00:06O Oriente Médio é um mercado estratégico para o Brasil, segundo o estudo do INSPER AgroGlobal.
00:13Em 2025, a região foi o destino de 12 bilhões 400 milhões de dólares em exportações do agronegócio brasileiro,
00:21o equivalente a 7,4% das vendas externas do setor.
00:25Entre os principais destinos estão Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
00:30E eu vou conversar agora sobre o estado de alerta do agronegócio.
00:34A conversa é com o Bruno Luque, que é diretor técnico da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil,
00:40a CNA.
00:41Bruno, bom dia, seja bem-vindo ao Real Time.
00:45Bom dia, Natália, tudo bem?
00:46Tudo certo por aqui, tudo tenso por aí, eu imagino, com todas essas preocupações, Bruno.
00:52Conta para a gente que impactos vocês já mapearam, que o conflito no Oriente Médio já trouxe para o agronegócio
00:58brasileiro?
01:00Bem, acho que o ponto mais crítico é em relação aos insumos que nós somos dependentes, principalmente fertilizantes e o
01:06diesel.
01:07O esteto de Hormuz, como muito já colocou, é uma região que passa 20% do petróleo, do gás que
01:15se utiliza no mundo.
01:16E um dos produtos que nós utilizamos de larga escala que vem da região, que é a ureia, que é
01:22um fertilizante nitrogenado usado no campo brasileiro.
01:26O Brasil hoje é altamente dependente da importação de fertilizantes, nós importamos algo em torno de 85% do que
01:32a gente usa.
01:33E da região do Irã e de Oman, vem 18% da ureia que nós utilizamos no Brasil.
01:40Essa ureia, o preço que nós temos desde o início do conflito até sexta-feira, que foi a última cotação,
01:45já tinha aumentado 33% em cima de uma base que já vinha elevada.
01:50O ponto que nós temos de atenção é que, nesse momento, o produtor já está utilizando.
01:55Então, não tem necessidade de ter uma carga imediata que chega ao Brasil, porque já foi comprado.
01:59E é na segunda safra de milho que se utiliza o maior volume de ureia no Brasil.
02:05Porém, já se inicia as compras para a safra 26, 27, que começa a ser plantada no segundo semestre e
02:12vai ter o seu pico no ano seguinte.
02:14Então, vamos dizer assim, nós teríamos um tempo aí, em algumas semanas, para avaliar se o conflito vai durar mais
02:19algum tempo,
02:20essas cotações vão cair, para o produtor realmente tomar a decisão de compra.
02:24Então, é um produto que, de certa forma, a gente consegue aguardar algumas semanas.
02:28Porém, o diesel, esse não.
02:30Esse é o efeito que está sendo já de imediato.
02:32Os produtores, nesse momento, estão colhendo a safra de soja ou plantando a segunda safra, no caso, do milho e
02:40de outras cadeias e outras culturas.
02:42Estão fazendo estratos culturais.
02:43Então, tem uma demanda intensa do uso do diesel no campo.
02:48E, conversando com os produtores ao longo da semana passada,
02:51a gente já tem identificado aumento nas bombas na casa de 1,20 até 1,50 em algumas regiões.
02:56Então, isso tem gerado um alarde muito grande do setor pela demanda desse insumo, nesse momento,
03:03que o produtor não pode esperar para fazer as colheitas.
03:06E, em alguns casos, até colocaram que poderia estar faltando o produto.
03:10Inclusive, nós conversamos com a ANP hoje pela manhã.
03:13Ela tem acompanhado de perto essas informações no Brasil inteiro
03:17e relatou que não há nenhum tipo de possibilidade de falta nesse curto prazo.
03:22Inclusive, vai notificar algumas distribuidoras que possam estar segurando o produto
03:26para ter algum ganho de preço, de repasse do preço.
03:30Então, é um cenário crítico, nesse momento,
03:32o que mais me preocupa é, realmente, essa questão do diesel
03:35em relação ao contexto do preço do barril do petróleo,
03:39que passou de 100 dólares nesse último final de semana.
03:43Olha só, Bruno.
03:45Então, a gente tem, basicamente, três itens aqui.
03:48Por favor, você me corrija se eu estiver dizendo alguma coisa errada.
03:52Mas, então, tem a questão dos produtos que são importados,
03:56basicamente, fertilizantes e insumos ligados a fertilizantes
04:00que vêm do Oriente Médio para cá.
04:02Exportações nossas, então, produtos do agro que são vendidos do Brasil
04:07e enviados para essa região.
04:09E o diesel, que, globalmente, os combustíveis,
04:12todos derivados do petróleo, que são afetados por essa cotação.
04:15E aí, nesse trio, você diria que a questão do custo do combustível
04:21é o que mais pega agora.
04:22Qual que é o peso disso no preço?
04:25Bem, o problema é que, justamente, nós estamos utilizando esse produto.
04:29É um produto de larga escala no Brasil,
04:32porque não só nas operações de campo,
04:34que você usa isso com as máquinas agrícolas,
04:37todo o insumo que chega na propriedade
04:39ou que nós tiramos dos produtos agropecuários
04:42que saem da propriedade para os grandes centros, para exportação,
04:45depende do transporte rodoviário, que também usa o diesel.
04:49Então, a alta no diesel, hoje, ela encarece não só
04:52as operações mecânicas dentro da propriedade,
04:55mas todo o custo logístico, não só do campo, mas como do Brasil.
04:58Então, se houver uma escalada nesses preços,
05:02nós vamos estar importando um item de custo
05:06que vai perpassar a agropecuária,
05:09vai ter um impacto todo na inflação brasileira,
05:11até mesmo porque o aumento,
05:14falando aí dos produtos que nós exportamos agora,
05:17a gente tem percebido esse aumento no custo do frete internacional,
05:20não só em função dos combustíveis,
05:22mas principalmente para a região em função do aumento do seguro.
05:25O seguro das cargas, que era em torno de 0,25%,
05:29já passou para 0,5% e até 1% do valor total da carga,
05:33quando realmente o embarcador ainda tem interesse
05:36de levar esse produto para lá.
05:38Em muitos casos, as rotas têm sido alteradas,
05:42têm sido desembarcadas em outros portos,
05:44ou os navios têm ficado decorados em portos,
05:48com um período até além do necessário,
05:50pagando, inclusive, multas por estarem ali do tempo de espera.
05:55Então, tudo isso tem afetado o custo das exportações também
05:59e das importações que o Brasil tem.
06:01Mas falando dos produtos que nós exportamos,
06:03para o Irã, principalmente, 68% é milho,
06:08que é o maior produto que a gente exporta,
06:09mas da mesma forma, o milho vai ganhando escala a partir de agosto,
06:14quando a gente colhe a segunda safra
06:16e manda o maior volume de agosto até janeiro.
06:19Historicamente, sempre ocorre assim.
06:21Então, nesse momento, o que nós exportamos ano passado,
06:24foi 3% do total de toda exportação de milho para o Irã.
06:29Então, teoricamente, a gente teria também como compensar isso.
06:33A soja, que é o segundo produto que vai para o Irã,
06:35que representa 19%,
06:36no total das exportações, é apenas 1,3% que consegue ser realocado.
06:41O açúcar, que representou 6,5% no ano passado,
06:45no total de açúcar importado, é 1,7% que também consegue ser realocado.
06:50Então, assim, falando do Irã,
06:52o milho a gente teria, vamos dizer assim,
06:54esse tempo ainda para readequar.
06:56O problema, quando se fala de Oriente Médio,
06:59é justamente as cargas de frango,
07:01que representam 29% das exportações do Oriente Médio,
07:04e bovinos, de carne bovina, que chega a 6,8%.
07:08Então, essas cargas, nesse momento,
07:10estão buscando essas rotas alternativas
07:13e estão tendo esse incremento de custo,
07:16que vão impactar não só para a região,
07:18mas quando a gente fala de contêineres e de frete marítimo,
07:20todo o contexto global.
07:22E aí, para esses produtos, Bruno,
07:24a gente está falando de rotas mais longas,
07:27seguros mais caros,
07:29e que produtos não tem caminho alternativo,
07:33nesse momento, para a exportação do nosso agro?
07:36Bem, a princípio,
07:37esses são os mais relevantes,
07:39e o que a gente tem conversado com as empresas,
07:41tem buscado formas de realocar isso.
07:45Inclusive, conversamos recentemente com a nossa equipe,
07:47que fica em Dubai,
07:48e eles colocaram que não relataram nenhuma falta de produto regionalmente.
07:54Então, de certa forma, está sendo abastecido,
07:57os produtos estão chegando,
07:58porém, a gente não sabe,
08:00cada dia muda muito as informações sobre o conflito,
08:03então é algo que a gente tem que estar acompanhando diariamente
08:06para saber qualquer tipo de ação a ser tomada
08:09em relação a essa logística internacional.
08:14O Bruno, e aí, como você já explicou para a gente,
08:16a safra desse ano já está contratada.
08:18Eu queria entender o quanto a gente ainda pode ter de reflexo
08:22na produção e na colheita do ano que vem,
08:24porque o tempo do agronegócio é longo,
08:28são decisões e planejamentos feitos a longo prazo.
08:31Vamos dar um exemplo.
08:33Acho que nem tanto o ano que vem,
08:34esse ano a gente pode ter ainda algum incremento.
08:37Nesse momento, a gente está colhendo a safra de arroz no Rio Grande do Sul,
08:40e foi um dos estados que a gente teve problema,
08:43relataram o problema de aumento,
08:44inclusive essa possível falta que a ANP colocou que não existe.
08:49Então, a preocupação é justamente essa fiscalização das distribuidoras
08:53de estarem realmente repassando esse estoque de combustível
08:56e a preço justo,
08:58sem incorporar a própria Petrobras,
09:00que administra boa parte do combustível do Brasil,
09:04não repassou nenhum aumento ainda,
09:06pelo menos até sexta-feira.
09:07Então, isso é algo que nos preocupa.
09:08E essa safra de arroz, se você tiver um custo muito elevado,
09:12o produtor, nesse momento,
09:14ele tem um custo de produção maior do que o preço que ele está recebendo
09:18da saca de arroz.
09:20A saca de arroz está em torno de R$50,00 por saca,
09:23e o custo passa de R$60,00 até R$70,00.
09:26Então, mais um problema,
09:28se você tiver esse incremento maior no custo de produção,
09:32é algo que você pode causar um desestímulo
09:34e acentuar a margem negativa desses produtores,
09:38nesse momento que já é crítico.
09:40Bruno, e o ponto importante que você enfatizou aqui com a gente
09:44em relação a custo do diesel,
09:45porque esse é um aumento que vem rápido,
09:48que impacta no preço aqui internamente,
09:51impacta na inflação, enfim.
09:53O que dá para ser feito?
09:54Eu sei que a CNA tem uma atuação no sentido de defender
09:57o aumento da adição para 17% do biodiesel no óleo diesel.
10:03Conta para a gente, então,
10:05o que tem sido feito nesse sentido?
10:07Tem a inclusão desse tema na pauta da reunião
10:10dessa semana no Conselho Nacional de Política Energética, né?
10:14Exatamente.
10:15Na sexta-feira, nós encaminhamos um ofício
10:18ao ministro da Minas e Energia,
10:20solicitando o aumento do teor de biodiesel no diesel.
10:24Hoje é de 15%.
10:25Já era para ter alterado no início de março para 16%.
10:29Só que, diante da gravidade do conflito
10:33e pegando o histórico do que nós vivemos
10:36quando iniciou o conflito entre Rússia e Ucrânia,
10:39nós tivemos o barril também passando de 100 dólares por barril
10:43e depois um incremento de 23% no diesel no Brasil naquela época.
10:47Então, seria uma forma da gente amenizar
10:49essa alta do mercado internacional,
10:51aumentando o teor de biodiesel no diesel
10:53no momento onde a gente colhe uma safra recorde de soja.
10:57Vão ser mais de 180 milhões de toneladas de soja
11:00que o Brasil está colhendo nesse momento.
11:02Então, é uma safra que nunca colhemos o volume tão significativo.
11:06E os preços da soja nesse momento estão, inclusive,
11:09menores ao produtor.
11:10Tem região que está com preço ainda,
11:13valores anteriores da pandemia,
11:15em torno de R$ 100 a saco ou até menos.
11:17Então, essa alteração na reunião do Conselho das Energias
11:47vai trazer esse certo alívio.
11:48Vamos ficar de olho nessa reunião que está por vir,
11:51quinta-feira, né, Bruno?
11:53Exato, quinta-feira.
11:54Tá certo.
11:55E a gente volta a falar, então,
11:56sobre esse assunto ao longo da semana.
11:58Eu quero agradecer Bruno Luque,
11:59que é diretor técnico da Confederação Nacional
12:01da Agricultura e Pecuária do Brasil, a CNA.
12:04Muito obrigada por estar com a gente nessa segunda-feira, Bruno.
12:07Boa semana para você.
12:09Muito obrigado e boa semana.
12:10Boa semana.
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