00:00E eu converso agora ao vivo com o Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda, sócio da Tendências Consultoria.
00:07Ministro, boa noite, seja muito bem-vindo, prazer receber aqui.
00:11Boa noite, Natália, muito obrigado pelo convite.
00:14Ministro, primeiro dia de negócios, né, depois dessa invasão americana à Venezuela, e eu queria ouvir o senhor.
00:22O que pesou mais, né, sobre os preços, o temor geopolítico ou fatores econômicos, oferta e demanda?
00:30Olha, Natália, na verdade, você poderia dizer que foi um dia normal, né?
00:34A expectativa que alguns tiveram, que haveria uma explosão de preço de petróleo, que o dólar se valorizaria em relação às moedas, na verdade, não se verificou.
00:45Por exemplo, no Brasil, houve até um pouco da valorização do real, a Bolsa fechou com quase 1% de aumento, né?
00:53Porque a expectativa é a de que tem muita coisa pra acontecer e ninguém sabe o que vai acontecer.
01:00A percepção de que a declaração do Trump de que os Estados Unidos vão governar a Venezuela começa a se desfazer, né?
01:10O secretário do Estado americano passou o dia ontem dando entrevistas, minimizando essa declaração do presidente Trump, porque não é uma coisa trivial administrar um país com 30 milhões de habitantes, com 4 milhões de milícias, né?
01:26É um país muito complexo, não é o Iraque, não é o Afeganistão, que mesmo assim os Estados Unidos não se deram bem por lá, né?
01:36Então, eu diria que há mais uma expectativa do que incerteza sobre o que vai acontecer, né?
01:42E certamente, isso vai levar um bom tempo, vai levar um bom tempo, provavelmente, os Estados Unidos vão manter negociações, contatos, entendimentos com a presidente Venezuela no momento,
01:56porque é ela que assegura a continuidade administrativa, né?
02:01Os ministérios, o funcionamento da PDVSA, né?
02:05E estamos num momento que pode ter um colapso na Venezuela e que complicaria mais ainda a vida dos americanos e dos venezuelanos, né?
02:15Portanto, agora é um momento de observação, a presidente é fundamental para os Estados Unidos, porque ela mantém a continuidade administrativa, o funcionamento dos ministérios,
02:27porque se isso desaparecer, a Venezuela entra rapidamente em colapso e a situação fica mais complicada, né?
02:34Portanto, eu acho que talvez o Trump tenha feito uma declaração mais de impulso, né?
02:39De que iria gerir, governar a Venezuela, mas acho que isso tende a refluir.
02:46E os próximos passos dependerão, a meu ver, de entendimentos que certamente já estão acontecendo
02:51entre autoridades americanas e autoridades venezuelanas em torno da transição, né?
02:58Eu acho também que não é hora de pensar na posse do presidente eleito, né?
03:04Cuja vitória foi roubada, chamamos assim, pelo Maduro, né?
03:10Porque ele não é um operador político, né?
03:12Ele é um diplomata, é um valor civil da Venezuela, é um homem de prestígio político, mas ele não é um operador.
03:19E nesse momento, a Venezuela precisa de operadores, pessoas que conheçam o establishment,
03:25que conheçam como funciona o governo, que tenham comando, a coordenação de algumas atividades.
03:31Novamente, para repetir, eu acho que vai levar algum tempo para a situação realmente ficar clara.
03:37Mas pelo menos o primeiro dia de funcionamento do mercado foi um dia relativamente calmo,
03:43tanto aqui no Brasil como no resto do mundo.
03:44O petróleo chegou até a cair, né?
03:46Na Ásia, o petróleo começou em queda.
03:49Eu diria dentro da expectativa de que em breve a Venezuela vai começar a produzir petróleo,
03:56não vai voltar aos 3 bilhões de baís, aos 3 bilhões de baís diários que ela tinha,
04:01até porque a Venezuela, mesmo produzindo 3 milhões, ela é uma parcela muito pequena
04:07da oferta de petróleo, mas os mercados se movimentam por esse tipo de expectativa,
04:13um aumento ainda pequeno da oferta de petróleo.
04:16Mas as informações mais recentes estão mostrando que isso é um processo muito lento.
04:22Eu vi hoje uma estimativa que a Venezuela pode levar 15 anos para voltar a produzir 3 milhões de baís de petróleo por dia.
04:29E antes disso tudo, que tudo isso aconteça, tem que ter uma estabilidade, uma clareza do que vai acontecer no horizonte.
04:37Ministro, eu vou puxar para a nossa conversa o analista Felipe Machado, que também tem um ponto para trazer.
04:43Por favor, Felipe.
04:44Tudo bem, ministro? Boa noite para o senhor.
04:47Ministro, eu gostaria de ouvir a sua opinião sobre a relação, como é que fica a relação entre Venezuela e China.
04:52A gente sabe que a China é um dos grandes mercados do petróleo venezuelano hoje.
04:57E como é que essa mudança de cenário, vamos dizer assim, vai afetar essa relação?
05:02Como é que isso pode beneficiar ou prejudicar a Petrobras?
05:05Quer dizer, a Petrobras pode substituir a Venezuela nessas exportações para a China, por exemplo?
05:11Olha, isso vai depender muito das negociações entre Estados Unidos e Venezuela.
05:16Um dos objetivos da política externa americana é neutralizar a crescente influência chinesa aqui na América Latina.
05:27E ela estava sendo crescente na Venezuela.
05:31A China se tornou um grande comprador do petróleo venezuelano.
05:36Eu diria que não vejo muita mudança nesse momento, mas dependendo de como fluam essas negociações,
05:42pode ser que haja um arrefecimento da presença chinesa na Venezuela.
05:48Para o Brasil, eu acho que não tem muita consequência.
05:53E, ministro, diante desse cenário, a senhora definiu bem que foi um dia calmo, entre aspas, aí no mercado,
06:00porque está todo mundo observando mais antes de tomar qualquer passo, depende de tanta coisa acontecer.
06:05Agora, a gente viu ouro, prata e cobre subirem, se valorizarem mais uma vez,
06:12assumindo esse papel aí de porto seguro.
06:14O senhor acredita que tem espaço para que eles continuem se valorizando?
06:19Provavelmente, sim, dependendo dos acontecimentos.
06:22Mas, novamente, nada que sinalize um momento de pânico nos mercados,
06:27um momento de grande tensão, de aumentas de certezas.
06:32Os mercados tendem a observar o andamento das tratativas e das negociações na Venezuela
06:41em torno de uma saída que leve, seja para um avanço democrático que implique em algum momento
06:50uma nova eleição, seja por negociações que tornem claro que os Estados Unidos
06:58não vão administrar, governar a Argentina, porque eu acho que seria uma coisa,
07:03poderia ser desastrosa para os Estados Unidos.
07:07A experiência recente de intervenções americanas, como a do Iraque, do Afeganistão,
07:12não são um bom, vamos dizer assim, um bom exemplo para o que pode acontecer na Venezuela,
07:19que é um país, como eu falei aqui, muito mais complexo.
07:22Certo. Felipe, mais um ponto?
07:23Ministro, agora eu vou colocar o senhor numa saia justa.
07:26Esse ano nós temos eleição aqui no Brasil, e o governo Lula, que já foi muito próximo do governo Maduro,
07:32hoje acabou, já de um tempo para cá, já rompeu, vamos dizer assim, relações tão próximas.
07:38A gente viu o episódio dos BRICS, onde o Brasil praticamente impediu a entrada da Venezuela,
07:43mas de qualquer maneira o governo Lula, o presidente Lula, tem que ficar naquela,
07:47andar ali meio em cima do fio da navalha, quer dizer,
07:50ao mesmo tempo ele não pode apoiar o presidente Trump nessa invasão, nessa medida unilateral,
07:57mas também não pode falar tão bem da Venezuela, porque isso pode ter alguma consequência eleitoral.
08:02Como é que o senhor vê a questão do jogo político após esse episódio da Venezuela?
08:07Olha, Felipe, tem as declarações que estão sendo feitas dentro do esperado, né?
08:13Por exemplo, se você ver os líderes europeus, eles condenaram a invasão americana na Venezuela,
08:21tanto quanto fez o presidente Lula, né?
08:23Claro, o presidente usou palavras mais fortes, mas, por exemplo, o primeiro-ministro Starmann do Reino Unido,
08:30ele condenou a invasão pela violação do direito internacional e disse que estava esperando explicações
08:37do governo americano sobre os desdobramentos e as consequências, vamos dizer assim, de tudo isso, né?
08:44E existe uma certa percepção de que há uma declaração mais ou menos formal, né?
08:49Que não gera atritos com os Estados Unidos.
08:52Você vê a declaração do Macron hoje, depois de apoiar fortemente a invasão,
08:59hoje ele já foi mais moderado, né?
09:02Então, eu acho que o governo americano também está preparado
09:06para receber esse tipo de manifestação, desde que não ataque o Trump, né?
09:12E até agora, ninguém atacou o Trump, né?
09:15Condena-se à invasão porque ela viola o direito internacional,
09:19espera-se uma transição pacífica em rumo à democracia,
09:23mas eu acho que o presidente Lula, de certa forma, ele andou nesse terreno.
09:27Claro, ele falou uma palavra mais forte, é inaceitável a questão da soberania e assim por diante.
09:33Eu acho que tende a ser, pelos primeiros sinais, esse o andamento das coisas.
09:39Declarações moderadas que não apoiem o Maduro, não exigem a volta dele ao poder,
09:47mas, ao mesmo tempo, não aceitem uma intervenção que viola os princípios do direito internacional
09:55e a Carta da ONU.
09:57Acho que esse é o caminho, meio, vamos dizer assim, em cima do muro para não casar ao trito,
10:02mas também não ficar calado.
10:03Declarações mais protocolares, institucionais, sem citar muitos nomes, né, ministro?
10:09Isso mesmo, Natália, protocolares, né?
10:11Eu acho que os americanos, eles estão preparados para ouvir isso.
10:15Olha, pode falar, vai ter que falar, você tem o seu público interno e tudo mais,
10:20mas não fala mal da gente, está certo?
10:22Não cita nosso nome, é mais ou menos isso, eu acho.
10:26Quero agradecer, Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda e sócio da Tendências Consultoria,
10:31pela participação com a gente nessa noite.
10:33Muito obrigada, ministro, até a próxima.
10:36Muito obrigado, Natália.
10:38Boa semana.
10:39Boa semana.
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