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  • há 2 semanas
Um papo sobre poesia periférica e educação, com Chacal, que é poeta, educador social e rapper.

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Transcrição
00:01Começa agora Vitrine Literária com o professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:20Olá pessoal, tudo bem?
00:22Bem, nós estamos com mais uma edição do Vitrine Literária com Francisco Grijó.
00:26Nós começamos o trabalho em 2022, já estamos na 52ª edição.
00:34Então você tem toda uma disponibilidade de programas para vocês através do Spotify, através do YouTube, na página de vídeos
00:43do Folha Vitória.
00:44Ou seja, está tudo pronto aí para você se refestelar em relação à literatura produzida no Espírito Santo.
00:52Hoje eu tenho um grande convidado, mas antes de falar sobre ele e sobre o que ele faz, eu quero
01:01lembrar a vocês o seguinte.
01:02Em dezembro de 2022, esteve aqui um rapper chamado Lucas Jacques, que tem um trabalho com o Fanzine, tem um
01:10trabalho social.
01:11E ele teve, a entrevista com ele foi muito proveitosa e muito esclarecedora, especialmente para mim.
01:19E eu resolvi que nós tenhamos também que trazer aqui no programa figuras que têm um trabalho social diferenciado.
01:30E eu trouxe aqui, hoje, o meu convidado de hoje é o poeta Chacal, aqui do meu lado.
01:37Chacal tem um belíssimo trabalho com poesia.
01:41Eu li os poemas dele, gostei bastante de alguns.
01:44Outros eu gostei menos, mas eu gostei, na verdade, de todos.
01:49O Chacal tem um trabalho de educação social, nós vamos conversar sobre isso.
01:54O Chacal participa de batalhas de rimas, ou seja, é um trabalho ligado à ideia do hip-hop, à ideia
02:02do rap, à ideia do Fanzine
02:03e à ideia, acima de tudo, da literatura, que está fundamentada na poesia.
02:09Então, Chacal, eu agradeço muito a sua participação.
02:13Chamei o Chacal, ele aceitou de prontidão.
02:16Tivemos problemas de agenda, problemas do trabalho dele, então, nós conseguimos fazer com que Chacal viesse.
02:23Eu te agradeço muito.
02:24E eu começo com uma provocação para você.
02:27A provocação é a seguinte.
02:30A academia, a academia, as universidades, a academia Espírito Santo de Letras, existe uma certa restrição,
02:43e eu acho que essa restrição é absolutamente injusta, à poesia de rua, ao rap, às batalhas de rimas.
02:55Eu gostaria de saber de você, que está envolvido no processo, isso é literatura?
03:03Bom, primeiramente, obrigado pelo convite, estou muito feliz, não posso deixar de citar Estel Miranda, obrigado também.
03:10Estel, Estel, Estel foi o cara que indicou você para mim.
03:14Estel é uma grande figura, esteve aqui logo no começo do Vitrilo Literário, ele foi o quarto ou quinto convidado.
03:20Bravo.
03:21Então, obrigado, é o mesmo.
03:22Bom, essa perspectiva de fazer literatura marginal em relação ao que está nas universidades, nos espaços institucionais,
03:32é uma grande problemática, por quê?
03:35Quando a gente vai falar disso ou expor isso numa universidade ou qualquer espaço,
03:40a gente é meio que retraído, porque a gente precisa seguir uma linha literária, né?
03:43Existe ali uma ordem sistemática, o A, B, tem todo esse rolê.
03:48Porém, toda vez que há campo para pesquisa, são as nossas poesias que são campo de estudo.
03:55E aí a gente esbarra nessa problemática, ou seja, é uma dificuldade de entender que as dinâmicas, as poesias literárias,
04:05né?
04:06Marginais, também são poesias e também têm o seu poder.
04:09Então, acho que é só, na verdade, aquele lance de acordar, porque tudo bem você fazer uma poesia dentro de
04:16um contexto gramatical,
04:17está ótimo, é isso, maneiro.
04:19E também está tudo bem você fazer uma poesia que não tem uma perspectiva gramatical, que ela é avulsa.
04:25Você falou, né, das poesias que você leu, tem poesia que você vai ler 200 vezes e você não vai
04:31entender.
04:32Por quê? Porque a poesia na escrita, ela tem uma perspectiva que todo mundo espera que são acentos, pontuações,
04:38virga num lugar certo, errado, etc, etc.
04:41Quando eu estou falando de marginalidade, e você trouxe muito bem, que eu estou falando de que ser marginal é
04:45bom,
04:46porque é periférico, e se a gente parar, para tudo, é ali que as pessoas não vão entender.
04:51Porque essa literatura, ela não é só lida, ela é expressada, né?
04:56Ela não é uma literatura que você vai pegar aqui no Word, ou vai pegar na parte mais palpável e
05:02vai ler e falar,
05:02nossa, compreendi tudo.
05:03Não, você vai precisar que esse artista que construiu essa poesia te fale que está escrita ali,
05:09ou te expresse o que está ali.
05:11Mas isso não dificulta um pouco a... justamente, justamente se há uma necessidade de que o artista esteja próximo da
05:19sua produção,
05:21isso não limita justamente a difusão da literatura?
05:26Não, eu acho que pelo contrário.
05:27O que é novo e o que é diferente tem que ser explorado do melhor sentido possível.
05:33Então, quando eu só limito uma literatura baseada num contexto gramatical, vou voltar nisso,
05:41eu limito que outras pessoas se expressem.
05:44Porque se eu for um exemplo, fornecer uma oficina literária,
05:48quem são as pessoas que vão participar dessa oficina?
05:51Pessoas que já escrevem, ou pessoas que já têm uma certa aptidão.
05:55Ou pessoas que querem escrever.
05:56Ou pessoas que querem escrever.
05:57Agora, a galera que ainda não está no pique, não está com uma escrita legal,
06:01não teve um processo educacional forte o suficiente para que ele possa se expressar como escrita,
06:07não vai participar e perde um ganho enorme.
06:09Porque quando ele entrar na rotina, ou decidir entrar na rotina do processo institucional,
06:15seja na parte da educação ou profissional,
06:18infelizmente, pelo processo geral, ele vai estar atrasado para alguns.
06:20Porém, o seu processo de expressão, tanto que no Zine tem, é loucura.
06:26Eu tenho jovens que tiram zero na redação da escola, mas tiram dez em slam, poesia.
06:34Escrevem, por muitas das vezes, tem um processo gramatical que precisa ser atualizado,
06:40mas a poesia é incrível.
06:42Até porque a ideia de literatura transgride, vai muito além da gramática.
06:49Eu me lembro, eu não participei disso porque eu era garoto,
06:53mas como professor, eu inclusive falo para os meus alunos,
06:57no final dos anos 1970 até 72, 73, houve um grande movimento de poesia marginal no Brasil.
07:04Inclusive, um dos poetas mais famosos se chamava Chacal.
07:08Então tinha Chacal, Charles, o Leminski, que nunca foi para a rua, mas fazia, escrevia como marginal.
07:15Ana Cristina César, que também nunca foi para a rua, mas havia o Pedro Laja,
07:18havia o Ricardo Maia, havia vários poetas que começaram a trabalhar dentro da poesia mimeógrafo,
07:26começaram a vender os seus textos na rua, veiculando a literatura fora do eixo institucional.
07:33Vocês também fazem isso?
07:34E eu poderia dizer...
07:36A primeira pergunta é essa.
07:37Vocês fazem isso?
07:38E a segunda?
07:38Eu poderia dizer que vocês estão retomando a ideia da marginalidade, da marginalidade poética brasileira,
07:45ou vocês estão sendo influenciados pelos norte-americanos?
07:49Então, eu, no meu ponto de vista, e humilde ponto de vista, nada se cria, tudo se replica com as
07:56melhores intenções.
07:58Eu acho que a gente...
07:58Às vezes, não com tantas melhores intenções.
08:01É, mas assim, eu acho que a gente tem resgatado, que é o poder de entender.
08:06Eu sou periférico, de onde eu vim, isso aqui tem que ser dito.
08:09E não tem uma meia palavra para falar sobre isso, isso tem que ser dito.
08:13Mano, eu vim de um bairro periférico, a realidade era cruel só na televisão, o tempo inteiro,
08:19e as outras coisas nunca são vistas, agora todo mundo vai ver.
08:22E aí, sair dessa bolha, desse eixo de que a gente vai só expressar poeticamente, não, a gente vai para
08:28o zine também.
08:29E agora a gente vai produzir livro sem ser necessário uma produção com uma editora grande.
08:35A gente vai produzir, e isso é tão grande quanto.
08:37Perfeito.
08:38Saco?
08:38Mas essa produção, essa produção de livro, ela é uma produção também institucional?
08:43Ou seja, haverá uma editora para isso, ou ela vai ser independente?
08:46Aí vem o grande lance que tem acontecido.
08:49A gente tem se organizado de mil outras formas.
08:51Hoje nós temos produtores de marginais do corre com uma produtora profissional.
08:58Então a gente vem se especializando e colocando em pauta que nós também temos espaço em qualquer mercado.
09:04A gente não é menos nem mais profissional que ninguém.
09:07O que nós fazemos também é de uma forma, pode ser tanto vendido como só expressado.
09:12Então nós também estamos saindo do eixo.
09:14Eu falo isso que nós temos um slamer, né?
09:16No Estado do Espírito Santo, um dos primeiros slams que é o Botocudos.
09:20Começou como slam e hoje é uma editora.
09:23Então assim, nós estamos em todos os lugares.
09:25Você pode explicar para quem está nos ouvindo?
09:28Eu sei o que é o slam, porque me explicaram o que era o slam.
09:31Eu não sabia.
09:32Você pode explicar para quem está nos ouvindo o que é o slam?
09:35Bom, quando o slam veio para a gente, veio com uma composição de regras, né?
09:41Teve toda uma estrutura. O slam, ele é, no bruto, um campeonato de poesia falada.
09:46Então é um local onde todos nós, de maioria periféricos, vamos se reunir para falar do que tem que ser
09:52dito.
09:53Não só para nós, mas para todo mundo também.
09:55Para além disso, tem um bônus que são algumas competições que acontecem.
09:58Então cada pessoa que participa do slam, ele tem que ter no mínimo ali três poesias autorais.
10:04Não pode, pode ter citações, mas não pode, sei lá, tipo, ser 90% da sua poesia citação de alguém.
10:10Ela tem que ser no máximo autoral ali, pode ter algumas citações.
10:13Você tem no máximo três minutos para fazer a sua apresentação.
10:16Não precisa ser os três minutos.
10:18E aí tem as pontuações.
10:20Tanto eu posso convidar você para ser um jurado, quanto...
10:22Ah, isso que eu pergunto aqui, quem é que julga isso?
10:24Pode convidar uma pessoa para ser jurado.
10:26Eu tenho o slam, que é o slam da orla.
10:29Raramente nós convidamos jurados.
10:31A gente gosta que as pessoas que estão assistindo sejam as pessoas que vão dizer o que essas poesias estão
10:36trazendo como expressão.
10:37Então posso escolher qualquer pessoa falar em você.
10:39Quer ser jurado?
10:40Por favor, eu vou te explicar o critério geral.
10:41Você vai trazer ali na sua pontuação o que você acha que merece.
10:46Ou o que a poesia pode te tocar.
10:48Então geralmente as pontuações são de cinco.
10:53Acontecia antes, a gente veio mudando um pouco.
10:55Antes era de um a dez.
10:58Cada slam agora tem ali um pensamento de como vai fazer o critério de pontuação.
11:03Mas é sempre bom ser jurados ímpar, né?
11:06E qualquer um pode participar?
11:07Qualquer um pode participar.
11:09Acaba que a gente tem, obviamente, o maior ganho que são nós, que é das correrias, que está fazendo.
11:16Esse ganho é o maior.
11:17Mas qualquer um pode participar.
11:19Você quer entrar para fazer a sua poesia, fica à vontade.
11:21É um espaço de extrema expressão.
11:23Você está ali para ser acolhido, ouvido e também rolam debates.
11:27Existem poesias que as pessoas falam depois que acabou.
11:29E eu, mano, não entendi o que você falou não, Zé.
11:32Explica para mim isso aí.
11:33Então é um espaço para que você tenha troca literalmente.
11:36Ótimo.
11:37É um trabalho quase social, né?
11:39Por falar em trabalho quase social, você me falou que você é um educador social.
11:45O que significa ser um educador social?
11:48O que significa isso?
11:50Toda vez que a gente...
11:51Porque é interessante o seguinte, você não fala que você é um professor.
11:54Você fala que você é um educador.
11:56Por exemplo, eu, Lijó, eu sou professor.
11:59Eu não sou educador, porque eu sou professor de pré-vestibular.
12:02Então, o aluno que vem para mim, que é um aluno de 17, 18 anos de idade, ele já foi
12:09educado pelos pais.
12:10Ele vem para mim para a gente debater alguns temas, ele aprender algumas coisas, para fazer uma prova.
12:16Então eu não sou um educador, eu sou um professor.
12:20Mas você se coloca como educador social.
12:22O que isso quer dizer?
12:23Bom, primeiramente, acho que a gente tem que fazer um belo de um resgate.
12:26Faça.
12:27Porque a nomenclatura educador social, ela está baseada por instituições ou por OSCs, né?
12:34Que promovem ou fomentam ações contra essa vulnerabilidade social que é existente em vários territórios.
12:43Então essa nomenclatura, ela é traga para pessoas que vão atuar no desenvolvimento diário dessas crianças, jovens, adolescentes.
12:52Em cada espaço tem a sua nomenclatura também.
12:54Às vezes é atendido, às vezes é educando.
12:57Então assim, atender e promover com esse jovem, criança ou adolescente ou quem está sendo atendido, o seu desenvolvimento.
13:04Baseado em quê?
13:05Cada instituição tem as suas perspectivas, mas no quadro geral das leis.
13:08A constituição, o estatuto da criança ou adolescente, o estatuto do idoso, o estatuto do jovem.
13:14Então baseado no que está na lei, que é garantia para essa criança, adolescente, quem é atendido, se desenvolver.
13:21O educador, a nomenclatura educador, nada mais é para se encaixar nesse mercado e dar potência a essa pessoa que
13:28pensa.
13:29Para além do meu salário e das minhas horas trabalhadas, o que eu realmente quero promover para o próximo?
13:36O que eu posso passar para você, para esse jovem, que ele vai falar, uma hora ou outra vai falar,
13:41pô, é isso mano, vou virar o jogo.
13:44Esse caminho que estão apresentando para mim, que eu tenho que crescer, fazer doideira, esse caminho que estão vendendo aí
13:52não é o caminho não, mano.
13:53Sou um vencedor, sou rei, sou descendente de rei e rainha.
13:56E como é que entra a literatura nisso?
13:57A literatura, hoje, para mim, ela entra de diferente.
14:01Eu fiz uma quebra sobre a perspectiva da literatura.
14:04Hoje, quando eu vou prestar qualquer trabalho ou fazer qualquer atividade, eu evito sempre a temática específica da literatura.
14:11Venho usando expressões criativas.
14:15Porque dentro desse processo a gente pode trabalhar a literatura, mas eu posso trabalhar com alguém que não tem habilidade
14:20na escrita,
14:21mas para que ele me expresse por desenho, por recorte, dança, com rima, com slam, com grafite.
14:30Então, a expressão criativa, ela vai ser baseada de acordo com o que você tem de maior potência.
14:35O que você mais faz?
14:36Você escreve?
14:37Então, vamos potencializar o que você escreve.
14:39E todo mundo precisa ver o que você está fazendo.
14:41Você rima?
14:42Então, vamos potencializar o que você está rimando.
14:45E aí, vamos pensar também.
14:46Como é que faz para rimar?
14:48Como é que rima?
14:49Como é que chega e rima?
14:50Só chega e rima?
14:51Você treina?
14:52Você tem um processo?
14:53Como é que faz para grafitar?
14:54Por exemplo, eu não sou grafiteiro, mas eu tenho uma equipe, uma galera forte, que é da Batalha da Orla,
14:59que eu tenho um grafiteiro.
15:01Toda vez que tem uma ação cultural, que ele vai, ele vai dar a oficina para a galera.
15:05Ô, mano, é assim que pega a nata de spray.
15:07Certo, mas a demanda, a demanda para as pessoas poderem entrar nesse meio de ser educado socialmente,
15:15há uma seleção?
15:16Ou qualquer um pode?
15:18Depende.
15:19É, quando eu faço uma ação, eu promovo, eu e uma equipe promove, qualquer um que chegar lá, ele vai
15:25participar,
15:26porque são rodas culturais ou eventos especiais, não são pagos, né?
15:30Sim.
15:30A gente está ocupando o que é nosso por direito, tendo acesso às praças, às instituições e por aí vai.
15:36Então, esse espaço é nosso por direito, a gente vai aprendendo como fazer o uso dele,
15:40sempre pensando em prol de como a gente vai se desenvolver para cada um.
15:43Então, qualquer um pode chegar lá e participar.
15:45Certo, mas aí chegam, vamos colocar, chegam 10 adolescentes.
15:50Todos os 10 querem isso, mas desses 10, 4 não têm talento.
15:56E esses 4 são segregados ou eles são inseridos no processo de uma forma diferente?
16:03Tem uma coisa que eu aprendi e eu levo para a vida toda.
16:06A rua é nós.
16:08Então, quem chegar vai ter espaço.
16:10Se você não aprendeu hoje, você pode aprender amanhã.
16:13Se você não aprender amanhã, você vai poder aprender depois.
16:15E pode ser que no processo você entenda que você não é MC, você é escritor.
16:18Então, você vai escrever, pô.
16:19Então, assim, é abraçar e ter a percepção de falar, opa, esse menino aí, ele é bom, véi.
16:26Só que ele não é bom em mano, não.
16:27Ele é bom escrevendo.
16:28Então, se aqui a gente não está com espaço agora para que ele escreva,
16:32aonde tem que a gente pode ocupar?
16:34Aonde que eu posso ir?
16:35Então, eu vou para as instituições que tem que estar dando acesso e abertura para as comunidades
16:39e vou requerer o que é nosso.
16:41Não vou lá chegar fazendo bagunça, mas vou requerer o que é nosso.
16:44Olha, temos um jovem, aqui tem espaço, ele precisa de um espaço para poder escrever.
16:48Eu estou achando esse papo muito interessante, eu estou aprendendo muito sobre essa especificidade.
16:57Mas me diga, por exemplo, se eu, Grijó, eu, Grijó, quero participar,
17:02eu quero ir até a orla e ver como é que vocês trabalham, certo?
17:09Quer dizer, eu tenho uma forma de fazer literatura, eu vou encontrar uma forma diferente.
17:14Eu também serei inserido, eu também serei acolhido, porque acolher, acolher quem vive naquela situação é uma coisa.
17:27Acolher uma pessoa que não está naquela situação é outra.
17:30Sim.
17:31Eu gostaria de visitar vocês, como é que eu faço?
17:34Então, você pode ir em Jacaraípe todos os sábados.
17:36Hoje, a gente se encontra na Praça Encontro das Águas a partir das 19 horas.
17:41E aí, inclusive, se eu falo, eu já até me...
17:44Nós temos no nosso grupo um professor de história,
17:48que ele criou uma batalha chamada Batalha da Oficina,
17:51começou a se movimentar próximo da gente, colou próximo.
17:55Obviamente, o processo para a gente foi diferenciado,
17:57porque era alguém que queria chegar com uma questão acadêmica,
18:00e aí, tipo, com uma fala meio torpe no começo,
18:05mas a gente se acertou, porque a gente lembrou da base.
18:07Está na rua, a rua é nóis.
18:09E hoje ele está junto com a gente, tem a Batalha da Oficina,
18:12que inclusive vai acontecer esse sábado, com o tema de Batalha de Elogio,
18:16onde ninguém vai se atacar com sangue, mas é elogio,
18:18um tem que ficar elogiando o outro na rima.
18:20E a ideia dessa batalha é mostrar como que o hip hop
18:24e esse formato que a gente trabalha marginal
18:26pode ser uma metodologia para as escolas.
18:29e é o que ele faz, lançou livro, lançou uma metodologia
18:33para dar aulas em escolas usando os elementos da cultura hip hop.
18:37Ou seja, ele saiu do institucional, veio para a rua
18:41e, obviamente, nós acolhemos ele e ele acolheu a gente,
18:44porque esse processo de criação foi mútuo.
18:46A gente juntou o que era marginal com o que está institucional
18:50e falou, opa, ambos têm potencialidades, a gente não está guerreando.
18:53Pelo contrário, a gente está mostrando que tem espaço para todo mundo
18:56e que aqui, enquanto estava sendo calado e vetado,
18:59precisa ser ouvido.
19:00E aqui está ouvindo.
19:02E hoje eu falo e repito que a gente começou no início da conversa.
19:06Campo de pesquisa sempre vai ser o ambiente marginal.
19:11As pessoas sempre vão.
19:12Vim para cá, para nós e falam,
19:13me explica aí como é que vocês fazem isso.
19:16Então, já que quer que a gente explique,
19:18que seja com autonomia e respeito também.
19:20Eu tive um programa pelo Instagram chamado Livro Aberto
19:25e um dos primeiros a ir no Livro Aberto foi um ex-aluno meu,
19:31que depois se tornou meu amigo e é um rapper de primeira linha chamado Adicto.
19:35Adicto, referência demais.
19:37O Adicto é uma figura, eu gosto muito dele, foi meu vizinho também,
19:41é uma pessoa de quem eu gosto muito.
19:42E o Adicto, no final do programa,
19:46era um programa de 50 minutos pelo Instagram,
19:49ele foi capaz de improvisar.
19:53E ele fez um rap usando o meu nome, usando o Livro Aberto.
19:58Ou seja, o estímulo que ele teve foi um estímulo imediato
20:03e ele criou a partir daí.
20:06O rap é isso?
20:08É essa a ideia do rap?
20:09A ideia é primordial ou é?
20:11Vou elaborar em casa para depois chegar na batalha de rima.
20:15É uma coisa de improviso sempre?
20:17O freestyle é uma coisa de improviso.
20:20Rimar na hora, falar o que quiser, pensar, jogar bola,
20:24qualquer sensação, esse é o corre da improvisação.
20:27Fazer a hora o improvisado com o Mano Grijó.
20:30Então, de repente, aqui no Vitrine Literária,
20:33quem diria?
20:34Esse é o corre, essa é a função.
20:36O hip hop só tem um caminho, fazer a união.
20:40Freestyle é na hora.
20:41O rap, ele tem uma essência que é dar voz a quem eles estão tentando cercear a voz.
20:48Nós temos hoje várias vertentes da cultura hip hop,
20:51o que as pessoas chamam de vertentes do rap também,
20:54mas o rap, ele é um espaço para você ter voz.
20:57Me diga uma coisa.
20:59Vamos lá, então.
21:00Eu quero fazer outra provocação com você.
21:03A Unicamp, que é uma das maiores universidades do Brasil,
21:07ela colocou na lista de livros dela, há uns três anos,
21:12Sobrevivendo no Inferno, do Racionais MC.
21:14Eu até li, dei aula sobre o livro.
21:16Eu gosto muito do livro, embora a estética dele, em alguns momentos, eu não goste.
21:21Mas aí é pessoal, não é uma questão literária.
21:26Quando os Racionais MCs entram na universidade, numa lista de livros,
21:32são editados por uma editora Companhia das Letras,
21:35que é uma editora forte no Brasil,
21:38você diria que eles continuam marginais?
21:40Por quê?
21:41Porque não tem nada mais marginal do que você tomar o que era para ser seu antes.
21:45Artigo 5 da Constituição, você tem direito de ir e vir,
21:49você tem que ter a melhor qualidade de estudo,
21:51o Estado tem que prever para você qualidade de vida.
21:54Tem que ter uma escola, que ela não tem que ser pública,
21:56tem que ser pública, mas tem que ser a nível master.
22:00Então, quanto mais nós entender que a gente,
22:04estando lá, não vai deixar de ser marginal,
22:07é continuar sendo marginal.
22:08Porque eu assumi a minha origem,
22:11entender que quando eu estou nesses espaços,
22:13eu não deixo de ser quem eu sou,
22:15é continuar sendo marginal.
22:17É o Emicida que fala isso, né?
22:18Emicida fala isso.
22:19Emicida fala isso, o MV Bill falava isso,
22:22essa ideia.
22:23Mas, aos olhos de quem está de fora,
22:26são figuras que estão instituídas,
22:28sentadas numa cadeira, na Rede Globo,
22:30participando de programas na GNT.
22:34Aos olhos de quem não tem essa visão que você tem,
22:37que é uma visão que eu aprendo a ter,
22:43essas figuras deixaram de ser imaginais, não?
22:46Acontece.
22:47Nas horas culturais, igual eu falo,
22:49existem momentos que a gente vai dialogar.
22:51Geralmente, nas horas, igual a Batalha da Orla, né?
22:53Às 19 horas, nós nos encontramos lá,
22:56vai ter Batalha de MCs, vai ter Slam,
22:58às vezes tem Break, às vezes tem Grafite,
23:00e aí se inicia às 20 horas, vai até às 22.
23:04Mas, nesse processo, é muito espaço para diálogo.
23:07E acontece.
23:08Ou, você viu lá que fulano está fazendo propaganda
23:11para a Multivix agora?
23:13Pô, mó Palha, mano.
23:14SES MC.
23:15SES MC.
23:16Traiu a quebra...
23:17O quê?
23:18Mano.
23:19É, entendi.
23:19Vamos parar para pensar.
23:21Se a gente não chegar lá...
23:23Perfeito.
23:24Quem vai colocar a gente lá, tá ligado?
23:26Perfeitamente.
23:26Então, quando a gente está em espaços institucionais,
23:30a gente só está ocupando o que é nosso por direito.
23:34Maravilha.
23:34Olha, eu aprendi um bocado aqui hoje.
23:36Muito obrigado, muito obrigado mesmo.
23:39Tá?
23:41Hoje, para quem não sabe, né?
23:42Viriam você e o Abelhão.
23:44Mas o Abelhão não pôde, por questão de agenda também.
23:47Então, mas o Abelhão virá aqui.
23:49Virá aqui para a gente conversar.
23:50É.
23:51Eu te agradeço muito, Chacal.
23:53Muito, de verdade.
23:54Espero que você volte.
23:56Quero muito conhecer esse trabalho de vocês.
23:58Perfeito?
23:59E só tenho a agradecer.
24:00Eu acho que todo mundo que ouviu ou viu essa entrevista
24:05deve ter gostado muito, porque realmente foi, como você diz, braba.
24:11Valeu.
24:12Eu que agradeço.
24:12Muito obrigado, viu?
24:14Pessoal, olha, foi um bate-papo muito bacana aqui com o Chacal.
24:17Semana que vem, Sandra Medeiros estará aqui, a grande designer, uma figura muito conhecida
24:23aqui no Espírito Santo, vai estar aqui para a gente conversar sobre literatura e sobre
24:27a revista dela, chamada Revista Iman.
24:29Um grande abraço a todos.
24:32Até a próxima.
24:32Seu Rio, vitrine literária, com o professor e escritor Francisco Grijó.
24:38Tudo sobre literatura contemporânea.
24:41Temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
24:49Tchau.
24:50Tchau.

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