00:00Expira nesta quinta-feira o New Start, que é o último tratado que impunha limites legais às armas nucleares estratégicas de Estados Unidos e Rússia.
00:13Sem esse acordo, o cenário internacional passa a ter menos mecanismos formais de controle e transparência sobre os arsenais nucleares.
00:23A possibilidade de uma nova corrida armamentista eleva, primeiro, uma incerteza geopolítica e, depois, possíveis impactos diretos aos mercados globais,
00:35porque pode haver uma corrida armamentista de outros países que se sintam ameaçados por Estados Unidos e por Rússia.
00:43E, sobre esse cenário, a gente discute agora reações dos mercados, segurança internacional, com o Augusto Teixeira,
00:52que é doutor em ciência política e professor da UFPB, a quem eu agradeço muito a presença.
01:00Professor Augusto, primeiro, vamos falar de um cenário de segurança ou insegurança.
01:05O tratado colocava ali um acerto entre as duas potências, Estados Unidos e Rússia.
01:11Cada uma fica aí com umas 1.500 ogivas nucleares, as capacidades de manutenção ou, eventualmente, ampliação desses arsenais.
01:21Mas, agora, rasgou-se aí, não houve a continuação do tratado.
01:28O que a gente pode esperar sobre ameaças entre esses dois?
01:33Voltaremos àquele pavor da Guerra Fria?
01:38E, principalmente, os países sateletais de Rússia e Estados Unidos podem começar a se armar diante de uma ameaça
01:47sem deixar de lembrar que a Rússia invadiu a Ucrânia, né?
01:50Pode vir a invadir outros países com um arsenal nuclear maior?
01:54Como é que fica essa ameaça e como o resto da Europa, por exemplo, tem se protegido?
02:00Boa tarde, professor.
02:01Boa tarde. Muito obrigado pelo convite.
02:03É um prazer falar contigo e com a audiência.
02:05Bem, nós estamos, sem dúvida alguma, entrando em uma nova fase das relações internacionais
02:12no tema que é, talvez, o mais importante de todos no campo da segurança,
02:17que é aquele das armas nucleares, do risco de destruição muito assegurada
02:23e da corrida armamentista que envolve armas estratégicas.
02:26E isso não é pouca coisa.
02:29Ao caducar o novo start, e, em particular, pelo pequeno esforço empreendido pelos Estados Unidos,
02:38que é uma das potências mais relevantes nessa seara, na tentativa de renovar o acordo,
02:43assumindo o risco, no sentido de buscar trazer a China para um acordo futuro,
02:48mostra que estamos, em grande medida, jogando um jogo estratégico,
02:52se equilibrando no fio da navalha.
02:55E por quê?
02:56O risco de uma proliferação nuclear horizontal, ou seja, de outras potências terem armas nucleares,
03:04como, por exemplo, a Coreia do Sul, o Japão, a Alemanha, por exemplo,
03:09ou a própria Polônia, que já demonstraram interesse nisso,
03:13caso o cobertor de segurança dos Estados Unidos não mais seja confiável,
03:17estão acobertados por outro acordo, que é o Tratado de Não-Proliferação Nuclear, que é o TNP.
03:23Entretanto, o novo start, ele é, em grande medida, voltado ao controle de armas estratégicas dos dois maiores arsenais do mundo,
03:32Estados Unidos e Rússia, que têm interesse, muito claro, ambos em realizar a chamada proliferação vertical,
03:40que é o aumento da sua capacidade militar nuclear, somado com a melhoria e incremento destrutivo dos seus arsenais existentes.
03:48E isso é extremamente perigoso, porque sabe-se que já vivemos o que é chamado de dilema de segurança,
03:56em que os Estados, percebendo que a sua segurança está reduzindo, buscam aumentar o seu poder militar no sentido de recobrar a sua segurança.
04:04O grande problema é que entendemos que, no contexto final, todos saem mais inseguro.
04:10Só que o problema, meu caro, é que estamos falando de armas nucleares, e armas nucleares têm uma margem de erro extremamente pequena.
04:18Então, se nós considerarmos essa realidade, temos um cenário muito perigoso de um acordo que tinha problemas,
04:24mas era importantíssimo pelo elemento de prezibilidade, vistoria e, em grande medida, um parâmetro,
04:30para que se freie a proliferação vertical no campo nuclear entre as superpotências ou as grandes potências.
04:38E aí, a grande questão que fica para nós é a China, que é o grande pivô dos basteadores da dificuldade de negociação,
04:47que é o país que, de fato, hoje, gêndra uma competição estratégica com os Estados Unidos
04:51e amplia de forma não acobertada pelo Novo Start o seu programa nuclear.
04:57Professor Augusto, aqui, só para a gente ter uma noção do que é o arsenal nuclear,
05:03é claro que, como é uma informação sensível, os países se reservam ao direito de não trazer exatamente essa informação pública.
05:12Mas, de acordo com o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo,
05:16isso aqui é o número mais aproximado.
05:19A Rússia teria perto de 6 mil ogivas entre estoque e material ativo.
05:25Os Estados Unidos, pouco mais de 5 mil e duzentas.
05:30O senhor falou da China, talvez aqui a China com quatrocentas.
05:35Depois, o resto dos países.
05:37Mas eu queria trazer uma visão de negócios.
05:39Rapidamente, para a gente encerrar, como é que fica a Europa?
05:43O que o senhor citou, o senhor falou de Polônia e Alemanha,
05:48que, não coincidentemente, nos últimos anos, que estão aqui às margens da Rússia,
05:54eventualmente poderiam vir a ser vítimas de uma invasão, de uma expansão rússia que começou pela Ucrânia,
06:01e que Polônia e Alemanha anunciaram voluptuosos investimentos em defesa.
06:07Sem falar, nos Estados Unidos, a ambição do presidente Donald Trump
06:13de construir um chamado domo gigante de defesa antiaérea, justamente de olho na Rússia,
06:20tanto Polônia quanto Alemanha.
06:22A gente vai ver uma corrida armamentista, não estou dizendo de armamentos nucleares,
06:25não necessariamente, mas numa escala mais baixa.
06:29Sistemas de proteção, ou seja, essas empresas que produzem esses materiais,
06:33direto ou indiretamente, para essa indústria de defesa,
06:37podem ser agora muito acionadas, muito procuradas?
06:41Vamos ter uma corrida aí desses sistemas de proteção contra os arsenais que podem aumentar?
06:48Veja, existe uma chance extremamente elevada de que a dinâmica de ação e reação,
06:56ofensiva e defensiva, que já está em curso hoje,
07:00possa assumir as características, efetivamente, de uma corrida armamentista.
07:03E uma corrida armamentista, por exemplo, no campo da inteligência artificial,
07:08voltada a questões bélicas, também é uma corrida armamentista voltada a interceptadores
07:14e vetores de ataque hipersônicos, como se mostra no caso da guerra da Ucrânia,
07:20o elemento fundamental da defesa aérea e antiaérea, não apenas orbital, mas suborbital.
07:26Isso se faz importante, por quê?
07:28Porque ações como o domo de ouro proposto pelo presidente Trump,
07:33caso de fato avancem, pode trazer problemas para um pilar muito importante
07:39da chamada disfasão mútuo assegurada,
07:41que é o fato de que armas defensivas no campo nuclear,
07:45elas mitigam, entre aspas, a expectativa de que as armas ofensivas tenham elevado a letalidade.
07:51E, em grande medida, o que nos garante a segurança no contexto de potências nuclearmente armadas
07:57é o medo, é o chamado equilíbrio do terror, a capacidade de que uma potência possa aniquilar a outra,
08:04fazendo com que ocorra um cálculo racional de moderação.
08:07Então, ações como o domo de ouro e ações russas, por exemplo,
08:10colocando mísseis nucleares com propulsão nuclear, por exemplo,
08:15são extremamente perigosos no campo da proliferação nuclear
08:19e também expansão de sistemas de defesa que reduzem o conflito dos ovos
08:24à segurança de todos.
08:26E foi muito bom você ter trazido a questão da Europa na questão de negócios.
08:30E, especialmente no contexto, e quem nos discute e assiste irá entender isso,
08:34em que a União Europeia faz um acordo com o Mercosul e com o Brasil, obviamente.
08:38Por que isso importa e por que isso tem a ver?
08:41Pelo fato de que a União Europeia, ela se vê num contexto
08:44de que o seu braço militar, especialmente nos países que fazem parte do OTAN,
08:49tem a disfasão nuclear convencional americana reduzida em termos de credibilidade,
08:54como você bem coloca, aumentam substantivamente os investimentos militares
08:57e vão precisar de outros fornecedores e mercados.
09:01Talvez a própria América do Sul e o Mercosul e o Brasil
09:04submisse a isso também ao fato de que a necessidade de incrementar capacidades nucleares
09:10que hoje na Europa só existem basicamente no Reino Unido e na França
09:14e nenhuma das duas possui o chamado tripé nuclear,
09:18mostra uma necessidade de ampliar esses ventos do caráter estratégico.
09:23Então, na perspectiva de negócios, temos um panorama muito positivo
09:27para inovação tecnológica, novas tecnologias,
09:31elevada planilância ao risco, mercados em particular ligados a terras raras,
09:35commodities e também a capacidade de manufaturar em massa,
09:40que é algo que a guerra da Ucrânia nos ensina
09:42e a América do Sul e o Mercosul podem ser pontos importantes
09:46dentro dessa economia de defesa futura.
09:49Professor doutor em Ciências Políticas da UFPB, Augusto Teixeira,
09:55muito obrigado pelos esclarecimentos,
09:57é claro que a gente terá outras oportunidades para falarmos a respeito,
10:01professor Augusto, mas por enquanto ficam aqui os meus agradecimentos,
10:04até uma próxima.
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