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Em entrevista à Jovem Pan, o professor de relações internacionais Carlos Gustavo Poggio comenta a articulação de países do Golfo e Israel para dissuadir Donald Trump de um ataque imediato ao Irã.
Poggio explica que o cenário atual apresenta uma "combinação de fatores" onde a crise econômica e o isolamento da política externa geram um descontentamento interno capaz de "enfraquecer ou derrubar um governo". Segundo o especialista, a estratégia de asfixia econômica pode ser mais eficaz do que uma intervenção militar, que traria riscos imprevistos para a estabilidade do Oriente Médio.
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Poggio explica que o cenário atual apresenta uma "combinação de fatores" onde a crise econômica e o isolamento da política externa geram um descontentamento interno capaz de "enfraquecer ou derrubar um governo". Segundo o especialista, a estratégia de asfixia econômica pode ser mais eficaz do que uma intervenção militar, que traria riscos imprevistos para a estabilidade do Oriente Médio.
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NotíciasTranscrição
00:00Os governos árabes avaliam que as tensões entre os Estados Unidos e o Irã estariam perdendo força.
00:06E o nosso entrevistado agora é o professor de Relações Internacionais do Bira College do Kentucky, nos Estados Unidos,
00:12Carlos Gustavo Pódio, mais uma vez, gentilmente nos atendendo. Como vai, professor? Boa noite.
00:18Boa noite, Thiago. Tudo bem? Prazer em conversar com você, quem nos ouve aí e assiste pela Jovem Pan.
00:22Prazer é sempre nosso. Professor, não tem muito como saber, porque, é como o Luca falou,
00:27são informações de bastidores que teria havido recuo, mas a questão é, o país, o Irã,
00:36vem enfrentando, talvez, as maiores manifestações das últimas décadas,
00:41o senhor tem mais precisamente pra fazer essa referência histórica pra gente,
00:46mas é saber se isso interfere ou vai interferir, de alguma forma, nos rumos do governo iraniano.
00:53Pois é, Thiago. De fato, nós estamos aí assistindo um momento bastante delicado do regime iraniano,
01:01talvez o mais delicado desde 1979, quando é a Revolução Iraniana,
01:05porque nós estamos diante de uma combinação de fatores que a ciência política nos indica
01:11que tende a enfraquecer muito ou, eventualmente, derrubar um governo.
01:15O principal deles é uma profunda crise econômica que atinge praticamente todos os setores da população iraniana.
01:22Então, isso gera um descontentamento muito grande.
01:26Nós temos um país que está isolado do ponto de vista de política externa.
01:31Não tem muitos aliados.
01:32Aos poucos aliados estão muito enfraquecidos.
01:34Um aliado importante do Irã, por exemplo, que era a Síria.
01:37A Síria perdeu o ditador Bachar al-Assad.
01:40Isso foi um dos elementos que levou ao isolamento do Irã, que foi, vamos lembrar,
01:45atacado pelos Estados Unidos e por Israel no ano passado,
01:48o que enfraqueceu militarmente e enfraqueceu também do ponto de vista da imagem de um regime
01:53que se vendia como invencível.
01:57A facilidade com que Israel e Estados Unidos atacaram o Irã
02:00gerou uma humilhação muito grande para o país.
02:04Então, tem uma combinação de fatores domésticos que geram um pouco agora esses protestos
02:09que combinam um outro fator que é a deslegitimação do governo.
02:14O que está faltando, se a gente for entender o que pode acontecer com o Irã nesta equação?
02:21Falta a parte da própria elite iraniana, o governo iraniano.
02:25Se a gente tem algum tipo de racha dentro do próprio governo.
02:29Isso não parece estar acontecendo.
02:31Há um ou outro, enfim, alguns indicativos que possam vir a acontecer.
02:37Mas enquanto nós tivermos alguma divisão dentro da elite, por exemplo,
02:41da guarda revolucionária iraniana, o Irã é uma teocracia,
02:45mas é praticamente uma ditadura militar.
02:48Porque tem aí, como a Venezuela, por exemplo,
02:52uma participação muito forte de militares na sociedade iraniana
02:56e na economia iraniana, como é o caso da Venezuela, por exemplo.
03:00Então, eles têm muito interesse na manutenção desse regime
03:03e, portanto, estão muito dispostos a usar a força para permanecer no poder.
03:08Então, é normal esses governos autoritários eventualmente recorrerem à força,
03:12recorrerem à violência para se manterem no poder.
03:15Isso não significa que o governo iraniano deve cair em breve,
03:20mas significa que há um processo de enfraquecimento que pode levar lá na frente
03:26a algum problema mais grave.
03:28Mas não há nenhum indicativo ainda muito forte.
03:30Quer dizer, faltam alguns pontos dessa equação.
03:33O primeiro é essa falta de fragmentação na elite iraniana
03:36e o segundo é a falta de uma oposição unificada.
03:40Não tem uma figura única que una a oposição.
03:44Há muita referência ao filho do Shah Reza Palev, que mora nos Estados Unidos,
03:50que desde 1979 não vai ao Irã.
03:52Estão, portanto, um pouco distanciados da realidade iraniana.
03:56E não há, portanto, uma figura muito forte que representaria esta oposição iraniana.
04:02Esses são os elementos que me parecem que faltam
04:05para que haja uma mudança mais significativa no Irã.
04:09Agora os nossos comentaristas, aqui ao meu lado, Denise Campos e Toledo.
04:13Paulo, boa noite.
04:14Eu queria prosseguir.
04:16Até você já citou a questão da Venezuela.
04:18Em relação à Venezuela, ficou muito claro que havia todo um interesse econômico
04:22por parte de Trump de afastar a Rússia e a China da região
04:26e conseguir ter algum controle sobre a produção de petróleo,
04:30inclusive estimulando as petroleiras dos Estados Unidos.
04:33Em relação ao Irã, ele pode ter feito um jogo de cena também,
04:37ameaçando uma intervenção mais direta para tentar obter alguma vantagem.
04:42Você fala muito do Estreito Gilman,
04:43que boa parte do petróleo que vai para países emergentes,
04:46economias desenvolvidas, passa pelo local.
04:49O gás leak é feito também.
04:51Ele pode ter algum tipo de interesse de chegar a um acordo,
04:53inclusive na área nuclear,
04:55que é uma grande preocupação que se tem em relação ao Irã,
04:58forçar esse tipo de negociação mediante essa ameaça?
05:03Denise, prazer em conversar com você também.
05:06O Donald Trump está muito encorajado com o que aconteceu na Venezuela.
05:11É normal, presidentes, após um sucesso militar,
05:15que eles se sintam encorajados.
05:17E a Venezuela, enfim, a despeito de qualquer coisa que se possa dizer,
05:20ela foi um tremendo sucesso do ponto de vista militar,
05:23da operação militar a que os Estados Unidos se propôs.
05:27Ela foi executada com extrema competência, com extremo sucesso.
05:31Isso gerou um certo estímulo do Donald Trump.
05:33Mas se a gente olhar o que a administração Trump tem falado
05:37sobre a sua visão de política externa,
05:40eles enxergam a ideia de áreas de influência.
05:42Então, eles veem o que eles chamam de hemisfério ocidental,
05:46que inclui a América Latina,
05:47como a área de influência norte-americana.
05:50E veem outras regiões como áreas de influência de outros países.
05:53Isso inclui até mesmo o Oriente Médio.
05:56Uma pretensão de tentar deslocar um pouco as forças americanas do Oriente Médio.
06:01Aliás, simbolicamente, o principal porta-aviões norte-americano
06:06que estava naquela região foi deslocado para o Caribe.
06:09Então, mostrando aí um deslocamento de forças norte-americanas
06:12para esta região no hemisfério ocidental,
06:15que eles julgam ser a sua principal área de influência.
06:18Então, o Irã é visto nesta chave.
06:21É visto como fora desta que seria a principal área de influência dos Estados Unidos.
06:25É claro que a questão do petróleo é uma questão que interessa,
06:29uma questão importante.
06:30No caso da Venezuela, tem uma preocupação,
06:32porque o tipo de petróleo venezuelano é um petróleo mais caro de ser extraído,
06:37um petróleo muito viscoso.
06:38Então, portanto, tem algumas questões do ponto de vista econômico
06:41que tornam uma dificuldade de se investir na Venezuela.
06:44Então, não é algo mais para o curto prazo.
06:47E no caso do Irã, os iranianos já fizeram um acordo com os Estados Unidos
06:51durante o governo Obama, que o Donald Trump saiu.
06:54Então, do ponto de vista do governo iraniano,
06:57tem algumas dificuldades em se chegar a um acordo com os Estados Unidos.
07:02Eu citaria aqui duas dificuldades principais.
07:05Uma delas é a falta de confiança no governo norte-americano
07:08e, particularmente, no Donald Trump.
07:10O Donald Trump não é alguém que inspira a confiança
07:12em termos de acordos de longo prazo.
07:14O Donald Trump é alguém que fala uma coisa hoje, fala outra amanhã,
07:17depois de amanhã ele muda de ideia.
07:18Então, é muito difícil essa imprevisibilidade
07:21que ele vende como sendo uma coisa boa para negociação.
07:25Ela é ruim para quando você pretende fechar um acordo.
07:27Então, seria fechar um acordo com uma arma na cabeça.
07:30Ora, fechar um acordo com uma arma na cabeça para um governo como o Irã
07:33seria uma grande humilhação.
07:35Isso traria problemas domésticos muito grandes.
07:38E o Irã não me parece disposto a fazer esse tipo de ação,
07:42pelo menos não por agora.
07:43Então, a situação do governo iraniano,
07:45desse governo atual, desse regime atual,
07:49para chegar a um acordo com os Estados Unidos,
07:52é um cálculo, tanto do ponto de vista internacional,
07:55na sua relação com os Estados Unidos,
07:56quanto do ponto de vista doméstico, bastante delicado.
08:00Professor, agora a pergunta de Dora Kramer, com a gente.
08:02Dora.
08:03Boa noite, Jorge.
08:06Eu queria falar de Venezuela.
08:08Estou querendo muito te ouvir sobre esse quadro.
08:12Vamos aproveitar essa visita hoje, da Maria Corina,
08:16o Trump, uma visita que ela pediu.
08:19Foi recebida com relativa frieza,
08:22porque a gente viu o noticiário, aquela coisa,
08:25ele não foi recebê-la, também não levou de volta.
08:29E ela, uma atitude um pouco de bajulação,
08:35oferecendo a medalha do Prêmio Nobel.
08:38O que você acha?
08:40De qualquer modo, ela está se movimentando.
08:43E o Trump se aproximando cada vez mais da presidente,
08:50que é chavista.
08:51Dora, isso nos pode desenhar, projetar algum horizonte
08:57de retomada da democracia com a integração da oposição na Venezuela?
09:05Pois é, Dora.
09:06O que está muito claro, né,
09:08desde a ação norte-americana na Venezuela,
09:11é que a gente está acostumado, na verdade,
09:13a analisar política externa norte-americana,
09:16desde pelo menos do final da Segunda Guerra Mundial,
09:18sob essa chave da questão da democracia.
09:21Esse é um elemento que sempre esteve presente
09:23nas ações externas norte-americanas.
09:25Então, os Estados Unidos invadem o Iraque em 2003,
09:28há uma série de motivações para isso,
09:30mas a questão da democracia é uma questão importante, né,
09:33porque gera legitimidade interna na população americana,
09:37faz com que os Estados Unidos sejam vistos
09:39como defensores de determinados valores,
09:40que não estão apenas invadindo um país,
09:42apenas por questões materiais.
09:44Não é o caso do Donald Trump.
09:46Donald Trump não esconde de ninguém,
09:48e deixou muito claro isso,
09:49seu primeiro discurso que ele fez
09:51depois da captura do Maduro,
09:53ele falou a palavra petróleo 15 vezes
09:55e a palavra democracia zero vezes, né,
09:58ele não mencionou democracia.
10:00Já no primeiro discurso,
10:01ele já descarta a Maria Corina Machado.
10:03Maria Corina Machado é quem representa
10:05a verdadeira, o verdadeiro campo oposicionista
10:08que venceu as eleições que foram roubadas
10:10pelo Maduro na Venezuela.
10:12Ela representa isso.
10:13Mas o Donald Trump não está interessado em democracia.
10:17A gente precisa acostumar agora
10:18a olhar para os Estados Unidos em uma outra chave.
10:20Ele deixou muito claro
10:21que a única questão que ele pretende da Venezuela,
10:25quer dizer, menos de uma semana
10:26depois da captura do Maduro,
10:27ele já está na Casa Branca sentado,
10:29reunido com representantes de empresas de petróleo.
10:32Ele deixou muito claro,
10:34falou muitas vezes sobre isso,
10:35não esconde de ninguém
10:36que o interesse dele na Venezuela
10:38é simplesmente o petróleo.
10:39Se para conseguir esse interesse
10:41ele precisa sacrificar a democracia venezuelana
10:44e manter o governo chavista no lugar,
10:47desde que esse governo
10:48seja um pouco mais subversiente a ele,
10:51ele vai topar isso.
10:52A grande questão é esse outro lado da moeda.
10:55Ou seja, por quanto tempo
10:56esse governo venezuelano,
10:58liderado pela Delce Rodrigues,
11:00que é a continuidade do chavismo,
11:02vamos lembrar que não mudou absolutamente nada
11:04na Venezuela hoje.
11:06Para a população venezuelana,
11:08a repressão continua sendo um regime autoritário,
11:11tudo isso permanece.
11:13A estrutura de governo inteira está intacta,
11:16mudou apenas o topo dessa estrutura.
11:19Então não houve mudanças significativas nesse sentido.
11:22Então a Delce Rodrigues,
11:24que é alguém que me parece muito estratégica nesse sentido,
11:26ela está fazendo algumas concessões
11:28para ver se consegue acalmar o Donald Trump nesse sentido.
11:31Ou seja, liberta alguns presos políticos,
11:34faz um acordo,
11:35mas não me parece que nenhum interesse
11:37em uma transição democrática para a Venezuela
11:40vai caber, portanto,
11:41a Maria Corina Machado fazer este lobby em Washington,
11:44ver se ela consegue convencer alguém no país
11:46para tentar ter algum tipo de vantagem nesse sentido.
11:51Mas não me parece que é o cenário mais provável nesse momento.
11:54Professor, rapidamente para a gente fechar,
11:56pergunta de Nelson Kobayashi.
11:57Professor, boa noite, um prazer falar contigo.
12:00Voltando para o Irã,
12:01a minha pergunta,
12:02independente da intervenção americana ou não,
12:06a senhora acredita que o regime de Khamenei
12:08esteja próximo do fim,
12:10diante de uma mudança geracional,
12:12de um acesso da população ao mundo exterior,
12:15ainda que com todas as limitações que a gente conhece,
12:18essa revolta popular indica um fim no horizonte
12:22desse regime autoritário?
12:25Eu acho que o que indica é um regime que está caduco,
12:32um regime que está perdendo a legitimidade
12:35perante a população,
12:37é um regime que já não entrega mais,
12:39é um regime que está descolado da realidade
12:41da população iraniana.
12:44Um dos grandes desejos que a gente parece ver
12:47nessa população iranar que protesta
12:50é um certo desejo de que o Irã volte a ser um país normal.
12:53Um pouco essa ideia de sair um pouco.
12:56O Irã é única.
12:57Se a gente pensar em regimes políticos ao redor do mundo,
13:00há pouquíssimas teocracias no mundo.
13:03O Irã é uma delas.
13:04Então, é um regime realmente muito fora
13:07daquilo que grande parte da população iraniana
13:11entende como a normalidade.
13:13Isso até explica porque há grupos desta oposição
13:16que querem a volta do Shah.
13:18A ideia não é que o Shah volte para ser um novo ditador,
13:22mas que volte para ser uma espécie de um monarca britânico.
13:26Ou seja, não seja alguém com grande poder,
13:27mas alguém que seja um símbolo de unificação do país
13:30e que o país, de alguma forma, consiga transitar
13:33para uma democracia.
13:35Mas, como eu disse,
13:36para a gente tentar observar se o regime está próximo de cair,
13:40não basta a gente ver protesto.
13:41O protesto em si não derruba sozinho o regime.
13:44O que derruba o regime é quais são as consequências políticas
13:49desse processo na elite que conduz o regime.
13:52E a elite iraniana se mostrou,
13:54digo, a elite política iraniana,
13:56as pessoas que estão no poder no Irã,
13:58se mostraram e têm se mostrado há muitos anos
14:01bastante dispostos a utilizar o aparato repressivo
14:05contra a população,
14:06se for isto necessário para se manter no poder.
14:10Como disse, nós temos uma situação no Irã
14:12que é similar à situação da Venezuela,
14:14que dá muito poder não apenas político aos militares,
14:18mas dá poder econômico.
14:20Uma porcentagem enorme do PIB iraniano
14:23está nas mãos de militares.
14:24Mesma coisa no caso da Venezuela.
14:26Então, são militares que não controlam apenas
14:28o aparato militar.
14:30Eles controlam a vida econômica do país.
14:34Então, portanto, eles têm muito a perder
14:36se esse regime cair.
14:39A gente tem um caso, por exemplo,
14:41que é o do Egito.
14:42O Egito também é um país onde os militares têm muito poder.
14:46Vimos a queda do Mubarak, o ditador do Egito.
14:49Houve um certo indício de que haveria um retorno à democracia no Egito.
14:54Você elegeu lá a irmandade muçulmana.
14:56E houve depois a volta do exército.
14:58Ou seja, o exército não saiu completamente.
15:00Ele deu um passo para trás,
15:01esperou as coisas esfriarem,
15:03e voltou depois ao poder.
15:04O regime que nós temos no Egito hoje
15:06é virtualmente idêntico ao regime que nós tínhamos
15:09antes da queda do Mubarak.
15:10Então, este é um dos medos que a gente pode ver no Irã também.
15:13Professor Carlos Pódio, de Relações Internacionais,
15:16que atua nos Estados Unidos.
15:17Sempre bom receber o senhor aqui.
15:19Muito obrigado mais uma vez.
15:21E volto sempre.
15:22Professor, um abraço.
15:24Obrigado.
15:24Boa noite a todos.
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