Pular para o playerIr para o conteúdo principal
  • há 11 minutos
1 - Um Brasil de Muitas Línguas:

Apresenta o contraste entre o fato de 98% da população falar português e a existência de mais de 160 línguas nativas e africanas no território.
Transcrição
00:25A CIDADE NO BRASIL
00:55A CIDADE NO BRASIL
01:24A CIDADE NO BRASIL
01:50A CIDADE NO BRASIL
01:56Esta história acontece em estado de emergência e de calamidade pública.
02:04Trata-se de livro inacabado, porque lhe falta a resposta.
02:10Resposta esta que espero que alguém no mundo me dê.
02:14Voz?
02:16A CIDADE NO BRASIL
02:22A CIDADE NO BRASIL
02:25A CIDADE NO BRASIL
02:43A CIDADE NO BRASIL
02:44A CIDADE NO BRASIL
02:45A CIDADE NO BRASIL
02:46A CIDADE NO BRASIL
02:46A CIDADE NO BRASIL
02:48A CIDADE NO BRASIL
02:56A CIDADE NO BRASIL
02:59Eu vou lá para baixo e aí eu vou lá para baixo.
03:04Então, eu vou lá para baixo e se pegue a puxar...
03:10Vamos lá para baixo.
03:13Eu vou lá para baixo para baixo oido.
03:15Agora, eu fui lá para baixo.
03:17a espelha.
03:21E a espelha de um período de católicos
03:25que eu vi em uma pescação.
03:28Aqui em cima,
03:29eu vi uma pescação
03:32e vi uma pescação
03:32de um encontro de água.
03:37Estamos a fazer o fogo
03:42do Tíbalo.
03:45Aqui em cima,
03:46tem que ver o fogo
03:47do Tíbalo.
03:47Então, a minha vida foi a vida infantil de Arte.
03:51Então, a minha vida foi uma expressão e ameaçada.
03:56Então, eu vou descansar com a qual estava a professora Cotiawia e pediu-se de lá.
04:05Então, eu vou dar uma oportunidade para fazer a nossa vida infantil de Arte.
04:07Eu vou esconderar qualquer coisa.
04:07Como eu, eu sou de Likana, o que eu sou de Likana, o que eu, eu sou de Likana.
04:171, 2, 3, 4, 5, 6, 6, 7, 8.
04:211, 2, 3, 2, 1, 2, 3.
04:432, 4, 3, 3, 4.
05:08A situação linguística do Brasil é muito paradoxal.
05:11Porque, ao mesmo tempo que somos um dos países de maior homogeneidade linguística no planeta,
05:20porque pelo menos 98% da população é falante nativo do português, da população brasileira,
05:28mas, ao mesmo tempo, o Brasil é um dos países de maior diversidade linguística no planeta,
05:33sobretudo em função das línguas indígenas.
05:48Como é que vocês veem o futuro das línguas indígenas ou dos povos originários?
05:55Tende a diminuir, a terminar?
05:58Acho que agora a tendência é melhorar.
06:01Os linguistas calculam entre 150 e 160 línguas atualmente faladas, atualmente em graus variados de vitalidade no Brasil.
06:14É um número em termos de línguas.
06:17Agora, o que é uma língua?
06:19O conceito de língua é um construto ideológico e científico também.
06:25Porque, na realidade, o que existe no mundo real são variedades das línguas.
06:32Então, imaginar que uma língua é uma entidade internamente homogênea é uma ficção.
06:44Eu acho que os modelos teóricos que são usados são muito baseados na linguística indo-europeia.
06:50E a gente não desenvolveu ainda o conhecimento suficiente para entender os fenômenos das línguas indígenas.
07:05Sim, sim.
07:06Sim, então, o que é que você acha?
07:10Sim, em você acha que você não quer fazer, então?
07:13Sim, não superiço para ver.
07:15Bom, o que você acha que o risco é mais um pouco?
07:18Sim, então, o que se acha que você acha que você acha um pouco?
07:18O que é que você acha que faz um pouco a um pouco serviço?
07:21Sim, é para você.
07:25Como o vaso é aqui, eu vou fazer só o manto.
07:28Eu vou fazer dentro.
07:36Aqui não tem o que fazer, né?
07:40Não.
07:41Você vai sair?
07:42Não.
07:43Eu não sei.
07:44Como ele está lá?
07:45Eu vou fazer aqui.
07:51Eu posso colar agora?
07:52Mas podemos ver que é porque estamos aqui com certeza.
08:01Onde está?
08:02Onde está?
08:04Não.
08:06Estou aqui em casa?
08:08Estou aqui.
08:09Estou aqui em casa.
08:12Estou aqui em casa?
08:17.
08:17.
08:17.
08:17.
08:20.
08:20.
08:23O que é o que é o que é?
08:51Não é isso?
08:56Eles não são mais ricos.
08:59Como é isso?
09:04A gente não está dizendo que o senhor não tem nada de ver.
09:10O senhor não tem nada de ver.
09:15A gente não tem nada de ver.
09:21Eu estou te ensinando a fazer isso.
09:24Eu estou te ensinando.
09:26Sim.
09:27Eu estou te ensinando.
09:31Eu estou te ensinando.
09:34Você está nos ensinando?
09:36Isso é muito bom.
09:38Você está nos ensinando e indo para o seu trabalho?
09:43Sim.
09:44Eu estou te ensinando que você não está ensinando.
10:03Quando os portugueses chegaram no Brasil eram faladas mais de mil línguas dos diversos
10:10povos originários que habitavam o território português. Infelizmente, já no primeiro século
10:19houve uma redução enorme dessa diversidade linguística porque simplesmente houve um genocídio
10:27dessa população. Porque hoje as pessoas pensam, ah, no Brasil você fala português,
10:31todo mundo fala português. Mas, historicamente, a realidade sempre foi muito diferente.
10:37Tanto que o Padre Antônio Vieira, que chamou o rio das Amazonas de rio Babel, ele dizia
10:44são tantas as línguas que a única coisa que se sabe é que elas são infinitas.
11:07.
11:09A CIDADE NOVA
11:40Eu vou fazer isso.
12:09. . .
12:13. . .
12:41. . .
13:11. . .
13:12. . .
13:12. . .
13:13. . .
13:13. . .
13:16. . .
13:19. . .
13:20. . .
13:50. . .
13:51. . .
13:53. . . .
13:54. . . .
13:56Nós pertencemos à família linguística Aruaque.
13:59E Aruaque é um grupo grande na América.
14:05E no Alto Rio Negro, nós somos Baniwa, Uerequena, Tariano, Curipaco e Baré.
14:18Baniwa é nome da língua e nome do povo.
14:22Baniwa se autodenomina Mezzaniakunay.
14:26Esse é o nome do grupo dos Baniwa, Mezzaniakunay.
14:31Os estudiadores registraram de várias maneiras,
14:34mas hoje que a gente sabe como é que funciona,
14:38a autodenominação é Mezzaniakunay.
14:42A explicação desse Mezzaniakunay é que na origem da humanidade,
14:46quando nascemos, nascemos já falando.
14:51Em relação a outros povos que nasciam,
14:54e na pericula lhe dava a língua para eles falarem.
14:57Já os Baniwa não. Nasceu, falou.
15:25Mata Daga Dany,
15:27E aí
15:29E aí
15:30E aí
15:31E aí
15:32O que é isso?
16:10Essa língua é importante porque a gente tem comunicação com o Espírito, com o Criador para a cura, para a
16:21proteção, para a vida.
16:24Por isso que é Mezenyaku, aquilo que vem do Criador, é a nossa língua.
16:44Não, não pode.
16:48Eu tenho a minha vida.
16:54Seu trabalho é um lugar onde eu tive um trabalho.
16:59Eu me lembro de um trabalho.
17:05Eu me lembro de um trabalho.
17:09Eu me lembro de um trabalho e eu me lembro de um trabalho.
17:14Eu não sei, eu não sei, eu não sei.
17:42tchau
18:31O conhecimento da língua indígena é o melhor critério para a nacionalidade da literatura.
18:38É nessa fonte que deve beber o poeta brasileiro.
18:42É dela que há de sair o verdadeiro poema nacional, tal como eu o imagino.
18:54Não tem só diversidade de línguas, né?
18:58160 línguas indígenas distribuídas em duas principais macrofamílias, Getupi,
19:0540 famílias, mais uma dezena, mais de uma dezena de línguas isoladas,
19:11mais línguas de povos em isolamento voluntário, ainda não documentadas.
19:20Mas uma língua é internamente diversificada, ela existe pela vida das suas variedades internas.
19:30Quer dizer, você conhecer, ainda que um pouquinho, uma língua indígena é um deslumbramento, né?
19:38É uma riqueza que você adquire para a sua vida, né?
19:43Sei lá, para um momento de curtição, um momento de êxtase, um momento de prazer, que não tem preço, né?
19:52Aí a pessoa, mas para que eu vou aprender?
19:53Não, você não precisa... Essa noção de utilitarismo é uma bobagem, porque a língua tem a sua riqueza, né?
20:01A sua beleza própria, né?
20:03E quanto mais diferente ela é da língua, que é a nossa língua materna, no caso a língua brasileira,
20:08ou português do Brasil, como a gente vem a chamar, né?
20:11Quanto mais diferente ela é, mais riqueza você consegue apreender, né?
20:18O impacto do conhecimento, né? Ele se justifica por si próprio, né?
20:23Por que você se apaixonou pela tupia antiga?
20:25Em tupi, por exemplo, você não tem o ser, você tem estar como.
20:29Então, claro que isso daí é uma...
20:33Uma extrapolação mais literária, talvez, do que linguística,
20:37mas é como se em tupi, o falante tupi, ele não admite a identidade a não ser circunstancialmente.
20:46Quer dizer, ninguém é nada, as pessoas estão numa circunstância.
20:51Estar como? Estou na condição de.
20:53Eu não sou.
20:54Então, cada língua em si, ela é um tesouro.
21:41Eu falo como sei.
21:44Como sei falar.
21:46Não sabe se não escutar-me.
21:48Pois, temos que aprender.
21:49Eu, se vou ao Brasil, tenho que falar com os brasileiros.
21:52Se estou em Galícia, falo como a Galícia.
21:53Vós, teremos o aprendido.
21:56Tens que falar vós, o Rallejo, não o nosso brasileiro, é?
22:01Nós estamos aqui num centro muito bom, Braga, do ponto de vista histórico, é muito importante.
22:09O galego nasce quando?
22:11Que nasce o galego?
22:11Um pouco a gente entender de onde é que vem essa língua tão bela que a gente fala.
22:17Eu consegui localizar no século VII, portanto, no ano 600 d.C., que se dá uma transformação
22:29tão grande nesta língua que já não é latim.
22:36E não é de maneira nenhuma também castelhano, desta língua, portanto, aqui assim, na parte
22:41noroeste da Península Ibérica.
22:44É que, de repente, para nós, mas na realidade para eles da maneira mais natural, o L e o N
22:52entre vogais desaparecem.
22:54E, por exemplo, aquilo que era luna, do latim, torna-se lua, e reparem na transição ainda
23:02com o U nasal, lua, e aquilo que era salir, torna-se sair.
23:10Isto é absolutamente único em toda a România, em toda a Europa de língua neolatina, isto
23:18é absolutamente inconcebível e, em parte mais nenhuma da România, isto se deu.
23:27Por alguma razão que não é fácil de saber, essa pronúncia que eliminava o L e o N
23:33entre vocálico começaria por ser, provavelmente, uma pronúncia popular, uma pronúncia vulgar,
23:39não aceitada, mas que se impõe, se generaliza ao conjunto da população.
23:46E há um momento na história em que aqueles elementos que mantinham o vigor da norma culta
23:53latina, ruem, desaparecem.
23:57E essa origem muito humilde do ponto de vista português é a origem da nossa língua, que
24:08se chamava galego, porque outra língua não existia.
24:14E que depois, quando Portugal se formou, em 1140, adotou, até o próprio termo adotou
24:26está errado, porque continuou a falar como sempre falava.
24:30Era a única língua que existia, esta mesma que eu estou a falar.
24:35E o Reino de Portugal continuou a falar como sempre falava, avançou até Lisboa, depois
24:42avançou até o Algarve, e só bastante mais tarde é que esta língua se chamou português.
24:49Só em 1430 é que, pela primeira vez, aparece a expressão língua portuguesa e a denominação
24:57portuguesa, 1430, quando o reino já existia há três séculos.
25:03Para os portugueses tudo isto faz muita confusão, não só faz confusão, mas eles recusam.
25:09A história oficial não é essa.
25:11Dom Dinis escreve em português, torna o português a língua da chancelaria, portanto,
25:19da documentação oficial, etc.
25:21Português não se fala nesse caso no galego, portanto, a noção de que alguma vez a língua
25:29deste reino não tenha sido português é absolutamente inconcebível para a imagem
25:36própria do português.
25:37Foi aí que se inventou essas denominações como português arcaico, português antigo,
25:45que não faz sentido nenhum, porque não existia um português arcaico.
25:48O português arcaico é o galego, simplesmente o galego.
26:02E vou dizer uma coisa, uma coisa com muita maña, para que quede clarinho, Galiza não é
26:13Na Galiza ajudamos a construir o mundo falando.
26:18Falar galego significa enriquecer a humanidade.
26:22Ai, a língua, companheiras, ai, a língua é como um rego.
26:27Falamos, ai, da Galiza, agora toca o galego.
26:32Um país tem uma língua que representa como Portugal, tem o português, e Galiza também
26:39tem o galego como idioma.
26:41Ai, a língua é um rio para as mozas e as mozas.
26:46Ai, a língua é um rio como o rio Amazonas.
27:04A língua galega tem que dizer o seguinte, foi uma língua privilegiada na Europa medieval.
27:12Ela tinha substância autônoma, soberana.
27:17Era uma língua que era falada, muitas vezes, pelos grandes trovadores, que atravessavam a
27:24Península Ibérica, não é?
27:26Ela se prestava, por certa fonética dela, a lírica, a lírica amorosa, as cantigas de
27:33amigo, era muito comum.
27:35Então, nós temos que ver como essa língua vai se desintegrando em relação à autonomia
27:43que o condado chega a ter, sob o gênio de Afonso Henriques, que estabelece o seu poder
27:51em Guimarães.
27:52Aqui há Guimarães para entender de onde nasce Portugal.
27:55E ele vai invadindo, alastrando-se até expulsar os mouros.
28:01E o rei, 40, 50 anos depois, aceita, designa que ele é rei de Portugal.
28:07Portugal passa a existir.
28:10E Espanha, Galícia, cai.
28:12Vai caindo, vai caindo.
28:13E com a independência de Portugal, fica a língua portuguesa sozinha no seu trânsito
28:21histórico e a Galícia também.
28:24Só que a Galícia, o galego, passa a ser falado só pelos camponeses, pelos lavradores,
28:30pelo povo.
28:31O povo é que vai salvar a língua.
28:33Aliás, o povo tem que salvar uma língua.
28:35Uma língua sem o povo é uma língua que pode desaparecer.
28:40Nesses momentos, muito pouca gente fala galego.
28:43Então, ser galego falante é como de 20 pessoas que estão na aula, três falam galego.
28:51E cada vez, pois, há menos gente que fala galego.
28:55Então, eu acho que é importante seguir falando galego para que não se perda o idioma.
29:00Uma língua é a tua salvação.
29:03Sem a língua, você não é nada.
29:05Você é um fantasma, você é um esqueleto.
29:09Você, quando domina uma língua ou usa plenamente uma língua, você, meu Deus, você passa a ir
29:16para o Hades, não para o Hades do inferno, o Campos Elíseos.
29:20Você vai frequentar os deuses, vai lá para o Olímpio.
29:25Olha, é uma coisa extraordinária.
29:28Eu gostaria de dizer isso para as crianças, para todo o Brasil.
29:32Você vai ser um ser liberto, a verdadeira, com a língua nas suas mãos.
29:38Ninguém mais vai dominar você quando você tem uma língua nas mãos.
29:41E você não se ilude tanto.
29:44Você não está sujeito ao universo das ilusões de uma forma absoluta.
29:49Não está, não.
29:50Embora a ilusão é matéria da arte, muito importante.
29:54Sim.
29:55A língua e a liberdade, né?
29:57Eu acho isso, entendeu?
30:00Eu penso, eu peço sempre, eu sou mulher de fé, eu peço a Deus que diga assim, que eu
30:04consiga entender a minha língua até o final da minha vida e que preste serviços à minha língua.
30:50A roupa do marinheiro não é lavada no rio.
30:57Ela vai ver no mar alto, as ondinhas de um navio.
31:04Marinheiro vai à pesca, vai à pesca da sardinha.
31:10Marinheiro deixa a pesca, vai buscar a laurindinha.
31:16Vai marinheiro, vai, vai, vai, vai buscar a laurindinha.
31:21Vai marinheiro, vai, vai, vai buscar a laurindinha.
31:31Quando o batel chegou à boca do rio, eram ali dezoito ou vinte homens pardos, todos nus,
31:41sem nenhuma coisa que cobrisse suas vergonhas.
31:46Traziam arcos nas mãos e suas setas.
31:50Vinham todos rígidos para o batel.
31:54E Nicolau Coelho fez um sinal para que eles pusessem os arcos.
31:58E eles os puseram.
32:01Ali não pôde haver com eles, nem fala, nem entendimento que se aproveitassem.
32:07Porque o mar quebrava na costa.
32:11Não pôde haver com eles, nem entendimento que se aproveitassem.
32:42Obrigado.
32:49Boa noite.
32:50Boa noite.
32:52Viva. Obrigado.
32:55Já agora, eu acho que é melhor começarmos por perguntar,
32:58quem é que tem dificuldade em entender-me?
33:01Não.
33:03Ninguém?
33:03Ali.
33:04Há pessoas ali com dificuldade em entender-me, sim.
33:08Ele perguntou quem tem dificuldade em entender-me.
33:13Opa, eu acho que, atenção, estes nossos encontros,
33:18desculpem, faça um sinal, se for continuar difícil, está bem?
33:23Estes nossos encontros têm, são sempre sobre a mesma coisa,
33:27que é um português e um brasileiro encontram-se e conversam.
33:30Sobre o que têm em comum, que é, supostamente, a língua.
33:39Embora, não sei, eu hoje, eu estive na praia, em Copacabana, e apareceu, para já, um senhor,
33:48estava a tentar vender-me uma coisa qualquer, e disse, patrão, fala português?
33:56E eu disse, olha, falo e agradeço, mas agora não tenho aqui dinheiro e, por isso, não lhe vou comprar
34:01nada.
34:02E ele disse, ah, fala português, mas não fala muito.
34:08E depois acrescentou com o seu melhor sotaque espanhol, fala só um pouquinho.
34:19Mas, eu acho que, realmente, é muito curioso que nós que viemos depois, conhecemos a língua depois, não é?
34:26Nós falemos ela com mais cuidado nas vogais, porque eu acho que tem no português, Portugal,
34:34uma austeridade vocálica.
34:36Vocês economizam as vogais.
34:39Nas palavras maiores, então, é muito difícil entender.
34:42Estão falando com um problema de colesterol, o que eles falam?
34:46Colesterol.
34:48Colesterol.
34:48Eu acho até difícil entender, às vezes, ou confortável, ou desenrescanso.
34:54Ao mesmo tempo, eu gosto muito de ouvir, porque eu me sinto falando outra língua mesmo.
35:00Eu me sinto, uau, eu sei falar russo.
35:03Um dos problemas, aliás, da língua, da variante europeia do português,
35:09é que quando a gente quer explicar a alguém que gosta dela,
35:14a gente parece que lhe está a arrosnar.
35:17Porque a gente diz, ame-te, ame-te, ame-te.
35:23Ame-te, é a coisa mais átona.
35:27Vocês fizeram muito bem, porque não só inverteram, como puseram, vocês dizem, te amo.
35:33É uma coisa festiva, não é?
35:35Ti, tem lá um ti, parece que já está a brindar.
35:40Ti amo.
35:42Nós dizemos, ame-te.
35:43Uma das coisas que nós gostamos, sempre que nos encontramos, é exprimir a claríssima superioridade da língua portuguesa
35:52relativamente a outras línguas bárbaras, como, por exemplo, o inglês e o francês.
35:59Línguas cujos falantes não sabem, por exemplo, a diferença entre...
36:03Eu não sei como é que é possível viver assim, atenção.
36:06Eles não sabem a diferença entre ser e estar.
36:10Para ingleses e franceses, ser e estar é a mesma coisa.
36:14I am here.
36:15I am Ricardo.
36:17Ser e estar é a mesma coisa.
36:19É impossível viver assim, sem saber a diferença entre ser bêbado e estar bêbado.
36:24São coisas muito diferentes.
36:28Há pessoas que dizem, ah, não, eles têm uma maneira de distinguir, que é...
36:32I'm drunk, I'm a drunk.
36:33Ok, então, e por exemplo...
36:36És bonita, estás bonita.
36:38Essa diferença decisiva.
36:41Decisiva.
36:42Porque estar bonita é um estado.
36:45Passageiro.
36:47Se não envolver todo um trabalho.
36:52És bonita.
36:53Ah, então tá bem.
36:54Então pede.
36:57Gosto de ouvir o português do Brasil, onde as palavras recuperam sua substância total.
37:05Concretas como frutos, nítidas como pássaros.
37:09Gosto de ouvir a palavra com as suas sílabas todas, sem perder sequer um quinto de vogal.
37:18Quando Helena Lanari dizia, o coqueiro, o coqueiro ficava muito mais vegetal.
37:36Às vezes, ela dizia, o coqueiro, o coqueiro, o coqueiro, o coqueiro, o coqueiro, o coqueiro.
37:50Mas na verdade ele não disse o que foi...
37:56Ele disse que você não fez isso porque...
38:04creia que esse povo tirou a vida.
38:06Quem disse que você não fez isso...
38:06É o que você fez isso?
38:15Ndiangangaanga wailizi.
38:18Musanzala,
38:19Kwa soto soba,
38:22Kikia mumono,
38:24Wa monekena,
38:26Wish.
38:29Nga kume nekena, ngana.
38:32Nga kume nekenee.
38:36Ngana,
38:38Monyangu mumu,
38:39Nga sangi kibono unu kiamutu.
38:43Ngana,
38:45Kini kia zuela kuma tatan ngudi,
38:49Usoba anga,
38:51Wa mwambela,
38:53Wish.
38:58Kumwenyu wami woso,
39:01Tunde uvalu kilu wami,
39:05Tunde kitangana,
39:06Kimametu wangisase,
39:09Ngevu wami kima kuma,
39:11Kibono unu kiti na kuzuela.
39:15Usoba weishana,
39:16Akadi,
39:17Saba nindengi.
39:19Anga,
39:20Waabu idisa,
39:22Nenejidiri kima,
39:23Kalakiki.
39:26Kanamutu,
39:27Wadimuka,
39:28Kijidiri kima.
39:30Usoba watumu,
39:31Kifushi kuyangu,
39:34Kijidiri kima,
39:36Kijidiri kima,
39:40Kijidiri kima,
39:43Kijidiri kima,
39:54Kutumiyria,
39:55Inyosopi,
39:57Wasange kibonongonyo kunaa.
40:00Dianga,
40:02Watangeli kibonongonyo,
40:04Wish.
40:07Kibonongonyo,
40:11Romeposa.
40:12Ele disse que por ela morreram.
40:18Ele disse que ele morreu ele.
40:23Mas ele disse que não havia nada.
40:30Ele disse que ele foi possível.
40:35Ele disse que para eles não vêm.
40:37Ele disse que ele lhe disse que ele fez.
40:44O Moogolense é o que há de encontrar a cunhante de Mungolos.
40:50O Moogolense vive com o redor do Mungolense,
40:50entre todos os negros.
40:55E em seu caso ilegal.
40:59É o que muita gente possa viver com a cunha de sabão.
41:04Mas, se for, há de ter deudar a cunha de violência...
41:08A CIDADE NO BRASIL
41:38Ago, ago, ago, ago nilê.
41:46Ago, ago.
41:47Ago, ago, ago nilê.
41:49Ago, ago, ago nilê.
41:50Ago, ago, ago nilê.
41:53Ago, ago, ago nilê.
41:55Puxa vida, que maravilha.
42:00O Estevam falou aqui com ela,
42:02que comentou...
42:03...que isso vai atrás décadas.
42:05É bem grave, né? Eu me lembro do meu casamento que você foi pra gente soltando você, mas eu me
42:11lembro de novo.
42:11É, todo mundo pra feira, passavam mesmo.
42:13Eu me lembro que, cedo, você foi pra África, ficou um tempo, depois voltou, tornou aí, depois foi para...
42:21Em 1960.
42:23Dali em diante eu nunca mais vi ida.
42:25É, é muito curioso, né?
42:28Porque eu falo ao povo de King Mulder, a língua falada de Angola.
42:32Só que você não é algum.
42:34Camba de Amadiyama de Amuxim.
42:36Qual a palavra linda, Amuxim? É coração, eu acho linda essa palavra.
42:40Camba de Amadiyama de Amuxim, é do meu querido amigo.
42:44Camba de Amadiyama é uma língua que influenciou muito a nossa pronúncia,
42:51porque as línguas angolanas são línguas de compasso binário.
42:59Não tem sílaba fechada pro consoante.
43:03Como você diz, óbá, ia lá e via, ele tá no becalco, óbá em lá,
43:09quer dizer, o grande rei em lá é rei.
43:11É o grande rei em urubá, isso.
43:14Óbá em lá, aí ele faz óbá, ia lá e via.
43:18É.
43:19Não foi?
43:19Ele fez um derrubá em cima das vogais, entendeu?
43:24Óbá, ia lá e via.
43:28Óbá, ia lá e via.
43:30Óbá, ia lá e via.
43:32E ultimamente eu tenho ouvido falar muito mais em você, Iada,
43:36por causa de pessoas do movimento negro na Bahia,
43:39da academia, pessoas que se interessam por esse negócio,
43:43pessoas que eu conheci eram mulatos, mas nem eram mulatos,
43:47depois ficaram mulatos, hoje são negros.
43:49Hoje são negros.
43:50E agora preto, né?
43:53Eu gosto que falava mais preto do que negro.
43:56Em relação ao que eu dirigi o Centro Estudos Orientais,
43:59na UFLA, durante oito anos.
44:03E eu sofri horror da universidade,
44:06dizendo que eu tava olhando e dizendo que eu tava olhando
44:08a universidade.
44:09Com esse negócio de línguas africanas.
44:12Línguas africanas.
44:13Línguas africanas.
44:14Só que botou o pai de santo pra dar aula na universidade,
44:18pelo amor de Deus.
44:20Ele era um centro de estudo e de extensão.
44:22Eu tinha que aproveitar e precisar da negra baiana,
44:25no Centro Estudos Africana, isso.
44:27Eu estava vulgarizando a universidade.
44:30É, demais, né?
44:31Demais.
44:32E, por outro lado, o movimento de lei,
44:34que tinha sido fundado em 1980,
44:36eu participei até da fundação disso.
44:39Algumas áreas mais radicais me acusavam de arrua branca
44:43ocupando lugar de negro.
44:44Pensei, muito bem, então eu vou sair e vocês viram
44:47ocupar o mesmo lugar até resolvido.
44:50Quando eu lia sobre a senhora,
44:53eu falei, vou buscar no YouTube.
44:55Aí quando eu vi a senhora assim tão branquinha,
44:58dá um se surpreender.
44:59É, é, é.
45:00É, todo mundo se surpreende.
45:03Teve um aluno da minha, uma orientada,
45:05que ali estou na sala me procurando.
45:07Então, mas a senhora é branca, professor.
45:11Eu digo, não, eu pareço branca.
45:21Você sabe tanto esse português. O que você fez?
45:24Eu sempre gostei.
45:26Eu tive um professor em Santo Amaro, de português,
45:30no ginásio em Santo Amaro, que era muito bem.
45:33Então, eu adorava.
45:35Ele era um pouco temido,
45:36porque ele fazia aquele negócio de análise lógica, não sei o quê.
45:41Mas eu gostava.
45:42Aquilo me atraía.
45:44E ele era maravilhoso.
45:46Ele, inclusive, era poeta.
45:47Ele escrevia poesia, né?
45:51E eu musiquei até um poema dele quando eu era menino,
45:55em Santo Amaro, no piano, assim.
45:56E Betânia veio a gravar.
45:59Né?
46:00Professor Nestor.
46:02Ah, canta pra gente.
46:03Passa o tempo e a vida passa
46:05E eu de alma ingênua acredito
46:09Num sonho doce infinito
46:12Plenitude, elevo e graça
46:16Que sem tortura ou revolta
46:20Estou cantando ao luar
46:22Vamos dar a meia volta
46:26Volta em meia
46:27Vamos dar
46:28Essa é a primeira estrofa.
46:30E quando eu me mudei pra Salvador,
46:31porque eu peguei uma professora
46:33que me enviou comigo, não gostava de mim,
46:35me deu nota baixa.
46:36Quase eu perco o ano por causa de português.
46:39Eu pensei assim, eu tô doido.
46:40Eu vou perder o ano por causa de português, entendeu?
46:45Eu não vou passar em português,
46:47que é a matéria que eu mais gostava.
46:49Aí teve uma prova oral.
46:52E na prova oral vinha, no fim do ano,
46:55vinha professores convidados.
46:58E eu fiz...
46:59Quem me arguiu na prova oral foi
47:03Dona Candolina, que era excelente,
47:07que era preta e era a melhor professora de português de Salvador.
47:11E ela me adorou.
47:12Na hora me deu dez.
47:14E aí me salvou.
47:16Você sabe que havia duas professoras de português mais admiradas.
47:22Dona Belmina e Dona Candolina.
47:24Ambas eram pretas.
47:26Ambas eram pretas.
47:28Ambas eram as duas melhores, mais respeitadas, mais admiradas e mais temidas professoras de português de Salvador.
47:36Ambas eram pretas.
47:38Belmina até reprovava todo mundo.
47:41Ela reprovava.
47:42Pra você passar com Dona Belmina, tinha que se virar.
47:46Era o terror.
47:47Era o terror.
47:47E Dona Candolina era muito exigente também.
47:49O nível era muito alto.
47:51Agora, é interessante porque isso houve...
47:55Não há, assim, professores brilhantes negros que tivessem saído como naquela época.
48:01Por causa da escola pública.
48:02É, por causa da escola pública.
48:04Entendeu?
48:04Atribua isso.
48:06Eu tenho certeza que é isso.
48:08Aliás, a gente tinha um certo desprezo pelas escolas privadas.
48:11Ah, aquela PP.
48:12Pagou, passou.
48:12Pagou, passou.
48:14Entendeu?
48:14Mas não era muito respeitado intelectualmente o ensino privado.
48:20Entendeu?
48:21E hoje é o contrário.
48:22É o contrário.
48:23Hoje, a escola privada que é...
48:27Isso.
48:28Isso.
48:28Isso.
48:29Isso discrimina inclusive racialmente.
48:31Porque a maioria dos negros é mais pobre.
48:33É.
48:35É.
48:40É.
48:46É.
48:48É.
48:59É.
48:59É.
49:13É.
49:15É.
49:23É.
49:27É.
49:28É.
49:29É.
49:29É.
49:30overtorno.
49:30É.
49:30É.
49:30É.
49:44Alto.
49:45Tanto que tem uma saudação a Yerubá, que é de boa noite, que é kassumureu, kassumureu, sum, sumureu, quer dizer,
49:52durma bem.
49:53Agora, se você, em vez de dizer sum, dizer sum, quer dizer, vai cagar bem.
50:02Veja, muda muito, né?
50:06Fica horrível.
50:07Então, você tem que ficar afinado, para acabar falando.
50:11É muito africano, nossa visão de vermelho, é muito africano, os gestos, a forma de ser, de viver, de comer,
50:23o de vermelho também.
50:29O Rio de Janeiro não é para Maduro, está ligado?
50:32Aqui é outra parada.
50:34Aqui é a central do Brasil.
50:35Tentar contra nós é maluquice.
50:37Vai ali, pega uma água, pá, vai lá na Zona Sul, pá, vende o negócio, pá, faz o corre e
50:42volta para casa com o carvão, né, para a criança, para a dona Maria, pá, que é o bagulho ficar
50:47bonito, tá ligado?
50:48Porque se não pá, parceiro, o bagulho fica doido, entendeu?
50:51Tem que chegar, mano.
50:52Esquece.
50:53Se não chegar, alguém vai chegar no teu lugar, meu cumpadi, tá ligado?
50:57Não, mas não faz por onde, não faz nada.
50:59Não, pô, não quer fazer o corre, aí não tem um carvão para chegar junto no bagulho.
51:03Pô, domingo, chega de manhã, domingo, chega de manhã, domingo, meidinho, cara, eu cheguei, acontece, acontece, acontece, normal, cheguei, deu
51:08algum problema.
51:09Fui tomar banho de piscina, só estava bonito, esquece, esquece, fui tentar almoçar, tu quer almoçar ainda, esse horário?
51:17Fui na minha mãe, minha mãe, aqui também não, hein, cada um topar a queda, se ele não abrir, o
51:21problema é teu, é, falou para mim.
51:22Ah, vou fazer o quê? Vou fazer o quê? Falei, o que é isso, mãe?
51:26Mãe, isso aí está dentro da senhora, mãe, pelo amor de Deus, que neurose é essa comigo?
51:29Jogou sujo, mano.
51:30Ah, eu fui na minha mãe.
51:31Vagabundo ver nós, aí como? Pá, bem arrumado, nossos filhos como? Tipo, maneirão, tá ligado?
51:36Mas não sabe a correria que é do bagulho, tá ligado?
51:40Correria é cada um com o teu esquema, parceiro, para se virar, entendeu?
51:43Não tem paraquera, só tem paraquera, só tem paraquera, não abriu, o problema é teu, mano.
51:46Ah, sai o teu, aí.
51:48Tenta com nós, não, que é outro bagulho.
51:51Já é? Então se liga no papo, se liga na responsa que o seu bagulho não pá, entendeu?
51:57Pega avisando paraquedas, hein?
51:59Pega avisando paraquedas, hein?
52:01Pega o teu paraquedas sozinho, porque na hora de pá, parceiro...
52:04Mas não tem sã no paraquedas.
52:05Mas não tem sã no paraquedas.
52:15E agora eu vou falar
52:17Do jeito do cair, tira ele
52:36O jeito de falar do caipira é diferente, a gente é mais honesto no jeito de falar.
52:40O caipira, a gente já fala meio atrapalhado, o jeito que vem já fala, né?
52:46A gente fala mentira, a verdade é que está
52:51O caipira é a pintura do nosso palavreado
53:02O que é que você acha que eu devo fazer, amiga?
53:04Não deve ficar bem.
53:05Eu devo levar ele para o melê, fazer o casadoce, me cocó.
53:09É, seu rocote azuelado, né, bicho?
53:10Aqui o suje é azuelado, é babado com essa cara sua de ilesa.
53:13Eu sofro com esses fofres, me azuelam.
53:15Ela adora ser azuelada.
53:17Pois é, porque ela adora azuelada.
53:18A gente tem que bater o juro no rocó do bem.
53:21Mas tu tem o o juro, ó.
53:30Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luiz de Camões
53:34Gosto de ser e de estar
53:36E quero me dedicar a criar confusões de prosódias
53:39E uma profusão de paródias
53:41Que encurtem dores e furtem cores como camaleões
53:44Gosto do pessoa na pessoa
53:47Da rosa no rosa
53:48E sei que a poesia está para a prosa
53:51Assim como o amor está para a amizade
53:54E quem há de negar que esta lhe é superior
53:57E quem há de negar que esta lhe é superior
54:01E deixa os portugais morrerem a míngua
54:05Minha pátria é minha língua
54:07Fala, mangueira, pau!
54:10Flor do lado do sambol, do mundo
54:12Pois a América Latina e pó
54:14O que quero que podes animar
54:18Flor do lado do sambol, do mundo
54:20Dos América Latina e pó
54:22O que quero que podes animar
54:26Flor do lado do sambol, do mundo
54:28Dos América Latina e pó
54:30O que quero que podes animar
54:34Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
54:38E o falso inglês relaxe dos sufistas
54:40Sejamos imperialistas
54:43Sejamos imperialistas
54:43Cadê?
54:43Sejamos imperialistas
54:45Vamos na belota de que são tchutchu de Carmen e Miranda
54:48E que o Chico voar de Holanda nos resgate
54:52Checkmate
54:53Explique-nos, Luanda
54:56Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo
54:59Sejamos o lobo do lobo do homem
55:01Lobo do lobo do lobo do homem
55:03Adoro nomes
55:04Nomes de enhanco
55:07De coisas
55:08Como rã e imã
55:09Ima, imã, imã, imã, imã, imã, imã, imã
55:12Nomes de nonos
55:15Como Scarlet, Moon, The Chevalier
55:18Glauco Matoso
55:20Yarrigo Barnabé
55:22E Maria da Fé
55:24Yarrigo Barnabé

Recomendado