00:00Me recordo de um filme fundamental, os historiadores gostam muito, Queimada.
00:06Ah, sim, bem lembrado.
00:07Tem o personagem do Marlon Brando, que em certa altura ele vai conversar com um dos líderes lá da rebelião, né, que ocorre na ilha.
00:17E aí ele fala, olha, a história, ela tem às vezes momentos de aceleração.
00:23Uma semana, né, pode acontecer aquilo que levaria dez anos.
00:28É mais ou menos a fala do personagem do Marlon Brando, que é um lobista ali, né, do império inglês, né.
00:36Então penso que esses doze meses é exatamente aquilo que o personagem do Marlon Brando falou.
00:43A gente teve uma aceleração e aí eu queria colocar talvez uma perspectiva um pouco diferente.
00:52O Trump, ele é um personagem de um cenário que inclusive é maior do que ele.
00:59Já que eu citei um filme, eu vou citar um pensador absolutamente esquecido por todos, inclusive pela esquerda.
01:06O Marx, né, quando no 18 Brumário Marx diz o seguinte, os seres humanos fazem a história, mas em condições dadas, né.
01:14Então o Trump é um personagem que, mas ele está dentro de um contexto que inclusive é maior do que ele.
01:23Talvez ele tenha liberado forças que estavam ali contidas nesse tempo, né, nesses doze meses,
01:31que ficaram muito mais visíveis, muito mais intensas, com matizes muito fortes, mas já estavam ali, já estavam colocadas
01:43e de alguma forma vão superar a, como o professor falou muito bem, a gente tem aí uma data que é novembro desse ano, né.
01:53Dependendo do resultado, nós teremos um Trump mais forte ou um Trump como um pato manco, né.
02:00Então eu entendo que os fatos que nós estamos assistindo nesses últimos doze meses
02:09tem muito a ver também com a experiência do primeiro tema, do primeiro mandato, né.
02:14Ele agora formou um, ele levou secretariados, levou assessores muito mais conectados com crenças, não é, com valores, não é.
02:28Então eu não fiquei surpreso porque acompanhando a própria campanha eleitoral,
02:35ele foi muito incisivo durante toda a campanha sobre os pontos que ele iria abordar, né.
02:42Mas não podemos esquecer, ele é um personagem dentro de um contexto muito maior, né.
02:50Só lembrando a quem nos acompanha, quando foi bem, muito bem lembrado pelo professor Silvio Leite,
02:55o filme Queimada, que é um clássico do cinema polido nos anos 60,
02:59quando o cinema italiano se dedicava muito a isso nos anos 60 e 70.
03:03E o Queimada, o diretor Gillo Pontecorva, é um filmaço, assistam aí, procuram no YouTube,
03:08ou se não, em alguma dos streamings que tem por aí, vocês vão encontrar, é realmente um grande filme.
03:14E lembrando a questão que foi destacada também pelo professor Marcos Vinícius e pelo professor Silvio Leite,
03:19as eleições de novembro, né, novembro tem eleições, vai renovar a Câmara dos Representantes,
03:25que é a Câmara dos Deputados de lá, e eu acho que vai renovar, acho que um terço, salvo engano, do Senado, né.
03:30Que lá são dois senadores, são cinquenta estados, tem cem senadores, cem senadores no total.
03:37E também alguns estados têm eleições para o governo estadual.
03:39Então essa eleição é muito importante no meio do mandato, que vai configurar o que vai ser a continuidade.
03:43Se for derrotado, e a expressão clássica dos Estados Unidos exclusos,
03:47o professor Zestacaro vai ficar com um pato manco até o final da sua gestão.
03:52Professor Fábio Andrade, justamente sobre isso, o que o senhor considera,
03:57quer dizer, foram doze meses muito intensos, né, acho que poucos imaginavam que tira tantas coisas,
04:03e a mudança, inclusive, até de comunicação, né, historicamente, não era assim no caso norte-americano.
04:08E eu também não vi nenhum outro chefe de governo fazer isso até o Trump.
04:13Como é que o senhor considera, como o senhor avalia esses doze meses?
04:16Bom, esses doze meses, concordando com os colegas que vieram anteriormente,
04:21acho que o grande ponto é, o Trump, ele não é, ele é o resultado, ele não é basicamente o grande causador, né.
04:30O mundo vem desde o final da primeira década dos anos 2000, 2010, lidando,
04:39ou os resultados vêm mostrando que ocorreram diversos problemas na economia global,
04:46sobretudo questões relativas à desigualdade econômica.
04:49Nos Estados Unidos, basicamente, a questão da hipoteca, para a gente pegar a realidade,
04:54ficou cada vez mais difícil para as famílias, em centros urbanos, manter a questão da hipoteca.
05:00E esse sentimento, e basicamente esses resultados, foram criando um caldo de ressentimento,
05:06junto também com uma questão de uma mudança muito rápida de costumes,
05:10que fizeram uma parte da população não se ver mais representada nas instituições.
05:15E aí, basicamente, das instituições clássicas que a ciência política estuda,
05:20e como basicamente foi sendo formado, se a GSEC a gente pode falar assim,
05:24um consenso político pós-segunda guerra mundial.
05:27E o Trump, basicamente, ele emerge nesse momento,
05:32consegue, apesar de não ser oriundo de uma família pobre,
05:35basicamente sinalizar para boa parte dessa população,
05:39que estava descontente economicamente, uma parte descontente com as mudanças culturais,
05:45as mudanças em termos de moralidade, ele acaba sendo aquela figura do antissistêmico.
05:52E se no primeiro mandato ele enfrentou alguns freios,
05:57ainda que o Levitsky, naquele livro, tenha dito que basicamente
06:00os freios foram muito insuficientes para conter o Trump,
06:06que até a nossa realidade foi uma realidade de conter melhor os antissistêmicos,
06:10o que parece muito claro é que nesse segundo governo ele veio mais disposto
06:15a não só ser o personagem antissistêmico,
06:18mas fazer efetivamente uma política antissistêmica.
06:21E ele trouxe para a Casa Branca e para o seu entorno
06:24atores que iam efetivamente implementar uma política antissistêmica.
06:28E antissistêmica, aí, para o nosso azar,
06:31não só em termos de política interna, mas para a política externa.
06:36Em parte também porque, acredito eu, e aí vou deixar devolver a bola para os colegas,
06:41porque ele percebeu claramente a ameaça chinesa.
06:44Ameaça chinesa em que sentido?
06:46Um país que se aproxima dos resultados econômicos dos Estados Unidos
06:50e que tem as condições para ameaçar a hegemonia norte-americana.
06:57Então, eu leio esses 12 meses que a gente vê com certa apreensão e esse acúmulo todo
07:03por ser um político antissistêmico que joga contra todas as regras que a gente conhece,
07:11não só de política interna, mas de política externa.
07:14E tendo que dar resposta para essa grande ameaça, entre aspas,
07:20ou para essa rivalidade ou com a possibilidade de perder o posto hegemônico para a China.
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