00:00A ata do Copom indicou o provável início de um ciclo de corte de juros em março,
00:04mas também deixou claro o esforço do Banco Central para conter expectativas de uma queda rápida demais da Selic.
00:09Com o mercado já apostando em cortes expressivos, o Banco Central busca evitar distorções na curva de juros,
00:15que afeta, claro, crédito, bolsa e investimentos.
00:17O mercado está otimista demais?
00:19Como os investidores e empresas devem se posicionar se o ritmo de cortes for mais gradual?
00:23Sobre esse assunto, eu converso com o chefe de estratégia macro e dívida pública da Warren Investimentos,
00:28Luiz Felipe Vital. Luiz Felipe, bom dia para você. Seja muito bem-vindo aqui ao Pre-Market.
00:33Essa questão é uma questão interessante. Você já vê exatamente um corte da taxa de juros ali em março
00:41e uma sequência após essa, ou a gente vai ter uma coisa pontual?
00:44Qual é a sua expectativa aí na Warren e a turma da Warren Investimentos? Bom dia para você.
00:49Com vocês hoje. Realmente, a decisão, ela surpreende o mercado pelo tanto que ela foi explícita.
01:00Então, a manutenção na reunião da taxa de juros Selic é 15%, amplamente esperado,
01:05mas essa sinalização explícita de que o Banco Central começará a cortar juros a partir de março,
01:11ela surpreende o mercado.
01:13O cenário de mercado, o nosso cenário aqui, a maior parte dos economistas do mercado
01:17já previam início de cortes a partir de março, mas ninguém esperava esse que a gente chama de
01:23power looping, essa sinalização do Banco Central sobre os próximos passos.
01:29Isso tem como objetivo guiar, balizar as expectativas do mercado e isso conseguiu ser feito.
01:35Acho que a grande pergunta que fica agora é, como vai acontecer esse processo de calibrar
01:41o nível de taxa de juros? Por que a gente chama de calibrar?
01:44Porque a taxa de juros está bastante restritiva, 1%, é um nível de juros muito acima do que
01:50seria esperado para a economia, com o objetivo de fazer a inflação convergida em inflação,
01:54para a meta. Isso está acontecendo. Na medida que isso acontece, o Banco Central vai fazendo
01:59aquela sintonia fina, vai ajustando a taxa de juros para que ela não fique tão restritiva.
02:05Esse é o processo que começa agora em março. E a grande discussão do mercado hoje é íntimo
02:12e magnitude. Como vai acontecer? O Banco Central vai cortar 25, 50 ou 75 ou mais pontos?
02:20E qual vai ser a magnitude desse corte? O que esperar de cortes até o final do ano?
02:25E tem um ponto específico ali na ata, quando a ata fala em serenidade, eu acho que é a palavra
02:30certa, que tenta explicar ou transmitir para o mercado o que o Banco Central planeja fazer
02:36nesse processo de aproxamento da taxa de juros.
02:40Luiz Felipe, obrigado pela tua participação. Eu concordo que tem, obviamente está explícito
02:46ali que vai baixar, mas eu continuo achando, eu faço a leitura e fico vendo, não só a palavra
02:51serenidade, mas tem umas outras coisinhas ali que dão margem para falar, estamos observando
02:55as dificuldades da economia brasileira também. E aí estou falando da questão fiscal, que
03:01o parágrafo do fiscal cresceu em relação à última ata, da possibilidade ali, da necessidade
03:05de estar ajustado. Tem de novo a questão sobre produtividade e salário, que é um tema
03:10sempre que pode provocar gatilho inflacionário. E é isso, essas incertezas aí que estão postas
03:16também no mercado internacional. Então quer dizer, ah, e por fim, a tal da ancoragem, que
03:20eles falam, tem que ancorar nos 3%, que é o que a gente conversa aqui. 3% que é uma meta
03:24ousada, mas está lá, vamos chegar em 2027. Então, você acha que essas sementes aí
03:30de dúvida, espalhadas, atenuadas, porque isso é um assunto corrente, mas que eu acho
03:34que deram uma recheada, isso pode ser um sinal de, vamos baixar, mas talvez não tão
03:41rápido quanto o pessoal está imaginando. Como é que você lê essas entrelinhas?
03:47Pois é, a minha leitura é que o Banco Central, ao mesmo tempo que ele fala que planeja começar
03:53um ciclo de portes com cautela, ele também tenta conter o entusiasmo do mercado. E acho
04:00que a minha leitura de serenidade vem daí. Olha, a gente vai começar, é um ajuste, é
04:04uma calibragem, é uma sintonia fina. Não achem que o Banco Central vai fazer um porte muito
04:09grande e muito rápido. Porque como você muito bem colocou, Mariana, existem riscos no
04:13cenário. O mercado de trabalho continua sendo horrível. O ritmo de desaceleração do mercado
04:20de trabalho ainda é bastante lento e tem diversos setores como comércio e serviços
04:25ainda num nível bastante alto. Rendimento do trabalho, rendimento do trabalho continua
04:31alto, continua positivo. Esse rendimento do trabalho alto e positivo, com o mercado de trabalho
04:36aquecido, inclusive, se reflete em inflação, em inflação de serviços. Já está rodando
04:40ali a redor de 6%. Então, o trabalho da inflação ainda não está completo, ainda não está
04:47concluído, vamos colocar assim. Temos a parte fiscal. A parte fiscal, a gente viu
04:52uma mudança importante na forma como o Banco Central lida com o tema. O Banco Central,
04:57ele não faz uma leitura crítica, ele faz uma leitura sempre construtiva sobre o quanto
05:02o fiscal, alinhado com a política monetária restritiva, pode ajudar no processo. Pode
05:08fazer com que o processo seja mais rápido e o inflação de prêmio de riscos seja
05:13menor. Então, o fiscal sempre tentando mostrar o lado, o Banco Central, tentando
05:19mostrar o lado positivo, o lado construtivo que o fiscal pode ter nesse processo. E como
05:24você muito bem colocou, a questão das ancoragens. Como a gente olha, pesquisa
05:28focos, a pesquisa focos, ela teve uma convergência para a meta no ano passado, ali entre agosto
05:34e outubro, provavelmente, desde então está parado. Então, essa convergência, como os
05:41economistas estão vendo a inflação de longo prazo, certa convergindo para a meta de
05:45inflação, isso já está meio parado, assim, para 2028, por exemplo, o pessoal está
05:50vendo ali ainda um pouco acima da meta de inflação e é uma meta desafiadora, desafiadora
05:55principalmente quando a gente olha o contexto fiscal do Brasil. Então, a grande
05:59pergunta que fica, e aí a leitura que a gente faz é, o mercado já estava posicionado
06:05para a corte a partir de março. Quando o Banco Central faz a menção explícita que
06:10esse processo vai começar, a ideia de começar o corte com 25 já se torna
06:14desnecessária. E 25 seria introduzir com cautela o início do ciclo. Se a 25 ou mais,
06:21já bate um pouco a serenidade. Então, a gente está continuando bem firme na ideia de
06:2750 vezes pontos para início do ciclo de pontos. A curva de juros hoje, ela precipita em
06:3245 pontos. Então, bem alinhada ali com o pessoal do mercado que está esperando
06:37cerca de 50. E aí vem a questão da magnitude. Quanto esperar para 2026? Será
06:43que o Banco Central entrega todos os 300 vezes pontos de corte que o mercado
06:48espera? Eu acho que a resposta para isso vai estar na evolução do cenário,
06:51principalmente cenário inflacionário. A gente vai ver pressões aí. Inflação de
06:55alimentos, que até agora tem sido bastante favorável. A gente vai ver o cenário
06:59externo. A gente teve 2025 dólar ajudando bastante a inflação. Mas 2026 ainda é
07:04um pouco incerto. Ao longo do mês de janeiro, a gente teve dólar para todos os
07:07lados. Então, existe uma série de riscos aí que mostram que ao Banco Central
07:12entregar todos os 300 pontos de corte esperados pelo mercado, isso pode não
07:17acontecer. Isso exige também um pouco de cautela.
07:20Luiz Felipe, meu xará, você como especialista em dívida pública também não
07:24tenho como deixar de te perguntar. A dívida pública está chegando em níveis um pouco
07:28alarmantes ali, quase 80% do PIB. E ao mesmo tempo, a questão é que a dívida
07:32pública também acaba aumentando por causa dos juros. Eu sei que não é papel do
07:36Banco Central se preocupar com dívida pública, mas como é que você acha que
07:39vai ser essa conta? Como é que eles vão trabalhar todos esses elementos na
07:42escolha, na decisão de 0,25, 0,50? Vão levar em consideração essa questão da
07:48dívida pública, dos riscos desse aumento da dívida pública, causado também
07:52pelos juros, a questão fiscal do governo? Como é que você, como especialista em
07:55dívida pública, imagina que o Banco Central vai tratar dessa questão?
08:00A gente vê a questão da dívida pública no Brasil com uma dívida crescente e a
08:06trajetória dela é insustentável. O nível de dívidamento está longe de ser
08:10insustentável, mas o ritmo como ela cresce não é sustentável. E aí a gente agrega
08:16a isso o fator de custo dessa dívida. A gente está com as taxas reais de longo
08:20prazo acima de 7% já há bastante tempo. E eu vejo que existe pouco que o Banco
08:27Central possa fazer em relação a isso. O Banco Central mexe na taxa selic, ele tem
08:32mais facilidade de mexer nas taxas de curto prazo. E para o Banco Central afetar o
08:37longo prazo, é pela sua autonomia, pela sua independência, por perseguir os seus
08:43objetivos. Eu acho que é nesses critérios que o Banco Central consegue afetar o
08:47longo prazo. O longo prazo, de forma geral, ele é afetado pelo fiscal. Então a gente
08:52precisa conseguir ver um pouco mais de melhora, uma consolidação fiscal muito
08:57mais rápida. A gente teve um crescimento da dívida bruta bastante acelerado. No período
09:01de 2023 até agora, a gente cresceu talvez 5, 6 pontos percentuais do PIB de dívida
09:08bruta. E é um período que a gente não tem uma recessão, não tem uma crise, não tem um
09:12choque, é um puro crescimento ali da dívida pública. Então é um nível de taxa muito
09:17alta, é um crescimento grande de dívida pública. Então uma arrumação no fiscal, ela
09:23começa a ficar cada vez mais urgente. É igual a gente olha o cenário fiscal, assim,
09:27em 2026 a gente não consegue fechar as contas, em 2027 algum nível de arrumação vai ser
09:34necessário, porque a gente tem, por exemplo, a questão das despesas dos pensionários, elas
09:37vão virtualmente chegar a zero e isso prejudica o próprio funcionamento da
09:42máquina pública. Então uma medida, uma arrumação fiscal ajuda a trazer as taxas de
09:46longo prazo para baixo e isso tem um impacto muito grande na dívida pública. Então o Banco
09:51Central tem feito um trabalho muito bom com a perseguição da meta, a sua independência
09:56e trazer de volta, começar um processo de código de juros no momento que a economia
10:02permite que isso seja feito. A gente já tem que hidratar as taxas de longo prazo
10:06com um avanço mais rápido na questão fiscal.
10:11Super obrigado, Luiz Felipe Vital, meu xará, chefe de estratégia macro e de dívida
10:16pública da Warren Investimentos. Obrigado pela sua participação. Bom dia e bom resto
10:20de semana para você, Luiz Felipe.
10:22Felipe Mariana, muito obrigado pelo convite. Foi um prazer estar aqui com vocês hoje.
10:25Valeu.
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