00:00A escalada militar no Oriente Médio já começa a pressionar a logística global.
00:04O aumento do prêmio de risco encarece seguros marítimos, eleva fretes e pode afetar cadeias de exportação e importação, inclusive
00:11do Brasil.
00:12Para entender esse efeito dominó no comércio internacional, eu converso nesse momento com a Lígia Maura Costa, que é especialista
00:19em direito internacional.
00:21Lígia, seja muito bem-vinda.
00:25Boa tarde, é um grande prazer estar aqui com você e com o seu telespectador. Boa tarde.
00:31Bom, eu acho que nesse exato momento, talvez o maior risco para o comércio global seria o aumento do frete
00:38devido a essas dificuldades com o petróleo, não é isso?
00:44Sem dúvida, o aumento do frete e o aumento também dos seguros, né?
00:48Porque o aumento do prêmio de seguro, já que as seguradoras vão aumentar o custo em função do risco de
00:54guerra, do risco de conflito, especialmente no distrito de Hormuz, que é o centro nevrálgico, um dos centros nevrálgicos do
01:03comércio internacional.
01:04Então, eu diria que é frete, mas também é seguro. E com isso, você aumenta o custo de financiamento para
01:12o comércio internacional.
01:14Lígia, inclusive, quando a gente fala sobre seguros, sobre prêmio, tem muita gente que, inclusive, não entende o prêmio, principalmente.
01:22Você poderia explicar um pouco isso para a gente e também o quanto que isso acaba encarecendo uma operação e,
01:27às vezes, até impedindo a operação de um navio, né?
01:30Porque tem empresa que não quer arcar com o seguro.
01:34Sim, porque muitas vezes você pode perder um navio inteiro, ou seja, o seu custo é total.
01:40Então, tem seguradoras que simplesmente preferem não mais assumir o risco, renegociar, cancelar a pólice de seguro, pagar a rescisão
01:49por esse cancelamento.
01:50Ou seja, o custo é muito difícil de você dar um número preciso em relação a isso.
01:55E, então, esse conflito no Golfo, principalmente no estado de Hormuz, é um risco geopolítico muito grande.
02:03E as seguradoras, se viu o caso de seguradoras que já cancelaram a pólice de seguro ou, então, renegociam em
02:11preços, cujo preço final da mercadoria vai ser extremamente mais caro.
02:15Então, ou seja, é uma imprevisibilidade que vai de encontro à eficiência do comércio internacional que trabalha em cadeias globais.
02:23Vamos falar de um outro desdobramento possível dessa crise.
02:27Você acredita que esse encarecimento do transporte internacional, ele pode chegar rapidamente ao preço das commodities que são exportadas pelo
02:34Brasil, como, por exemplo, milho e soja?
02:38Sem a menor dúvida.
02:39Porque esse aumento para o Brasil não vai ser um ponto, não será um ponto positivo apenas, porque nós temos
02:47a Petrobras, nós estamos fora da zona de conflito, ou seja, nós somos exportadores de petróleo fora da zona de
02:53conflito.
02:54Então, vai ter um impacto positivo na nossa balança comercial, mas no água, nas commodities, soja, milho, açúcar, todos esses
03:04são commodities que necessitam de fertilizantes.
03:08Os fertilizantes são insumos importados e os insumos importados vão subir.
03:13Então, o que acontece?
03:14Eu vou ter, sim, de um lado, um ganho com o petróleo via Petrobras, mas, por um outro lado, eu
03:21vou ter um custo muito maior com os fertilizantes, com o transporte, com o frete dessas mercadorias,
03:27que somos também exportadores de alimentos, um dos maiores, sim, o maior exportador de alimento do mundo.
03:32Então, esse custo de produção vai impactar muito o preço da mercadoria, tanto para a exportação, como também para o
03:40mercado interno.
03:41Além do que, eu imagino que, se tivermos essa instabilidade, continuar por muito tempo, pode afetar, inclusive, decisões de plantio,
03:52já que os preços dos alimentos ou os preços dos fertilizantes podem modificar as decisões prévias de como seria o
04:02plantio das próximas safras.
04:04Luísia, a gente está falando, inclusive, esse timing aí.
04:08Agora, hormuz sendo fechado ou impossibilidade das navegações não passarem por ali.
04:17Em quanto tempo a gente sente a falta desse fertilizante?
04:20Em qual cultura estaremos trabalhando e que vai ser afetada?
04:25Por acaso, as de inverno próximas agora ou não?
04:28Como a aveia, o trigo?
04:33O Golfo, o Estreito de Hormuz, a gente tem que lembrar, é um centro nevrálgico do comércio internacional.
04:40Por quê?
04:40Porque ele transporta, não é tudo ele, ele transporta petróleo e gás liquefeito.
04:45Mas não é só isso, ele é uma rota marítima muito importante para o comércio internacional e que afeta todas
04:51as outras e mais rotas.
04:53Então, o fechamento de hormuz tem um impacto muito grande em diversos outros insumos.
05:00Não são só nos fertilizantes, mas tem também insumos industriais que transitam por essa rota.
05:06Então, o mercado acaba reagindo muito fortemente a qualquer interrupção no Estreito de Hormuz.
05:13Porque isso gera um efeito em cadeia no comércio internacional.
05:17O que a gente costuma dizer que se trata, na verdade, de uma bola de neve.
05:22A hora que começa e que é muito difícil você prever com exatidão o que vai efetivamente acontecer.
05:30Mas se sabe que vai ter um aumento e esse aumento vai ser repassado ao final para o consumidor.
05:41Gerando uma inflação não só a nível interno, mas inclusive uma inflação a nível global.
05:46Com custos muito maiores e mais acertados.
05:49Até acredito que, na realidade, o aumento desses preços já deve estar começando até do fertilizante, né, Lígia?
05:55Mesmo sem o impedimento ainda.
05:57Sem dúvida.
06:02O comércio internacional, ele não espera o fato acontecer, né, e o mercado não espera o fato acontecer para depois
06:09precificar.
06:10A mera ameaça, o mero risco já faz com que o mercado já precifique e já se antecipe.
06:17Então, este preço já foi aumentado, já foi refletido.
06:20Então, isso a gente já vai começar a ver nas bônus do supermercado em breve, se já não estivermos vendo.
06:26Eu entendo o ponto de vista que você colocou aqui, Lígia, e também do Pablo, né, sobre esse risco sistêmico,
06:31né, que tudo passa pelo petróleo.
06:33Mas no caso específico dos fertilizantes, o Irã não pode simplesmente exportar por outros portos do sul?
06:39Porque o Estreito de Hormuz, ele impede principalmente a saída do petróleo de outros países ali, principalmente dos Emirados Árabes
06:45e da Arábia Saudita.
06:46Mas no caso do Irã, que tem um território muito maior, que tem outros portos no sul do país, esses
06:51portos não poderiam ser usados para escoar a produção de fertilizante, por exemplo?
06:57Então, mas aí nós entramos num outro ponto que muitas vezes é esquecido, as chamadas sanções secundárias.
07:02Nada impede que os Estados Unidos ponham as sanções secundárias a empresas e bancos que operem com o Irã.
07:10E isso, o custo será muito maior.
07:12Lembre que algum tempo atrás o próprio governo norte-americano havia já ameaçado em aumentar tarifas de quem continuasse a
07:21negociação com o Irã.
07:22Então, ou seja, essa alternativa não seria uma boa alternativa, porque as chances do Trump fazer isso são grandes, além
07:32do que sanções secundárias é algo que todos temem e muito.
07:37Tá certo, eu conversei aqui com a Lígia Maura Costa, que é especialista em Direito Internacional.
07:42Lígia, muito obrigado por participar dessa edição com a gente.
07:45Obrigado, Lígia.
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