00:00Estamos de volta com o radar desta terça-feira. O Brasil encerrou mais um ano com crescimento,
00:06mas já dá sinais de desaceleração. Os dados do IBGE mostram uma economia ainda sustentada
00:12pelo campo, enquanto indústria e serviços avançam com menos força. Em um cenário global
00:18mais incerto, com tensão geopolítica e pressão sobre commodities, a dúvida é até que ponto
00:24este ritmo se sustenta e quais os riscos para frente, porque o PIB de 2025 fechou em 2,3%
00:33e 2024 foi 3,4%. Então vamos analisar esse cenário com a Silvia Maria Matos, ela que é pesquisadora
00:41do Instituto Brasileiro de Economia da FGV. Oi Silvia, muito bom falar contigo, seja bem-vinda
00:48aqui ao Radar, tudo bem? Tudo bem, boa tarde a todos, é um prazer falar com você e com
00:54todos a audiência. O prazer é todo nosso de tê-la aqui conosco. Ô Silvia, nós tivemos
01:00um PIB de 2025 fechando em 2,3% em linha com o que o mercado esperava, né? A gente
01:08tem
01:08uma projeção para este ano um pouco menor, 1,8%. A gente pode falar que foi ruim, apesar
01:14da comparação com 2024 ou não, já que ficou em linha e nós tivemos alguns percalços
01:19aí pela frente, como o tarifácio de Donald Trump e também problemas em relação ao
01:24agro por causa do clima, safra quebrada. Como que você avalia esse número do PIB de
01:282025?
01:31Bom, acho que é importante separar aspectos positivos e negativos. Sempre tem notícias
01:35positivas e negativas, né? Sempre o economista gosta de mostrar os dois lados. Acho que primeiro
01:41em relação a aspectos positivos, como já foi mencionado, a agropecuária cresceu quase
01:4512% e a indústria extrativa quase 9%, que são setores que exportam, né? São setores
01:51que mostram uma força ainda da demanda externa para o crescimento. Isso é muito
01:55bom, né? São setores que não geram inflação, ao contrário, até ajudam a
01:59desinflação, principalmente a agropecuária. E é interessante notar, né? Que a força
02:05da economia brasileira, né? Ou seja, setores de commodities, a despeito de toda essa
02:09guerra comercial, mostrou-se uma resiliência muito grande, porque são bens necessários,
02:14né? O próprio Estados Unidos acaba sofrendo, reduzindo a importação de commodities, né?
02:19Então, acho que essa é a primeira notícia boa, né? Que o Brasil foi menos afetado que
02:23outros países, por exemplo, como o México, né? Eu acho que isso a gente tem que destacar.
02:28Mas, por outro lado, a gente sabia que a economia brasileira teria que desacelerar. Como foi
02:33mencionado, 2024 foi um ano, não só o PIB de 3,4 foi muito forte, mas a composição do
02:40PIB foi muito mais de demanda doméstica. Ou seja, o consumo cresceu, o consumo das
02:47famílias, 5,1. O que aconteceu ao longo de 2024, a inflação acelerou. Então, a gente,
02:5325, podemos dizer assim, foi a consequência dos excessos do passado, porque o Banco Central
02:59teve que subir até 15% a taxa de juros para desacelerar a economia. E mesmo assim, a economia
03:04ainda tem fôlego, né? Então, acho que nesse sentido, nós pagamos, por exemplo, um preço
03:10maior do que a gente poderia pagar se a gente tivesse um pouquinho mais, talvez, de uma coordenação
03:15da política fiscal e monetária, como a gente gosta de dizer. Talvez a gente precisaria
03:19de tanto taxa de juros, né? Então, acho que nesse sentido, e é ruim, por quê? Porque
03:24alguns setores são mais afetados. Nós vimos, por exemplo, a indústria sofrendo bastante.
03:28Não foi uma questão de demanda externa, foi demanda doméstica que desacelerou. O setor
03:33de comércio, de bens duráveis, que dependem de crédito, desaceleram bastante. Esse é
03:37o efeito da política monetária. Então, a política monetária está fazendo efeito
03:41na economia brasileira. Então, o consumo, né? Das famílias, que cresceu 5,1, cresceu
03:471,3 e a inflação cedeu. Então, esse é o aspecto positivo, que a despeito da desaceleração
03:54valeu a pena, né? No sentido que a inflação hoje, ela está bem melhor, numa posição bem
03:58melhor do que estávamos há um ano atrás, um ano e meio atrás. Então, sempre, né?
04:02Tem uma notícia ruim e uma notícia boa.
04:05Silvia, o agro acabou puxando, mais uma vez, o resultado
04:09do PIB, esses 2,3%
04:12em 2025. Mas eu recebi uma informação agora há pouco
04:15da consultoria Argos
04:17de que o preço do fertilizante
04:20já subiu no day after dos bombardeios do Oriente Médio.
04:23Então, olha, o preço do adubo, da ureia
04:26principalmente, né? A gente importa quase 70%
04:28da ureia e a maior parte vem do Irã, né?
04:32E esse adubo já aumentou 15% hoje em relação ao que era praticado na sexta-feira.
04:39Isso pode ter aí um reflexo também no agro e pode incomodar ali no fechamento do PIB?
04:45Bom, sem dúvida, 26 já seria um ano ruim
04:48para agro, tá? Infelizmente.
04:50Por questões climáticas, sem dúvida, é um ano pior
04:52do que foi ano passado.
04:54Mas também a gente sabe, quando a gente tem uma super sacra,
04:56os preços cedem e o próprio
04:58produtor não tem tanto ânimo, né?
05:00Para aumentar a produção tanto no ano
05:02seguinte. Então, esse ano, já
05:04a gente teria talvez um agro mais em torno
05:06de zero, até levemente negativo.
05:09Agora, a gente tem um efeito,
05:10um choque de oferta, que a gente
05:12diz, maior ainda, né? Para esse
05:14setor, como bem mencionado.
05:16Tem esse, o custo, né?
05:18Dos fertilizantes. Nós vimos isso lá na época
05:20da Guerra da Ucrânia, né?
05:22Como foi difícil, né? Os custos sobem
05:24muito. Então, o produtor rural, que já
05:26estaria sofrendo, né? Esse ano, tem
05:28esse impacto adicional. E tem que
05:30lembrar também que o Irã, hoje,
05:32mais ou menos, o mercado do Irã
05:34consome mais ou menos um quarto
05:36do milho brasileiro. Todo um quarto do milho
05:38brasileiro que foi exportado no ano passado
05:40foi consumido pelo Irã.
05:42Então, o setor, né? De produção
05:44de milho, que já está, né?
05:46Numa situação, digamos, não tão favorável
05:48como outros períodos, sofre
05:50também, tem o risco também de a gente
05:52ter reduzido uma demanda muito forte
05:53em pouco tempo. Não sabemos a extensão
05:55do conflito, mas do ponto de vista
05:57para a agropecuária, temos esse
05:59efeito. E lembrar também que o
06:01diesel, né? O diesel, ele acaba
06:03afetando todo o preço do frete
06:05doméstico, aumento do preço do
06:07petróleo, né? A Petrobras até pode
06:09segurar um pouquinho a gasolina, mas o
06:10diesel, com certeza, vai acabar sendo
06:12repassado. Então, isso aumenta o custo
06:15do frete e os preços, né? Dos, não só
06:17dos alimentos, mas também todos os
06:19bens industriais. E a gente está vendo
06:21também o efeito no câmbio, na taxa de
06:22câmbio, que é negativo também para o
06:24combate à inflação. Então, eu diria
06:26que já era uma notícia, né? De um PIB
06:27mais fraco esse ano e agora com essa
06:30guerra, com certeza, e a extensão
06:33dessa guerra, que é muito importante
06:35se demorar muito e nós tivermos
06:37realmente esses efeitos mais
06:39duradouros, com certeza terá um efeito
06:41ainda mais negativo na economia, não
06:43só brasileira, na economia mundial, é
06:45mais inflação e menos crescimento. Por
06:47isso que é um resultado muito ruim.
06:50O Silvio e a gente falam de
06:51fertilizante, do milho, mas em
06:53contrapartida também falávamos agora
06:55você do petróleo, né? Nós temos um
06:57problema aí no estreito de Hormuz,
07:00né? Com o Irã e algumas refinarias ali
07:02no Oriente Médio, principais refinarias
07:04no Golfo Pérsico sendo ali atingidas e
07:07até fechadas. Isso então pode
07:10beneficiar o setor aqui no Brasil, com
07:12uma demanda maior pelo petróleo, e que
07:15já foi, né? Um ano importante, 2025, o
07:17setor de petróleo, refinaria também
07:19ajudou, contribuiu muito para o PIB. A
07:22gente pode, em contrapartida ao agro, o
07:23petróleo ajudar então o PIB?
07:27Com certeza, né? A gente falou, né? Da agro
07:30sendo menos afetada, né? Pela guerra
07:32comercial, quando a gente compara com
07:33outros países, e o Brasil, há dez anos
07:36atrás, ele era o importador líquido de
07:39petróleo, hoje a gente é exportador
07:40líquido, o petróleo parece como um
07:42insumo, né? Um bem, né? Que a gente
07:44exporta, que é uma força da economia
07:46brasileira. Então, nesse aspecto, ele é
07:49positivo, sem dúvida, e se o conflito, né?
07:52A gente sabe que o Oriente Médio é uma
07:53região muito mais complexa, mesmo tendo
07:56desdobramentos das guerras, mas pode ter
07:57efeito sobre a produção local, né? O Irã é um
08:00exportador, como foi mencionado, né? No bloco
08:02anterior, de alguns países, dependendo da
08:04região, sem dúvida, a gente pode se
08:06beneficiar diretamente por mais
08:08investimentos e maiores, enfim, mercados
08:11para o petróleo brasileiro, mas também
08:13pelo preço do pariu. Isso é muito bom para
08:16a Petrobras, mas também para a
08:18arrecadação. Esse é um aspecto muito
08:20importante, o setor do petróleo arrecada
08:22muito, através de royalties, dividendos,
08:24participações especiais e ajuda a pagar as
08:27contas do setor, né? Da arrecadação e ajuda
08:30a pagar as contas de tantos gastos públicos
08:32que nós temos. Então, ajuda um pouco o
08:34fiscal. Então, é importante, né? A gente
08:36diz, olha, claro que uma guerra é super
08:38ruim, a Petrobras, de alguma forma, vai
08:40ter que repassar, o câmbio se desvaloriza,
08:43mas, pelo menos, a gente consegue uma
08:45atenuação desses efeitos negativos, porque
08:46é uma força da economia brasileira, não
08:49só para a economia, para a atividade, mas
08:52também para a arrecadação, né? E ajudando o
08:54fiscal, que é um ano tão difícil, né? 26 e 27,
08:57as contas públicas. Então, é um setor que
09:00realmente tem um impacto muito relevante
09:02em diversos aspectos e eu acho que, nesse
09:04momento, acaba atenuando, né? O efeito
09:07negativo, que imagine um país que é
09:09importador líquido de petróleo. Esse, sim,
09:11sofre um choque muito maior do que a
09:13economia brasileira.
09:14Silvia Maria Matos, queria muito
09:16agradecer a sua participação aqui no
09:18Radar. Um grande abraço para você e uma
09:20ótima terça-feira.
09:22Eu que agradeço. Boa tarde a todos.
09:25Boa tarde.
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