- há 3 semanas
Um ótimo papo sobre teatro, poesia e literatura para crianças e adultos, com Duilio Kuster, dramaturgo, poeta e escritor de histórias infantis.
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NotíciasTranscrição
00:01Começa agora, Vitrine Literária, com o professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:19Olá pessoal, tudo bem? Mais uma edição do Vitrine Literária com Francisco Grijó,
00:25aqui pela Rede Vitória, podcast, YouTube. Sejam muito bem-vindos.
00:31Hoje nós vamos continuar, evidentemente, conversando sobre literatura, mas hoje nós vamos misturar literatura com história.
00:39História mesmo. Eu tenho aqui diante de mim, daqui a pouco eu mostro a vocês quem é,
00:45eu tenho aqui diante de mim um historiador que consegue unir literatura, unir o texto dramático,
00:55e a história em toda a sua literatura. E, claro, é basicamente um poeta.
01:02Eu tenho aqui o Duílio Custer Cid, a quem eu chamo de Duílio Custer, né?
01:07Mas ele traz também a palavra Cid, que é o nome dele, completo, nos seus livros.
01:14Então eu prefiro falar Duílio Custer Cid.
01:16O Duílio já foi entrevistado por mim em outras ocasiões.
01:20O Duílio é um mestre em história, formado pela UFIS e mestre pela UFIS também.
01:27E Duílio, ele escreveu muito sobre teatro.
01:31E é justamente a partir dessa ideia que a gente começa a conversar.
01:36Porque, talvez nem todo mundo entenda, mas teatro tem uma ligação direta com literatura,
01:42porque o teatro trabalha com o gênero dramático.
01:46E o gênero dramático é um dos gêneros literários.
01:50Então o teatro e a literatura têm uma relação muito íntima.
01:55Eu abro esse bate-papo com o Duílio com uma pergunta para eles, que é a seguinte.
02:01Duílio, primeiramente, aliás, antes da pergunta,
02:03primeiramente, muito obrigado por você ter aceitado o convite.
02:06E vem a seguinte pergunta.
02:09Ao escrever para teatro e sobre teatro, você é também um poeta.
02:17Ou seja, você consegue unir esses elementos.
02:20A minha pergunta para você é a seguinte.
02:23Como é possível fazer essa ligação entre a poesia,
02:31que é algo solto, que é algo absolutamente sentimental e subjetivo,
02:38com a ideia do diálogo, que é a base do teatro?
02:41Como é que você consegue fundir esses elementos?
02:43Bom, primeiramente, obrigado pelo convite, parabéns pelo programa.
02:49Você falou de três áreas, três grandes áreas de interesse da minha vida,
02:53que são teatro, história e literatura.
02:55E, de alguma forma, eu sempre procurei, como você disse também,
02:59dialogar, fazer o diálogo entre uma coisa e outra.
03:02Por exemplo, na minha pesquisa, que eu pesquisei o teatro no Espírito Santo
03:06durante a ditadura militar, eu procurei trazer um pouco do, digamos assim,
03:12da emoção da poesia para o trabalho, porque sempre me incomodou muito
03:16esses trabalhos acadêmicos mais frios.
03:19E isso aparece, por exemplo, nas citações das fontes.
03:22Quando você vê artistas da época falando sobre aquele período,
03:25você pode, de alguma forma, pegar essa essência da poesia,
03:31essa essência emocional que a poesia possui muito bem.
03:36Da mesma forma dos meus textos teatrais, eu procuro também dialogar com a história.
03:41O que pode ser um risco, o risco, tanto da obra teatral,
03:47quanto da obra poética, ela ficar um pouco didática.
03:51Mas, enfim, quando eu escrevo, as coisas vão saindo de forma um pouco automática.
03:57Essa mistura vai se dando de uma forma muito natural.
04:01Mas é, sim, um ponto de atenção.
04:03Como fazer o diálogo entre as linguagens, digamos, a linguagem da pesquisa histórica,
04:08com a poesia, com o teatro, de forma que uma enriqueça a outra,
04:14sem, contudo, que uma prejudique a outra.
04:17Como esse exemplo que eu dei.
04:18Você escreveu esse livro magnífico,
04:20que é o que você mostra aí pro pessoal, pra quem está nos vendo, evidentemente, né?
04:24Que é um livro sobre o teatro capixaba durante o período militar, né?
04:31Até que ponto a pesquisa histórica,
04:35ela ajuda você a criar textos dramáticos?
04:39Não criar poesia, mas textos dramáticos.
04:41Ou seja, conhecer o teatro, como historiador,
04:45ajuda você a criar o teatro pessoal de Duílio Custer?
04:51Não sei, não saberia dizer a medida disso, né?
04:55Assim, eu penso que a história, ela me ajudou muito a reforçar um certo olhar crítico sobre a realidade,
05:03e que isso transparece em tudo que eu escrevo.
05:05Um olhar crítico que eu já apresentava, mas que a história ajudou a tornar...
05:11Isso ainda mais forte, né?
05:12Com mais substância.
05:15Mas não saberia dizer, assim, de que forma...
05:20Desculpa, repete novamente?
05:22Eu queria saber de você se conhecer o teatro, a história do teatro,
05:27ajuda na hora de criar o texto teatral.
05:29Sim.
05:30Acho que não necessariamente, né?
05:32Assim, como eu disse, ele ajuda de forma indireta
05:34numa perspectiva de um olhar crítico sobre a realidade.
05:38Mas, assim, o que eu vejo que me ajudou mais, por exemplo,
05:41foi o conhecimento de teatro quando eu me lancei a escrever prosa.
05:48Tem uma experiência, né, que é o livro Infanto de Venil, Aile Marmello, né?
05:53Que é um livro de prosa.
05:53Mostra pra gente aí.
05:54E eu tô me aventurando nos últimos anos a escrever uma prosa de maior fôlego, assim.
05:59E pra adultos?
06:00Pra adultos.
06:02E eu percebo muito claramente, assim, a influência do teatro,
06:06no sentido de a experiência com o teatro,
06:08me ajudando, por exemplo, a pensar os personagens,
06:10e pensar a trama, né?
06:12Porque o texto teatral, no meu entender, ele é o lugar, principalmente, da trama.
06:18Assim, você procura textualmente uma linguagem mais enxuta,
06:22mas procurando focar na estrutura do espetáculo.
06:26Assim, a palavra, ela é um dos elementos que compõem uma peça teatral.
06:30Ela não é soberana, né?
06:32Como num romance, num conto e na poesia.
06:37Então, assim, a visão sobre o teatro me ajuda, me ajudou muito e tem me ajudado a pensar a prosa.
06:43Eu percebo essa influência mais diretamente, mais do que o teatro me influenciando a escrever a pesquisa histórica.
06:49Eu estava lendo, eu estava lendo, na semana passada, esse texto que está aqui,
06:55que vocês que estão apenas nos ouvindo, não podem vê-lo.
06:59Chamado O Canto da Crise, aqui, pra quem está nos vendo.
07:02O Canto da Crise.
07:04Nesse livro, que é um livro de poemas, há um poema que me impressionou muito.
07:09Me impressionou muito.
07:10O poema diz o seguinte.
07:12Desperto de um breve sonho infinito, no qual, voando alto, feito ícaro,
07:19abraçava o sol e conservava, embriagado de delírio, a minha esplendorosa asa
07:25e transformava em cada canto o pranto em riso.
07:30E como o rio de calor penetrava em cada espírito, varrendo da terra todo o detrito
07:36e inaugurando a nova era em que, perante cada cílio, só se enxergaria a primavera.
07:43Eu achei isso, eu achei esse trecho, uma das mais belas coisas que eu li nos últimos tempos
07:50da sua geração de poetas.
07:52Que é uma geração muito boa, né?
07:54Essa geração de quem está hoje entre 35 e 45 anos, que está fazendo uma poesia muito densa,
08:00uma poesia muito bem armada.
08:02Esse texto, O Canto da Crise, é um texto que tem muito de política.
08:06Sim.
08:06Mas você tem também um livro de poemas chamado O Sobrado.
08:09Por quê?
08:10A pergunta que alguém pode fazer é, por que você, Grijó, está dando tanta importância
08:14a poesia se você está entrevistando um dramaturgo?
08:18Porque me parece que você é mais poeta do que dramaturgo, tá?
08:23E em O Sobrado e O Canto da Crise, você conseguiu estabelecer uma relação muito forte
08:31com a palavra poética, que é altamente metafórica, diferentemente da linguagem teatral.
08:39Certo.
08:40São dois duílios aí?
08:42Engraçado você falar isso, porque eu comentei agora há pouco, eu estive no evento Santa Tereza
08:47e tive a oportunidade de conversar com a professora Bernadette Lira rapidamente.
08:49Ela fez um comentário sobre esse livro, que me chamou muita atenção, que ela falou
08:52você já pensou em transformá-lo numa peça de teatro?
08:55E é uma coisa que eu nunca tinha pensado.
08:57E ela sabia que você...
08:58Eu não sei, essa foi a minha dúvida.
09:00Eu até perguntei para a minha esposa, que a conhece, se ela tinha comentado alguma coisa
09:04ou se ela teve essa ideia a partir da leitura do próprio texto.
09:07Enfim, para mim foi uma surpresa.
09:09Mas, então, são dois livros que, como eu falei anteriormente, eles dialogam com a história,
09:20porém, quando eu estava escrevendo, não pensei exatamente de forma teatral.
09:26Estava, de fato, imbuído da poesia, de me focar no universo da palavra.
09:32Que, no meu entender, na poesia, a palavra é soberana.
09:38É como se fosse uma pintura com palavras.
09:41Existe um contexto, digamos, um contexto histórico emocional e, a partir disso, dessa tela, você vai pintando essa tela com
09:50palavras.
09:50O canto da crise foi escrito num contexto muito específico.
09:53Ele tem esse nome porque foi, de fato, fruto de um período em que vivemos, no qual eu percebia o
10:01diálogo entre três grandes crises.
10:03Uma crise nacional que seria aquele período de 2014, a eleição de 2014, posteriormente, 2016, com o impeachment de Dilma.
10:11E, assim, aquela fratura ocorrendo no país.
10:16E, posteriormente, a ascensão de um certo pensamento de extrema-direita, neofascista.
10:21E isso em âmbito mundial, com a ascensão do Trump, por exemplo, e tudo o que ele representa.
10:26E, ao mesmo tempo, no Espírito Santo, o período da greve da PM.
10:32Que, para quem viveu, também foi uma experiência absolutamente traumática.
10:36Então, assim, o livro foi escrito em pouquíssimo tempo, dentro desse contexto.
10:40Então, numa perspectiva meio catártica, assim, de palavras que eram jogadas a partir desse contexto que todos estávamos vivendo.
10:50E o trecho que você leu, particularmente, que é de um poema chamado Ego, né?
10:54São cinco poemas.
10:55Exato.
10:56Que seria Pátria, Mundo, Ilha, Ego e Tel.
11:01Que é como se fosse a ideia de uma crise que ela reverbera, desde o indivíduo, né?
11:08E vai reverberando para a sua cidade, estado, país, mundo, e até para a metafísica, sei lá.
11:14O poema que você leu de forma particular, ele traz até lampejos de esperança, assim, né?
11:19No meio desse contexto de crise, ele é um olhar de esperança também.
11:22Você escreve o texto.
11:24Então, você está nele.
11:25Ninguém discute.
11:26Sim.
11:28Mas, ao observar essa realidade, ao observar a realidade mundial, a realidade brasileira, e a realidade especificamente do Espírito Santo,
11:41é uma visão pessoal ou é uma visão que traz aquilo que a maioria vê?
11:49Ou seja, a greve da PM foi uma coisa problemática para todo mundo.
11:53Mas, o que está no texto?
11:54É como do Ilho ver?
11:55É sempre pessoal.
11:56É sempre pessoal?
11:57É sempre a minha visão pessoal, assim.
11:59Eu acho que eu encontrei na literatura uma forma, talvez a forma de comunicação por excelência, assim.
12:06Mais, talvez, do que a academia, mais, talvez, do que a conversa entre pessoas.
12:10Eu vejo a literatura, assim, no meu caso, como o...
12:14E a literatura, eu incluo o teatro também.
12:17Como o meu grande veículo de expressão.
12:20Não que eu tenha muitos leitores, assim, né?
12:21Mas, eu vejo uma forma privilegiada de comunicação é o livro ou a peça de teatro.
12:26A sua formação, eu volto à questão do início.
12:32A sua formação de intelectual ligado à história, ela entra nesse livro do Canto da Crise?
12:42Ela entra como um observador, um observador analítico do que está acontecendo?
12:48Sim, é assim, é difícil falar de que forma isso acontece objetivamente, né?
12:53Assim, é claro que de forma indireta isso aparece, mas eu não busquei escrever o livro como um pesquisador, né?
13:00Assim, com, sei lá, com a preocupação que um pesquisador, um historiador, um acadêmico teria.
13:06Pelo contrário, né?
13:07Assim, eu procurei escrever o livro como um indivíduo que está vivendo as dores e delícias,
13:13muito mais dores do que delícias, desse momento que vivemos,
13:17mas sem essa preocupação de ser um historiador, né?
13:20É claro que a minha formação, ela está em mim, né?
13:22O tempo inteiro.
13:23E como eu disse anteriormente, assim, porque não necessariamente é bom, né?
13:26Muitas vezes, eu já, num festival de teatro, por exemplo,
13:30eu recebi uma crítica a uma peça que eu tinha escrito por textuado muito didática, né?
13:35Assim, com muitas referências históricas.
13:38Então, isso está em mim, né?
13:40É difícil eu me separar disso.
13:43E não necessariamente é bom, né?
13:44Sim, mas isso aparece nos textos.
13:49E o Duílio, o Duílio escritor infantil?
13:53Porque nós temos o Duílio historiador, o Duílio teatrólogo, o Duílio poeta,
14:00e há um Duílio que escreve para crianças.
14:02Sim.
14:04É uma aventura ou...
14:05É uma aventura no sentido de que eu me aventurei em escrever um livro
14:10ou é uma tendência mesmo?
14:12Existe plano, por exemplo, de continuar a escrever textos infantis de Venezes?
14:17Essa pergunta é interessante, porque eu acho que, no fundo,
14:19tudo que eu faço é uma grande aventura, sabe?
14:21Porque, às vezes, eu olho para trás da minha história, assim,
14:23e eu não consegui fazer um percurso certinho de alguma coisa, né?
14:26Eu não fui só o historiador, como poderia ter sido, né?
14:29E, sei lá, talvez estar dando aula na Universidade Federal e sendo um historiador com um vasto trabalho de pesquisa.
14:37Ao mesmo tempo, também não fui só alguém de teatro que poderia estar nesse lugar, ou só poeta.
14:42Então, assim, eu vou vivendo as aventuras que vão surgindo na minha vida.
14:45Não é algo muito planejado, com um objetivo muito claro.
14:49Eu tento ser fiel à minha vontade.
14:52O livro Infanto e Juvenil, o Aileen Marmello, surgiu por conta da minha experiência com a paternidade.
14:59Eu tenho um filho hoje com 10 anos.
15:01E no momento em que outros colegas também tiveram filhos.
15:04Então, assim, eu falei, pô, eu preciso me comunicar com eles também, assim.
15:10E eu gostaria de ter essa sensação, assim, de escrever algo que o meu filho pudesse ler,
15:15pudesse conversar comigo, né?
15:17E os filhos dos meus amigos.
15:19E fui muito feliz nesse sentido de...
15:21Não estou falando da qualidade do texto ou não,
15:24mas feliz no sentido de que muitos amigos leram o livro com os filhos e me mandaram fotos depois.
15:30E eu tive a oportunidade de conversar tanto com o meu filho quanto o filho de colegas.
15:34E foi bastante realizador.
15:36Um livro que, apesar de Infanto e Juvenil, também traz essa característica de um olhar crítico sobre a realidade.
15:41Tudo bem, a literatura em Infanto e Juvenil, ela tem essa característica.
15:45Mas me diga aqui, você realmente acha que o que você escreve poeticamente comunica?
15:53Você acha que é importante essa... é prioritária essa comunicação com o leitor?
16:02Ou você escreve para você?
16:04Você escreve pensando no leitor?
16:05Não, não escrevo para mim.
16:06Você não escreve para você?
16:07Escrevo para mim, talvez, no sentido terapêutico, assim, de que me faz muito bem escrever, né?
16:14Você tem preocupação com o leitor?
16:16Tenho.
16:17Tenho.
16:18Assim, quando eu escrevo, é como se fosse um diálogo.
16:20Entro do hílio que escreve e o do hílio que lê.
16:23Então é só para você.
16:24Hã?
16:24Então é só para você que você escreve.
16:26É, mas assim, o fato de eu escrever e eu automaticamente ler me faz reescrever muitas vezes.
16:31Então, assim, eu acho que não é uma escrita só para mim, na medida que eu quero que outras pessoas
16:37leiam e que gostem.
16:39Então, nesse processo de escrita, leitura e reescrita, que eu reescrevo muitas vezes,
16:45há sim uma preocupação de que o texto seja, por exemplo, inteligível, que seja claro, que seja atraente.
16:55Então, não é apenas para mim, no sentido de que eu não vou escrever e vou guardar e vou deixar
16:59num canto.
17:01Há sim uma preocupação de que outras pessoas leiam.
17:03É como se fosse o do hílio diluído dentro de um conjunto de outras pessoas,
17:10de outras pessoas que vivem esse período histórico que nós vivemos,
17:12de outras pessoas que possuem as mesmas referências intelectuais e artísticas que nós possuímos.
17:18Então, eu quero me comunicar com essas pessoas também.
17:20Não que sejam muitas, mas existem algumas.
17:24E quando eu recebo algum retorno, é fantástico.
17:28Há um poeta americano, norte-americano, do qual eu gosto muito, chamado William Carlos Williams.
17:34Certa vez chegaram para ele e perguntaram, ele havia escrito um livro de poemas,
17:38um dos vários livros que ele escreveu, e perguntaram para ele se ele tinha uma preocupação de um leitor compreender
17:46aquilo.
17:46E ele falou que ele não sabia o que era isso.
17:48Ele não sabia o que era um leitor.
17:50Ele não imaginava que ele tivesse leitores.
17:52Ele tinha muitos, mas não era a preocupação dele.
17:56E ele dizia que ele escrevia para ele.
17:59Ele escrevia para satisfazer a si mesmo.
18:02E eu sempre achei que a literatura é para isso.
18:07A literatura, músico, cinema, a verdadeira arte, ela primeiro tem que agradar a quem o produz.
18:16Os textos todos te agradam.
18:18Então, somente a partir do momento que eles agradam você, você os expõe.
18:23É isso?
18:24O mais engraçado, assim, que depois que você publica, né, assim,
18:27hoje eu tenho várias críticas a todos eles.
18:30Que bom, né?
18:31Então, assim, eu pego trechos, eu gosto muito de alguns trechos,
18:33mas tem trechos que às vezes eu falo, cara, nada a ver, assim,
18:37por que que eu escrevi isso, né?
18:40Então, não necessariamente, assim, alguns eu publiquei quando eu tinha certeza de que estava bom.
18:45Isso não quer dizer que estivesse bom, né, por exemplo.
18:48Estava bom para você?
18:49Para mim, naquele momento.
18:50O Sobrado, por exemplo, foi um livro que eu escrevi durante muitos anos.
18:54O Canto da Crise foi um livro que eu escrevi em pouquíssimo tempo.
18:57E quando eu publiquei, alguns trechos eu achei que eu me deixei, não sei,
19:03levar muito para os acontecimentos do momento.
19:05Acho que talvez um olhar crítico atravessou demais o sentido poético.
19:09Alguns trechos hoje me incomodam.
19:10Mas tem trechos do Sobrado que também me incomodam, né,
19:13mesmo tendo escrito em um tempo muito maior.
19:16O livro Infanto Juvenil também, logo depois que eu lancei, não gostei muito.
19:22Mas hoje, esses dias eu reli, né, e gostei bastante, né, assim,
19:26a pesquisa, eu tenho críticas, os textos teatrais também têm várias críticas.
19:33E se eu pudesse refazê-los, assim, se eu tivesse a oportunidade de refazê-los,
19:37com certeza eu mexeria em todos.
19:38Mas você tem a oportunidade.
19:39O texto é seu.
19:40Você faz o que você quiser com ele.
19:42É, mas acho que aí viraria outra coisa.
19:43Aí eu prefiro escrever uma outra coisa, sabe?
19:46É sobre isso que a gente vai falar.
19:48Esse livro seu, que eu não conheço, que eu não conheço,
19:51inclusive você vai me presentear hoje,
19:52que é Melhor Manter o Escuro Aceso.
19:57Uma beleza de paradoxo, né, são suas peças teatrais.
20:02São quatro peças teatrais.
20:03É uma compilação de tudo o que você fez, enquanto texto dramático.
20:07Sim.
20:10Publicar peças teatrais não tem tanto valor quanto montar peças teatrais.
20:15Sim.
20:16O teatro é muito mais para ser visto do que para ser lido.
20:21Mas, ao publicar peças teatrais, né, os seus textos dramáticos,
20:27você estabelece com o leitor uma relação de história.
20:30Mostrar para ele, ó, olha o que foi publicado.
20:32Fala um pouco para a gente sobre esse desejo de juntar o que você fez no passado
20:37de um outro duílio, que não é o duílio de agosto de 2023,
20:40é um duílio passado.
20:42Sim, sim.
20:43De juntar isso aí num volume só.
20:47Pois é, assim, isso que você falou é muito interessante.
20:50Eu também tinha esse olhar sobre a dramaturgia, assim.
20:54Eu tenho prazer em ler peças de teatro.
20:56Não muitas, assim, mas, por exemplo,
20:58eu tenho uma coletânea de peças de Nelson Rodrigues
21:00que eu leio com muito prazer.
21:02Ela se serve pela Nova Fronteira, em quatro volumes.
21:04É, não, não, é um volume único.
21:06O volume único?
21:06É obra completa.
21:07É, eu tenho em quatro volumes, pela Nova Fronteira.
21:10E eu tenho muito prazer em ler, e, assim, no meu entender,
21:14eu leio como literatura, né, assim, sentindo o prazer
21:16que eu sentiria lendo um romance, um livro de contos, etc.
21:20Nem todas, nem todas as peças são assim, né.
21:23Inclusive, você falou uma coisa interessante também no começo,
21:25de que o teatro tem essa relação com a literatura, né.
21:29E, assim, por outro lado, a gente tem no teatro contemporâneo
21:32uma discussão muito forte do que eles chamam de pós-dramático,
21:35que é justamente, assim, criticar essa base literária do teatro
21:38e buscar um teatro que se resolva na cena.
21:41Assim, a partir dos jogos dos atores, né, dos jogos da equipe,
21:46o espetáculo vai se construindo, e depois isso pode ser até registrado por escrito.
21:51Mas não é visto como um texto teatral que deu origem a uma obra.
21:56Então, assim, eu tinha esse olhar sobre o texto teatral, né.
22:00E concordo também que ele possui, para além de um aspecto literário,
22:06de prazer literário, ele também possui um aspecto de registro histórico, né.
22:11Então, assim, uma coletânea de peças fala também sobre as peças
22:14que foram montadas em determinado período, né.
22:18E, assim, eu como alguém que se interessa por pesquisar o teatro no Espírito Santo,
22:21me deparei, por exemplo, não só com a falta de pesquisa sobre o teatro,
22:26mas com a falta de textos teatrais publicados.
22:30E hoje eu vejo que, por exemplo, textos teatrais que foram fundamentais
22:33na ditadura militar, que foi o meu tema de pesquisa principal,
22:40agregariam muito valor à minha pesquisa, né.
22:43Poder analisar o texto das peças que foram montadas.
22:45Isso se perdeu.
22:47Até procurei com algumas pessoas que viveram um período, década de 60, 70, e não achei.
22:51Então, assim, a publicação de uma coletânea de peças teatrais
22:55também tem esse valor, né, de falar um pouco
22:57sobre o que estava acontecendo no teatro, naquele local, naquele período.
23:02São, das quatro peças, né, nós montamos três,
23:06que são A Lenda do Reino Partido,
23:08Búfalo Show,
23:10que são muito parecidas e muito parecidas com O Quanto da Crise.
23:13Você dirige ou atua?
23:14Não, eu atuei e escrevi.
23:16Você não dirige?
23:17Não dirijo.
23:18São muito parecidas com o mesmo contexto de O Quanto da Crise,
23:22A Lenda do Reino Partido, né.
23:23Pensando mais nessa questão da separação do Brasil, né,
23:27desse racha, a partir de 2014,
23:30e, consequentemente, a eleição do Temer, etc.,
23:32e o Búfalo Show, que fala de Búfalo Bill, sobre o faroeste,
23:37fazendo uma reflexão sobre a ascensão dessa cultura da arma,
23:40da violência, do mais forte, etc.
23:42Há também um espetáculo que eu acabei escrevendo por pedido de uma produtora daqui,
23:48que é a WB, sobre Rubem Braga.
23:50Se chama Rubem Braga, a vida em voz alta.
23:52Sim, isso eu conheço.
23:53Que é um monólogo sobre a vida e a obra de Rubem Braga,
23:55mas que também traz esse olhar crítico, crítico e lírico, assim como ele.
24:01E um quarto texto que se encontra inédito, chamado Sopa de Galena.
24:07Então, todos, de alguma forma, eles dialogam com um certo olhar crítico sobre a realidade, assim.
24:13E pensando em alguns fatos históricos,
24:16momentos históricos específicos dos últimos anos, né.
24:18Daí essa questão da influência da história nas coisas que eu faço, né.
24:22Ela está aí.
24:23Maravilha.
24:23Independente de ser intencional ou não.
24:25Maravilha.
24:27Nosso tempo acabou.
24:28Mas eu quero fazer uma colocação importante.
24:32Se as pessoas quiserem comprar seus livros,
24:35como é que elas fazem para adquiri-los?
24:37Bom, eles se encontram todos na Editora Cândida.
24:41Editora Cândida.
24:42Isso, pode procurar na internet o site da Editora Cândida.
24:44Podem me mandar um e-mail também,
24:46meu e-mail é o meu nome, doilioCusterCid, arroba iarru.com.br.
24:50Ou me procurar no Instagram, que também é doilioCusterCid.
24:53Ótimo.
24:53E a gente conversa.
24:54Ótimo, maravilha.
24:55Luírio, muito obrigado.
24:56Eu que agradeço.
24:57Foi um papo esclarecedor demais.
24:58Muito obrigado, valeu.
24:59Espero que você volte em breve.
25:01Valeu.
25:02Beleza?
25:02Eu que agradeço.
25:03Valeu, gente.
25:03Valeu.
25:03Obrigado.
25:04Pessoal, então, na próxima semana,
25:07nós vamos conversar com uma outra historiadora,
25:09que é a Lívia Rangel.
25:12Mas isso aí fica para depois.
25:14Um grande abraço a todos.
25:16Fiquem em paz.
25:19Você ouveu Vitrine Literária, com o professor e escritor Francisco Grijó.
25:25Tudo sobre literatura contemporânea.
25:27Temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
25:36Tchau.
25:36Tchau.
25:37Tchau.