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Felipe Tanus, diretor de crédito da Allianz Trade, analisou o impacto da guerra comercial nas exportações e o crescente interesse da China na América Latina. Ele destacou o risco de inadimplência global, a pressão sobre margens com alta do IOF e a busca por novos mercados em meio às incertezas com os EUA.

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Transcrição
00:00E a guerra comercial aumenta o interesse de exportadores chineses na América Latina.
00:06É o que aponta uma pesquisa realizada pela Allianz Trade.
00:10Sobre isso eu converso com o Felipe Tanuz, que é diretor de crédito da Allianz Trade aqui no Brasil,
00:16a quem eu começo a conversa agradecendo aqui por ter aceitado o nosso convite aqui para a gente bater um papo.
00:24Felipe, está muito claro que o século XXI vai ser pautado por dois grandes players quando a gente fala de um abastecimento global.
00:33As tradicionais marcas americanas dispensam apresentação, mas mais recentemente,
00:39esse aumento na qualidade do produto de alto valor agregado da China tem encantado bastante os consumidores latinos,
00:46principalmente por causa do preço e por conta de uma nova qualidade.
00:51Os carros elétricos, pelo menos aqui no Brasil, já estão aí no inconsciente coletivo dos consumidores,
00:59os carros elétricos chineses.
01:01E agora aqui, nós brasileiros, também temos outras alternativas para produtos eletroeletrônicos
01:07que não necessariamente são de uma marca americana, europeia, japonesa ou sul-coreana.
01:13Quer dizer, os chineses entraram com força aqui.
01:16Não me parece nenhum tipo de fogo de palha.
01:19É uma relação aparentemente bastante sólida e duradoura.
01:23Agora, essa questão do Donald Trump estar mexendo com o comércio internacional,
01:28está bagunçando aí as cadeias de abastecimento.
01:32Isso pode ser uma ponta de lança, isso pode ser uma catapulta para aumentar esse fluxo de comércio
01:37entre China e Brasil, principalmente para esses produtos que eu estou chamando aqui
01:42de alto valor agregado para a América Latina.
01:45Perdão aqui pela minha longa introdução.
01:48Boa noite mais uma vez.
01:49Obrigado de novo.
01:51Imagina.
01:52Boa noite, Marcelo.
01:53Primeiramente, muito obrigado pelo convite.
01:55É um prazer estar aqui com vocês essa noite.
01:57De fato, a imprevisibilidade da política comercial dos Estados Unidos
02:02afetou a confiança dos exportadores como um todo.
02:05A Allianz Trade fez uma pesquisa com 4.500 empresas localizadas não somente nos Estados Unidos,
02:13como também com empresas da Europa e da Ásia, para verificar aí as mais diversas tendências
02:19relacionadas à exportação.
02:21E essa pesquisa, ela trouxe alguns dados bem interessantes para análise.
02:25Então, primeiro que metade dos exportadores está estimando, após o dia da libertação,
02:32após o dia 2 de abril, queda nas vendas de 2% a 10% nos próximos 12 meses.
02:38As exportações globais, para vocês terem ideia, devem sofrer um impacto de 305 bilhões
02:45de dólares no ano de 2025.
02:48Metade dos exportadores espera ter prazos mais longos de pagamento e até uma maior inadimplência,
02:56sendo Estados Unidos, a Itália e o Reino Unido os principais países
03:00sendo destacados aqui negativamente com as maiores probabilidades de inadimplência.
03:05Por isso, até que o nosso produto de seguro de crédito à exportação é super importante
03:09para mitigar essas possíveis eventuais perdas.
03:12De fato, como você comentou, Marcelo, a diversificação, ela tende a ser a grande saída,
03:18a grande solução aí, não somente para os chineses, como também para todos os grandes
03:22mercados globais.
03:24Um terço dos exportadores, a nossa pesquisa mostra que um terço dos exportadores já encontrou
03:29novos mercados para diversificar e dois terços ainda tendem a fazer isso ao longo desse próximo
03:35ano.
03:36Quando a gente fala de América Latina, o interesse por América Latina, ele se dá por
03:42conta do acesso aos Estados Unidos com custos mais baixos.
03:46Então, de fato, a América Latina passa sim a ser um potencial atraente para a China
03:52poder desovar todos os seus produtos enquanto ela está nesse meio tempo, nessa guerra com
03:58os Estados Unidos.
03:59Agora, Felipe, é muito importante você ter trazido essa nova variável da equação,
04:05que é o risco de inadimplência, porque essas cadeias estavam muito estabelecidas ou bem
04:12estabelecidas há bastante tempo.
04:15Estou falando de fluxos comerciais que iam majoritariamente para os Estados Unidos o maior
04:19mercado consumidor do mundo.
04:20Além de ter mais de 300 milhões de habitantes, os Estados Unidos têm um padrão de consumo
04:25e têm umas classes A e AA de um consumo muito volumoso.
04:33Agora, produtores internacionais já tinham a sua produção destinada aos Estados Unidos.
04:39Com essa sobretaxação, e a gente não sabe o que vai acontecer, de repente ele muda o valor,
04:44muda as datas, retira, suspende, dobra.
04:47Agora, imagino que esses fornecedores estejam procurando outros compradores para tentar burlar
04:57pelo menos a situação até que a questão se estabilize.
05:01Então, você começou a falar dos riscos de inadimplência, isso tem mexido com o valor
05:06de seguro, isso tem acendido um amarelo piscante de atenção para vocês para, não vou dizer
05:13aí uma derrocada de crédito, mas tem algum problema de muitos desses compradores não
05:20consigam honrar os seus compromissos?
05:24Sim, com certeza.
05:26A correlação é direta.
05:29O risco de inadimplência está diretamente associado a eventos como uma guerra comercial
05:34que aumentam a probabilidade de não pagamento dos compradores.
05:38Se a gente falar de Brasil especificamente, por exemplo, a gente já vem numa toada Brasil
05:44de um aumento de 37% nas insolvências corporativas no ano de 2024 e com uma projeção da Allianz
05:50Trade de que a gente deve ter ao longo de 2025 um aumento ainda de mais 13%.
05:56Então, é claro que a dissociação entre os Estados Unidos e a China, ela continua sendo
06:03provável no médio prazo, porque as tarifas elas permanecem altas e isso acaba fazendo
06:09com que a China tente estabelecer parcerias com outros países para mitigar esses impactos
06:17que ela tem com os Estados Unidos.
06:18E muitos países efetivamente não têm, os seus compradores, as suas empresas não têm
06:24a capacidade de pagamento bem apurada.
06:27Então, aqui, por exemplo, na Allianz Trade nós fazemos uma análise trimestral de 18 setores
06:31da economia nos mais diversos países do mundo inteiro para que a gente possa fazer
06:36uma classificação não somente do setor dentro das economias, como também do risco
06:41país.
06:42Então, a gente faz uma classificação do melhor para o pior risco e eu exemplifiquei
06:47com o Brasil, mas acho importante dar uma mensagem global.
06:50Sim, a perspectiva global é de aumento nas influências corporativas ao longo de 2025.
06:56Então, quando a gente pensa em composição de preço, Felipe, não é apenas a tarifa
07:03que já existia, mas a sobretaxação é uma composição de preço, ela depende da logística
07:09de entrega, não só da manufatura, do transporte e agora também desse alto valor ou de um valor
07:17acrescido do seguro por causa do aumento do risco.
07:20Agora, talvez seja um pouco precoce, não sei se você já tem uma leitura mais fundamentada,
07:26olhando para o Brasil de novo, desde a semana passada, nós estamos lidando com esse novo
07:31fator orbitando as nossas contas, quando a gente fala principalmente de contratos internacionais,
07:37do aumento do IOF.
07:39Então, olhando para o Brasil, vai ficar mais caro, obviamente, mas como é que vocês aí
07:44da Allianz Trade também estão olhando mais essa variável do aumento do IOF?
07:51É, o aumento do IOF, ele tem um impacto direto nas margens das empresas, então o Brasil
08:01já vem num cenário macroeconômico extremamente complicado no que tange às insolvências
08:05corporativas, como eu comentei, a gente veio de uma atuada alta em 2024, com uma projeção
08:10para 2025 de um aumento ainda de 13% sobre 2024.
08:14Isso muito em linha com a taxa de juros, com a Selic.
08:17A Selic batendo aí praticamente os 15%, 14,75%, não tem como a gente falar que uma taxa
08:24de juros nesse patamar recorde não vá trazer impacto nos demonstrativos financeiros das
08:29empresas e consequentemente apertar a rentabilidade dessas empresas.
08:34Então, atrelado já a esse impacto que o aumento da Selic vem trazendo nos demonstrativos das
08:41empresas aí ao longo dos últimos 18 meses, vamos dizer, a gente ainda tem essa novidade
08:47de um possível aumento aí na alíquota do IOF que vai trazer ainda mais pressão para
08:54as margens das empresas e consequentemente levarem elas a ter que se endividar ainda mais,
08:59só que ainda ter que fazer esse endividamento com, além de um custo alto por conta de taxa
09:03de juros, pagando um IOF ainda acima do que pagava até então, o que é o combo completo
09:10para dificultar o percurso das empresas brasileiras ao longo de 2025 e 2026.
09:17Excelente, obrigado pelos esclarecimentos.
09:20Eu conversei com o Felipe Tanuz, diretor de crédito da Allianz Trade aqui no Brasil.
09:25Felipe, mais uma vez, muito obrigado pelos seus esclarecimentos.
09:29Primeira vez que nós conversamos aqui no Conexão, espero que tenha sido a primeira
09:33entrevista de muitas.
09:34Até a próxima.
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