- há 11 minutos
Um papo sobre poesia, feminismo, conexões da literatura com o meio ambiente.
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NotíciasTranscrição
00:01Vitrine Literária, com o professor e escritor Francisco Grijó.
00:06Tudo sobre literatura contemporânea.
00:08Temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.
00:18Olá pessoal, tudo bem?
00:20Mais uma edição do Vitrine Literária com Francisco Grijó.
00:24Olá pessoal, pelo podcast do Fora Vitória e também pela página de vídeo da TV Vitória.
00:32Bem, hoje a gente tem uma convidada muito especial, uma mulher, uma imortal.
00:38Ela é recém-imortal, ou seja, ela é a última, última agraciada com o título de imortal da Academia Espírito
00:50Santo de Letras.
00:50É claro que não só ela leva vantagem, como também a academia leva vantagem em ter ela lá.
00:57Vamos conversar, inclusive, sobre isso.
00:59Mas antes eu quero fazer uma colocação que eu considero importante.
01:06Todas as outras entrevistas que eu fiz aqui no Vitrine Literária,
01:11nós não conversamos sobre um assunto que é relevante, não só para a cidade,
01:17como para o Estado, como para o país e como para o mundo, que é o meio ambiente.
01:23E a pessoa com quem eu vou conversar hoje é uma ativista ambiental,
01:29é uma figura respeitada no Estado do Espírito Santo pelo seu trabalho ligado à ideia de preservação do ambiente.
01:38Essa pessoa que está aqui é a poeta, infelizmente ainda não é uma prosadora.
01:44Eu conversando fora daqui, perguntei quando é que você vai se aventurar na prosa,
01:48e ela não sabe quando.
01:50Nós vamos conversar também sobre isso.
01:52Quem está aqui hoje para conversar sobre literatura, sobre ambientalismo, sobre poesia,
01:59é a poeta Renata Bonfim, que está aqui ao meu lado.
02:02Muito obrigado por você ter colaborado com a gente vindo aqui, ter aceitado o convite, Renata.
02:09Eu já queria trazer você há algum tempo, mas foi até bom você vir agora,
02:15porque agora você vem como imortal.
02:16Você que é a última empossada como imortal na academia.
02:23Vamos começar falando sobre isso.
02:25É uma poeta, uma mulher, numa casa em que há mais homens do que mulheres.
02:31A academia, ela sempre foi masculina, e de uns tempos para cá, ela tem percebido
02:39que essa injustiça de gênero, ela é uma coisa muito grave.
02:45E existem hoje grandes mulheres na Academia Espírito Santo de Letras,
02:49como existem grandes mulheres na Academia Brasileira de Letras.
02:53Ser uma imortal, trabalhar com poesia e ser uma mulher, uma ativista ambiental,
03:02o que isso colabora para a sua literatura?
03:07Primeiramente, obrigada pelo convite, é uma alegria estar aqui com você.
03:10Já batemos um papo antes.
03:11Sim, sem dúvida.
03:13Nota oportunidade, foi muito boa.
03:15Bem, o que significa tudo isso para a minha literatura?
03:20Eu acredito que ser mulher é uma marca que, independente da vontade pessoal,
03:31se entranha na minha escrita.
03:35A escrita de autoria feminina, quando a gente vai teorizar sobre esse tema,
03:41existem mulheres que são a favor, dizem que sim, existe uma dicção propriamente feminina,
03:48e outras dizem que não.
03:50Por exemplo, a Marina Colasanti não é muito a favor,
03:53a Maria Tereza Horta também diz que não existe uma escrita de autoria feminina,
03:57que existe a escrita.
03:59Mas, particularmente, eu acredito que essa marca,
04:02ela é muito presente desde os meus primeiros escritos,
04:05porque eu comecei a escrever como necessidade.
04:09Tinha o sonho de um dia escrever um livro,
04:12mas esse foi um sonho que se concretizou com o Mina,
04:17que foi a reunião de textos esparsos que deu forma a essa obra.
04:21Mas não foi algo planejado enquanto uma carreira.
04:25Escrever para mim é uma necessidade, faz parte do meu jeito de me expressar.
04:30Talvez por isso você tenha dito assim,
04:32por que não ingressou ainda no mundo da prosa?
04:35Porque a poesia, ela me capturou.
04:38Ela é uma forma em que eu me expresso no mundo.
04:42Então, ainda estou nesse dilema em transitar
04:46entre a expressão livre e espontânea na poesia
04:52e, a partir do meu último livro, que é o Coração da Medusa,
04:58trabalhar questões mais, vou dizer assim,
05:01mais construídas, mais estruturadas dentro de um tema.
05:04Então, se você pegar os meus livros,
05:06desde o Mina até esse último livro,
05:09você vai ver uma evolução na minha escrita.
05:12E eu acho isso bastante natural, né?
05:14Porque a gente evolui a partir das publicações.
05:18Então, entrar na academia, para mim,
05:19eu acho que nesse momento é...
05:22Além de ser uma grande alegria,
05:24uma honra suceder a Jane Billet,
05:26que é uma mulher extraordinária,
05:29uma mulher que não tinha papas na língua, né?
05:31Ela se expressava verdadeiramente,
05:35ela era considerada a dama do jornalismo capixaba,
05:38então eu sinto isso uma honra e uma responsabilidade
05:41e quero imprimir a minha marca.
05:43É como eu disse para você,
05:44depois dos 50 anos, a gente quer curtir.
05:47Literatura não me dá dinheiro ainda,
05:49espero que me dê algum dia, não sei.
05:51Difícil.
05:52Mas me dá satisfação.
05:53Mas aí que está, eu li, eu li Mina,
05:56que está aqui, quem está nos vendo
05:58é capaz de ver Mina aqui,
06:00a capa de Mina está aqui na minha mão, né?
06:03É um livro de poemas.
06:05É o Coração da Medusa, que foi lançado em 2021,
06:09é um livro do qual eu gosto bastante,
06:12que é o Colóquio das Árvores,
06:14e um outro que eu li muito rapidamente,
06:17que é o Arcano.
06:18O Arcano.
06:18É, eu percebi, lendo seus livros,
06:22que você se contém no momento de narrar,
06:26ou seja, você tem pouquíssimos poemas narrativos.
06:29Seus poemas são realmente líricos,
06:32são poemas de expressão contundente,
06:34são poemas que falam sobre questões sociais,
06:37falam sobre o que é ser mulher,
06:39falam o que é ser ambientalista,
06:42mas você realmente, você se contém na prosa.
06:46Por que essa implicância com a prosa, Ana?
06:49Não é uma implicância com a prosa.
06:51Eu tenho me experimentado na prosa.
06:53Inclusive...
06:54Você está com o livro pronto, né?
06:56Estou, estou com o livro pronto.
06:57Chama-se A Revolução dos Colibris.
07:00E essa obra, eu pretendo lançá-la no final do ano.
07:05Poesia.
07:06E no final, prosa.
07:08Segue a esteira do Coração da Medusa.
07:10Eu tenho me experimentado na prosa,
07:13mas quando eu vejo, eu estou fazendo poesia.
07:15A minha prosa, se eu posso dizer que tem uma prosa,
07:19ela é muito poética.
07:20Então, é uma coisa que eu não sei explicar,
07:22eu acho que está acontecendo naturalmente.
07:24O meu compromisso com a escrita
07:27é puramente com a escrita.
07:29Então, se vem poesia, vai poesia.
07:31Eu não tenho que cumprir nenhum anseio alheio,
07:36corresponder aos anseios alheios, né, ô Grijó?
07:38Então, eu deixo fluir
07:40e eu acho que eu estou caminhando para a prosa, sim.
07:45E esse livro é uma prova disso.
07:47Mas, para o final, você vê que os poemas,
07:48eles vão se desdobrando em histórias
07:51e essas histórias vão ganhando novos contornos.
07:54Então, eu acho que eu estou no caminho.
07:58O Anaximandro, que também é imortal
08:00e também é um ótimo poeta,
08:01esteve aqui e nós conversamos sobre
08:05uma temática literária,
08:07não só literária, mas cinematográfica,
08:08na pintura, etc.
08:10Mas uma temática, como esse programa
08:11é um programa sobre literatura,
08:13a gente concentra a coisa na palavra escrita.
08:15Falamos muito sobre erotismo.
08:17Eu quero que vocês, que estão nos ouvindo
08:19e nos vendo, ouçam esse poema.
08:22É um poema rápido, chamado Rogo.
08:24Vem, amor, entra aqui de mansinho
08:27e conhece o meu mundo
08:30revelado só para ti.
08:33Desliza por entre os lençóis,
08:35senta à mesa.
08:36São teus os meus espaços,
08:39os meus sonhos e embaraços.
08:42Entra, traz contigo braços fortes,
08:45me abraça e cobre com beijos ardentes.
08:48Traz também o teu sorriso de luz.
08:50Cava o meu chão e planta a tua semente.
08:55Rega com amor essa terra ressequida de solidão.
08:59Faz cair sobre mim maná.
09:02Faz jorrar abundantemente o teu leite e mel.
09:06E me sacia com o teu pão.
09:09É um poema extraordinariamente bem escrito.
09:12Obrigada.
09:13Vamos falar um pouco sobre erotismo,
09:16que está muito ligado à ideia,
09:18à ideia de literatura,
09:21à ideia contemporânea da literatura
09:23e que você explora bastante em vários poemas.
09:29A Renata Bonfim, poeta erótica.
09:33E daí?
09:35Olha, Grijó,
09:37a Renata Bonfim, poeta erótica,
09:40ela tem liberdade para se expressar
09:43do jeito que ela deseja.
09:45A Renata Bonfim, pessoa física,
09:48não tem interesse nenhum sobre ela.
09:50É uma doninha de casa,
09:51que completou 30 anos de casamento.
09:54Mas na minha vida sempre teve muito claro
09:56que essa Renata,
09:59senhora, dona de casa, é uma.
10:01E na literatura eu sou essa
10:04e mais muitas outras.
10:06Eu sou muitas vozes.
10:07Muitas vezes vozes que não são minhas.
10:10Então eu me empresto
10:13de alma, de corpo, de espírito
10:16a essas vozes que vêm até mim.
10:20Não digo isso no sentido,
10:22embora seja espírita,
10:23não digo isso espiritualmente,
10:24digo isso literariamente.
10:26Até porque eu coaduno muito
10:29com a ideia de Bakhtin,
10:31de Maurice Blanchot,
10:33que são os teóricos.
10:34Eu sou uma teórica também,
10:35sou uma estudiosa da literatura.
10:37Você é uma doutora em literatura, né?
10:38É, então tudo isso me vem dessa forma.
10:41Então eu trabalho...
10:42São ecos.
10:44Ecos de Hilda Hust,
10:46ecos de Tereza Maria Horta,
10:49ecos de Esther Abreu,
10:50que eu sou leitora da professora Esther
10:53e de tantos outros escritores e outras escritoras.
10:57E eu sou também uma mulher
10:59que busca me expressar no mundo.
11:01E uma forma dessa expressão,
11:03ela é erótica.
11:04Sempre fui uma mulher sexual.
11:07Eu sempre fui uma mulher que gostei de mim,
11:09do meu corpo.
11:11Com todas as travas que a gente possa vir a ter
11:14nesse mundo patriarcal e miserável para as mulheres.
11:17que a gente é taxada se é de um jeito
11:20e é taxada se é de outro.
11:22Mas a literatura me deu essa liberdade
11:24de falar e de dizer.
11:26E dentro do meu relacionamento,
11:28sempre ficou muito claro
11:29que eu escrevo...
11:31O que eu escrevo está escrito.
11:33Então não há julgamento.
11:34Meu marido nunca chegou para mim e falou assim,
11:36nossa, o que é isso aqui?
11:38Nunca houve esse tipo de cobrança.
11:40Seu marido é ser leitor?
11:41Meu marido é meu leitor.
11:42Meu primeiro leitor.
11:43E meu fã.
11:45Isso.
11:46Fã, eu não vou nem entrar na questão,
11:47mas ser o primeiro leitor é uma vantagem?
11:50Você ter uma pessoa,
11:51você conviver com uma pessoa,
11:53você viver diariamente com essa pessoa
11:56e ela ser o seu primeiro leitor,
11:59isso é bom ou é ruim?
12:00Isso é maravilhoso.
12:01Eu preciso de aprovação.
12:03O mundo me reprova.
12:04E se ele não aprovar?
12:06Estou nem aí.
12:10Para a literatura, não.
12:12Exatamente.
12:13Então, ele ser o seu primeiro leitor
12:15não faz diferença.
12:16Se ele disser não para a sua literatura,
12:18você não está nem aí.
12:19Se ele disser sim,
12:20você fala ótimo.
12:22Isso é poesia.
12:23Ah, tá certo.
12:25Olha só,
12:26eu entrevistei algumas mulheres
12:27interessantíssimas aqui,
12:28a Marcela Guimarães,
12:31a Sueli Bispo,
12:34a Carla Gerson,
12:35vieram aqui,
12:36a Rita,
12:37a Rita Maia veio aqui,
12:38falou sobre literatura.
12:39Ou seja,
12:40algumas delas,
12:42nas entrevistas com algumas delas,
12:45a gente mencionou
12:47o fato de uma literatura feminista,
12:50uma literatura de defesa das mulheres.
12:52Você tem isso?
12:53Tenho.
12:54Tenho,
12:54porque eu acredito que,
12:57vamos do começo,
12:58ocupar um lugar na Academia Espírito Santense de Letras,
13:03é difícil para a maioria das mulheres.
13:05Isso historicamente.
13:06Professor Francisco Aurélio Ribeiro,
13:08na minha apresentação que ele fez,
13:10na entrada da academia,
13:12ele fez um histórico,
13:13ele deu uma aula
13:13sobre a misoginia que cerca o campo literário,
13:18em especial as academias.
13:19A arte em si.
13:20A arte em si.
13:21E literatura mais ainda.
13:22Eu quero esse lugar de fala.
13:24Essa foi uma das principais motivações que eu tive para entrar.
13:30Eu quero esse lugar de fala e de escuta.
13:32Porque eu já sou da Academia Feminina Espírito Santense de Letras.
13:35Eu presidi essa academia.
13:37E você pode perceber que,
13:39como nasce a Academia Feminina Espírito Santense de Letras?
13:41da impossibilidade da professora Judite Leão Castelo Ribeiro
13:47entrar na Academia Feminina Espírito Santense de Letras.
13:49Sim, perfeito. Exatamente.
13:50Então a academia fez o quê?
13:51Falou, não, gente, vai ajudar você a criar uma academia.
13:54Então era um lugar onde ia desovar esse monte de intelectuais,
13:58porque nós temos muitas mulheres escritoras excelentes.
14:02Você é prova disso?
14:03Estar aqui entrevistando essas mulheres?
14:05Sem dúvida.
14:05Que estariam muito bem, seriam, assim, ótimas aquisições para qualquer academia.
14:12Então, assim, escrever para mim, ocupar esse lugar,
14:17ser essa Renata que escreve e usar isso, né,
14:19como a pergunta que você me fez, como campo de enunciação
14:23para defender as minhas pautas faço e uso.
14:26Maravilha.
14:27Você falou uma coisa que me chamou muita atenção.
14:30Eu sou professor de literatura e eu falo para os meus alunos
14:33que a obra literária e a vida pessoal do autor, elas são dissociadas.
14:40Sim.
14:40Muitos dos meus alunos falam assim,
14:42Grigio, o que que tal poeta quis dizer?
14:45Bem, o que ele quis dizer, nós temos de perguntar a ele.
14:48Isso.
14:49O que que você pode compreender do texto?
14:52O que que o texto autoriza você a interpretar?
14:57Você disse há alguns minutos que você é várias pessoas.
15:04Então, eu não poderia nunca ver Renata Bonfim,
15:09a Renata Bonfim definitiva nos seus livros.
15:13De jeito nenhum.
15:14Não existe isso.
15:15Não, não.
15:16Até porque eu estou em processo.
15:17Eu não me vejo definitivamente acabada, nunca.
15:22Eu não cheguei lá.
15:23Ah, você chegou lá, não.
15:24Não cheguei lá, não.
15:25Eu estou longe de chegar lá.
15:26Eu quero me ver sempre em mutação.
15:30Eu sou uma pessoa que eu continuo estudando.
15:33Voltei agora para o pós-doutorado.
15:34Eu falei, está no momento.
15:35Terminei meu doutorado já tem um tempinho.
15:37Vou estudar a prosa.
15:39De quem?
15:40Vou estudar a prosa.
15:41De quem?
15:41Porque você é uma leitora e você é uma estudiosa de Rubem Darío.
15:47Florbella Spank e Rubem Darío.
15:48E Florbella Spank.
15:49Que é uma voz feminina poderosa.
15:52Poderosíssima.
15:52E que interessante.
15:54Suicidou-se.
15:55Suicidou-se.
15:56A ideia da Flor...
15:58Como é que a Florbella Spank, que ficou conhecida no Brasil através de Fagner?
16:03De Fagner.
16:03Lembra-se?
16:04Lembro.
16:04Nos anos 80 ele musicou o soneto dela.
16:07Esqueci o título.
16:09Fanatismo.
16:10Fanatismo, isso.
16:11Fanatismo.
16:13A Florbella Spank tem essa pegada feminina.
16:18Sim.
16:18É a sua influência maior?
16:21É.
16:21É a minha influência maior.
16:24É engraçado que eu tive uma professora na Universidade de Évora, Ana Luísa Vilela.
16:29Ela diz o seguinte, que os nossos poetas são os nossos santos.
16:33E antes de eu ir fazer a minha primeira inserção na Universidade de Évora, na época que eu estava fazendo
16:38meu doutorado,
16:39eu passei...
16:40Ali a cidade de Évora é cercada.
16:42É cercada.
16:42É cidade murada.
16:43É murada.
16:44É uma cidade medieval.
16:45Então eu passei dentro do Jardim Público de Évora, onde tinha o busto de Florbella.
16:50Sim.
16:51Esse busto levou 19 anos para ser colocado em praça pública.
16:55Porque Florbella era considerada uma mulher pública.
16:58Não era uma mulher, um exemplo.
16:59Inclusive, isso foi uma nota do governo português.
17:02Não aprovamos a colocação desse busto em praça pública, porque essa tal Florbella é diametralmente oposta aos valores da nação.
17:11Né?
17:12Então eu cheguei ali e falei, Florbelinha, minha querida, você já é tão explorada nos estudos.
17:18Me dá uma pontinha.
17:20Me ajuda que eu encontre alguma coisinha inédita.
17:22Santa, minha mãe, você tá rezando.
17:24Santa, rezei pra Florbella e Spanca.
17:25Chego eu na Universidade de Évora, eu descubro que o afilhado de Florbella e Spanca tinha falecido.
17:31Ele era uma pessoa proeminente da cultura portuguesa.
17:35Tinha deixado todo o espólio em doação pra Universidade de Évora.
17:39Eles tinham limpado, né?
17:42Feito a asepsia desse espólio, livros, cartas.
17:45Separado esse espólio e estava no momento de fazer a análise.
17:50Eu recebi, nesse momento e nesse dia, 40 cartas inéditas, trocadas entre esse afilhado de Florbella e o tradutor póstumo
18:04de Florbella, que era um dos objetos do meu estudo em questão.
18:07Sensacional.
18:08Então, o milagre florbeliano, querido.
18:11Muito bom, muito bom.
18:12E como é que a literatura hispano-americana entra nisso?
18:16Dario, né? Dario é um...
18:19Dario é uma potência.
18:20É uma potência.
18:21É uma potência. E na Nicarágua ele é um deus.
18:24Bem, a literatura ela entra através de Florbella.
18:27Florbella e Spanca utilizam um poema chamado Amo Amas.
18:30Inclusive eu abri o meu discurso agora na minha posse com esse poema, porque pra mim é um mantra.
18:38E o poema Amo Amas, ele é epígrafe do terceiro livro de Florbella, que é o livro póstumo, Charneca em
18:44Flor.
18:45Quando eu olho, né, já pesquisando há bastante tempo a poesia de Florbella, eu falo assim,
18:50olha a poesia de um poeta hispano-americano dentro de um livro, de uma poetisa lá do interior, né, de
18:57Évora.
18:58Como que ela teve contato com esse cara?
18:59Então eu comecei a me questionar.
19:02E eu percebi, quando eu fui pesquisar, que ninguém tinha explorado isso dentro dos estudos florbelianos.
19:08E eu percebi que era esse escritor póstumo que apresentou Rubem Dario à Florbella.
19:14Então eu falei assim, eu vou fazer uma pesquisa.
19:17Meu objeto não estava dado, era um objeto difuso.
19:21Então eu posso dizer que eu inventei uma tese, né?
19:24E essa tese inventada me levou para a Nicarágua, eu conheci Rubem Dario, eu fiz amizade com os nicaragüenses,
19:30aí eu fui convidada para o Festival Internacional de Poesia da Nicarágua, que era na época o maior da América
19:38Latina.
19:39E fui convidada oito vezes para representar o Brasil nesse festival.
19:42Havia um padre, Ernesto Cardenale.
19:45Sim, Ernesto, conheci pessoalmente.
19:47Um grande poeta.
19:48Um grande poeta nicaragüense, que faleceu agora, acho que há dois anos, há pouco tempo.
19:54Conheci ele pessoalmente, chegamos a tomar um café em Granada.
19:57Maravilha.
19:58Maravilha.
19:58Tudo isso pelas mãos de Florbella e depois pelas mãos de Rubem Dario, os meus santos.
20:04Maravilha.
20:05Olha só, vamos falar em santo, né?
20:07Nós vamos falar rapidamente, pelo menos, sobre a sua atividade ambiental.
20:12Você tem um instituto, certo?
20:14E eu quero saber de você o seguinte, no Colóquio das Árvores você fala muito disso.
20:21Mas como é que a ideia do ambiente da preservação, ganhei inclusive, para quem está nos vendo, ganhei da Renata
20:28uma muda de pau-brasil que está aqui.
20:31Quem está nos ouvindo, fique sabendo que eu tenho agora uma muda de pau-brasil.
20:35Bem, Renata, como é que entra a ideia do ambiente, da preservação, do vegetal, do animal, do que nos cerca
20:46na sua literatura?
20:48Olha, Grijó, tudo, eu acredito que tudo na minha vida converge para a poesia.
20:55Tudo, todas as experiências e essa história com os animais, com o meio ambiente, é uma coisa que eu acho
21:01que eu trago de outras vidas.
21:02Porque eu já nasci, segundo minha mãe, a primeira engatinhada que eu dei foi para a casa da cadela.
21:08Me procuraram e eu estava lá junto com a cachorrinha, eu amo animal.
21:12E juntei com o Luiz, outro maluco igual a mim, a gente começou a resgatar cachorro, resgatar gato.
21:18Eu já tive 50 gatos.
21:20Hoje eu só tenho 5, só, quase nada.
21:2310%.
21:2410%.
21:24Então, assim, essa é a minha vida, né?
21:28E a Renata está dentro dos livros.
21:31Chegou um momento em que eu e Luiz, a gente pensou que a gente poderia fazer mais.
21:35E a gente tinha um dinheirinho guardado, a gente ia trocar de apartamento e a gente viu que não era
21:41aquilo que a gente queria.
21:42Então, nós compramos uma área para fazer uma reserva ambiental, para preservar.
21:46Na época, a gente nem sabia que existia esse modelo de unidade de conservação, que é a Reserva Particular do
21:52Patrimônio Natural, que é a RBPN.
21:54Isso foi em 2007.
21:56Compramos essa área com remanescentes de Mata Atlântica e começamos a trabalhar essa área com reflorestamento, com plantio de mudas
22:04frutíferas para os animais.
22:07O Rio Jucu, o braço sul do Rio Jucu passa dentro.
22:10Então, tudo isso, né?
22:11E aí é muito interessante porque eu não sabia que quando a gente planta, a gente tem que esperar nascer,
22:17crescer, frutificar.
22:19A natureza, ela te ensina coisas que a gente, na cidade, a gente não tem essa vivência.
22:24A vivência do tempo, a vivência do silêncio, a vivência da própria morte.
22:30Você coloca isso na sua literatura?
22:32Eu coloco isso na minha literatura.
22:33Então, eu acredito também, isso é uma causa.
22:36E eu comprei esse espaço também, nós adquirimos esse espaço, que eu também sou artista plástica de formação, né?
22:41Sou bacharel em artes plásticas.
22:43Eu queria um espaço também para eu poder fazer meus mosaicos, poder fazer a minha arte.
22:47Só que quando a gente chegou lá, esse espaço endêmico, eu pensei em mim pelada com Luiz, né?
22:51No meio do mato, aquela coisa no meio Adão e Eva.
22:54Vamos curtir.
22:55Não, não deu.
22:56Por quê?
22:57Na mata tem o caçador, tem o traficante de pássaro, tem o traficante de plantas.
23:02Então, ou a gente se inseria na militância, ou a gente virava refém de todo esse sistema.
23:09Então, eu acho que tudo isso foi se agrupando, se reunindo.
23:13E deu forma, né?
23:14Hoje eu utilizo a minha literatura também como um espaço de fala e de escuta e de enunciação.
23:21Dê esses temas, porque eu julgo eles muito necessários.
23:25Perfeito, perfeito.
23:26Renata, para finalizar, uma pessoa que esteja nos ouvindo e quer adquirir seus livros, principalmente o Coração da Medusa, que
23:34é o último.
23:35Eu queria pedir a você que mostrasse, para quem está nos vendo, claro, mostrasse o título aí, a capa do
23:41livro Coração da Medusa.
23:42Quem quiser adquirir esse livro ou qualquer outro, como esse aqui, que é meu preferido, que eu vou mostrar de
23:48novo, Mina, como é que faz?
23:51Olha, quem quiser adquirir meu livro, pode entrar no meu blog pessoal, que se chama Letra e Fel.
23:58Então, é www.letraefel.blogspot.com.
24:03Esse site tem 17 anos divulgando a literatura minha e a literatura de capixabas e pessoas de outros países.
24:11Lá vocês podem também baixá-lo em PDF, menos esse aqui, que eu convido todos que estão assistindo a adquirirem,
24:19porque toda a verba desse livro vai ser revertida para o Instituto Ambiental Reluz.
24:24Esse livro custa R$50,00 hoje e os outros vocês podem baixar em PDF, mas também eu aconselho que
24:31os compre,
24:32porque são livros muito bonitos, inclusive esse aqui foi feito pela literatura.
24:36Na época, a revisão dele, que foi feita por Miguel Marvila.
24:40Floricultura, né?
24:41Floricultura.
24:42No meio do livro, da revisão do livro, a gente teve a triste perda do Miguel, o Miguel faleceu.
24:48E quem terminou a revisão foi o professor José Augusto Carvalho, um amigo muito querido.
24:54Grande figura.
24:54Que eu considero uma das grandes mentes do Espírito Santo.
24:58E está um livro que é um livro, assim, muito especial.
25:01Então, eu acho que vale a pena adquiri-los.
25:04Mas esse aqui, quem estiver adquirindo essa obra, vai estar ajudando o Instituto.
25:09Gente, ótimo papo com Renata, ótimo.
25:12Muito obrigado, Renata.
25:14Semana que vem, a gente vai conversar com outra mulher.
25:18Aline Dias, poeta, prosadora e agora lançando um livro infantil.
25:24A gente conversa com ela em breve.
25:27Renata, muito obrigado, querida.
25:28Eu que agradeço.
25:29Foi um prazer.
25:31Você ouveu Vitrine Literária, com o professor e escritor Francisco Grijó.
25:38Tudo sobre literatura contemporânea.
25:40Temas, autores, obras, debates, análises, curiosidades e bate-papo com autores e editores.