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  • há 2 semanas
A segunda parte do papo sobre a poesia de Sérgio Blank, importante escritor e poeta capixaba, com os convidados Vitor Cei, professor e pesquisador, e Caê Guimarães, poeta e escritor.

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Transcrição
00:01Começa agora, Vitrine Literária, com o professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:19Olá pessoal, tudo bem? Boa tarde. Estamos de volta.
00:23Vitrine Literária, com o Francisco Grijó, podcast, YouTube, na página de vídeo do Folha Vitória e nas plataformas da Rede
00:32Vitória.
00:33Na semana passada, nós conversamos muito sobre a poesia de Sérgio Blanc.
00:37Sérgio Blanc faria 60 anos no mês de abril e Sérgio Blanc, infelizmente, não está mais conosco.
00:44E, como eu já falei e nós já falamos no programa passado, Sérgio é um poeta de referência.
00:50Um poeta importante, não só para o Espírito Santo, mas também para o Brasil.
00:56E o interessante é que, no programa passado, conversando com o Vitor Sei, professor Vitor Sei,
01:02e Caí Guimarães, que é poeta e é romancista, eu acho que agora mais romancista do que poeta, né?
01:08Mais romancista.
01:10O Vitor, só para quem não sabe, o Vitor, embora seja um professor, um acadêmico, respeitado, intelectual, focado,
01:21o Vitor está entrando na seara literária e está compondo um romance.
01:26Ele não pensou que eu fosse falar sobre isso, mas eu falo e já trago um convite.
01:32Quando o seu romance for lançado, que você esteja aqui para conversar sobre ele.
01:36Será uma honra.
01:37Mas aqui o papo é Sérgio Blanc.
01:39E a última coisa que foi conversada aqui foi a ideia de que eu questionei,
01:45tanto ao Vitor quanto ao Caê, sobre o hermetismo da poesia de Sérgio.
01:53A dificuldade de se penetrar na poesia dele.
01:56Que é a dificuldade minha, minha.
01:58Mesmo sendo eu um professor que já tenha trabalhado com a obra dele, com a obra de Sérgio.
02:03Mas eu tenho essa dificuldade.
02:04E aí o Caê trouxe uma imagem muito interessante, que ele vai lá na mitologia,
02:12a ideia de Ariadne tecendo o fio no labirinto, sendo, evidentemente, correndo o risco de ser devorada pelo Minutau.
02:20Mas a questão é...
02:25Sérgio Blanc fez uma poesia que eu considero hermética.
02:30Trouxe isso para essa discussão.
02:32E o Vitor falou sobre a ideia de existir um leitor que tenha boa vontade para ler.
02:39A minha pergunta para vocês, para iniciar esse bloco, é a seguinte.
02:44Sérgio é um poeta que está há 30 anos numa posição literária no Espírito Santo de destaque.
02:55Certo?
02:56Certo.
02:57O que você, para Vitor especificamente, o que você diria assim, Igrejó, a poesia de Sérgio,
03:04ela é uma poesia essencial por conta desses pontos?
03:09O que você diria?
03:10Por que você consideraria a poesia de Sérgio uma poesia de qualidade inequívoca?
03:17O que ela tem?
03:19Uma pergunta difícil.
03:22Mas é, pergunto para o professor.
03:24Sim.
03:24O professor tem que responder.
03:26Tentar não ser muito teórico.
03:28Fica à vontade.
03:29Fica à vontade.
03:31O Sérgio, ele percebe-se um trabalho com a linguagem, né?
03:37Por isso que dessa impressão de ser difícil, realmente, tem uma dificuldade, a questão do labirinto
03:43que o Caio falou, porque tem um trabalho ali com a linguagem, não é uma coisa assim,
03:47óbvia, simplória.
03:48Tem uma sofisticação dos recursos linguísticos, a escolha das palavras, a escolha meticulosa
03:56das palavras.
03:57Se não me engano, foi o Reinaldo Santos Neves que falou que tem um léxico do Sérgio Blanc,
04:05assim, que ele teria um dicionário na cabeça, assim, próprio.
04:09E essa seleção bem, assim, meticulosa das palavras, os recursos linguísticos como a
04:18literação, a preocupação com a acentuação, com a pontuação ou com a falta de pontuação
04:27dos poemas.
04:29Muitas vezes a quebra de palavras, assim, a ruptura dá um choque, provoca um choque no
04:35leitor, provoca essa desacomodação.
04:38Acho que a boa literatura, seja poesia ou prosa, ela provoca uma... ela desacomoda o leitor.
04:43Por isso que eu falei que tem que ser um leitor de boa vontade, um leitor que esteja disposto
04:48a entrar nesse labirinto, pra usar aí a metáfora do Caê, que esteja disposto a entrar
04:53nesse labirinto, se perder nele e depois sair.
04:57É possível sair?
04:58Eu acho que a gente tá aqui porque a gente entrou e saiu, né?
05:01A gente entrou e saiu.
05:03É, é uma boa resposta, né?
05:05Entrou e saiu.
05:06E a literatura que acomoda não é literatura, é alta ajuda, né?
05:09Se for pra acomodar, leia um livro de alta ajuda, não literatura.
05:12É, mas Caê, mas olha só, tudo bem, eu concordo com você, mas os seus poemas,
05:18você tem um livro que eu adoro, gosto muito, que é o Debaixo da Pele Fria.
05:24Gosto muito desse poema.
05:25E eu tenho aquela edição bacana da Massaona, muito bonita.
05:30Mas os seus poemas são, eles são mais facilmente, como é que eu diria, mais facilmente...
05:40Eu sinto os seus poemas com mais facilidade.
05:45Eu não quero comparar você com o Blanque, né?
05:47São dois poetas que veem o mundo de formas diferentes.
05:51O Sérgio, essa impenetrabilidade é uma coisa minha, é uma dificuldade minha.
05:57Eu assumo isso, sem nenhum problema.
06:00Mas o que eu vejo aqui?
06:03Eu tenho o Vitor que observa a poesia de Sérgio, não só com a sensibilidade dele de leitor,
06:09mas também com a visão de professor.
06:11E você?
06:13Você, você, o que faz para você a poesia de Sérgio ser especial?
06:19Além de tudo isso que o Vitor falou, porque eu assino embaixo de cada item que ele citou,
06:26a poesia de Sérgio me instiga, desde que tive contato com ela, e lá se vão mais de 30 anos,
06:34pela forma como ele retratava e retratou o mundo ao seu redor.
06:42E aí a gente volta naquela primeira pergunta da obra e da vida se misturarem tanto.
06:51Acho que Sérgio tinha uma visão muito sensível e muito apurada
06:58para um projeto de civilização que é um tremendo fracasso, né?
07:03Que é a vida como nós vivemos hoje no planeta Terra, como vivíamos há décadas atrás,
07:08como vivíamos quando o Sérgio surge como poeta.
07:12Então, a despeito de toda a qualidade dos recursos linguísticos, da sofisticação,
07:18da escolha meticulosa das palavras, eu tive, por exemplo, a oportunidade de participar de alguns saraus
07:25lendo poemas do Sérgio.
07:27Eu tive que dividi-los numa métrica própria minha,
07:30porque se eu fosse acompanhar a métrica com que ele grafou os seus poemas,
07:34eu me perderia, sabe? Tamanho o labirinto, né?
07:39Eu tive que criar a minha rota para sair do labirinto ao ler.
07:43Que a poesia de alguém é capaz de fazer isso.
07:44Porra, ao verbalizar. Isso para mim foi uma experiência fascinante.
07:47Eu tenho esses... Eu digitei esses poemas, acho que foram cinco ou seis,
07:52e eu tenho eles guardados até hoje, com uma métrica minha.
07:55Eu falei isso para ele.
07:57E ele deu um sorrisinho, assim, como quem diz.
08:01Era isso que eu queria.
08:02Então, além de tudo que o Vitor falou, acho que o Sérgio, o que ele fez,
08:07é um mergulho nesse tempo.
08:10E para além desse tempo, porque trata do ser humano, trata das relações humanas, né?
08:16E é muito curioso perceber que, de 84 a 96, ele lançou seis livros de poesia, né?
08:23É um mundo pós-ditadura militar, um mundo virado de ponta cabeça pela epidemia da AIDS,
08:32um mundo que se tornava cada vez mais violento, né?
08:37A violência urbana e a violência das relações interpessoais, a solidão.
08:45E aí, quer dizer, 84, 96, 12 anos, né?
08:5012 anos e seis livros de poesia.
08:52Cara, isso não é uma coisa assim.
08:54Não.
08:54Aos poetas, né, que estão iniciando, ah, vou lançar um livro de poesia por ano, desconfie de você mesmo.
09:00Não é assim. O processo é muito mais longo.
09:02É uma destilação que demora, sabe?
09:05O Sérgio, isso aí que você falou, você colocou muito bem.
09:10O Sérgio, ele, me parece que toda essa angústia que ele expressa no texto, ele tinha.
09:18Sim, sim.
09:19E o aspecto dele, né? O aspecto de andar na noite.
09:24Sim.
09:25Você já citou isso no programa passado? Aquela coisa, aquela estética dark.
09:29Eu me lembro que eu brincava com o Sérgio, dizia que ele era um personagem do mal do século.
09:33Sim.
09:34Mas os poetas do mal do século, boa parte deles, não era, não pensava daquele jeito, né?
09:41Mas expressava porque era uma tendência que existia.
09:44Mas vocês acham que Sérgio é um pessimista?
09:48Como todo poeta que observa essa realidade terrível e angustiante, ele era um pessimista?
09:55A poesia de Sérgio é pessimista, Lido?
09:57Aí eu aproveito para responder, complementando também as respostas das perguntas anteriores,
10:05que são caros no meu trabalho como professor e pesquisador, essa questão do pessimismo.
10:09É um tema que eu estudo.
10:10Ótimo.
10:11O nilismo, que é uma palavra que o Sérgio usa, que alguns críticos usam.
10:15O nilismo que é a falta de sentido, né?
10:18O Nihil, né?
10:19Nihil.
10:19Nihil.
10:20Nihil.
10:21E o Sérgio, eu leio a minha experiência estética, né?
10:24Que eu acho que o trabalho, o mérito da obra dele, né?
10:28Da qualidade.
10:29Faltou falar da experiência estética.
10:31O exemplo que o Caedê deu de ter que mudar a métrica para ler é a experiência estética
10:36particular do Caedê.
10:38Eu acho que todo grande poeta, ele promove essa experiência estética.
10:42Cada leitor vai ter a sua experiência estética.
10:44Os grandes poetas têm essa capacidade, a grande poesia.
10:48E essa questão da literatura e a sociedade, que também é um tema caro de pesquisa,
10:54que os poemas do Sérgio, por mais que às vezes pareçam herméticos, mas todo o livro
10:58dele tem ali uma anotação do medo político, tem uma questão social-política da época
11:03que está perpassando ali.
11:06E eu acho que essa visão, essa angústia, esse pessimismo, esse nilismo é diante da realidade
11:12política do país social, que somente nos anos 80 e mesmo hoje ainda, tem muita violência,
11:21muita miséria, muita fome, muita violência de todos os tipos.
11:29E imagino que isso angustiava o Sérgio como pessoa, como poeta, mas a angústia dele eu
11:36não vejo como um pessimismo, uma angústia passiva, mas é um pessimismo irônico, um pessimismo
11:44mordaz, assim.
11:45Até essa questão de vida e obra, o Sérgio é uma pessoa tão delicada, pelo menos nos
11:49últimos anos.
11:51E diferente da poesia dele, que é uma poesia dura, poesia que bate, ele falava suave,
11:56mas escrevia dando porrada.
11:58É, isso é verdade.
11:59Para o Caê, que entende de boxe, são uns poemas que mordem, que batem e ele é uma
12:06pessoa muito delicada.
12:09Mas então eu tenho vontade de estudar mais aprofundadamente, escrever sobre esse niilismo
12:15do Sérgio Blanc, esse niilismo irônico.
12:18Você não acha que esse niilismo era uma tendência da época, não?
12:23É uma tendência na literatura brasileira desde o século XIX, tem isso no Machado
12:28de Assis, lá no Augusto dos Anjos, nos anos 80 voltou com força, esse período de redemocratização,
12:35aquela decepção na história do Brasil, da melancolia, que as pessoas tinham aquele
12:40otimismo quando acabasse a ditadura, tudo ia ficar bom, mas não aconteceu de tudo ficar
12:45bom?
12:45Exatamente.
12:46Os problemas só mudaram, então tinha essa melancolia na época, essa decepção.
12:52Talvez ele exacerbasse isso.
12:55Ele exacerbava isso.
12:56Talvez seja isso.
12:57Ele levava isso a um extremo, essa tendência já tão antiga.
13:03O Sérgio, o Sérgio, ele foi um poeta, ele se formou enquanto poeta durante o período
13:13da... o absurdo que foi a AIDS, né?
13:17É.
13:17Ele pegou aquele momento, ele pegou um momento em que o terror era comercializado.
13:24Exato.
13:24Bem lembrado.
13:25As pessoas, olha, a monogamia, o homossexual é uma figura maldita, o amor entre homens
13:37é um absurdo.
13:38Sim.
13:38E Sérgio pegou, justamente, em 86, 87, que é quando ele começa a se formar enquanto
13:45um poeta de verdade.
13:48Maior, né?
13:48Você diria, Caê, e depois essa pergunta vai também para o Vitor, a ideia de sexualidade
13:58é uma marca muito forte, certo?
14:00Sim.
14:01Certo?
14:01Mas ela é uma marca também da época.
14:04Sim.
14:05Como é que você vê isso aí?
14:06Na poesia de Sérgio, essa ideia da homossexualidade, da sexualidade, essa ideia de... dessa maldição
14:14que se jogou sobre o sexo.
14:16Como é que você vê isso na poesia dele?
14:19Eu concordo com você quando você diz que ele é formado nesse momento, né?
14:23Quer dizer, o Brasil sai da ditadura, tem um breve verão de alegria, né?
14:27Podemos fazer tudo, né?
14:29Um desboom de tardio.
14:31E aí vem essa ressaca, né?
14:35Eu vejo isso como um dos elementos que Sérgio trabalhava.
14:39Não vejo isso como um elemento de frente.
14:42E Sérgio era muito discreto também, enfim, na sua própria vida pessoal.
14:46Houve até um estudo, se eu não me engano, do professor Francisco Aurélio Ribeiro, em que coloca Sérgio e Valdo
14:53como escritores que trabalhavam com essa temática.
14:57E se eu não me engano, se eu estiver enganado que alguém me corrija, acho que o Sérgio refutava um
15:02pouco isso.
15:03Ele não se via como um poeta...
15:05Ele não se via como um baluarte.
15:07É, como um baluarte da homoafetividade.
15:09É, exatamente.
15:10Não era minha bandeira.
15:11Não era a bandeira.
15:12Porque para ele era uma questão dele e acabou, né?
15:15Mas existe...
15:16Mas ele é mordado.
15:17Sim, existe uma sensualidade, existe essa...
15:20Eu acho que, assim, esse momento e a pandemia que tomou conta do mundo naquele momento,
15:27talvez tenha sido um elemento que temperou isso aí.
15:31Mas eu acho que a melancolia do Sérgio, da incapacidade das pessoas se relacionarem, das barreiras que existiam nos relacionamentos,
15:44e continuam existindo, e já existiam antes, eu acho que ela vai um pouco além, sabe, dessa questão.
15:50Mas ela estava ali, é óbvio.
15:52Você concorda, Vitor, com isso?
15:54Eu...
15:54Você que estudou, que está estudando a obra dele.
15:57Aproveitar o título, né, Blue Sutil, eu acho que a questão do amor entre iguais, que é uma expressão que
16:02o Paulo Sodré prefere, que é interessante.
16:06Pegar essas três figuras, que são contemporâneas, né, o Paulo Roberto Sodré, o Valdo Mota e o Sérgio Blanc.
16:12Que são três poetas absolutamente diferentes, né?
16:15É, e gigantescas.
16:16E não, os três são excelentes, ninguém discute isso.
16:18Eu acho que no caso do Sérgio, o amor entre iguais, a homoafetividade é mais sutil.
16:24Não é o motivo condutor da obra dele, né, não é o tema central da obra dele.
16:29Tem um peso maior lá no Valdo e no Paulo Sodré.
16:33Está presente.
16:34Nessa escala, né?
16:34Nessa escala.
16:35Está presente na obra do Blanc.
16:38Era uma preocupação da época, você lembrou bem, a questão da AIDS.
16:43E, obviamente, isso afetou o homem e afetou o poeta, afetou a poesia.
16:48Mas, como, né, lembrou o Caê, a vida pessoal era bem discreto em relação à vida pessoal.
16:54E na obra também acho que tem essa sutileza, tem um pouco discreto também, apesar de estar presente, né?
16:59Alguns poemas não são tão discretos assim, mas na obra como um todo.
17:03Agora, eu queria fazer uma provocação.
17:05Faça.
17:06Esse, desculpa, se você ia concluir.
17:09E hoje é um tema que é atual, porque hoje ainda incomoda, né, a boa parte da sociedade de ficar
17:15incomodada com essa...
17:16E parece que hoje piorou.
17:18Por mais que hoje piorou, né?
17:19Ou piorou em relação aos anos 200.
17:21Aqueles que se ressentiam, mas que se envergonhavam de mostrar, hoje não.
17:27Então, nem se ressentem, nem tem mais vergonha de mostrar o ódio e a fúria em relação aos que não
17:38são iguais a ele.
17:39Sim, o fascismo saiu do armário, né?
17:40Saiu do armário.
17:41O que é mais, assim, um mérito da obra, né?
17:44Que tem 40 anos e continua transgressora, né?
17:47Exatamente.
17:48Essa é uma boa observação, sem dúvida alguma.
17:5040 anos e ainda transgrede.
17:52Sim, verdade.
17:52E ainda incomoda.
17:53Ainda incomoda.
17:54Você falou que você ia fazer uma provocação.
17:55É, porque... Desculpa, acabei te interrompendo.
17:58Quando a gente fala desse hermetismo, quando a gente fala dessa temática, quando a gente fala desse Sérgio pesado, o
18:06mais pesado,
18:07a gente está se referindo aos seis primeiros livros dele, né?
18:10E há uma coisa fascinante na obra do Sérgio, né?
18:13Ele compõe esses seis livros em 12 anos, como eu falei.
18:18Depois ele lança um livro infantil, Safira, que é de um lirismo tremendo, né?
18:22É, é verdade.
18:23A história da caneta azul é comovente.
18:24É verdade, é.
18:25E aí ele mergulha num longo silêncio, nesse período desenvolve um trabalho importantíssimo com dependentes químicos e alcoólatras.
18:34E que, infelizmente, ele foi demitido, sem saber exatamente por quê, né?
18:40Política.
18:40Porque ele fez um belíssimo trabalho.
18:42Isso aconteceu mais de uma vez.
18:44É.
18:45E ele veio com o Blue Sutil, que não é hermético.
18:49Não é hermético.
18:50Não é nada hermético.
18:50Eu concordo com você, são poemas em prosa.
18:52São poemas em prosa.
18:53Mais ou menos do mesmo tamanho, seis, sete, oito linhas.
18:56Cara, com uma precisão, como você leu um deles aqui.
18:59Precisão.
19:00Quer dizer, com o mesmo nível de sofisticação, com o mesmo nível de maturidade poética, que, na verdade, nos seis
19:07primeiros livros também foi crescente.
19:10Mas esse período do Sérgio é tão marcante que a gente trata o Sérgio só como poeta hermético.
19:16É claro que o volume, ele fez um livro, depois desse longo silêncio, que é o Blue Sutil, que foge,
19:23né?
19:23Na verdade, é como se ele virasse de costas para uma forma de fazer poesia que ele tornou sua.
19:30Ele não renega, mas ele vai para outro caminho.
19:33Não, mas ele vai para outro caminho, né?
19:34Até a própria ideia do poema em prosa é um outro caminho.
19:37É um outro caminho, cara.
19:38Ele se desprende do verso.
19:41Exato.
19:42Não quero mais o verso, eu quero agora fazer uma outra coisa.
19:44E aí é inevitável não se perguntar o que não viria pela frente, né?
19:48Se a vida dele não fosse...
19:50O que me impressiona, Sérgio, que me impressiona, independentemente do hermetismo, é a maturidade poética dele.
19:58O primeiro livro de Sérgio já é um livro maduro.
20:01Sim.
20:02O estilo de ser assim, tampouco, já é um texto maduro.
20:04E ele tinha 23 anos de idade.
20:06Eu acho que nesse sentido, eu como leitor de poesia, enfim, falando da poesia produzida no Espírito Santo, eu só
20:14vejo um paralelo no gemagem do Marcos Tavares.
20:17Em termos de maturidade.
20:19O cara que com 20...
20:20Porque os poemas de gemagem são de quando o Marcos tinha 22, 23, 24 anos.
20:24Eu, quando eu estava na faculdade, quando eu fazia letras...
20:27Você vê uma maturidade ali que você fala, esse cara, esse menino não ia fazer isso.
20:31Marcos Tavares, alguns poemas de gemagem, eu declamei na UFES em 1982.
20:39Pois é.
20:39Quando Delir Gomes fez a segunda oficina literária, depois nós fizemos uma amostra que foi para UFES, foi para outros
20:49locais, nós falamos em Vila Velha, em outros lugares.
20:52E eu me lembro que eu declamei dois poemas que estão em gemagem.
20:56Isso em 1982, ou seja, 42 anos.
20:59É.
21:00Porque Marcos, quando escreveu o gemagem, ele era garoto.
21:04Ele era muito jovem.
21:04E tinha uma maturidade também.
21:06É, é nesse sentido que eu comparo a Estranha dos Dois, não de estilo, imagina.
21:10Sem dúvida, sem dúvida alguma.
21:11São diametralmente opostos, ainda bem que é essa variedade.
21:13É.
21:14Mas pegar caras tão jovens e com uma poesia tão resolvida, cara, é realmente para aplaudir de pé.
21:21E é uma vila, é isso.
21:22É.
21:23É impressionante.
21:25Quando eu falei da prodigalidade da poesia do Espírito Santo.
21:28É.
21:29Alguns poetas aqui, cara, eram poetas de nível nacional.
21:34É.
21:34Estrearam como poetas de nível nacional.
21:36É, verdade.
21:37Você é um deles, Caio.
21:38Você sabe disso.
21:39O Marcos Savares, o Miguel, que para mim era o melhor poeta.
21:45O melhor poeta capixaba que eu li, foi o Miguel Marvila.
21:49Reinaldo Santos Neves é um grande poeta.
21:51Ninguém discute.
21:52Sim.
21:54O muito solito por nada é uma obra-prima.
21:57Sim.
21:57Mas é para a gente poder fechar esse papo.
22:03Eu gostaria de ler um texto.
22:05Eu gostaria de saber o que vocês pensam dele.
22:08Existe um texto aqui, em Blu Sutil, em que ele diz o seguinte.
22:15Permitir-se a mudar o olhar sobre as coisas e pessoas.
22:22Essa é a ideia de nós somos capazes de ver as pessoas e as coisas de uma forma diferente, como
22:31a gente via.
22:32E, só para a gente fechar, vocês são leitores de Sérgio Blanc.
22:38Posso dizer isso?
22:39Sim, claro.
22:40Ótimo.
22:43Ao ler Sérgio Blanc, o que você aprende, Caíro?
22:48Cara, que pergunta.
22:50Eu sei que a poesia não existe bem sempre.
22:53Sim.
22:54Eu sei disso.
22:54Sim.
22:54Mas a gente aprende lendo.
22:56Sim.
22:57Né?
22:57Sim.
22:58O cabo.
22:58A gente aprende a ver o mundo lendo.
23:00Sim.
23:00O que você aprende ao ler Sérgio Blanc?
23:03Depois a gente vai para você ver.
23:04Essa poesia de Sérgio reforça em mim o quanto profundos e contraditórios nós somos, cada um de nós humanos.
23:15O quanto de mistério há em cada um de nós.
23:21As profundezas abissais que compõem cada pessoa, cada situação, eu acho que me traz isso.
23:30Então, nessa profundeza, eu tento vir à tona, no meio de todas aquelas ondas e marés que Sérgio provoca em
23:39mim.
23:39E você, Vitor?
23:40Quando você leu, me veio à mente, aos ouvidos, a música do Raul Seixas.
23:44Eu prefiro o Seixas, mas tomar a fase ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.
23:51E a poesia, eu acho que tem um pensamento de um filósofo, que poeticamente o homem habita.
23:57Eu acho que a vida fica mais interessante.
24:02Interessante não é um adjetivo muito bom, muito pobre, mas a vida fica mais instigante com a poesia.
24:11Fica mais estimulante.
24:13Maravilha.
24:14Eu só tenho uma última frase a dizer antes da gente fechar o programa.
24:19Eu falei aqui, a gente conversando, mas eu acho que ela, sem nenhum tipo de demagogia, é Ave Sérgio.
24:25Ave Sérgio.
24:27Valeu, gente.
24:28Muito obrigado pela audiência de vocês.
24:30Espero que esse papo tenha instigado você, que não conhecia a poesia de Sérgio Blanc, a conhecê-la.
24:38E aqueles que já conhecem, espero que tenham apreciado o bate-papo aqui com o Vitor, professor, pesquisador,
24:46Caê, poeta e romancista.
24:48E este que vos fala, Grijó, que é o mediador do papo para essas duas feras.
24:53Um grande abraço a vocês e até a próxima semana.
24:58Você ouviu Vitrine Literária, com o professor e escritor Francisco Grijó.
25:04Tudo sobre literatura contemporânea.
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