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Um papo sobre a poesia de Sérgio Blank, importante escritor e poeta capixaba, com os convidados Vitor Cei, professor e pesquisador, e Caê Guimarães, poeta e escritor.
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NotíciasTranscrição
00:01Começa agora Vitrine Literária com o professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:19Olá pessoal, tudo bem?
00:21Mais uma edição do Vitrine Literária com o Francisco Grijó aqui pela plataforma da Rede Vitória, YouTube e podcast.
00:31Tudo bem com vocês?
00:33Olha, a questão é a seguinte, deixa eu explicar a situação especial de hoje.
00:37Pela primeira vez o Vitrine Literária vai conversar sobre alguém que não está presente.
00:45Mas quem é esse alguém e eu vou conversar com quais pessoas?
00:49Bem, primeiro eu queria deixar uma coisa muito clara.
00:53A poesia no Espírito Santo é uma vertente muito potente.
00:58Existem grandes poetas, sejam eles contemporâneos, sejam eles um pouco mais antigos aqui na área de Vitória e na área
01:05Espírito Santense.
01:07Então, falar sobre poesia no Espírito Santo é falar sobre um elemento muito rico.
01:12Eu tenho aqui, para conversar comigo hoje, para debater, para falar sobre o assunto que não está pessoalmente presente,
01:22eu tenho aqui duas figuras pelas quais eu tenho muito respeito.
01:25Eu tenho aqui o Vitor Sei, que é professor da Universidade Federal do Espírito Santo e é um pesquisador da
01:31literatura Espírito Santense.
01:33E tenho aqui Caí Guimarães, que é poeta, romancista, premiado pelo Sesc, com seu romance.
01:42Caí já esteve aqui no Vitrine Literária, já conversamos bastante sobre sua poesia e sobre sua prosa.
01:49Mas hoje eles estão aqui para conversar sobre Sérgio Blanc.
01:54Quem é Sérgio Blanc? Para quem não conhece Sérgio Blanc, é um dos grandes poetas contemporâneos do Espírito Santo.
02:03Sérgio Blanc, eu diria, mas isso aí é uma questão pessoal, é uma avaliação pessoal,
02:07eu acho que Sérgio está no nível de ser um poeta brasileiro, não só um poeta Espírito Santense ou capixaba,
02:16como muitos querem.
02:17Eu acho que Sérgio, Miguel Marvila, são poetas que estão num nível um pouco mais alto e eles podem hoje
02:24ser considerados poetas brasileiros.
02:27Sérgio, infelizmente, não está mais conosco, Sérgio morreu já há três anos.
02:31Sérgio, neste mês de abril, faria 60 anos, no dia 7 de abril, 60 anos.
02:37Então, eu acho que é merecido que haja um programa sobre ele.
02:42Aliás, mais do que isso, nós vamos ter dois programas falando sobre a poesia de Sérgio,
02:48com duas pessoas que conheceram bem Sérgio e conhecem a sua literatura.
02:53Então, esse é o primeiro programa.
02:55Eu agradeço muito ao Vitor por estar aqui, agradeço muito ao Caê por estar aqui,
02:59estamos todos de preto, para quem pode nos ver, estamos todos de preto, mas ninguém combinou nada.
03:04E eu, antes de fazer qualquer pergunta para os dois, eu quero ler um trecho, um trecho não,
03:12eu quero ler um poema em prosa do Sérgio Blanc, que está no livro Blue Sutil, que foi lançado, é
03:18o último livro dele.
03:20Nesse livro, ele, Sérgio Blanc, diz o seguinte, ele fala o seguinte, só um minutinho,
03:27ele diz assim,
04:01O poeta é, por princípio, um esquisito.
04:05Então, eu lanço essa bola para o Vitor e para o Caê, eles vão decidir quem é que vai falar
04:11primeiro.
04:14Sérgio Blanc, era um esquisito?
04:17Acho que todo leitor de poesia, num país de poucos leitores, acaba sendo uma pessoa esquisita,
04:23no sentido de se afastar do padrão, né? Se afastar daquilo que é comum.
04:30A poesia é um gênero, na universidade é menos estudado do que a prosa,
04:35no mercado editorial é menos vendido do que a prosa, do que a ficção.
04:39Então, a poesia tem essa esquisitice de agradar pouca gente.
04:46O Sérgio Blanc foi um grande poeta e, como talvez todo poeta, tem essa esquisitice.
04:54Como pessoa, eu convivi pouco com o Sérgio, conheci o Sérgio pessoalmente,
04:58de conversar mais com ele em 2019, já no fim da vida.
05:03Nós promovemos um... talvez, acho que foi a última entrevista que ele concedeu, talvez,
05:09no Trapiste, lá no centro de Vitória, aqui no centro de Vitória.
05:13Foi em dezembro de 2019.
05:17E o Caê e o Orlando Lopes, professor da UFSC Poeta...
05:20E o Zé Línger esteve aqui, Orlando?
05:21Que bateram um papo com o Blanc, que eu que organizei,
05:25que a gente ia fazer um portfólio, o Sérgio Blanc, um vídeo-obra, em conversa com ele.
05:31Pessoa muito gentil, né? Pessoa muito delicada, muito generosa, assim, fala manso.
05:38E de muito conhecimento, assim, muito brilhante.
05:42Você diria, Vitor, você como professor de literatura, professor de terceiro grau, né?
05:48Professor universitário.
05:49Você diria que o autor é a obra?
05:53Muita gente acha que sim.
05:54Muita gente acha que, ao ler um texto, está-se lendo o autor.
06:00Você diria que a obra de Sérgio Blanc é ele?
06:03Pelo que você conhece, pelo que você leu.
06:06Eu acho que, por princípio, não se pode confundir autor e obra,
06:10que é uma coisa que as pessoas confundem muito.
06:13Na literatura atual, está muito na moda a questão da chamada autoficção,
06:18do escritor ficcionalizar a própria vida.
06:24Mas, assim, a poesia é uma coisa, a vida é outra, mas, claro, que elas se cruzam, né?
06:29No caso do Blanc, eu acho que tem que você pegar Os Dias Ímpares,
06:33que é esse livro que reúne a produção dele.
06:36Para quem está nos vendo, somente para quem está nos vendo,
06:39aqui está Os Dias Ímpares.
06:41Foi publicado pela editora Cousa, caiu no vestibular da UFES.
06:45Eu dei aula sobre esse livro.
06:47E esse livro aqui é a obra reunida de Sérgio Blanc.
06:51Ela só não é a obra total, porque esse livro, Blue Sutil,
06:54que vocês também estão vendo, ele é posterior.
06:59Mas o Vítio está falando sobre esse livro, Os Dias Ímpares.
07:02E aí, se a gente pegar essa bibliografia dos Dias Ímpares,
07:05até o Blue Sutil, aí, uns 20, 30 anos de produção,
07:10dá para perceber as mudanças também na trajetória de vida do Sérgio, né?
07:15Mas quem pode falar sobre isso melhor é o Caê.
07:17Você concorda com isso?
07:18Você conheceu o Sérgio, você foi amigo de Sérgio, né?
07:21Eu sei o quanto você lamentou a morte de Sérgio.
07:23Você escreveu sobre isso.
07:27Sérgio, era a obra dele?
07:29Bom, antes de mais nada, obrigado mais uma vez pelo convite.
07:31E uma curiosidade, né?
07:33Vocês dois.
07:34Houve um período da vida de Sérgio em que ele só andava de preto.
07:37Só de preto, é.
07:38Coincidentemente, você brincou.
07:40Na época dos Darks, né?
07:41Exato.
07:41Nos anos 80, quando eu o conheci.
07:43É, nos anos 80.
07:44Eu acho que Sérgio pode estar na categoria de escritores
07:51cuja vida e obra se fundem muito, né?
07:53Eu gosto muito de uma definição, que já deve ser antiga,
07:58mas eu ouvi do Marçal Aquino, numa entrevista,
08:02que a criação, seja em qualquer área, literatura, cinema, enfim, artes plásticas,
08:08ela está sempre calcada num tripé.
08:11A memória, a inventividade e o Paideuma, né?
08:16A sua biblioteca particular, aquilo que te compõe,
08:19como escritor, como compositor, ensina as suas referências, né?
08:24A sua capacidade inventiva e a sua memória.
08:27Eu acho que talvez alguns autores tenham esse tripé muito equilibrado.
08:33Em outros, há uma predominância de um elemento ou de outro.
08:39No caso de Sérgio, eu acho que há um equilíbrio.
08:42Acho que muito do que Sérgio lia e do que ele tratava como referência está na obra dele.
08:49Sérgio é um poeta de tremenda inventividade.
08:51Você fala uma coisa que eu repito sempre,
08:53eu acho que é um dos grandes poetas surgidos no Brasil nos últimos 45 anos.
08:57e um poeta que, na década de 80 e 90, o mundo pré-internet,
09:03já tinha conseguido romper as barreiras do Espírito Santo.
09:06O Sérgio é conhecido fora daqui desde essa época.
09:13E, inevitavelmente, é um poeta, sim, que vida e obra se misturam muito, né?
09:18Eu conheci Sérgio, quer dizer, a primeira vez que eu vi Sérgio foi na Dega.
09:23Era um bar no Jardim da Penha, pré-Rua da Lama, né?
09:27Sim, sim, a Rua da Lama era composta pelo Cuxicho e pelo Argentino.
09:32Isso, isso, mas a Dega era onde as coisas aconteciam.
09:35Eu era um menino, cara, de 16 anos de idade,
09:38eu tenho uma diferença aí do Sérgio, ele faria 60,
09:41eu tenho 53, então são 7 anos de diferença.
09:44Mas eu já gostava de ler, já ensaiava, né, alguns escritos e tal.
09:49E a primeira imagem que eu tenho do Sérgio era, né, com aquela estética dark, né,
09:57sentado na pracinha ali da Dega, horas e horas a fio, sozinho, em silêncio, observando as pessoas.
10:04Alguém chegava, alguém saía, ele se levantava.
10:06E era a matéria-prima dele, né?
10:08Ele se levantava, conversava com alguém, era um voyeur, né, cara?
10:11Um vampiro nesse sentido, né, de ficar na sombra.
10:14Então, assim, é claro que há uma esquisitice, né, em um personagem como esse.
10:20Tão observador, tão silencioso, né, tão preciso com as palavras, né, na vida e na obra.
10:26Então, respondendo já os dois questionamentos, Sérgio era um esquisito, como todos nós somos, né, ainda bem.
10:32E eu acho que ele é o tipo de poeta e escritor que a gente tem que colocar nessa categoria,
10:39sabe?
10:39Vitor, eu acho que o poeta, você, complementando o que você disse antes,
10:44eu acho que o poeta marginal é uma redundância.
10:47Eu acho que o poeta já é um marginal.
10:50Ser poeta num local como Espírito Santo, uma cidade como Vitória,
10:55que é uma cidade que não é, digamos assim, ela não é pródiga de grandes leitores.
11:01E, em contrapartida, ela tem um punhado de bons escritores que surgiram aqui, Caia é um deles.
11:07Então, a questão passa, Sérgio viveu essa antítese de viver, de fazer poesia numa cidade que não lê.
11:18Certo?
11:18Certo.
11:19Como é que a academia encara a poesia de Sérgio Blanc?
11:25Bom, aproveitar e agradecer por estar aqui no programa, que é uma referência, o seu programa Vitrine Literária,
11:35nisso que o Caê, o Saulo Ribeiro e o Vladimir Kazek me apresentaram, o Neologismo Literaluta.
11:42Eu acho que a Vitrine Literária é uma referência da Literaluta, é um ringue para essa luta pela literatura.
11:51E o Sérgio Blanc é uma das nossas referências, né?
11:55Para a academia? Para professores, inclusive?
11:58Sim. Eu acho que o Sérgio está no paideuma da maioria dos leitores de poesia, dos poetas, dos professores.
12:06Eu acho que um reconhecimento institucional da UFIS, principalmente, da Universidade Federal do Espírito Santo,
12:14foi esse portfólio Sérgio Blanc, que eu mencionei.
12:18O vídeo do evento está no canal do YouTube do Programa de Pós-Adação em Letras, da UFIS.
12:24Ótimo.
12:25Com o nome Portfólio Sérgio Blanc.
12:28E a gente publicou na revista Fernão, que é a revista do Núcleo de Estudos da Literatura do Espírito Santo.
12:34Do qual você faz parte, por exemplo.
12:35Do qual eu faço parte.
12:37O editor gerente é o Sérgio Amaral, que trabalha comigo no Neplus.
12:41Ele é o coordenador, eu sou o coordenador de Junto.
12:44O Paulinho Sodré está nessa história.
12:45E o Paulo Roberto Sodré, que está lá nos bastidores com a gente.
12:50O Paulo que propôs esse portfólio, o Sérgio Blanc, que eu ajudei a organizar.
12:55E a ideia era fazer um portfólio em vida, uma homenagem, um tributo em vida.
13:02E infelizmente, no meio do processo de organização, de publicação, o Blanc faleceu.
13:08E esse número que está lá disponível online, no site da revista Fernão, tem artigos e depoimentos,
13:17que a gente também organizou depois que o Sérgio faleceu.
13:20Uma sessão de pequenos depoimentos de vários intelectuais, professores, escritores, estudantes, leitores.
13:29E tem vários estudos críticos, artigos e resenhas sobre a obra do Blanc.
13:33E a transcrição dessa conversa, desse bate-papo entre o Blanc e o Caê e o Orlando Lopes.
13:41Está tudo lá. Então, acho que já é uma amostra, assim, que já tem ali uma fortuna crítica,
13:46uma reunião de estudos e homenagens ao Blanc, que realmente é um autor, assim, no circuito literário,
13:54é um autor bastante conhecido nacionalmente.
13:57E eu acho interessante o seguinte, vou fazer um depoimento pessoal.
14:02O Sérgio surgiu na literatura antes de mim. Ele publicou antes de mim.
14:08Mas nós dois publicamos em 87 juntos, quando a editora Anima, do Rio de Janeiro,
14:15se interessou em fazer algumas coedições com a Fundação.
14:18E eu lancei Lorna Love, Sérgio lançou Pus e Marcos Tavares lançou o No Escuro Armado.
14:25Então, nós três fomos editados pela mesma editora, um trabalho gráfico muito bonito, um trabalho bacana.
14:33Mas eu, Grijó, sempre achei a poesia de Sérgio uma poesia difícil.
14:39Eu nunca achei uma coisa simples.
14:41E quando o livro de Sérgio foi adotado para o vestibular, foi um grande desafio para mim.
14:47Primeiro porque é uma infinidade de poemas.
14:50E um professor de pré-vestibular, vocês devem saber, não pode ficar pegando poema para o poema.
14:56Você tem que fazer uma geral.
14:57E foi muito difícil fazer um resumo, um apanhado da obra de Sérgio.
15:03Mas o que eu penso sobre isso não é o mais interessante, porque o programa é com vocês.
15:09Vocês acham a poesia de Sérgio Blanc uma poesia difícil?
15:12Vocês acham ela impenetrável às vezes?
15:15Por exemplo, deixa eu mostrar uma coisa a vocês aqui.
15:17E eu quero que o nosso leitor, se ele for capaz de acompanhar.
15:24Há um poema de Sérgio, em que ele faz uma brincadeira com a palavra Alice.
15:31Alice.
15:32Alice é uma figura emblemática para a literatura.
15:35Em que ele diz, o poema se chama Mitreleje.
15:40Ó Alice, ó Alice, não lá e sim ali.
15:45Espelho, coelho, coalho, alho no olho.
15:47Chora Alice.
15:49Lição, bem feito, bem feito.
15:50Alice faz, Alice paga.
15:52O Alice faz, Alice paga.
15:53É um achado.
15:55No meio do poema ele diz, Alice não mora mais aqui nas cidades.
15:59São dois filmes.
16:00Alice nas cidades e Alice não mora mais aqui.
16:02Depois ele fala.
16:03Ele fala, por exemplo, coisas como...
16:06Toque a Betóclas daqui de casa que Gertrudes tem três vidas.
16:13Ou seja, não é uma poesia fácil.
16:15Não.
16:15Fazer uma referência a Alice Betóclas...
16:17Gertrudes Stein.
16:21O que vocês acham?
16:23Vocês acham que Sérgio tinha preocupação com o leitor?
16:29Essa pergunta é difícil.
16:31A poesia dele realmente é hermética.
16:34Eu sempre faço uma comparação, porque Sérgio, o estilo de ser assim tão pouco, o primeiro livro, é de 84.
16:40É, 84.
16:40E naquela época, ainda que, é claro que essa é uma memória que eu fui adquirir depois como leitor, eu
16:46tinha 14 anos de idade, não tinha condições de formular isso.
16:49Mas me parece que a poesia brasileira desse tempo vivia uma influência muito forte dos marginais, ainda dos anos 70,
17:00dos beats que tinham sido traduzidos pelo...
17:04Por traduzido pelo brasiliense, né?
17:05Meu Deus, a LPM brasiliense, Eduardo Bueno, Mugiati, Pep Escobar, Alma Beat, e por Leminski, que era também um publicitário,
17:19quer dizer, um poeta gigantesco, com uma obra importantíssima,
17:23mas uma poesia que tinha muita coisa do xiste, muita coisa do poema fechado, sabe, tudo muito bem amarradinho, acabadinho,
17:32e a poesia de Sérgio navega numa direção contrária, né?
17:37Uma vez, eu e a Relívia Júnior fizemos uma fala sobre Sérgio na biblioteca pública estadual, e eu criei uma
17:45imagem, assim, pra explicar o que eu sinto com a poesia do Sérgio,
17:49É como se você entrasse num labirinto com paredes de veludo, sabe? E quando você se apoia numa dessas paredes,
17:55você cai, sai do rumo e passa pra uma outra sala, pra um outro beco, pra uma escada, pra cima
18:02ou pra baixo, é quase Escher, né?
18:05Então, é uma poesia, sim, hermética, e com uma musicalidade muito grande, com um jogo de imagens muito grande.
18:11Esse poema é um exemplo, né? De musicalidade, de imagens, assim, né? Copulando.
18:19Eu esqueci a pergunta.
18:21Não, é uma poesia impenetrável, você respondeu. Você acha que é uma poesia impenetrável em alguns momentos? Ela é uma
18:28poesia difícil.
18:29Ela é difícil.
18:30E aí, a minha preocupação é, você acha que ele se preocupa com o leitor?
18:32Ah, sim, essa era a pergunta.
18:36Eu acho que não. Só pra concluir pra você. Eu acho que ele não se preocupava com o leitor. Já
18:41me perguntaram isso? Perguntaram isso uma vez?
18:43Eu perguntei isso pra você aqui.
18:45Sim.
18:45Você sentado aqui.
18:46Sim, você me perguntou aqui. E eu me lembro, você mediou um encontro, eu, você e Miguel Marvila.
18:53Ah, no Sesc.
18:54Quando eu era aqui ainda no Café Literário.
18:56Era Café Literário, no Magia Chique.
18:58É verdade.
18:58E o Marvila falou, eu pô com o me lixo pro leitor e tal.
19:01É claro que nós nos preocupamos com o leitor num processo posterior à criação.
19:06Caio foi a primeira edição do Café Literário.
19:09Foi a primeira edição do Café Literário, em 2007.
19:11Você e Miguel, foi a primeira edição.
19:13Foi a primeira edição, em 2007.
19:15Olha quanto tempo, né?
19:16Eu me lembro disso.
19:16Eu acho que Sérgio tinha, sim, uma preocupação com o leitor num momento posterior à criação.
19:22Eu acho.
19:23O que você acha, Lito?
19:24Eu diria que ele se preocupava em instigar o leitor. Ele não queria facilitar pro leitor.
19:29Não, mas peraí. Se você instiga o leitor, esse leitor existe.
19:33É um leitor...
19:36Existe.
19:37Existe leitor.
19:39Aproveita e me responda, como professor.
19:42Existe leitor pra poesia?
19:44Existe um leitor de poesia?
19:46Aquele leitor que tem uma sensibilidade especial ou específica pra ler poemas?
19:52Porque ler poemas não é a mesma coisa que ler prosa.
19:55Você sabe disso? Ele sabe disso? Eu sei disso.
19:58A questão é, você acha que existe um leitor?
20:00E esse leitor, ao ler a obra de Sérgio Blanc,
20:04pare de você.
20:05Você é um leitor.
20:07Você, antes de ser um professor, você é um leitor.
20:10Você acha que Sérgio Blanc escreve preocupado se Vitor Sey vai compreender?
20:21Não no sentido de querer escrever algo que seja leitura massificada, né?
20:28Eu acho que todo poeta tem a preocupação ali de trabalhar a sua linguagem, com suas palavras.
20:34E leitores de boa vontade.
20:36Eu acho que não precisa ser um leitor iniciado, né?
20:38Nós, como professores, assim...
20:40O leitor não precisa ser um iniciado, não precisa ter um dom.
20:43Basta ter boa vontade, querer se esforçar.
20:46Igual você mencionou que ele faz referências a filmes, a outros livros.
20:50Ele usa muitas epígrafes, cita vários autores.
20:53Então, é um convite também a conhecer essas outras obras, né?
20:57Quem é essa Alice?
20:58Vamos procurar pra ver o filme.
21:00Então, a gente tá ali, tá jogando com o leitor, né?
21:03Usa muito inglês e francês, né?
21:05Usa outras línguas.
21:06Muito, muito.
21:06Eu fiz isso.
21:07E aí, o leitor tem que fazer um esforço também, não é que ela...
21:11Tem que fazer um esforço da leitura e buscar as referências.
21:16E por isso que é uma obra aqui...
21:17Você disse leitor de boa vontade.
21:19Achei ótimo esse pessoal.
21:20Não à toa que caiu no vestibular, que é um livro bom pro professor trabalhar, assim,
21:24que traz muitos elementos.
21:26Um livro difícil de você trabalhar.
21:27E aí, desafio o professor também é conseguir traduzir isso pros alunos, né?
21:34Preparar o aluno pra fazer uma prova sobre esse livro e...
21:38Interessante que o Sérgio não topou aí.
21:39Estimula, né?
21:40Aí eu insisti.
21:41Ele falou, Grijó, eu falei, Sérgio, você vai lá na escola bater um papo com os alunos.
21:47Você podia fazer isso?
21:49Ele, no primeiro momento, ele não quis ir, porque ele falou, tô doente, eu não tô falando...
21:53Mas eu convenci aí.
21:54Então, ele foi.
21:55Os alunos ficaram maravilhados com a figura de Sérgio.
21:58Que é uma figura emblemática mesmo, né?
22:00Ele era uma figura emblemática.
22:01Mas, assim, depois que terminou o papo, o Sérgio não respondeu nada.
22:05E eu expliquei pra eles.
22:06O autor, ele não tem que explicar nada.
22:09Quem tem que explicar nada, quem tem que explicar, o professor é o professor.
22:11Não é o autor.
22:14Essa ideia que existe desse hermetismo de Sérgio,
22:20eu sempre achei que dificultava a comunicação dele.
22:24Mas, será que Sérgio queria se comunicar?
22:27Será que é esquisitice dele?
22:30Porque ele publicou.
22:32Quem publica quer ser lido.
22:34Não se discute.
22:35Mas, o poeta quer ser lido, mas ele tem que facilitar um pouco as coisas pro leitor.
22:42Pra que o leitor possa ler.
22:44E possa apreciar.
22:46Sim.
22:46Me parece que a literatura de Sérgio não permitia isso.
22:49A de Miguel permitia.
22:50A sua poesia permite.
22:51A de Miguel é a minha, acho que sim.
22:53A de outros poetas contemporâneos.
22:54Sérgio, acho que existe uma certa...
22:56Ele não transigia com o leitor simples.
23:00Eu volto à ideia do labirinto, assim.
23:03E o Sérgio tinha um lado muito irônico, muito traquino, assim, né?
23:07Muito sarcástico e tal.
23:08Então, assim, se Sérgio fosse Ariadne com o novelo nas mãos,
23:13eu acho que ele colocaria rastros pro leitor se perder no labirinto.
23:18Eu acho que o barato dele com a própria poesia era esse.
23:23Eu vou criar situações e enredos, né?
23:27E caminhos pra que esse leitor se perca.
23:30Eu quero que ele fique ali dentro.
23:31É uma maravilha.
23:32Uma boa imagem também.
23:33Achei ótimo.
23:34Olha só, eu vou parar aqui agora.
23:35Vamos parar porque nós temos a segunda parte desse programa sobre Sérgio Blanc.
23:42Eu quero deixar claro que eu estou muito contente por poder homenagear o Sérgio.
23:47E eu sei que tanto o Vitor quanto o Caí também estão.
23:50Falar sobre Sérgio é homenageá-lo.
23:54E a gente vai continuar esse papo no próximo programa, mas só na semana que vem.
24:00Beleza, gente?
24:01Vitrine Literária com o Francisco Grinjó faz essa pausa para o próximo programa.
24:07Mais uma vez com o Vitor, mais uma vez com o Caí.
24:11Beleza?
24:12Fiquem em paz e um grande abraço a todos.
24:15Você ouveu Vitrine Literária com o professor e escritor Francisco Grinjó.
24:21Tudo sobre literatura contemporânea.
24:24Temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
24:31E aí
24:32E aí
24:33Legenda por Sônia Ruberti