00:00E a tensão entre os Estados Unidos e o Irã volta a se intensificar após as recentes declarações do presidente
00:07iraniano que afirmou que não irá ceder às pressões de Trump.
00:11Para entender os novos desdobramentos, o que pode acontecer a partir de agora, a gente conversa ao vivo com o
00:17Paulo Velasco, professor de Política Internacional da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
00:21Professor, seja bem-vindo, uma boa tarde.
00:24Boa tarde, Cássio. Boa dia sempre falar com vocês.
00:27Professor, diante até mesmo de todas essas negociações, diante de todo esse conflito do impasse que está entre Estados Unidos
00:34e Irã, quais são os riscos de agravamento dessas tensões, desse impasse entre os dois países?
00:42Cássio, há ainda um profundo desencontro, podemos dizer, entre as duas partes.
00:46Apesar de alguma retórica no sentido de se buscar uma solução diplomática, é difícil pensarmos em um acordo que possa
00:53ser alcançado, pelo menos nos próximos dias.
00:56Lembrando que os Estados Unidos exigem, não só que o Irã interrompa por completo o impasse entre Urano e no
01:02país, mas também que incluam nesse acordo, nesse acerto, o programa de mísseis do país.
01:08A gente sabe que o Irã tem um programa autóctone muito desenvolvido de mísseis e drones, e isso causa, claro,
01:14preocupação a Israel, causa preocupação aos Estados Unidos, e eles entendem que o Irã deve também se comprometer nesse eventual
01:20acordo a reduzir essa sua produção de mísseis e de drones.
01:26E esse é um ponto que o Irã vem afirmando que é inegociável, que não aceitará a inclusão desse tema.
01:31Então, por enquanto, entre Washington e Irã, ficam muito evidentes as diferenças, o que, claro, causa grande preocupação de que
01:38possamos ver, na linha do ultimato pelo Trump, possamos ver alguma nova forma de confrontação entre essas partes.
01:45Estados Unidos e Irã de um lado, Estados Unidos e Israel de um lado, e Irã de outro, como vimos,
01:50aliás, no ano passado, em aqueles ataques norte-americanos contra as instalações nucleares persas.
01:55Então, o horizonte não é, eu diria, muito promissor, não.
02:00Professor, inclusive, você tocou num ponto interessante na questão da infraestrutura dos mísseis.
02:05Além disso, os Estados Unidos têm interesse, têm como objetivo também derrubar o regime iraniano, as instalações nucleares, além dessas
02:12questões dos mísseis,
02:13são vários objetivos, por isso há tantos obstáculos nessas negociações?
02:19É, eu acho que o foco, pelo menos prioritário, e primeiro, podemos dizer, é buscar assegurar que o Irã não
02:25possa desenvolver arsenal nuclear.
02:28A grande preocupação, já há muito tempo, é de que o Irã eventualmente esteja usando sua tecnologia nuclear para fins
02:33não pacíficos, com o objetivo de alcançar a bomba atômica.
02:37Lembremos sempre que o único ator no Oriente Médio inteiro que tem artefato nuclear é Israel.
02:41Então, é uma preocupação norte-americana de que Israel perca essa primazia, essa hegemonia, e que o Irã, que é
02:48um inimigo declarado de Israel já há décadas, possa vir a se tornar uma potência nuclear.
02:53Então, o objetivo prioritário dos Estados Unidos, já há muito tempo, não só com o Trump, mas isso vem desde
02:58ali o governo Barack Obama,
02:59é conseguir algum tipo de garantia de que o governo, o regime persa, não desenvolva armas nucleares.
03:06Nessa linha, claro, nós temos a possibilidade de ataques muito concentrados de Uostra, como vimos no ano passado, contra instalações
03:13militares iranianas,
03:14e contra instalações nucleares norte-americanas, repetindo um pouco a ação feita em 2025.
03:20Mas, claro que, em paralelo a isso tudo, Cássio, podemos entender que há também o interesse norte-americano em enfraquecer
03:26o regime dos ayatolás,
03:27que assumiu o poder ali em 79, com o ayatolá Khomeini, agora temos o ayatolá Ali Khamenei.
03:34A gente sabe que esse regime dos ayatolás, esse regime xiita no Irã, é hostil à própria sobrevivência e existência
03:40de Israel,
03:41o que causa, claro, muita preocupação sempre nos Estados Unidos.
03:44Então, se de carona no enfraquecimento militar e nuclear do Irã pudesse haver também o enfraquecimento,
03:50a eventual queda do regime, isso evidentemente que agradaria demais os Estados Unidos
03:55e traria mais tranquilidade também para o próprio mundo ocidental.
03:59Professor, é importante também te levar em conta o momento vivido pelo Irã,
04:02do regime iraniano sendo contestado, com muitos protestos às ruas,
04:06um certo descontentamento, uma impopularidade muito grande,
04:10com algumas medidas, com a economia do país.
04:12Tudo isso, de certa forma, acaba enfraquecendo o próprio regime
04:16e nessa esteira, Donald Trump ameaçando, ou pelo menos aumentando o tom em relação a isso.
04:22Todo esse contexto acaba colaborando com o avanço militar dos Estados Unidos?
04:27É, sem dúvida.
04:28O regime iraniano vem enfrentando uma debilidade maior
04:31por conta de uma combinação de variáveis internas e externas.
04:36Do ponto de vista externo, aumentou muito a pressão contra o Irã,
04:39não fala apenas da pressão militar norte-americana,
04:41mas a pressão econômica contra o Irã.
04:43Então, muitas sanções começaram a ser aplicadas contra o país,
04:46desde ali os anos 2000 ainda,
04:48as sanções crescentes ao longo dos últimos anos,
04:51o que tem provocado uma certa asfixia financeira
04:53e criando desafios macroeconômicos muito importantes para o Irã,
04:57em termos de baixo crescimento,
04:59dificuldades para a geração de emprego,
05:00e tudo isso acaba provocando uma insatisfação popular também muito grande.
05:05E aí eu entro na variável doméstica, a variável interna.
05:07Temos visto também nos últimos anos,
05:09em paralelo ao avanço de uma crise econômica,
05:12o avanço de um questionamento do regime por parte da população iraniana.
05:16insatisfeita, claro, com a deterioração da situação econômica e social no país,
05:21e isso afeta diretamente o povo, a população,
05:23que não consegue se inserir no mercado de trabalho,
05:25que perde renda, que perde poder de compra,
05:29e tudo isso, claro, acaba sendo um fator muito importante,
05:32mas em paralelo a isso tudo também,
05:34uma satisfação com o próprio autoritarismo e violência do regime iraniano.
05:38A gente sabe muito bem que a polícia iraniana,
05:41a polícia secreta, inclusive,
05:42ela é muito violenta, reprime de maneira muito dura os manifestantes.
05:46Tivemos há bem pouco tempo, há alguns anos,
05:48a questão do uso do veu, a obrigatoriedade do uso do veu,
05:51pela polícia ideológica, digamos assim, do Irã.
05:54A morte daquela manifestante,
05:56Masha Mini, se tornou uma questão muito central no Irã,
06:01alimentando protestos nas ruas.
06:02E agora, mais uma vez, temos visto,
06:04nos últimos meses, uma escalada nas manifestações,
06:07muita gente sendo presa, inclusive manifestantes sendo mortos,
06:10mas ainda assim o povo não deixa as ruas
06:12e mantém uma postura de questionamento do regime.
06:15Então, seja olhando para a dimensão externa,
06:17seja para a dimensão doméstica,
06:18vemos um regime que se vê impactado e abalado
06:21por um conjunto de forças que questionam,
06:23que enfraquecem a sua sobrevivência.
06:26Daí, claro, o governo Trump vê, talvez,
06:28uma janela de oportunidades para pressionar militarmente
06:31e com isso contribuir para acelerar uma eventual queda
06:34do regime xiita, do Jayatolás, ali no Irã.
06:38Professor, com o Donald Trump falando que o próprio Irã teria dias ruins
06:42caso as negociações não avançassem
06:44ou esses obstáculos não fossem vencidos,
06:47e depois as próprias lideranças iranianas
06:49dizendo que não vão ceder a essa pressão,
06:51há informações sobre qual a real capacidade do Irã
06:54de se defender de um possível avanço militar dos Estados Unidos?
07:00O Irã é um país que tem uma capacidade militar robusta,
07:03importante, mas no ano passado ficou muito claro
07:05que não consegue se defender de uma agressão militar norte-americana.
07:09Então, claro, para os padrões do Oriente Médio,
07:11o Irã é uma força relevante,
07:13claro, não é páreo para Israel,
07:15que é a maior força militar da região,
07:17mas tem uma capacidade militar importante.
07:19O que tem acontecido, ao lado do enfraquecimento econômico do Irã,
07:22da crise econômica,
07:24é o enfraquecimento do chamado eixo de resistência,
07:26que era o Irã ao lado de um conjunto de atores na região,
07:29então o Hezbollah, por exemplo, no Líbano,
07:31os Houthis ali no Iêmen,
07:34o próprio Hamas na faixa de Gaza,
07:37a aliança que tinha com o regime sírio de Bashar al-Assad,
07:40muitos desses atores não estavam mais em cena
07:42ou se enfraqueceram muito,
07:44o que criou, claro, uma fragilidade
07:45para esse eixo de resistência iraniano
07:47que não pôde contar com esses aliados no âmbito regional.
07:50E a própria capacidade militar iraniana,
07:52embora seja robusta,
07:54ela não consegue, claro, evidentemente,
07:55garantir uma proteção do país
07:57contra as tecnologias militares e bélicas
07:59de altíssima geração dos Estados Unidos.
08:01Estados Unidos conseguiram, no ano passado,
08:03atacar as principais instalações nucleares iranianas
08:06com uma grande facilidade,
08:07sem enfrentar qualquer resistência maior ou mais significativa.
08:11O Irã, por sua vez,
08:12mostra limitações também na hora de atacar, por exemplo, Israel,
08:15porque Israel conta com aqueles mecanismos de defesa
08:18muito importantes
08:19que acabam neutralizando muito
08:21da ação iraniana.
08:23Então, é um poderio militar relevante
08:26para os padrões do Oriente Médio,
08:27mas evidentemente que não tem capacidade maior
08:30de se defender de alguma ação
08:32que seja feita com alguma envergadura maior
08:34por parte dos Estados Unidos.
08:36Professor, falando ainda do Oriente Médio,
08:38eu gostaria que o senhor falasse um pouquinho mais
08:39do papel de Israel,
08:40que é um aliado histórico dos Estados Unidos,
08:42de outros aliados mesmo de Israel
08:44e também dos Estados Unidos,
08:46aumentando ainda mais essa pressão
08:48dentro do Oriente Médio contra o Irã.
08:51É, um conjunto amplo de atores
08:54se mobiliza aí.
08:55Quando a gente pensa no Irã,
08:56não é um player qualquer.
08:57O Irã tem desafetos relevantes
09:00ali na região do Golfo Pérsico.
09:02Há desavenças históricas, por exemplo,
09:04do Irã com a Arábia Saudita.
09:06Tem crescido os desencontros
09:07entre Irã e Emirados Árabes Unidos.
09:10Então, o Irã passa por um cenário
09:12de maior fragilidade,
09:14enfrentando desafios e posturas notícias.
09:16Não só de Israel,
09:17que é o inimigo histórico do Irã,
09:19mas até mesmo de países árabes
09:21ali da região do Golfo Pérsico,
09:22que acabam convergindo, por vezes,
09:24com os Estados Unidos.
09:26Afinal de contas,
09:27de alguma maneira,
09:27reconhecem no Irã
09:28um desafio comum aos seus interesses.
09:31E isso acaba levando
09:32à articulação de alianças,
09:33por exemplo, de Israel
09:34com os Emirados Árabes,
09:36por exemplo.
09:37Algo estranho de se pensar,
09:38porque é um país árabe
09:39e o Estado judeu de Israel.
09:41Mas acabam coincidindo
09:43essas coordenações,
09:44justamente no sentido de avançar
09:46no enfraquecimento ali do Irã,
09:48buscar neutralizar
09:49a capacidade de ação iraniana.
09:51A relação do Irã
09:51com os seus vizinhos árabes
09:53ali na região do Golfo Pérsico
09:55tem sido, ao longo dos anos,
09:56dos últimos anos, sobretudo,
09:58uma relação marcada
09:59por desencontros,
10:00por desavenças.
10:01Mesmo o Irã
10:02tendo restabelecido
10:03relações diplomáticas,
10:04por exemplo,
10:05com a Árabe Saudita,
10:05o relacionamento com a Árabe Saudita,
10:07com os Emirados Árabes,
10:08com o Bahrein,
10:09é um relacionamento
10:10bastante complicado.
10:11Só o Qatar
10:12ainda mantinha
10:13as relações mais próximas do Irã,
10:14mas o resto dos países
10:16da região
10:16tendem a ter posturas
10:18hostis ao Irã
10:20e isso é aproveitado
10:20pelos Estados Unidos,
10:21que tem bases militares
10:22muito importantes ali
10:23naquela área.
10:24Isso vem sendo aproveitado
10:25também por Israel,
10:26que busca avançar
10:27essas alianças
10:28para eventualmente
10:29neutralizar o Irã
10:31ou contribuir reiteiro
10:32para uma possível queda
10:34do regime
10:34do xiita ali,
10:36dos ayatollahs
10:37no Irã,
10:38lembrando que boa parte
10:38dos países ali
10:39da região
10:40são sunitas,
10:41então entendem o Irã
10:42como um desafio também
10:43em termos
10:44não só geopolíticos,
10:45mas também religiosos.
10:48Perfeito, professor.
10:49Muito obrigado
10:50pela sua participação
10:51aqui no Fast News.
10:52Sempre bom te receber
10:53para a gente entender
10:54o que está em jogo,
10:55o que pode acontecer
10:55a partir de agora
10:56nesse conflito
10:57entre Estados Unidos e Irã.
10:59Um bom domingo
11:00para o senhor.
11:01Muito obrigado, Cássio.
11:02Prazer sempre falar com vocês.
11:03Um abraço a todos.
11:04Até mais.
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