00:00Agora a gente volta a falar sobre a tensão no Oriente Médio com as ameaças de Donald Trump ao Irã.
00:05Nosso convidado é o doutor Sidney Leite, professor de Relações Internacionais,
00:10chegando aqui ao vivo nessa edição do Jornal Jovem Pan para nos ajudar a entender melhor todo esse cenário.
00:15Professor, boa noite. Bem-vindo. É um prazer te receber.
00:17Eu quero já te perguntar a respeito desta ameaça pública nas redes sociais feita por Donald Trump,
00:23dando prazo, o ultimato, as 48 horas que estão se findando sob pena agora dele aplicar o inferno ao Irã.
00:32Foi o termo utilizado por ele, o inferno ao Irã. O que isso significa? Bem-vindo.
00:39É um grande prazer conversar com você.
00:43Veja, desde o início, este conflito parece, da parte de Israel e principalmente dos Estados Unidos,
00:50não ter objetivos muito claros.
00:53Eu costumo usar a metáfora da bússola e do GPS.
00:58O tipo de conflito que foi dado uma direção, mas está muito longe, portanto, uma bússola,
01:03mas está muito longe da gente ter um GPS identificando o que vai acontecer,
01:09ou provavelmente ocorrerá a cada passo.
01:14O que pode ser feito?
01:15Uma invasão por terra?
01:17Acho muito pouco provável.
01:19Se o Trump considera, e aí talvez a palavra inferno seja muito bem empregada,
01:25porque o Irã tem uma geografia muito árida, muito dura para qualquer invasor.
01:36Podemos remeter isso desde a antiguidade.
01:40Lembremos que o Irã é um antigo Império Persa.
01:43Há uma grande experiência de combates ao longo da história contra os mongóis,
01:48antes contra os gregos, contra Esparta.
01:52Estamos falando de um Estado que tem uma geografia muito pouco propícia à ação de invasores.
02:02Aumentar a carga de ataques aéreos?
02:06Enfim, não está muito claro como o Trump vai conseguir traduzir esta fala,
02:16esta ameaça, de uma forma efetiva.
02:21É muito mais provável que seja uma ameaça que provavelmente não vai se materializar
02:29da forma como está sendo anunciada pelo atual mandatário da Casa Branca.
02:34Seria um blefe, professor?
02:36O senhor não acredita em um cumprimento da promessa,
02:39em uma intensificação bélica, militar, muito mais forte contra o Irã,
02:44na próxima segunda, quando acaba o prazo?
02:48Veja, o Trump é formado, ele não segue uma trajetória clássica no campo da política americana.
02:57Ele foi forjado como negociador na indústria da construção civil.
03:03E, portanto, são as first negotiations, as negociações duras.
03:08E o blefe faz parte, sem dúvida, desta estratégia, desse paradigma de negociação.
03:17Mas o que fica difícil da gente visualizar é o que pode ser feito,
03:22de diferente daquilo que tem sido feito até o momento,
03:27para modificar essa situação de coisas.
03:30O Irã já negou que vá cumprir o ultimato.
03:34E o Trump não conseguiu mobilizar países para que embarcassem num projeto mais amplo
03:42de controle do Estreito de Hormuz.
03:45Inclusive, a ONU, por intermédio do Conselho de Segurança,
03:50recuou de ontem para hoje.
03:54É muito provável também que o Conselho de Segurança
03:57aprove uma ação armada,
04:01como aquela que acontecera na Primeira Guerra do Golfo.
04:04Rússia, China e, provavelmente, a França,
04:08darão um veto a essa ação.
04:11Então, os Estados Unidos acabaram muito isolados,
04:15isolados de tomar uma decisão veemente,
04:19diferente daquela que vem sendo levada a cabo até o momento.
04:22Professor, nessa linha,
04:24o senhor está atribuindo a possibilidade de um blefe,
04:26como muitos atribuem, até porque tem se tornado um modus operandi
04:31do presidente americano em relação a qualquer coisa.
04:34O Irã pode se convencer dessa ameaça?
04:39É possível que haja alguma solução nessas próximas horas
04:43para que não haja nenhum tipo de intensificação?
04:47Como o Irã reage a essa promessa feita por Donald Trump?
04:51Nelson, ótima observação.
04:54Veja, o regime iraniano tem se mostrado
04:59de ter uma resiliência surpreendente.
05:03Veja que houve ali a estratégia de decapitar a liderança.
05:07O líder máximo do Irã foi morto no primeiro ataque
05:12para que o regime conseguiu se recompor,
05:16tal qual o Maidra, o regime está demonstrando ter sete cabeças,
05:22para usar aqui uma metáfora.
05:26E talvez o que mais esteja surpreendendo aos Estados Unidos
05:31e mesmo aos analistas é esta capacidade de reação militar.
05:36E o regime conseguiu encontrar uma forma muito eficiente
05:44de provocar estragos nos seus inimigos,
05:47que é fechar o Estreito de Hormuz,
05:50parar ali praticamente com fluxo de 20% do petróleo
05:55que abastece países importantes do sul do Pacífico.
06:00Lembremos a própria Índia, o Japão.
06:03São países que não estão recebendo fluxo de abastecimento
06:07de petróleo do Oriente Médio.
06:09E uma outra ação que tem se mostrado muito eficiente
06:12não é nem uma ação contra Israel,
06:15mas uma ação contra bases militares
06:18e infraestrutura de energia de países aliados dos Estados Unidos.
06:25E isso tem se mostrado muito eficaz.
06:27Eu diria que essa tentativa de pressionar
06:32foi uma estratégia que o Trump, Donald Trump, usou
06:37para tentar retomar o controle do jogo.
06:40Mas se a gente for usar a metáfora do jogo de damas,
06:43as pedrinhas estão agora com o Irã,
06:45muito mais com o Irã do que com os Estados Unidos.
06:50E aí, professor, eu quero trazer, então,
06:52nesse contexto todo, a situação da proposta do Bahrein,
06:55que foi para a mesa do Conselho de Segurança da ONU,
06:58de uso da força, portanto.
07:00Porque se os Estados Unidos ameaçam,
07:02o Irã tem uma força que está surpreendendo,
07:05de resistência, e não vai ceder a essa ameaça.
07:08Portanto, não vai reabrir o Street Jormuz.
07:11A proposta que vem na sequência,
07:12se a gente adere a essa analogia de um jogo de damas
07:16ou um jogo de xadrez,
07:18seria os outros países envolvidos
07:20pressionarem pelo uso da força.
07:22É possível que isso aconteça
07:24quando a votação, de fato,
07:26for pautada depois desse adiamento
07:28no Conselho de Segurança da ONU?
07:30Veja, um jogo de xadrez é mais complexo
07:33do que um jogo de damas.
07:34Parece-me que o cenário ali
07:36está muito mais próximo de um jogo de damas.
07:40Qual é o elemento imperativo?
07:42Não é só o econômico.
07:43É óbvio, a dimensão econômica,
07:45o petróleo, ele está nas principais cadeias
07:50produtivas, inclusive da China.
07:51Mas o imperativo nesse momento
07:53é a questão geopolítica.
07:56Rússia, China, que tem direito de veto
07:59a uma medida como essa,
08:01levada a cabo pelos diplomatas do Bahrein,
08:04que neste momento circunstancialmente
08:06ocupam ali o controle,
08:07a presidência do Conselho de Segurança,
08:11não é nada provável,
08:14seria altamente surpreendente,
08:16indo contra toda uma lógica
08:18que está sendo levada a cabo
08:21desde o início desse conflito,
08:22tanto pela Rússia quanto pela China,
08:24de votar favoravelmente
08:27a uma intervenção militar conjunta
08:30para liberar o Estreito de Hormuz.
08:34Respondendo objetivamente a sua pergunta
08:37é o imperativo da geopolítica.
08:39Embora a China esteja sofrendo
08:42consequências econômicas negativas
08:45do que está acontecendo ali no Irã,
08:48no Oriente Médio precisamente,
08:51de uma forma mais objetiva,
08:55do ponto de vista geopolítico,
08:56é um ganho para a China
08:58e mesmo para a Rússia
09:00esse enorme desgaste
09:01que o governo americano está sofrendo
09:05nesse embate no Irã.
09:07E não é um desgaste só externo,
09:09não é só um sistema internacional.
09:11Internamente,
09:12a popularidade do presidente
09:13baixou ainda mais.
09:15Principalmente com preocupação agora
09:17para as eleições de meio
09:18de mandato no Legislativo.
09:20Professor Sidney Leite,
09:21conversando conosco aqui
09:23nessa edição do Jornal Jovem Pan.
09:24Professor, eu quero te agradecer demais,
09:25mais uma vez,
09:26pela sua participação conosco,
09:27sempre nos ajudando a entender
09:28todo esse cenário geopolítico
09:30e dos conflitos que assolam,
09:32neste momento,
09:32o Oriente Médio.
09:33Muito obrigado.
09:35Muito obrigado.
09:36Um forte abraço
09:37e um grande prazer
09:38falar na Rádio Jovem Pan.
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