00:00De volta ao vivo, a gente fala agora que o Brasil avalia um acordo comercial parcial entre Mercosul e China,
00:08que abriria espaço para tarifas menores em alguns produtos, cotas ampliadas, regras sanitárias alinhadas,
00:14tudo considerando o cenário atual de tarifas de Donald Trump nos Estados Unidos,
00:19que forçam o mundo a redesenhar as rotas de comércio.
00:22Sobre os impactos nos mercados, na indústria, no agro, no câmbio, nas relações com Washington,
00:28sobre tudo isso, eu converso agora ao vivo com o Alex Agostino, economista-chefe da Ocean Rating.
00:33Tudo bem, Alex? Boa noite, seja muito bem-vindo.
00:37Boa, Natana, boa noite.
00:40Alex, o governo fala num possível acordo parcial, limitado ali em algumas faixas tarifárias, cotas, com regras sanitárias,
00:49bem longe do que seria um livre acordo, um comércio amplo.
00:53Na prática, que tipo de desenho você imagina para um primeiro passo?
00:57O que pode mudar de uma forma concreta para quem exporta e importa aqui no Brasil?
01:04Boa, Natana, primeiro, vamos compreender melhor como que nós chegamos a esse momento.
01:09Isso tudo graças a Donald Trump, ou seja, quando ele assumiu agora um segundo mandato,
01:14quando ele fez aquela avalanche de tarifácio, mundo afora, impactou muito fortemente o Brasil,
01:21mas depois, com negociações, houve um certo entendimento.
01:25Porém, o mundo, naturalmente, hoje, globalizado, financeiramente, economicamente, culturalmente,
01:32começou a se mover.
01:34Então, ele acabou estimulando essas ações.
01:37Vale lembrar que, recentemente, o Brasil, depois de 26 anos,
01:40conseguiu chegar a um acordo com a União Europeia.
01:44A Índia também com a União Europeia.
01:47Então, o mundo está deixando de colocar todos os ovos numa única cesta.
01:53Ou seja, começou a diversificar porque viu o grande risco de fazer acordos unilaterais.
02:00Então, opta, portanto, fazerem acordos com blocos econômicos.
02:04Uruguai, o presidente Uruguai, está em Pequim,
02:07e foi ventilada a ideia de fazer um acordo com o Mercosul.
02:11É claro que é uma ideia muito mais ampla, por quê?
02:15Uruguai tem uma proximidade muito forte com Pequim,
02:18mas, por exemplo, Paraguai tem uma proximidade com Taiwan.
02:21Taiwan é um trito administrado pela China, que tem ali um conflito constante.
02:28Nós temos aqui a Argentina, uma proximidade com os Estados Unidos.
02:32Então, a gente precisa, primeiro, parametrizar todos os interesses dos países do Mercosul,
02:38porque precisa ter uma unidade aqui, um entendimento de todos e uma concordância de todos,
02:44para aí sim começar a discutir esse acordo.
02:47É claro que ele é muito benéfico às empresas brasileiras,
02:51no sentido de criar uma amenizada no impacto em que as indústrias chinesas têm causado o mundo afora,
03:03tirando competitividade das empresas, das indústrias no Brasil.
03:08Então, isso, em parte, é positivo, é interesse do Brasil.
03:12Agora, de novo, o impacto no agronegócio, ele precisa ser mensurado,
03:17porque a Argentina é um grande parceiro comercial do Brasil na parte de grãos,
03:22principalmente trigos, veículos.
03:25Então, acho que isso tudo vai demorar ainda a ser consumado,
03:28vai entrar num momento de discussão.
03:31Isso leva alguns anos ainda, mas isso é um processo que vem acontecendo
03:35com uma certa velocidade, que tem impactos positivos para a economia brasileira.
03:40É claro que são outros fatores que a gente precisa avaliar
03:44em termos de impacto monetário, na taxa de câmbio ou não,
03:48para a gente entender qual é o volume desse comércio exterior que está sendo discutido.
03:53A prioridade são ideias positivas para a gente diversificar os nossos parceiros comerciais,
04:00mas vale lembrar que, quando a gente fala de país,
04:03a China hoje representa 30% da nossa pauta de exportação.
04:08Não sei o quanto o Mercosul consegue, nesse acordo parcial, agregar ao Brasil.
04:14Por ora, o Brasil tem uma boa relação, ou seja, ainda precisa avançar as discussões,
04:20os debates, para avaliar melhor qual é esse impacto.
04:23Vamos lembrar de novo, o acordo com a União Europeia demorou 26 anos,
04:28porque precisava ali ter um apoio da maioria.
04:31Aqui, no Mercosul, não será diferente.
04:35É, e como você bem lembrou, enfim, pode levar muitos anos, pode mudar, né?
04:40A gente pode ter mudanças dos governos, porque, nesse momento, de fato, somos vizinhos,
04:44mas não há um alinhamento ideológico, né?
04:47E nas parcerias, cada um com as suas próprias relações.
04:51E aí, para a gente trazer um pouco mais de detalhes,
04:55olhando para a indústria e olhando para o agro e olhando para esses setores aqui no Brasil,
05:00o que você vê de oportunidade, de risco, de preocupação?
05:04De um acordo desse porte?
05:07Olha, o risco é muito mais para a indústria, ainda que nós tenhamos uma crescente curva,
05:12uma curva crescente de entrada de investimentos de empresas chinesas no setor industrial,
05:18mas isso, de alguma forma, é positivo.
05:20Mas o risco maior é para a nossa indústria.
05:23A indústria nacional é que já vive, naturalmente, uma concorrência
05:28por conta de um nível de produtividade na China que é muito maior no Brasil.
05:32Então, é muito mais prático importar alguns produtos da China do que produzir no Brasil,
05:37até pelo custo.
05:38Então, é muito maior o risco na questão da indústria,
05:43e aí a gente acaba tendo um efeito aqui de baixo investimento e desenvolvimento da indústria brasileira.
05:49Do agronegócio, como eu disse, o Brasil já tem uma relação com a China muito grande,
05:55na parte principalmente de carnes e soja, grãos em geral.
05:59Mas eu acho que a gente consegue ampliar ainda mais por conta do fortalecimento do Mercosul.
06:06Lembrando que o Brasil é a maior economia da América Latina, uma das dez maiores do mundo.
06:12Então, o Brasil acaba sendo o principal driver nessas negociações.
06:15O Brasil vai ter muito mais força de colocar na mesa de negociação aquilo que é de seu interesse.
06:22E o Brasil hoje é o principal produtor agrícola do mundo e a China é o maior consumidor de produtos
06:28agrícolas do mundo.
06:29Então, eu acho que no caso do agronegócio, o Brasil tem grandes oportunidades.
06:33Setor madeireiro, setor de alimentos, de carne, de grãos, o Brasil ainda tem um grande potencial.
06:39Agora, é claro que ainda precisamos avançar em algumas questões, como você falou no início da entrevista,
06:47nas questões sanitárias, os acordos paralelos que existem com alguns países.
06:52Tudo isso precisa ainda ser debatido.
06:56É um grande processo que está acontecendo no mundo dessas relações comerciais de em bloco.
07:03Mas isso vai sendo feito de forma lenta.
07:05Eu acho que a principal observação que tem que ser feita é na questão da indústria do Brasil,
07:11que há décadas vem perdendo espaço, já há algum tempo, perdendo espaço para as importações.
07:18Exatamente.
07:19Quero agradecer a Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, pela participação com a gente nessa noite.
07:25Muito obrigada.
07:25Até a próxima.
07:27Até a próxima.
07:28Boa noite.
07:29Tchau, tchau.
Comentários