- há 3 semanas
Uma visão psicanalítica de Machado de Assis: romances, contos, crônicas, poemas.
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NotíciasTranscrição
00:01Começa agora, vitrine literária, com o professor e escritor Francisco Grijó.
00:07Tudo sobre literatura contemporânea, temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:19Olá pessoal, tudo bem? Vamos dar continuidade ao papo da semana passada.
00:24O papo da semana passada foi sobre Machado de Assis, sobre uma maneira pouco usual de se olhar para a
00:32obra de Machado de Assis,
00:34com um dos convidados mais célebres aqui do vitrine literária, que é o Rui Perini.
00:41Então, essa continuidade, quem assistiu a primeira edição vai perceber que nós estamos dando essa continuidade
00:48porque já abordamos uma série de pontos ligados à obra machadiana.
00:54E eu agora continuo a conversar com o Rui sobre um determinado ponto que é abordado, inclusive, em vestibulares,
01:03que é o Triângulo Amoroso.
01:05Vamos pegar os romances de Machado, só os romances.
01:09Existe o Triângulo Amoroso em Memórias Póstumas, com Virgília, Lobo Neves e o próprio Brascubas.
01:17Existe o Triângulo Amoroso em Quincas Borba, com Sofia, Cristiano e Rubião.
01:22O Triângulo Amoroso clássico, Bentinho, Capitu e Escobar.
01:28O Triângulo Amoroso em Exaú e Jacó, com Flora e os dois irmãos.
01:33E esse Triângulo Amoroso é também assunto do Aires, quando ele fala no memorial.
01:42O que eu quero saber de você é o seguinte, nós da área literária, a nossa tendência é dizer que
01:50Machado optou por trabalhar com o Triângulo Amoroso para justamente combater a ideia romântica de mulher idealizada.
02:01Então, qual é a primeira coisa que o autor realista faz?
02:06Ele pega aquela figura idealizada, perfeita, positiva, que existia no romantismo, e pisoteia.
02:12Coloca como uma figura sem caráter, uma figura manipuladora, como ela é colocada para nós.
02:19Mas eu quero saber de você, eu quero ver a sua abordagem.
02:22O Triângulo Amoroso, por que ele é, e outra coisa, só lembrando, existe Triângulo Amoroso em Missa do Galo,
02:30existe Triângulo Amoroso em Noite de Almirante, existe Triângulo Amoroso em Acartomante, e assim por diante.
02:36Eu quero saber de você o seguinte, Rui, dentro dessa perspectiva psicanalítica,
02:41como é que você encara a ideia do Triângulo Amoroso em Machado de Assis?
02:48É um tema que tem tudo a ver com a psicanálise, que é a questão do ético, o Bentinho, por
02:57exemplo.
02:58Ele tinha não só essa questão, essa triangulação com Ezequiel e Capitu,
03:06que ele tinha convicção, mas ficava em dúvida, então ele tem a eterna...
03:12O que ele sofre mais é com a dúvida, não é com a certeza, com a impressão de ter sido
03:18traído.
03:19O que mata ele é a dúvida.
03:22A gente não pode esquecer que ele escreve depois que estão todos mortos.
03:27Capitu, o filho está morto, o Ezequiel está morto, não sei, a Sancha, eu acho que não,
03:34que era a mulher do Ezequiel, do Escobar.
03:36Mas a mãe dele já está morta, não é assim?
03:40Porque, na verdade, tinha essa triangulação com a mãe, não é assim?
03:45Porque o Ezequiel, não sei se você lembra lá no romance,
03:49chegou-se a aventar a hipótese do Ezequiel casar com a mãe.
03:54Porque ele era mais velho que o Bentinho.
03:56Ele era uns quatro anos mais velho.
03:58A mãe tinha ficado viúva e quando ela vai lá visitar, tudo,
04:03eu não sei quem que fala isso, mas eu lembro que se aventou essa hipótese, né?
04:10Do Ezequiel casar com a mãe do Bentinho, né?
04:15E talvez ele tivesse resolvido melhor o édipo dele,
04:19porque aí, nesse caso, o Ezequiel seria amante da mãe dele e não da mulher dele.
04:26Sensacional, né?
04:27Não é assim?
04:27Então, tem outro triângulo no Dom Carlos Morro também,
04:34que é o Bento e a Sancha.
04:38E o Ezequiel, logicamente, que era o marido da Sancha.
04:41Isso, isso.
04:43Na noite, antes do Ezequiel morrer, na ressaca,
04:47e isso é fantástico, o Machado, porque eram os olhos de Capitu, né?
04:52Os olhos de Capitu.
04:53Onde o Ezequiel morre...
04:55É afogado, né?
04:56É, então, assim, e aí é que é o golpe de mestre do Machado.
05:03Como é que ele prende a atenção do leitor?
05:05Capitu tinha os olhos de ressaca.
05:08Eles se encontraram à noite, numa reunião de família,
05:13os dois filhos lá brincando, a filha do...
05:16Que era o que chamava Capitu, a filha do Ezequiel e Sancha,
05:20e o filho do Bentinho e Capitu, que chamava Ezequiel.
05:25Então, assim...
05:27Que jogo, né, cara?
05:28Que jogo impressionante.
05:28É um jogo impressionante, assim.
05:30O Machado, ele amarra por todos os lados, né?
05:34Então, eles estavam lá conversando e...
05:38E a gente vai lembrar, assim, que o Bentinho estava de olho na mulher do Sancha,
05:44a Sancha, a mulher do Ezequiel, né?
05:47Ele fala, né, assim, que...
05:48Não me lembro como é que ele fala lá, ele comenta, né, assim, dos olhos, do olhar, né?
05:53Essas coisas também, esse significante...
05:54Do mesmo comentário que ele faz sobre Capitu.
05:56Sim.
05:57Então, esses significantes são muito interessantes no Machado também.
06:00Os braços, né?
06:01Os braços da noite do galo, né?
06:03Exato, é.
06:04Da missa do galo, né?
06:05Não, assim, tem um conto que chama Uns Braços, né?
06:08Uns Braços, exatamente.
06:09Que é fantástico, né?
06:10A sensualidade dele ver o braço, né, da mulher lá, que era a mulher do patrão dele, né?
06:15É o braço nu.
06:16O braço nu, é.
06:18Então, ele...
06:19E ele fala da Sancha, ele fala...
06:23Ela era deliciosíssima, assim.
06:26Ele fala nesses termos mesmo, né?
06:29Então, assim...
06:30E aí, o Ezequiel chama ele para nadar no dia seguinte, né?
06:34E ele era todo medroso, né?
06:37O Bentinho era todo mal resolvido nisso, né?
06:41E o Ezequiel fala, não, vamos nadar.
06:43O mar está de ressaca.
06:45E eu gosto de nadar no mar de ressaca mesmo.
06:48E o Bentinho fica lá, medroso, tal.
06:51Eu falo, não, porque eu sou um excelente nadador.
06:55E olha meus braços como são fortes.
06:58Palpa aqui.
06:59E o Bentinho palpa os braços dele, né?
07:00Então, tem toda essa sensualidade também, aquilo que eu falava no outro programa,
07:08da identificação, desse amor que o Bentinho tinha pelo Ezequiel,
07:15dessa atração, porque era uma atração da identificação.
07:21O Ezequiel era uma personalidade forte.
07:25Não se vê a homossexualidade em Machado, né?
07:29Não, não.
07:30Assim, tem num conto, né?
07:31As academias de Sião, né?
07:33Ah, é verdade, é verdade.
07:36Inclusive, uma coisa meio transexual.
07:38É, exato.
07:39Porque a homossexualidade, nessa época, era muito vista como uma coisa patológica.
07:45E quem abordava a homossexualidade era o naturalismo,
07:48que via a homossexualidade como algo patológico, né?
07:51Mas, eu quero voltar à questão do triângulo, porque me interessa muito,
07:56muito, particularmente, escrever sobre isso.
08:01Você diria que essa recorrência da triangulação amorosa, em vários textos,
08:08ela é um sintoma mesmo da época?
08:11Ela é um sintoma da literatura machadiana representando o final do império e assim por diante?
08:17Eu creio que sim, porque era uma coisa que existia, sempre existiu, né, igrejosa?
08:26Era meio camuflada, né, vamos dizer assim, mas que sempre existiu, né?
08:31Então, a ficção do Machado sempre tem muito isso, né?
08:35Assim, se a gente pegar Helena, por exemplo, né?
08:40Que é um romance, talvez o romance mais moralista, né, do Machado, né?
08:47Porque tem, inclusive, um romance incestuoso, né?
08:54Sim, sim, porque a Helena era irmã do, esqueci o nome agora.
09:00Também, me perdi agora.
09:01Do, do, do, do, do, do, do, do presidente, né?
09:03Isso.
09:05E, e eles começam a namorar, né, assim, porque não se sabia, né?
09:11Aí, o pai, né, que tinha uma relação, né, também, tinha os triângulos dele também,
09:17o pai da Helena, a Helena era uma filha natural, né, como se falava na época, né,
09:21era uma filha clandestina, bastarda, né, assim, mas era criada lá junto, então eles
09:28começam a namorar e tem um outro personagem, que eu também não lembro agora, e fala, né,
09:33assim, olha, você está namorando com a sua irmã, né, assim, e aquilo choca, né, fica
09:38todo mundo, né, assim, então tem, que também, né, me parece que esse cara também pretendia
09:44namorar com ela, então ele, ele acusa pra, né, assim, então essa questão da triangulação
09:50sempre, sempre teve, né, assim, sempre permeia, né, assim, nos contos, né, Noite de Almirante,
10:00né, que você lembrou, né, assim, o...
10:02Noite de Almirante é uma beleza de texto, né?
10:04Beleza, beleza, maravilha.
10:05Ela, ela fica cozendo, né, ele vai viajando, é, é, é, é, é Odisseus, né, Odisseus
10:14Ela fica cozendo e ela fica cozendo.
10:16Ela cozendo, trançando, né, assim, inclusive o nome dela, né, assim, tem a ver com o...
10:21Tem a ver com Penélope, é... Genoveva.
10:25Genoveva.
10:26Genoveva, que é a fazedora de tranças.
10:28Que é a fazedora de tranças, exatamente.
10:31O...
10:31Na Noite de Almirante, a gente falou, o...
10:35Tem a Missa do Galo, tem...
10:36A Cartomante, né, assim, a Cartomante, eu acho que é...
10:39É, e que é o...
10:40O, o, o, o, o, talvez o texto fora dos romances de Machado, o texto mais celebrado, né?
10:46Sim.
10:47É, eu acho até que mais que o Alienista.
10:49Talvez por ele ser mais curto, a história ser mais rápida, né?
10:53E ter um final bem trágico, né?
10:56É.
10:57O...
10:58Ele recebe o bilhete, né, pra ele lá, né, pra...
11:02Isso.
11:03Na Amante, né?
11:04Isso, isso.
11:04E ele vai, né, assim, aí para no meio do caminho e...
11:08Ele, ele para...
11:08Veja a coisa da Cartomante.
11:10Mas lembra que no começo ele faz chacota, né?
11:12Faz chacota, porque a mulher ia visitar a Cartomante e ele faz chacota, né?
11:16Aí quando a carruagem para, porque tinha uma outra quebrada no caminho, aí ele olha lá a Cartomante.
11:23Ele sobe...
11:24Ele faz, isso é bobagem e tal, mas aí ele fica intrigado, né, assim, com o bilhete que ele tinha
11:28recebido, né,
11:29pra ele ir urgentemente lá na casa dela.
11:31E vai lá e pergunta, né, e isso também está a genialidade do Machado, né, que ele fala assim...
11:37Que a Cartomante fala assim...
11:39Não, você está preocupado, mas assim, eu vejo um final...
11:47Não me lembro os termos, né, assim, mas um campo infinito à sua frente, né, de...
11:54E ele interpreta aquilo como...
11:56Como ser uma coisa boa.
11:57De benesses, né, e era a morte, na verdade.
12:01Verdade, né, porque ele chega lá, o marido mata, já tinha matado a mulher e mata ele.
12:05E é interessante, e é interessante a gente observar, o Machado, me parece que ele decretou
12:13uma espécie de guerra ao romantismo.
12:15Ou seja, todo personagem que se comporta romanticamente, ou seja, sentimentalmente,
12:22idealisticamente, ele se dá mal.
12:23É o caso do marido de Genoveva, que sai e acha que vai voltar e vai estar tudo bem,
12:29e ela está com outro.
12:30Já está com outro.
12:30É o caso de Missa do Galo, em que o rapaz, ele vai crente que vai dar uns beijos, né,
12:39na mulher mais velha, porque ela é muito sedutora, e no final ela diz não pra ele.
12:43É o caso de Missa do Galo, de Sofia e Rubião, né, que ela...
12:50A Sofia é a imagem da histeria, né, assim...
12:53Por quê?
12:53Por que histeria?
12:54Porque ela seduz, né, assim, ele tem até uma...
13:00Como é que eu até anotei aqui?
13:01A mulher histérica é uma mulher sedutora ou é uma mulher que quer seduzir?
13:05Mas, assim, é o gozo da sedução, né, assim, ela não quer seduzir, ela não quer
13:12completar a sedução, ela quer seduzir.
13:14Ah, sim.
13:14É o gozo da sedução, né.
13:18Então, o Machado, quando ele fala da Sofia, ela fala...
13:22Ele tinha...
13:23Ela tinha olhos convidativos, e só convidativos.
13:26E só convidativos.
13:27Só convidativos.
13:28Não era pra...
13:31Ela...
13:31Tem até aquela interpretação de que ela seduzia o Rubião enquanto o marido tomava
13:36a fortuna dele, né?
13:37É.
13:38Que é uma leitura, mas, assim, na verdade, ela tinha o gozo da sedução, ela...
13:43E Capitu disso também, né?
13:44Ela curtia aquilo, né?
13:45Capitu não tinha isso, não?
13:47É, de um certo ponto de vista...
13:49A Capitu adolescente, por exemplo.
13:51É.
13:52Sim, mas a Capitu, ela...
13:54A Capitu era uma pessoa mais resolvida, né?
13:57A Capitu, inclusive o nome, né, Capitolina...
14:00É.
14:01É o nome da...
14:02A deusa, né?
14:03É.
14:04É a colina do Capitólio, né?
14:06A colina de Roma, onde tudo era decidido, né?
14:08Assim.
14:09Então, os nomes no Machado são muito significativos, sempre.
14:12Mas o que você me diz?
14:14O que você me diz de Virgília?
14:16Em Memórias Póstumas.
14:17Porque Virgília é uma mulher voluntariosa, é uma mulher firme, é uma mulher que tem um
14:22marido e é uma mulher que, segundo o narrador, eu sempre coloco segundo o narrador,
14:27porque o narrador de Brascubas é Brascubas morto, né?
14:30Segundo ele, Virgília o seduz.
14:32Ou, pelo menos, ela...
14:34As atitudes dela são sedutoras.
14:37Você colocaria...
14:38Será que...
14:39Quem sabe você, Rui, não escreve sobre as mulheres de Machado?
14:43Essa coisa da histeria eu acho bem interessante.
14:45É.
14:46Porque todas elas são sedutoras.
14:49É.
14:49É.
14:50Virgília é um caso à parte, né?
14:52Porque ela tem isso também da sedução, né?
14:56Assim, ela seduz e leva a...
15:01Efetua realmente, né?
15:02Assim, o triângulo, né?
15:03Assim, ela trai o Lobo Neves.
15:06Mas ela namorou antes o Brascubas.
15:10O Brascubas, é.
15:10Eles foram namorados, né?
15:12Isso, isso.
15:13O pai dela tinha prometido, né?
15:16Que ele seria deputado, que ele teria um cargo, seria ministro, né?
15:20Ele até fala isso, né?
15:22Ele fica sonhando, né?
15:23Um dia serei ministro.
15:24No final ele diz, na hora que ele vai...
15:26Ele vai falar, no final do texto ele fala, não fui ministro.
15:29Não fui ministro, não fui...
15:31Não fui, né?
15:31Assim, o capítulo das negativas.
15:33Exatamente.
15:34Que resume, né?
15:35Aquela coisa da fragilidade do Brascubas, né?
15:40Sedutor, né?
15:41Boa vida, né?
15:43Bonachão, rico, né?
15:46Pândego, né?
15:47Assim, pelo menos lá no início, né?
15:49Que ele vai para Portugal, ele conseguiu se formar depois de muito tempo, porque ele vivia na esborna.
15:56Vivia na esborna.
15:59Mas, assim, eles namoraram e você lembra, assim, que tem um dia que ele tinha combinado de ir lá falar
16:08com ela.
16:09E aí ele perde, eu acho que o vidro do relógio, aí para para trocar o vidro do relógio e
16:14era a Marcela, a ex-amante dele, a espanhola, né?
16:20A famosa...
16:20Que o amou durante 11 meses...
16:2311 meses e 15 contos de réis.
16:2715 contos de réis, eu acho, não é assim?
16:30E aí ele fica lá, ele vê, ela reconhece ele, ele reconhece, mas ele disfarça e tal.
16:37Ela fala assim, não, eu não tenho esse vidro de relógio, mas chamou um menino para ir lá buscar no
16:42vizinho, né?
16:43Aí aquilo demora um pouco e ela...
16:46Quando ele chega, ele tem até uma coisa meio alucinatória, da carruagem, que ela chega e ele fica meio perdido,
16:58parado lá na frente da casa da Virgília.
17:01E depois que ele foi perceber que ele já tinha chegado, né?
17:04Que ele fala assim, essa carruagem não anda e tal.
17:07Então, assim, porque ele não conseguia assumir muito, né?
17:12O papel dele de ser marido, né?
17:16De ser esposo, né?
17:17Assim.
17:18E a Virgília fica com raiva daquilo, né?
17:21E a partir dali, ela não me lembro, mas eu acho que ela não rompe ali de imediato, mas começa
17:28a esfriar a relação.
17:29E aí entra o Lobo Neves, que era um cara decidido, um cara que tinha... era deputado, um cara que...
17:36né?
17:36E ela casa por conveniência social.
17:39É.
17:40Assim, mas ela gostava do Brás Cubas, né?
17:43Tudo indica que ela gostava, mas ela queria...
17:45Pelo menos é o que o Brás Cubas diz pra gente, né?
17:47Sim, e ela queria, mas ela queria uma posição, né?
17:51E então ele dança nessa história aí e o Lobo Neves assume o papel de marido e tal, só que
18:00depois ela vai seduzir o Brás Cubas.
18:03Você colocaria... existe aquele clichê, né? De... você até citou no começo do programa anterior, você falou sobre a ideia
18:10da matriarca, mas existe muito um clichê que eu acho válido, que é a ideia de mulher forte, né?
18:17De mulher ativa, de mulher capaz de decidir as coisas.
18:21Me parece que nos romances de Machado, essas mulheres são muito marcantes, né?
18:26Sim, sim.
18:27E Helena, né?
18:28Helena, né?
18:29Helena, Helena, nos romances...
18:31Casa Velha, é um... Casa Velha é interessante porque ele foi um texto descoberto pela Lúcia... uma estudiosa de Machado,
18:43né?
18:43Que eu esqueci o nome, Lúcia Helena... fugiu o nome agora.
18:51Esse texto estava perdido lá nos folhetinhos, né?
18:55Assim, ela descobriu esse texto em 1944 e publicou... então ele é classificado como um conto, mas como o Alienista
19:06também é um conto longo, né?
19:08É, um conto longo.
19:08Que pode ser...
19:09Mais uma novela, né?
19:10Mais uma novela, né?
19:12Inclusive não só pela extensão, mas como pela complexidade, né?
19:16Assim, de vários personagens, né?
19:18Assim, e a figura central na Casa Velha é também a matriarca, né?
19:26Então, essa... a dona Glória, né?
19:29Assim, a mãe do... do Bentinho, né?
19:33Assim, a figura central ali, né?
19:36Na vida dele, né?
19:37Tanto que eu acho que é isso que deixa ele meio preso, né?
19:40Nesse triângulo edipiano.
19:41É, mas ao mesmo tempo, né?
19:43Ao mesmo tempo que ele coloca essas mulheres fortes, essas mulheres quase que insubmissas, né?
19:49Insubmissas, ele coloca também as mulheres como uma espécie de Eva, né?
19:54No sentido de que são elas as responsáveis pela derrocada, né?
19:58Pelo menos a derrocada do outro, né?
20:01É Sofia que é responsável pela derrocada de Rubião.
20:06É a Virgília que é a derrocada de Brascubas.
20:09É a Capitu que é a derrocada, né?
20:11Sim, sim.
20:12Então, essa coisa que o Machado faz, que ele foge de qualquer tipo de esquema que se queira trabalhar com
20:23ele.
20:23Ou seja, não, o Machado trabalhou com mulheres fortes, porém, essas mulheres fortes são capazes de fazer isso.
20:28Ah, então ele trabalhou com mulheres de um jeito, mas, quer dizer, Machado, ele não se deixa rotular, né?
20:36Machado não se deixa ali, ele consegue fugir disso aí.
20:38Sim.
20:39Sim, tanto que quando ele rompe com o estilo romântico, com o Alienista, em 82 e um pouco antes com
20:50o...
20:50Brascubas.
20:51O Brascubas, né?
20:52Assim, ele, no início do romance, ele, e que eu acho isso genial dele, né?
20:59Assim, que ele fisga o leitor no início.
21:03É.
21:03Quando ele fala que ele, eu não sou um...
21:08Um defunto autor, eu sou um autor defunto, né?
21:11Então, aquilo choca.
21:13Aí o leitor...
21:15Não, eu não sou exatamente um autor defunto, eu sou um defunto autor.
21:17Eu sou um defunto autor, é.
21:18Não sou um autor defunto, sou um defunto autor.
21:20Quer dizer, ele escreve depois da morte, né?
21:22Então, aquele negócio choca.
21:24A primeira vez, eu tinha 12, 13 anos, que meu irmão me apresentou Memórias Póstum,
21:29assim, eu comecei a ler aqui, eu fiquei maluquice, não vou ler isso, não.
21:32E depois que eu fui ver a genialidade, né?
21:35Assim, e que eu acho que isso é genial, porque assim, o...
21:39Ele fisga o leitor, né?
21:41E você acha um absurdo, como é que um defunto escreve, né?
21:44E ele fala assim, eu não vou falar, não vou contar como que eu consegui mandar isso
21:49para ser impresso, né?
21:51Mas essa é a realidade.
21:52E aí começa a contar e você esquece que é um defunto escrevendo, né?
21:57Porque ele é um defunto, mas ele não fala onde ele está.
21:59Ele não fala se ele está no céu.
22:00Ele não fala de anjos, de demônios, não fala de nada.
22:03Não.
22:03Ele, de vez em quando, menciona, né?
22:05Eu estou aqui do outro lado, mas você não sabe que lado que é.
22:08Porque o interessante para ele é o mundo dos vivos, né?
22:10Sim, sim, sim.
22:11E ele faz, é o que eu chamo aqui nesse livro, né?
22:14Assim, quando o capítulo que eu falo dele, né?
22:18Assim, eu falo a paixão de Brás Cubas, a catarse na campa.
22:24Porque, assim, ele depois de morto, ele, ele, que ele fala até, né?
22:29Assim, eu agora posso escrever, porque estão todos mortos, então eu posso escrever.
22:34Então ele faz a catarse dele, né?
22:36A catarse é um tema...
22:37Não tem mais ninguém para limitá-lo, né?
22:38...da psicanálise, que fala dessa coisa do, do, da limpeza, né?
22:43Que você faz quando você fala, né?
22:45A psicanálise é um...
22:48Existe, inclusive, assim, essa coisa da psicanálise.
22:51Mas tem até esse livro, né?
22:52Que eu indicaria, né?
22:55Que é um livro muito interessante, que se chama Freud Machado de Assis,
22:58Uma Interseção entre Psicanálise e Literatura.
23:01Luiz Alberto Pinheiro de Freitas, né?
23:03Ótimo.
23:04Que ele fala dessa...
23:06Desse vínculo, né?
23:07Da psicanálise e da literatura, porque tem tudo a ver, né?
23:13São dois campos com propostas diferentes, mas que tem uma interseção perfeita, né?
23:19Assim...
23:19Maravilha.
23:20Porque o...
23:22A psicanálise, a clínica psicanalítica é o que a gente chama de psicanálise em intenção.
23:28E quando a psicanálise faz a leitura da literatura, por exemplo, das artes, é o que a gente chama de
23:36psicanálise em extensão.
23:39Né?
23:39Assim, que é uma...
23:40Você não estuda o autor, você estuda os personagens, né?
23:45Rui, muito, muito obrigado por você ter vindo.
23:48Olha, antes de terminar, diz pra gente onde o leitor pode encontrar seus livros.
23:54Esse livro tem na editora Cousa.
23:58Aqui, gente, ó.
24:00Não há remédio certo.
24:02Loucura e paixão na obra de Machado de Assis.
24:04Estou mostrando aqui pra quem está nos vendo e falando pra quem está nos ouvindo.
24:09Rui Perini, tá aqui, editora...
24:14Pedregulho.
24:14Ele está na Pedregulho, mas está à disposição lá na editora Cousa.
24:18Na editora Cousa.
24:18Entrando no site da editora Cousa.
24:20Maravilha.
24:20E tem um cebo ali na gama rosa também que tem dele lá à disposição.
24:24Então, Rui, mais uma vez, obrigado.
24:27Valeu mesmo.
24:27Eu que agradeço.
24:28Um bate-papo ótimo, uma abordagem bem diferenciada.
24:31Pessoal, espero que vocês tenham aproveitado.
24:34Eu aproveitei muito esse bate-papo com o Rui.
24:36Rui é um erudito, tem um conhecimento muito vasto sobre a obra de Machado de Assis e sobre literatura.
24:44E eu já deixo o convite aqui pra ele voltar futuramente.
24:47Valeu, gente.
24:48Um grande abraço a vocês.
24:50Até a próxima edição do Vitrine Literária.
24:53Um grande abraço a todos.
25:06Debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.