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No Visão Crítica, Zeina Latif, Vinícius Rodrigues Vieira e Roberto Luis Troster analisam os motivos pelos quais o Brasil não conseguiu avançar nas negociações sobre o tarifaço de Donald Trump. Especialistas apontam que o contexto político interno do país, marcado por divisões e incertezas, tem atrapalhado a formação de uma frente unida e estratégica para lidar com a agressividade comercial americana.

Confira o programa na íntegra em: https://youtube.com/live/W5hasmRUh40

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Transcrição
00:00Aspectos para tratarmos desse tema do tarifácio de Donald Trump, mas pegando o recorte, olhando para a situação que envolve o Brasil.
00:07Vou começar pela Zena, porque desde a semana passada a gente tem trazido aqui muitas reflexões,
00:13estamos debruçados sobre esse tema, analisando muitos aspectos que tratam desse anúncio de Donald Trump,
00:20mas também da capacidade de negociação e articulação do governo brasileiro
00:26para demandas que não são meramente comerciais e tarifárias.
00:31Basta a gente lembrar daquela carta barra comunicado de Donald Trump.
00:37Zena, vimos nos últimos dias países e blocos comemorando, ou se não comemorando,
00:43alcançando acordos com os Estados Unidos em relação às tarifas impostas ou anunciadas.
00:48Por qual razão o Brasil não conseguiu avançar nessas negociações?
00:52Bom, tem países que vinham num processo de negociação já há um bocado de tempo.
00:59Outros ainda não conseguiram fechar acordo, por exemplo, o México.
01:03Então, é um retrato bastante heterogêneo.
01:06Cada caso é um caso e condições muito específicas.
01:10Mesmo aqueles que conseguiram fechar, muitas vezes de forma polêmica.
01:16A gente viu, por exemplo, agora a reação de alguns países da União Europeia ao acordo.
01:21Foi feito o acordo, mas sobre críticas...
01:24França e Alemanha, especialmente.
01:26Exatamente.
01:26E que são players importantes.
01:28Então, é difícil a gente ter um retrato muito homogêneo nessa história.
01:34São situações muito diferentes.
01:36A posição do Brasil, primeiro, que é uma notícia nova, que é essa questão do tarifácio.
01:43Não é algo que vinha lá de trás.
01:45É uma nova informação, um novo elemento, que, aliás, coloca o Brasil numa situação muito difícil.
01:53E, obviamente, como tem questões políticas envolvidas, isso diminui também o espaço para a barganha.
02:01Veja, nós somos uma economia muito fechada.
02:04Nós impomos muitas barreiras tarifárias e não tarifárias ao comércio mundial.
02:09Por esse aspecto, o Brasil é um dos países mais fechados do mundo.
02:15Então, qualquer país tem razão para ter bronca, vamos dizer assim, em relação à política do Brasil e o Mercosul.
02:22Isso é dado.
02:24Agora, não foi isso que foi colocado na pressão dos Estados Unidos.
02:30Por isso que é muito mais difícil.
02:33E, obviamente, com menos instrumentos para a negociação.
02:38Não que não haja, mas com menos instrumentos para a negociação.
02:41E num contexto político que atrapalha.
02:45O fato de se politizar o tema, sempre se politiza, mas, enfim, neste momento,
02:51essa questão política mais forte, obviamente, também atrapalha.
02:56Então, enfim, acho que tem muitos capítulos ainda nessa história, viu?
03:01Sem dúvida.
03:02Dos dois lados.
03:03Não, sem sombra de dúvida.
03:05Porque há quem defenda que a politização também foi destacada inicialmente por Donald Trump
03:11a partir daquela carta considerada por alguns como uma grande salada,
03:16porque ele fez uma mistura de temas e não foi objetivo em suas demandas e em seus pleitos ali.
03:22Mas a gente vai tratar disso daqui a pouco.
03:24Só quero dar, mais uma vez, boas-vindas ao Vinícius Rodrigues Vieira,
03:28porque nós falávamos antes de começar o programa, aqui em off, no estúdio,
03:32e discutíamos justamente a questão que envolve a negociação e a maneira como o Brasil se colocava, né, professor?
03:40Não somente olhando para as autoridades, para a diplomacia,
03:43Ministério de Relações Exteriores, presidente brasileiro,
03:47mas também empresários, representantes de setores.
03:49O Brasil ficou acomodado com aquela primeira taxa anunciada de 10%,
03:55parecia que era um índice muito atrativo e aí não fez nenhum movimento para negociar,
04:02para chamar os Estados Unidos para a mesa?
04:05Foi mais ou menos por aí?
04:06Você acha que o erro começou ali?
04:08Acho que o erro começou ali.
04:10E, obviamente, como a Zena falou, temos essa questão política,
04:14essa demanda do Trump a favor do ex-presidente Bolsonaro,
04:18algo que é importante dizer está fora aí do domínio do executivo brasileiro,
04:22ainda que haja uma anistia, ela vai passar, se haverá pelo legislativo,
04:27isso está fora ali do nosso ordenamento jurídico.
04:31E o Trump precisa respeitar isso, é importante dizer.
04:34Mas se a gente olhar a evolução do tarifácio do Trump,
04:38o Trump impôs tarifas altíssimas a vários países, principalmente ali da Ásia.
04:43O Vietnã ficou ali naquele primeiro ciclo com quase 70%, 67%.
04:48Houve várias variações.
04:50E nós respiramos aliviados, porque nós só tivemos 10%.
04:54E acho que isso desarticulou um pouco, não apenas o nosso governo federal,
05:00acho que desarticularia qualquer administração que recebesse.
05:04É uma questão de como nós nos situamos ali, nós respiramos aliviados.
05:10Até porque, pegando também o que a Zena falou,
05:12nós temos vários elementos protecionistas que não foram abordados naquela época.
05:17Esperava-se ler alguma coisa na questão do etanol, por exemplo.
05:21E até aí nos bastidores dizem que o governo já estava preparado para ceder algo no etanol,
05:26ainda que prejudicasse, por exemplo, produtores nacionais como instrumento de barganha.
05:31Então, nós fomos surpreendidos aí, menos de um mês, a carta foi publicada 9 de julho,
05:36com 50%, a maior aí desse ciclo.
05:40Mas é importante ressaltar, não é apenas o Brasil que sofre com isso.
05:44Mesmo países que chegaram a um acordo, um acordo muito ruim.
05:47Não só a União Europeia, pensar, por exemplo, na Indonésia, nas Filipinas,
05:51países que têm mais perfil próximo ao do Brasil, por serem países emergentes.
05:54Para não citar, claro, o México, que também está aí enfrentando dificuldades.
06:00Mas nós, talvez, como sociedade, o setor produtivo,
06:04poderia ter aí se preparado melhor fazendo estudos ao lado,
06:07é importante dizer, claro, do governo federal,
06:10que também acabou aí sendo traído, vamos dizer, pelas circunstâncias,
06:15haja vista que nós estávamos no nível mais baixo no primeiro momento,
06:18mas Trump parece ter mudado de ideia,
06:20porque ele falou que agora o baseline, a tarifa mínima, não será sequer 10%,
06:24mas será entre 20% a 15%.
06:27Professor Roberto Luiz Troster aqui com a gente.
06:31Professor, tarifaço anunciado por Donald Trump,
06:34a maneira como o Brasil recebe essa notícia,
06:37as indicações de que o governo tentaria a negociação,
06:42uma reversão da medida ou até adiamento,
06:44e aí muitas frentes de negociação, vai o chanceler para os Estados Unidos,
06:49não é recebido por nenhuma autoridade.
06:52Vice-presidente da República envia uma carta,
06:54não tem até agora nenhuma resposta.
06:57Comitiva de senadores,
06:59tratativas com outros parlamentares,
07:01também com representantes de setores da economia norte-americana.
07:05Governadores, em reunião aqui no Brasil,
07:08tentam achar uma saída para essa situação.
07:11O governo, em paralelo, pensa em um plano de contingência.
07:17Naturalmente, socorro às empresas e aos produtores.
07:20Situação fiscal ótima do Brasil para pensar nessa saída.
07:23Tudo bem, daqui a pouco a gente trata disso.
07:25Mas queria escutá-lo a respeito,
07:27a maneira como o Brasil tem tratado desse tema,
07:29quando a gente olha para as negociações.
07:31O Brasil está negociando com a parede.
07:34A parede não quer falar,
07:36e o Brasil está tentando, assim,
07:38você falou, senadores, vice-presidente.
07:43Se não é recebido, por que não quer negociar?
07:45Tem uma estratégia de negociação, sabe?
07:48Ou seja, ficar quieto já é negociar, não é?
07:51Já é negociar, porque quanto mais vai chegando,
07:54mais expostos.
07:55Ele acabou de mencionar o caso do etanol.
07:58Quer dizer, era algo inegociável,
08:01ou seja, debatia que era inegociável,
08:05agora já é negociável.
08:06Porque quanto mais está pressionando bem.
08:10A parede fala, e você está chegando à parede.
08:12Você vai bater com a parede,
08:14é uma maneira de pressionar.
08:17E a tarifa não é só com exportação para os Estados Unidos.
08:23O que acontece?
08:24Como a tarifa brasileira é mais alta
08:26que a tarifa, por exemplo, argentina,
08:28ou de outros países,
08:30o que acontece?
08:30As vantagens agora da Argentina
08:34e todos os outros que têm tarifa menor
08:36para exportar para os Estados Unidos
08:38aumentam consideravelmente.
08:40Quer dizer, então ele perde dos dois lados.
08:44Também com a União Europeia,
08:46o Brasil compete com os Estados Unidos
08:49e muitos produtos agropecuários
08:51que são exportados,
08:52carne para a Europa.
08:54estão dando vantagem agora
08:58para os produtos americanos.
09:00Quer dizer, o Brasil vai exportar menos carne
09:02para a Europa, possivelmente.
09:04Quer dizer, então,
09:05é um golpe forte
09:07e ele está parado, esperando.
09:09O relógio joga a favor dos Estados Unidos.
09:13O que é razoável esperar?
09:16Que na hora H vão baixar algumas coisas
09:18que prejudicam mais a eles do que a nós,
09:21tipo café, tipo suco de laranja.
09:25Algumas coisas vão baixar, outras não.
09:28E esperar.
09:29Quer dizer, a parede cada vez vai pedir
09:32para que a gente comece a oferecer mais e mais.
09:37esteja mais desesperado.

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