostei de teatro,
13:01fazia teatro sozinho,
13:02morava em uma casa
13:03um pouco
13:05solitária,
13:05distante,
13:06não tinha menino
13:07para brincar,
13:08eu inventava,
13:08eu fazia meu próprio teatro.
13:10Então,
13:10eu tenho essa propensão
13:11para o teatro,
13:12eu cheguei a fazer depois.
13:12Sim, eu me lembro disso.
13:13Você fez a mãe provisória,
13:15se eu não me engano,
13:16a mãe provisória,
13:17eu me lembro.
13:18Não,
13:18Estação Treblinka Gardner.
13:19Ah, não,
13:19Estação Treblinka Gardner,
13:20do Oscar também.
13:21Oscar Gardner.
13:22Do Deblinka Gardner.
13:23Então,
13:27o sentimento que
13:29sempre eu tive
13:31foi a alteridade,
13:32ou seja,
13:33do latim alter,
13:34outro,
13:34o sentimento do outro,
13:36é ver sobre a visão do outro.
13:37Então,
13:37se esse sentimento
13:39não é meu,
13:40é de outrem,
13:42então vou tentar verificar
13:43sobre essa óptica.
13:45Certo?
13:46Assim,
13:46uma prova disso é que
13:47muitos de meus textos
13:48são sobre a óptica
13:50do caprino,
13:52do suíno,
13:52como eu acabei de falar,
13:53os animais.
13:54Eu tenho a maior paixão
13:55por animais,
13:56todos eles.
13:57Então,
13:58eu tenho muitos textos assim,
14:00sobre o olhar do porco,
14:03do cão,
14:06do...
14:06enfim,
14:07muitos animais,
14:09né?
14:09Até do peixe,
14:10tem um texto sobre
14:11sobre a visão do peixe,
14:13né?
14:13Que seria assim,
14:14mais complicado,
14:15já que ele não emite sons,
14:16né?
14:16A priori.
14:18Então,
14:19é isso,
14:19o sentimento da alteridade
14:21é que me coloco hoje,
14:22inclusive escrevo texto
14:23sobre o viés
14:24da mulher,
14:26o olhar feminino,
14:27o olhar,
14:28eu já fazia isso,
14:29nesse tentado,
14:30nesse livro de imagem,
14:31há poemas ali,
14:31são considerados andrógenos.
14:33Esse,
14:33você leu,
14:34acabou de ler,
14:35foi muito feliz na leitura,
14:36você sempre foi um grande
14:38questionador, né?
14:38Um,
14:39teve o seu olhar
14:40muito perificaz.
14:41Esse texto aí
14:42pode ser considerado
14:43andrógeno,
14:44se você mudar o título dele
14:46para ou os outros,
14:47e ler,
14:48você pode mudar ali
14:49os gêneros,
14:50tranquilamente,
14:51e passa a ser um conto
14:52andrógeno.
14:53E absolutamente atual,
14:54uma discussão atualíssima,
14:55ele foi escrito
14:56nos anos 80.
14:57Eu li no recital,
14:59o sarau,
15:00o nome hoje é
15:01sarau, né?
15:02Na nossa época era,
15:03nos anos 80 era sarau.
15:05Eu li,
15:05as pessoas disseram gostar muito,
15:07porque a visão do,
15:09né?
15:10É um poema extraordinário.
15:11É o olhar feminino.
15:13Exato.
15:13Você tem um poema,
15:15você tem um poema em gemagem,
15:16vou pegar aqui,
15:17gente,
15:18dá licença,
15:19você tem um poema em gemagem
15:20que é muitíssimo bem-humorado,
15:23tremendamente bem-humorado.
15:24Qual?
15:25E vou mostrar a você.
15:26Vou mostrar, inclusive,
15:27não só a você,
15:28vou mostrar ao público também.
15:30Porque é um bom humor
15:33e é um jogo de palavras.
15:35O título é
15:36Em Família.
15:38Observe o poema, gente,
15:40se vocês conseguirem aí captar.
15:41O filho dizia
15:43dá-me mama.
15:44A mãe dizia
15:46mami-mi.
15:47O pai dizia
15:48am-mi-mi.
15:49O filho dizia
15:50mama-mia.
15:51A mãe dizia
15:52mamãe.
15:52O pai dizia
15:54dá-me mama.
15:55O filho dizia
15:56am-mi-mi.
15:57O pai dizia
15:57mami-mi.
15:59Miava o gato lá fora
16:01em milão.
16:03É muito bem-humorado.
16:04Jogo de palavras,
16:06um poema narrativo,
16:08ele é um poema narrativo,
16:09um jogo de palavras,
16:11sintético
16:12e tremendamente bem-humorado.
16:13Aí tem a questão...
16:14Essa intencionalidade
16:15que eu quero saber de você.
16:16Aí tem a questão incestuosa,
16:20subjaza a questão incestuosa
16:21e também do complexo de Édipo.
16:23Eu tento sempre
16:24nos meus textos
16:26passar uma visão
16:28em que eu acredito.
16:30Eu sou um freudiano,
16:31acredito muito.
16:32Eu tenho muitos contos
16:33em que tenho
16:35a criança
16:36já com seus impulsos eróticos,
16:38que alguns moralistas
16:40renegam isso
16:41na literatura.
16:42Eu vejo hoje,
16:43eu dei um texto meu
16:44de dois meninos,
16:45você conhece os meus meninos, né?
16:47Sim.
16:48Sim, é excelente também.
16:49É incrível.
16:50Duas mães
16:51com filhos
16:52de cidade próxima
16:55ficaram apavoradas
16:56porque leram aquele texto
16:58com temor
16:59de que os filhos viessem,
17:00os dois filhos,
17:01viessem
17:02a ser homófilos.
17:05Veja bem,
17:06o medo da realidade.
17:08Ah, sim, então...
17:09Mas é uma visão freudiana.
17:10Freud,
17:11ele assustou
17:12a moral vitoriana
17:13na Inglaterra
17:14com essas visões.
17:15Então,
17:16eu tento
17:17não fugir da realidade,
17:18eu não invento nada.
17:20Eu acho que está tudo aí,
17:20como eu disse,
17:21é o olhar do outro, né?
17:23O olhar da mãe
17:24sobre os filhos,
17:25os filhos
17:26dentro daquele ambiente.
17:30Enfim,
17:30é isso.
17:31Você é da Academia
17:33Espírito de Santíssimas de Letras
17:34há muito tempo já.
17:36Você é um caso
17:39interessantíssimo
17:39porque você tem
17:40dois livros,
17:41você tem várias publicações,
17:43mas você tem dois livros solo,
17:45né?
17:45No Escuro Armados
17:46e Gemagem.
17:48Mas,
17:48eu gostaria muito
17:49que você falasse
17:50de uma coisa
17:50bem,
17:51que eu acho
17:52bem emblemática.
17:53Quem for daquela,
17:55quem fez universidade
17:56nos anos 80,
17:58e eu fui um deles, né?
17:59Eu conheci você
18:00em 1981,
18:03quando eu
18:04era aluno
18:04de José Augusto Carvalho,
18:06no curso de letras,
18:07e José Augusto
18:09nos,
18:09me presenteou
18:10com um livro,
18:11com uma revista,
18:12chamada Revista Letra,
18:13que era a primeira edição
18:15que você trouxe aí.
18:16Tá aqui.
18:16É a primeira edição
18:17da Revista Letra.
18:18Quem estiver nos vendo
18:19tá aqui, ó.
18:20A Revista Letra
18:21que não teve
18:21o grande duração,
18:22não durou tanto tempo.
18:24Essa é a primeira edição,
18:25eu tenho essa primeira edição
18:26autografada
18:27por José Augusto.
18:28Na verdade,
18:28era um grupo
18:29de intelectuais, né?
18:30José Augusto,
18:31você,
18:32Oscar,
18:32Luiz Busato,
18:33Renato Pacheco,
18:35Miguel Marvila.
18:36Eram seis figuras
18:37que escreviam muito bem,
18:39alguns mais novos,
18:39outros mais velhos,
18:40alguns já consagrados
18:42e outros começando.
18:43E você estreia
18:44na Revista Letra,
18:46que era
18:46uma espécie
18:48de elite
18:50intelectual.
18:51Porque eram seis
18:53ótimos escritores,
18:54poetas ou não,
18:55e Reinaldo.
18:55Tinha Reinaldo Sanzéves.
18:56Então, na verdade,
18:57são sete.
18:58Reinaldo Sanzéves.
18:59E Reinaldo.
18:59E a Revista Letra
19:01foi um estímulo
19:02para uma geração
19:03da qual eu,
19:05Paulo Sodré,
19:06né?
19:07E outros participamos
19:08e que levamos
19:09a literatura adiante.
19:11como é que foi
19:12participar
19:14você,
19:14um escritor
19:15que não tinha livro
19:16publicado,
19:17né?
19:18Aliás,
19:18você tinha um livro
19:19com...
19:19Ah, não,
19:19você não tinha livro
19:20publicado ainda.
19:20Não tinha livro.
19:21Quem tinha livro
19:21publicado era
19:22Miguel e Oscar.
19:23É,
19:23mimeografado.
19:24Mimeografado.
19:25Como é que foi participar
19:27essa experiência
19:28de participar
19:28com ícones
19:30da literatura
19:32do Espírito Santo,
19:32como Renato Pacheco,
19:34como Reinaldo Sanzéves,
19:35como Luiz Busato,
19:36um grande professor?
19:37Como é que foi isso?
19:39Tudo que acontece comigo
19:41eu vejo com muita naturalidade,
19:44porque eu escrevia
19:46e quando,
19:47através de Oscar Gama
19:48e Miguel Marvila,
19:49levaram esses textos
19:50a professores acadêmicos,
19:53Reinaldo Santos Neves,
19:54Renato Pacheco,
19:55Luiz Augusto,
19:56Luiz Busato,
19:56eles perceberam valores
20:00e ficaram impressionados,
20:04de tal forma que me consideram
20:0665% do espaço,
20:10o primeiro volume.
20:11Ninguém faz isso.
20:12Eles se preteriram,
20:14eles já,
20:15pessoas renomadas,
20:16estudiosas,
20:18professores universitários,
20:20deram, então,
20:21desconhecidos 65% do espaço.
20:23porque praticamente me tirou
20:26do ineditismo,
20:27isso que diz a revista.
20:29Então,
20:30foi um período,
20:32para mim,
20:32muito enriquecedor,
20:33porque eu aprendi muito com eles,
20:37eu aprendi muito com eles,
20:38todos eles eram
20:40profundamente estudiosos,
20:41Luiz Busato.
20:42Busato tem aula,
20:43para mim,
20:43de literatura brasileira,
20:45uma fera,
20:46doutor no ensaio,
20:48José Augusto Carvalho,
20:49em gramática,
20:50linguística,
20:51Reinaldo Santos Neves,
20:52um romancista,
20:53já era.
20:53Já era um romancista,
20:54tarimado.
20:54E apenas o Crônica de Malemor,
20:57mas...
20:57Não, acho que ele já tinha
20:58o romance graciano, não?
20:59Ainda não.
21:00Não tinha, não?
21:00Ainda não.
21:01Em 81?
21:02Apenas o 78?
21:03Não, tinha o primeiro,
21:05o Reino dos Medas.
21:06Reino dos Medas
21:07e a Crônica de Malemor.
21:08E a Crônica de Malemor.
21:09Dois volumes, né?
21:10Mas já escrevia muito bem
21:12e publicava aqui e ali,
21:14numa ou noutra revista.
21:17E, quando veio a publicação,
21:20isso jogou para mim
21:21uma certa evidência, né?
21:25Jogou farol sobre a minha obra.
21:27E foi a motivação.
21:29Eu até fiquei um pouco relutante,
21:30não queria publicar,
21:31porque eu gostava muito
21:32de participar de concursos de contos,
21:34concursos literários.
21:35Mas, diante de uma certa pressão positiva,
21:40mostraram que seria interessante
21:42dar conhecimento a público
21:43e ter um reconhecimento.
21:45Fui sendo envolvido
21:46para aquela ideia
21:47e foi uma feliz decisão essa.
21:50Eu me lembro que,
21:51no começo dos anos 80 também,
21:54nos anos 1980, né?
21:57Você, Débison, Jorge Afonso,
21:59Tião Lírio...
22:00Alvali, também.
22:01Uma rapazada que estava começando
22:02a desenvolver um trabalho
22:05em cima de concursos literários, né?
22:06Eu me lembro disso.
22:08Me lembro bem.
22:08Estava entrando na universidade,
22:10estava achando tudo muito interessante,
22:11o curso de letras,
22:12aquela produção toda.
22:14Marcos, olha só,
22:14nós estamos quase acabando
22:16o nosso papo.
22:17Você não gostaria de escolher
22:19um poema para ler para a gente?
22:24Gostaria.
22:24Um poema de gemagem
22:25ou alguma outra coisa
22:26que você queira ler?
22:31Primeiro, eu li com a minha voz.
22:32Eu quero ouvir com a voz original.
22:36Certo.
22:37Eu, então, vou ler um texto
22:39do qual eu também acho
22:44que reflete um pouco
22:46da minha poética,
22:49que é...
22:52resmorta, resposta.
22:55E é um jogo de palavras também.
22:57É.
22:58Isso é temerário, né, ler?
23:01Fica à vontade.
23:03Resmorta, resposta.
23:04Cadê que eu não acho
23:06a...
23:06texto?
23:09Será que ele sumiu daqui?
23:10É que está aí.
23:14Ah, sim.
23:16Está na página 32.
23:17Então, o poema é
23:18resmorta, resposta.
23:20Em cima daquele adagio, né,
23:21rei morto, rei posto.
23:22Certo.
23:24Resmorta, resposta.
23:26Cada res, posta a escolha
23:28para o abate, não berra.
23:30Antes, olha nos olhos
23:32de quem talvez
23:33as livre ou as mate
23:34de uma só vez.
23:36Mas a vida ou a morte
23:38de cada ser em meio ao pasto
23:40está não só nos olhos
23:41lâminas de aço,
23:43cegos de ódio
23:44de possível carrasco.
23:45E cada qual aguarda
23:47a hora temida,
23:48mas sempre esperada
23:49do certeiro lance
23:51de já amolada lâmina.
23:53Quando, em vão oferenda,
23:54sem ter chance
23:55de res, guardar a vida,
23:57rolará em sangue
23:58toda esvaída
23:59a emolanda eleita.
24:01Uma qualquer cabra,
24:03resposta, exangue.
24:05Agora, que res mais gorda
24:07foi escolhida
24:08dentre muitas reses
24:10de vários meses de engorda?
24:12Que mais lhe importa
24:13se não a resposta
24:15a sua pergunta
24:16de res, exposta
24:18a ser só postas
24:19que não mais se junta
24:21sobre quatro patas?
24:23Lúcida e só,
24:24solucionando
24:25a hora extrema
24:26os seus enigmas caprinos,
24:29a res se indaga
24:30indagadamente.
24:31Se o corte de morte
24:32da lâmina
24:33é mais brando,
24:34se é menos cortante
24:35que o olhar cego
24:37sem dó,
24:38cego de ódio,
24:39de asco,
24:40inflado de sangue
24:41de seu futuro carrasco.
24:42E a res exposta,
24:44busca e espera,
24:46talvez última resposta
24:47ante ao primeiro olhar
24:49do homem.
24:52Maravilha, valeu, valeu.
24:53Me diz uma coisa
24:54que vem de terminar.
24:55Quem quiser adquirir
24:56seus livros,
24:57adquire onde e como?
24:59Eu tenho uma página
25:00no Facebook
25:01onde eu divulgo.
25:04Se alguém quiser,
25:05é só procurar
25:06Marcos Tavares
25:07no Facebook.
25:08Maravilha.
25:09Marcos, muito obrigado.
25:10Valeu mesmo.
25:12Está convidado
25:13para reaparecer,
25:15para revoltar.
25:17Beleza?
25:18Muito obrigado.
25:18Valeu mesmo.
25:19Grande abraço.
25:20Pessoal,
25:21semana que vem,
25:22Jorge Solé,
25:24o grande
25:25artista plástico
25:26e ilustrador,
25:27vai bater um papo
25:28com a gente.
25:29Grande abraço
25:29a todos.
25:30Valeu, gente.
25:32Você ouviu
25:33Vitrine Literária
25:35com o professor
25:36e escritor
25:37Francisco Grijó.
25:38Tudo sobre
25:39literatura contemporânea.
25:41Temas,
25:41autores,
25:42obras,
25:43debates,
25:44análises,
25:45curiosidades
25:45e bate-papo
25:47com autores
25:47e editores.

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