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A chef Roberta Sudbrack participou do podcast Degusta e revelou viver uma das fases mais felizes da carreira. À frente dos restaurantes Sud, o pássaro verde e Da Roberta, no Rio de Janeiro, ela afirmou que hoje cozinha com mais liberdade, autenticidade e conexão com aquilo em que acredita.

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#RobertaSudbrack #Degusta #Gastronomia #CulinariaBrasileira #MinasGerais

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Transcrição
00:00:09Olá, eu sou Celina Aquino e esse é o Degusta, o podcast de gastronomia do estado de Minas.
00:00:14A gente montou com muito carinho essa mesa e agora só está faltando você para a gente começar mais um
00:00:21episódio.
00:00:21Então senta aqui com a gente que a gente já vai começar.
00:00:24E no cardápio de hoje nós temos um tempero genuinamente brasileiro.
00:00:29Uma chefe que nasceu em Porto Alegre, tem raízes mineiras, é importante dizer, ela cresceu em Brasília, fez sua carreira
00:00:39no Rio de Janeiro e escolheu levar para a mesa sabores brasileiros.
00:00:45São temperos, são ingredientes que dizem muito sobre as riquezas do Brasil.
00:00:51Ela foi do cachorro quente de rua ao restaurante com a estrela Michelin, nesse meio tempo passando pela cozinha do
00:01:00Palácio do Planalto.
00:01:02Hoje, se você quiser comer a comida dela, não precisa seguir nenhum protocolo não.
00:01:07É só batê-la na porta do restaurante que não tem placa, mas fica fácil de reconhecer.
00:01:14Você vai sentir um cheiro de comida sendo feita no fogão a lenha, o som de conversas bem animadas e
00:01:22uma cara de casa de vó.
00:01:24Eu estou muito honrada, gente, de dizer que a nossa convidada hoje é a chefe Roberta Sudbrake, que tem duas
00:01:31casas no Rio, o Sud e o Garagem da Roberta.
00:01:35Exatamente.
00:01:35Roberta, seja muito bem-vinda à nossa mesa. A gente está muito feliz de ter você aqui.
00:01:40Muito obrigada. Estou emocionada com a descrição dessa trajetória de tanta coisa feita, mas sempre com muito amor e sempre
00:01:50muito próxima da brasilidade.
00:01:53Fiquei muito honrada de ser apresentada assim. Muito obrigada por estar aqui com você, nessa mesa linda.
00:02:00Aliás, em Minas Gerais a gente...
00:02:02Pois é. Isso que eu ia te falar, Roberta, não tem jeito. Aqui em Minas a gente gosta...
00:02:07E a gente também não quer fugir. A gente disse que vocês são exagerados, vocês se consideram exagerados, mas a
00:02:12gente não quer que vocês mudem.
00:02:14Ai, que bom.
00:02:14Continuem assim que a gente está muito feliz.
00:02:16Porque a gente recebe visita, é comeza farta mesmo.
00:02:20Vocês abraçam através da comida, não tem nada mais lindo.
00:02:24E essa minha ligação com Minas tem muito a ver com isso, a gente vai falar sobre isso, mas meu
00:02:29avô e minha avó que me criaram eram mineiros,
00:02:31então eu aprendi a viver literalmente assim.
00:02:35Eu acho que o abraço através da comida é a coisa mais gostosa que tem.
00:02:40Então você está se sentindo em casa, né, Roberta?
00:02:42Estou em casa.
00:02:43Ai, que bom.
00:02:44Já estou até com sotaquezinho, está dando para ver, né?
00:02:46Já estou percebendo.
00:02:48Que não está tão carioca, não.
00:02:50Não está tão carioca, nem gaúcho.
00:02:53E aí, então, meu convite é, a mesa está posta, durante o papo a gente vai comendo,
00:03:00vamos falando dos produtos que temos aqui na mesa, e aí a gente vai desenrolando essa história toda.
00:03:05Vamos lá.
00:03:06Tá bom?
00:03:06Vamos lá.
00:03:07E aí, eu quero começar entendendo com você o seguinte, você não tem uma história assim exatamente romântica com a
00:03:15gastronomia, não, né?
00:03:16Seu envolvimento com a cozinha veio de momentos de necessidade mesmo, né?
00:03:22Tem a história da morte do seu avô, e tem também o momento que você está lá nos Estados Unidos,
00:03:27que você foi estudar veterinária e se viu lá sozinha precisando se virar.
00:03:31Isso.
00:03:31De que forma que esse início nada romântico acabou moldando o seu caminho pela gastronomia?
00:03:40É, foi bom você falar nesse sentido, porque eu sempre comento, se você for fazer uma síntese, você acha que
00:03:48é um conto de fadas, né?
00:03:50Ah, começou vendendo cachorro-quente, chegou a chefe de cozinha do presidente da república,
00:03:56teve restaurante com estrela Michelin, depois resolveu jogar tudo para o alto e fazer um restaurante com forno a lenha,
00:04:03enfim, parece que é tudo muito fácil, mas não foi, nem no início, nem no meio, nem no durante.
00:04:09Realmente, as circunstâncias do início foram sempre muito marcadas pelos sabores, pelos cheiros, pelo gestual da comida da minha avó,
00:04:22mas realmente quando a gente perdeu o meu avô, nenhuma das duas estava preparada para aquilo, para enfrentar a vida
00:04:29sozinha.
00:04:30Então, o cachorro-quente surge dessa necessidade de fazer alguma coisa para literalmente pagar as contas de casa.
00:04:39E, nisso, ela foi uma guerreira muito mais do que eu, porque eu, muito jovem ali, estava 17 para 18
00:04:46anos, com todo o gás,
00:04:48não imaginando que aquele seria o caminho, mas se é esse o caminho, vamos lá, vamos enfrentar.
00:04:55E ela arregaçou as mangas e, vamos lá, o que é que a gente vai fazer?
00:05:00Falei, bom, sei lá, seu molho de cachorro-quente é incrível, vamos vender cachorro-quente.
00:05:05E assim a gente foi, também vendemos quentinha, fizemos de tudo para nos virar.
00:05:11E aí começa esse envolvimento com a cozinha, que eu não tinha clareza de que ia me levar literalmente para
00:05:19a cozinha.
00:05:19Então, num certo momento, eu junto, deixo ela bem, junto um certo dinheiro, surge uma oportunidade, vou para os Estados
00:05:28Unidos, vou estudar veterinária.
00:05:30Amo bicho, amo cachorro, amo tudo que é da natureza, enfim, ou que tem essa relação com a gente ou
00:05:46que não tem, amo.
00:05:47Tem uma ligação com um lugar no Rio que se chama Vida Livre, que cuida de animais silvestres,
00:05:52que tem uma interação com a cidade grande e aí precisam de ajuda.
00:05:58Então, tudo que é da natureza, do ingrediente ao animal, eu amo.
00:06:03E eu falei, bom, é o caminho, você é veterinária.
00:06:08Mas, quando começo a faculdade, eu vejo que nem como veterinária, nem uma cozinheira média eu seria, para ter uma
00:06:19ideia.
00:06:20Mas aí eu começo a cozinhar, para mim, pela primeira vez, porque em casa a avó sempre cozinhou.
00:06:27E é aquele negócio, eu acho que é muito de mineiro isso, na panela dos outros a gente não mete
00:06:32a nossa colher.
00:06:33E a avó também não gostava que a gente metesse a colher na panela dela.
00:06:37Não gostava de estar fritando um negócio e a gente ia lá e pegava.
00:06:41Tanto que, como eu sou autodidata, eu tive que aprender tudo literalmente sozinha.
00:06:46E tinha uma coisa que ela falava para mim que ela me enganou a vida inteira.
00:06:50Ela estava fritando, sei lá, um pastel, eu passava, pegava um, eu vou, passava, pegava outro, eu passava, pegava outro.
00:06:56Eu não vou mais fritar pastel aqui em casa assim, porque desse jeito não dá certo.
00:07:01E aí eu depois fiquei anos pensando, por que será que não dá certo?
00:07:06Será que tem alguma coisa com a temperatura do óleo?
00:07:09Será que...
00:07:10Porque ela estava querendo dizer que não dá certo é porque eu vou ter um trabalho danado,
00:07:15vocês vão comer o pastel o tempo inteiro e quando chegar a mesa vocês não vão querer e eu não
00:07:20vou ter nada para servir.
00:07:21E eu pensava que não, que era algo técnico que tinha me escapado.
00:07:25Então ela não te ensinava nada assim, diretamente, não.
00:07:29Então ela, você sabe que ela deu uma declaração para o Inácio de Loyola Brandão, que escreveu, ele ia escrever
00:07:37só a introdução do meu livro.
00:07:40Por isso que eu avisei para você que a gente ia precisar de boas horas aqui, porque a história é
00:07:45longa.
00:07:45E ele começou a escrever, ele falou, Roberta, não conseguiu, ele escreveu outro livro, ele não conseguiu escrever uma introdução.
00:07:52Então é um livro dentro do livro.
00:07:54Meu último livro, que é Eu Sou do Camarão e Sopadinho com Chuchu, tem dentro um outro livro do Inácio
00:08:00de Loyola Brandão.
00:08:01E eu contei para ele o que a minha avó disse quando começou a ver que eu estava, enfim, começando
00:08:07a aparecer em revistas,
00:08:09meu trabalho sendo reconhecido.
00:08:12Ela virou e falou assim, eu não entendo como é que essa menina chegou nisso, ela não sabia fritar nenhum
00:08:17ovo.
00:08:18E aí o Inácio pega isso e coloca na abertura do livro.
00:08:21Eu falei, você queria acabar comigo, né?
00:08:24Mas era verdade.
00:08:25Eu não sabia.
00:08:27Talvez porque não me interessasse em partir para fazer, sempre me interessei muito em olhar.
00:08:33Eu sempre gostei mais de livro de receita do que de gibi.
00:08:38Ah, legal!
00:08:39Sempre, sempre gostei mais de ler livro de receita do que ler gibi.
00:08:45Então, mas assim, pegar para fazer, não sei se é porque ela fazia tão bem e aquele era o ambiente
00:08:53dela que eu não me metia
00:08:55ou porque ainda não tinha, a paixão não tinha aflorado.
00:08:59Então, voltando para os Estados Unidos, eu começo a ter que cozinhar para mim.
00:09:03Então, eu me lembro claramente um dia que eu peguei uma berinjela e uma abobrinha na mão,
00:09:08coisas que naquela época nem eram ingredientes assim que eu amava, mas o pior de tudo,
00:09:14e aí vem a minha... eu tenho essa coisa de querer, se eu decidir fazer, eu vou fazer.
00:09:20Uma obstinação que me leva à loucura até hoje.
00:09:24E aí eu falei, eu não sei o que fazer com essas duas pessoas aqui na minha mão.
00:09:28E aí eu falava com ela, na época a gente não tinha WhatsApp, essas coisas,
00:09:34ela quando conseguia fazer uma chamada e tal,
00:09:37vó, o que eu faço, como é que eu faço um arroz, como é que eu faço aquele franguinho na
00:09:42cerveja,
00:09:43essas coisas do dia a dia simples que ela sempre fez e que sempre foram memoráveis.
00:09:49E comecei a fazer para mim, e aí também se tornou uma fonte de renda,
00:09:54porque o pessoal que eu conhecia da embaixada começou a gostar daquele temperinho,
00:10:00daquelas coisas muito, muito simples, mas muito, muito brasileiras e marcadamente mineiras,
00:10:07porque ela tinha uma forte relação com Minas.
00:10:11E aí, enfim, comecei a tocar nesse sentimento do momento em que eu não sei o que fazer com uma
00:10:21abobrinha e uma berinjela
00:10:22a um momento em que eu não paro de fazer tudo com uma abobrinha e uma berinjela.
00:10:27Virou uma obsessão mesmo.
00:10:29Virou uma obsessão, virou realmente uma obsessão.
00:10:32E uma grande paixão.
00:10:34É um trabalho muito duro, é um trabalho difícil.
00:10:37Eu tenho mais de 30 anos de carreira, então, eu brinco uma vez num programa bastante conhecido,
00:10:45me perguntaram, a primeira pergunta era televisão e ao vivo.
00:10:48Qual é o conselho que você dá para quem gosta de cozinhar, para quem está fazendo um curso e tal?
00:10:56Eu falei, não, abra um restaurante.
00:10:59Assim, na lata.
00:11:00Na lata. E é verdade.
00:11:03Trabalhe no restaurante de alguém, porque toda aquela loucura não vai ser um problema seu.
00:11:08Se for um problema seu, é além do cansaço.
00:11:11A minha subchefe fala o tempo inteiro, Ana Flávia.
00:11:15Chefe, eu falo, você está cansada, vai descansar?
00:11:18Ela fala, não estou cansada fisicamente, estou cansada mentalmente.
00:11:23É um cansaço mental junto com um cansaço físico,
00:11:26junto com preocupações de todas as ordens.
00:11:31Não é só cozinhar, não é só fazer essas coisas.
00:11:33Nem que a gente não começou a comer ainda.
00:11:35Vamos começar a comer?
00:11:36Vou começar pelo melhor biscoito de queijo que existe no Brasil.
00:11:42Sim.
00:11:43Que é aqui de Belo Horizonte.
00:11:45Só tem num lugar, que é a Noelisa Café.
00:11:48Sim.
00:11:48Que eu sou fã absoluta.
00:11:50Que, inclusive, ela trabalhou com você, né?
00:11:52Ela trabalhou comigo.
00:11:53Inclusive, quando eu vou fazer qualquer coisa em Belo Horizonte,
00:11:56eu só faço se ela disser que é para fazer.
00:11:59Então, antes de me perguntar, eu digo, pergunte para a Noelisa.
00:12:02E aí ela me diz se é para fazer ou não.
00:12:05E sempre está junto comigo, é uma parcerona.
00:12:07Esse biscoito de queijo, para mim, não tem nada igual.
00:12:10Que é uma receita da mãe dela, né?
00:12:12Que vem do interior.
00:12:14Que vem do interior, que faz com o queijo mais...
00:12:17Sim, maravilhoso.
00:12:18Eu também vou aqui, ó, pegar um.
00:12:21Olha como é que está bonito, gente.
00:12:23E, Ana, muito obrigada, viu, por ter mandado.
00:12:26Nossa, que delícia.
00:12:28E eu acho tão legal o biscoito ter esse amarelinho, né?
00:12:32Que você vê que é um ovo caipira, que é uma coisa da roça.
00:12:37Isso é delicioso, né?
00:12:38Isso é muito importante.
00:12:40E eu acho que em outros estados, vocês vão ter que aguentar a gente falando de boca cheia, gente.
00:12:45Tem jeito.
00:12:46Muita coisa que a gente tem aqui, ou a gente vai comer as duas horas que a gente tirou para
00:12:52falar aqui, ou a gente vai falar de boca cheia.
00:12:55Mas eu acho interessante que hoje, no café da manhã, eu só gosto de ovo caipira.
00:13:01Depois que eu comecei a trabalhar com ovo caipira, a cozinha, para mim, se dividiu em dois mundos.
00:13:07Foi muito pouco tempo que eu não trabalhei com ovo caipira, mas a partir do momento que eu comecei a
00:13:12trabalhar, e era muito difícil naquela época você conseguir, a cozinha mudou para mim.
00:13:18Então, quando eu vou pedir um ovo, um ovo mexido, alguma coisa, eu sempre tenho uma preocupação de perguntar se
00:13:24é ovo caipira.
00:13:25Hoje, no café da manhã, eu estava em Minas, eu não tive essa preocupação, eu sabia que era.
00:13:29Que seria.
00:13:30Que é isso que você está falando, né? Esse amarelinho diz tudo.
00:13:33Lindo. Inclusive, Ana, também, obrigada pelo café. Ela mandou esse cafezinho maravilhoso.
00:13:40Para mim, uma das maiores especialistas do Brasil, desde a Torra até, enfim, eu não sou uma especialista, ela briga
00:13:48comigo porque eu tomo café com açúcar.
00:13:50É mesmo? Então, você não conseguiu se libertar, não?
00:13:53Não, eu acho que eu não quero.
00:13:54Minha avó, todo dia, às cinco horas, onde quer que eu esteja, às cinco horas, eu tenho que parar para
00:14:00tomar um cafezinho e comer uma coisinha.
00:14:03Pode ser até um biscoito cream cracker com uma manteiguinha, mas aquilo é para lembrar da minha avó, é o
00:14:09meu ritual.
00:14:10Todo dia, a gente sentava para tomar o cafezinho, comer um bolinho, comer um, quando não tinha nada, um cream
00:14:16crackerzinho, um queijinho.
00:14:18E o café da minha avó era bem docinho. Então, o meu não é tão docinho, mas tem que ter
00:14:23o docinho.
00:14:24Porque é uma forma de ser...
00:14:26É uma forma de me conectar com ela, de lembrar, já é uma necessidade do corpo.
00:14:31Entendi. E vamos aproveitar, eu quero te apresentar o pão de queijo, que ele saiu do forno há pouco tempo,
00:14:37então a gente pode comer de uma vez.
00:14:39Que é do Minas de Mais, é um restaurante em pório aqui de BH, agradecer ao Leandro que mandou para
00:14:44a gente.
00:14:45E tem muita gente que fala que é um dos melhores aqui da cidade, tá? Já estou te dando essa
00:14:50dica aí.
00:14:50A cara está...
00:14:51Então, sirva-se aí.
00:14:52Aliás, tudo, a cara aqui está linda, está quentinho.
00:14:55Não é? Está quentinho.
00:14:56Ele mandou já assadinho, obrigada, Leandro.
00:15:00Quem agradece sou eu.
00:15:02E, Roberta, quero falar então do episódio da sua vida no Palácio do Planalto.
00:15:08Quando chegou esse convite para você, você tinha ideia de onde você estava se metendo? O que era isso?
00:15:18Eu tinha. Eu tinha aquela impetuosidade da juventude e eu me lembro que minha avó foi contra.
00:15:26Eu fazia já alguns jantares no Palácio, alguns chefes faziam lá também.
00:15:32O presidente Fernando Henrique e Dona Rússia gostavam muito de receber.
00:15:36O receber em casa para eles era isso.
00:15:41Jantar protocolar no Itamaraty, jantar em casa à noite no Palácio da Alvorada, que é a casa.
00:15:50Então, eles gostavam muito de fazer isso e eu fazia alguns.
00:15:54E um dia, eu me lembro, foi bem assim, eu conversando com a dona Ruth,
00:15:58o presidente Fernando Henrique passou e falou, Roberta, muito obrigada, sempre muito educado, tanto ele quanto ela.
00:16:06Está tudo ótimo nos banquetes, mas o dia a dia está muito difícil.
00:16:11Você não quer vir para cá e resolver as duas coisas?
00:16:14Aí a dona Ruth me olhou e falou, ué, você não quer fazer isso?
00:16:18Eu falei, vamos.
00:16:19E eu lembro que minha avó falou assim, não, não faça isso, minha filha, você está fazendo a parte boa.
00:16:26Agora você vai para lá para pegar o caroço todo, que é o que eu falei do negócio de ter
00:16:30restaurante.
00:16:31Sim.
00:16:32E eu falei, não, avó, mas é uma oportunidade muito...
00:16:36Eu fui, inclusive, contra a vontade dela, mas eu sabia exatamente onde eu estava me metendo
00:16:41e o quão difícil aquilo seria.
00:16:44A hipertruosidade da idade ajudou, porque foram muitos pontos que a gente teve que fazer,
00:16:53desde reestruturar a cozinha para ter, pela primeira vez na história daquele palácio,
00:17:00a figura de um chefe de cozinha que não só cozinhasse.
00:17:04Passaram cozinheiros por lá, que você podia até chamar de chefe de cozinha,
00:17:08mas o chefe de cozinha tem que organizar tudo.
00:17:11E você foi a primeira mulher, né?
00:17:13A primeira mulher e, na verdade, a primeira chefe,
00:17:17porque a organização do palácio como uma cozinha profissional nunca existiu antes de mim.
00:17:23Então, de tudo, desde controle de qualidade, controle de estoque, redução, inclusive, de custos,
00:17:31toda essa parte a gente fez durante os sete anos que eu passei lá.
00:17:35Foi uma experiência dificílima, mas maravilhosa.
00:17:38E o que você viveu lá que você traz para a sua carreira, para a sua história, assim, até hoje,
00:17:44que está na sua cozinha, que faz parte da sua cozinha?
00:17:47Olha, tem uma coisa que eu aprendi muito com os militares,
00:17:51que é uma hierarquia muito respeitosa.
00:17:54Não é uma hierarquia de excesso.
00:17:57É uma hierarquia...
00:17:59Bom, eu não servi no quartel, então não estou falando sobre isso,
00:18:03mas estou dizendo que os militares com quem eu me relacionei eram todos homens.
00:18:09Eu, além de ser mulher, era muito mais jovem do que eles,
00:18:13e eu era acima deles hierarquicamente.
00:18:16Então, a hierarquia na cozinha é necessária,
00:18:19mas você pode fazer isso com exigência, sim, mas com educação.
00:18:24Então, eu tive uma relação com eles maravilhosa de chegar no final e a gente saber...
00:18:31Eu sempre determinei o meu tempo no Palácio, no período do presidente Fernando Henrique Cardoso.
00:18:36Combinei com ele, no primeiro dia eu fiz picadinho do presidente,
00:18:39que era o prato preferido dele, e no último dia eu fiz picadinho do presidente.
00:18:42Então, era tudo já decidido.
00:18:45Não foi algo assim, vai sair, não vai sair, não.
00:18:48Já sabia que eu ia sair, sabia que eu queria abrir um restaurante no Rio,
00:18:52mas a despedida da equipe é sempre algo muito tocante.
00:18:57Então, a gente, na nossa despedida, teve ali a dor daquela separação,
00:19:01porque a gente teve uma convivência maravilhosa.
00:19:05Eram pessoas que aprenderam do zero, do zero a fazer as coisas.
00:19:09Eu me lembro que, no dia que eu cheguei,
00:19:13enfim, eu já fazia jantares lá com eles e tal,
00:19:16mas, no dia que eu fui apresentada como a chefe da cozinha,
00:19:21eu passo a ser a pessoa hierarquicamente acima deles e a chefia deles.
00:19:28E, no dia que eu cheguei, com 20 e poucos anos, eles estavam todos fardados.
00:19:32Gente!
00:19:33Então, você imagina.
00:19:35Se a perna já estava tremendo, perdeu, tremeu mais ainda.
00:19:39E eu queria fazer uma coisa para mostrar para eles
00:19:42que a gente ia começar, naquele momento, a fazer uma cozinha muito mais natural
00:19:46e uma cozinha muito mais trabalhosa também,
00:19:50mas que aquilo ia ter um resultado muito melhor,
00:19:54que eu achava que eles iam ficar felizes de estar participando daquilo,
00:20:00ficar orgulhosos.
00:20:01E, enfim, comecei, fiz uma brincadeira lá,
00:20:04peguei uma caixa, colocamos aquilo tudo, ia para doação depois,
00:20:08mas eu brincava.
00:20:09Está vendo isso aqui?
00:20:11Lixo, enlatado, coisa...
00:20:13E, principalmente, é uma mania que, hoje em dia, na cozinha, é um pouco menos,
00:20:19mas existia muito, que era engrossar molho com farinha de trigo ou maisena.
00:20:24Está vendo isso aqui?
00:20:26Não vamos mais usar.
00:20:27Bom, passaram-se anos.
00:20:29Um cozinheiro meu que se chamava Daniel, pai de família,
00:20:33enfim, um sargento respeitado,
00:20:36a gente estava servindo o rei da Espanha.
00:20:38E a cozinha, enfim, a cozinha, normalmente, em palácio, a cozinha está sempre no porão.
00:20:42Estávamos nós lá no porão, fazendo, eu andando do lado para o outro,
00:20:46vendo o que estava certo.
00:20:47Estou vendo o Daniel levantar um molho lindo,
00:20:50só que, do mesmo jeito que ele levantava a colher com o molho,
00:20:55caiu uma lágrima dos olhos dele.
00:20:58E eu falei, meu Deus, esse menino está com problema justo hoje,
00:21:02eu não tenho tempo para cuidar disso, mas fui lá.
00:21:05Daniel, meu filho, o que você tem?
00:21:07Depois a gente resolve, vamos fazer o jantar.
00:21:10Não, não, chefe, eu estou bem.
00:21:12Eu estou bem.
00:21:12É que eu estou me lembrando do primeiro dia que a senhora chegou aqui.
00:21:16Nisso eu já estava lá há mais de quatro anos.
00:21:18E ele falou assim, a senhora falou que eu não ia poder mais usar maizena,
00:21:23maizena, amido de milho e nem farinha de trigo para engrossar os molhos.
00:21:27E eu fui para casa e eu passei, acho que uma semana sem dormir.
00:21:30E a minha mulher dizia, mas por que você está assim, Daniel?
00:21:33Ela falou, porque a minha nova chefia disse que eu não posso usar a única coisa que eu sei
00:21:40para engrossar o molho.
00:21:42E agora eu estou aqui vendo o molho que eu fiz, que eu vou servir para um rei.
00:21:46E fui eu que fiz, e eu não precisei usar nada disso.
00:21:49Ah, que lindo isso, gente.
00:21:51Essa história é linda, eu fico sempre muito tocada quando eu conto.
00:21:53Lindo demais.
00:21:55Então, essas coisas, eu trago, na verdade, muito sentimento, sabe?
00:21:59Eu pude fazer um trabalho que mostrou muito o Brasil.
00:22:04Eu pude começar a trabalhar com esses ingredientes que são os renegados que eu amo,
00:22:09os quiabos, os machiches.
00:22:11Em Minas não, mas no Brasil a relação com o quiabo é difícil,
00:22:17o machiche, o chuchu, as pessoas têm mania de dizer que o chuchu não tem gosto de nada.
00:22:23E é só uma maneira de pensar direito no ingrediente,
00:22:27de conhecer bem o ingrediente para fazer de uma maneira que ele possa se expressar
00:22:32com qualidade, com criatividade, e tudo muda na história.
00:22:38Então, eu pude fazer, começar muito aquele trabalho ali na base,
00:22:42utilizar ingredientes os mais frescos possíveis, fazer uma horta.
00:22:46Então, tudo isso foi um alicerce muito grande na minha carreira.
00:22:50Legal.
00:22:51E aí, depois, então, você vai para o Rio, lá você abre um restaurante que tinha o seu nome,
00:22:58e aí, uma história muito bonita, de prêmios, de Estrela Michelin, de listas,
00:23:04e, de repente, encurtando a história, em 2017, você fala, então,
00:23:10não, não, não é isso que eu quero, desisto, vou fechar o restaurante.
00:23:16Eu te avisei que eu sou geminiana, né?
00:23:18Logo quando começou, que eu falei, vou pegar as coisas aqui, eu posso me bater toda.
00:23:22Eu sou muito inquieta.
00:23:23E, quando a coisa começa a ficar muito normal ou muito igual, aquilo me dá uma agonia.
00:23:36Então, eu nunca acreditei, eu acredito na comida, ela vem do afeto.
00:23:44Você vê que, inclusive, trabalhando num lugar difícil, com protocolos, com todas as questões,
00:23:53naquele momento ali, toda a gestão era militar.
00:24:00O que você me perguntou? O que você trouxe?
00:24:02Eu trouxe afeto.
00:24:03Então, a comida da minha avó, o que ela me trouxe? Afeto.
00:24:06Então, eu sempre trabalhei com afeto.
00:24:09E chegou um momento na gastronomia, do mundo inteiro, que o afeto foi trocado por prêmio.
00:24:16E a gente nunca fez questão disso, mas a gente ganhou prêmio demais,
00:24:20a ponto de não poder botar mais na parede, porque não tinha parede.
00:24:24Se eu faço uma lista, é um negócio...
00:24:28Tenho o maior orgulho, acho que quem trabalhou comigo participou daquilo.
00:24:32Foi importantíssimo, mas, num certo momento, eu olhei para aquilo.
00:24:35No dia que a gente ganhou a estrela Michelin, eu não estava esperando,
00:24:40não tinha feito absolutamente nada para isso, porque tem umas regrinhas que tem que seguir.
00:24:46As pessoas me dizem, olha, se você servir o vinho assado, o inspetor não vai gostar.
00:24:52E aí você pode não...
00:24:53Eu falava, então vamos continuar servindo o vinho assado,
00:24:56porque a gente está aqui fazendo do jeito que a gente acredita.
00:25:00Mas, enfim, ganhamos.
00:25:01E aí a equipe queria comemorar e tudo.
00:25:03E eu, naquele dia, eu fazia muito tempo que eu não lavava a cozinha.
00:25:08Eu fiquei até o final para lavar a cozinha.
00:25:10E aí eu só disse uma coisa para eles, não vão para casa com medo de perder a tal estrela
00:25:16que se ganhou,
00:25:17e nem já querendo ganhar a próxima, porque senão a vida de vocês vai ficar muito sem graça.
00:25:24E eu achei que, num certo momento, a gastronomia começou a viver só disso.
00:25:30Só de traços muito iguais, cozimentos muito iguais.
00:25:35Tudo seguindo uma certa regrinha para chegar a um certo lugar.
00:25:41E este certo lugar não era o que eu queria chegar.
00:25:44O lugar que eu queria chegar era do afeto.
00:25:46Então, naquele momento, eu falei, não é mais isso.
00:25:50Aquilo levou uns três anos depurando dentro de mim.
00:25:53Foi uma decisão, um processo difícil.
00:25:57A gente já tinha estrela há alguns anos.
00:26:01Tinha ganhado o melhor chefe da América Latina.
00:26:04Nosso restaurante estava lá em todas as listas de melhor isso, melhor aquilo.
00:26:09Você tem uma responsabilidade com isso com a sua equipe.
00:26:13Mas não que você tenha que viver para manter aquilo.
00:26:16E eu nunca quis viver para manter isso.
00:26:18E eu senti que a gastronomia tinha enveredado por esse caminho.
00:26:23Eu falei, não estou afim de ir por esse caminho.
00:26:25Eu quero o afeto.
00:26:27E onde eu fui buscar o afeto?
00:26:29Eu falei, vamos encerrar esse ciclo.
00:26:31Foi lindo.
00:26:32Sim, foi bom enquanto durou.
00:26:34Foram 11 anos.
00:26:35Foi lindo.
00:26:35Foi o primeiro restaurante do Brasil que só tinha meni degustação.
00:26:40E era muito ousado fazer aquilo naquela época.
00:26:43Muito.
00:26:44Muito.
00:26:45As pessoas não entendiam.
00:26:46Trocar o meni todo dia.
00:26:48Aquilo era um absurdo para a cabeça de quem ia no restaurante.
00:26:53Hoje, não.
00:26:54Hoje, essa semente já foi plantada.
00:26:56Hoje, o solo já foi plantado, já foi areado.
00:27:00Já tem aquilo.
00:27:01É só frutos.
00:27:02Então, hoje em dia, mudar o meni todo dia,
00:27:06É razoável.
00:27:07Sim, é a realidade de muitos lugares.
00:27:09A primeira vez que um cliente queria me bater
00:27:11porque eu mudava o meni todo dia,
00:27:14eu falei, eu só estou sendo honesta com o senhor.
00:27:17Se eu digo que hoje tem pargo,
00:27:20é porque o mar não me dá todos os dias chern.
00:27:23Hoje, ele me deu pargo.
00:27:24Para eu lhe dar chern todos os dias,
00:27:27um dia ele não vai estar o melhor.
00:27:30E eu não quero fazer isso.
00:27:31Mas tem um amigo meu que diz que eu gosto de fazer education food.
00:27:37Ele é alemão.
00:27:39Ele fala, Roberto, a sua comida é educacional.
00:27:41Você gosta de ensinar.
00:27:42E eu acho que faz parte, porque é cultural.
00:27:45A gente se espelhou na cozinha europeia
00:27:51em muitas fases da nossa vida.
00:27:54E na fase da gastronomia, da reestruturação da gastronomia,
00:27:58eu gosto de chamar de moderna cozinha brasileira
00:28:02e não de nova cozinha brasileira.
00:28:03Porque eu acho que nova significa
00:28:05você pega aquelas páginas todas
00:28:07que a gente vai precisar uma hora
00:28:10e você joga fora.
00:28:11Você fala, não, vamos fazer tudo novo.
00:28:13Eu sempre falei moderna.
00:28:14Então, a reestruturação da cozinha,
00:28:17na fase da moderna cozinha brasileira,
00:28:19foi da gente se espelhar em alguma cultura.
00:28:23E foi a europeia.
00:28:24Então, eu olho hoje fotos dos meus garçons,
00:28:27todos engravatados,
00:28:30de terno, disso e daquilo,
00:28:32e eu falava, gente, não dá, é o Brasil.
00:28:35É o Brasil.
00:28:36Eu tenho que encontrar um jeito de fazer.
00:28:38E tem duas...
00:28:40Eu tenho que encontrar um jeito de fazer isso
00:28:41de uma maneira diferente,
00:28:43sem abrir mão dos meus produtos,
00:28:45dos meus produtores, da minha técnica,
00:28:47até da minha rigidez,
00:28:48de tudo que eu acredito,
00:28:50mas que eu deixo as pessoas mais confortáveis,
00:28:53desde o meu garçom
00:28:55até as pessoas que vão ao meu restaurante.
00:28:58Tem duas histórias.
00:28:59Uma senhora que me encontrou na rua,
00:29:02na época que não tínhamos ainda
00:29:05Instagram, Twitter, todas essas coisas,
00:29:08que nem a Twitter mais, agora é o X.
00:29:09É o X.
00:29:11E ela sabia toda a minha história,
00:29:14sabia o nome da minha avó,
00:29:16sabia o nome do meu cachorro,
00:29:18e ela, enfim, gostava de mim.
00:29:21E ela me abraçou e falou assim,
00:29:22mas eu nunca vou poder ir no seu restaurante.
00:29:26Aquilo acabou comigo porque milagre não se faz.
00:29:29Um restaurante de alta gastronomia,
00:29:31ele nunca, na verdade, ele nunca se paga.
00:29:33É uma questão de você estar sempre fazendo coisas
00:29:36para poder estar naquela linha.
00:29:41E é natural que seja assim,
00:29:42eu já passei por isso
00:29:43e louvo todo mundo que faz,
00:29:45e faz com paixão,
00:29:47porque é uma expressão.
00:29:50Sim.
00:29:51Mas aquilo me matou.
00:29:52E a segunda foi logo no final,
00:29:55quando eu já estava bastante remexida
00:29:59e decidida a fazer essa virada,
00:30:01uma senhora muito simpática,
00:30:03eu cheguei no salão e ela estava muito nervosa,
00:30:07e eu, na verdade, quase que cheguei
00:30:09para acalmá-la, né?
00:30:11E ela falou,
00:30:12eu estou muito emocionada,
00:30:13mas esse jantar está marcado há quase um ano,
00:30:18mas você sabe que eu quase não vim?
00:30:20Aí eu falei,
00:30:21nossa, mas por que?
00:30:22Aconteceu alguma coisa?
00:30:23Ela falou assim,
00:30:24é, eu não sabia se a roupa era certa,
00:30:28como que iam me olhar quando eu chegassem aqui,
00:30:31como que eu ia ser recebida,
00:30:33e eu fui recebida como se eu estivesse chegando na casa de um amigo,
00:30:38as pessoas foram gentilíssimas comigo,
00:30:41mas eu corri o risco de não vir.
00:30:43Então, eu falei,
00:30:44alguma coisa está muito errada para mim,
00:30:48não quer dizer que esse tipo de expressão,
00:30:52como eu disse,
00:30:52não seja importante,
00:30:54ela é,
00:30:55é uma cidade,
00:30:56cada cidade precisa ter inúmeras expressões,
00:30:59a minha comida,
00:31:00ela hoje em dia,
00:31:02ela está muito mais feliz.
00:31:04Ai, que bom,
00:31:05é bom,
00:31:06a gente sente isso, né?
00:31:08É,
00:31:09é uma felicidade,
00:31:10porque eu mantive todos os meus produtores,
00:31:13mantive a minha técnica,
00:31:15mantive o meu rigor,
00:31:16ele faz parte,
00:31:18eu aprendi muito com a cozinha francesa também,
00:31:21eu sou autodidata,
00:31:23então,
00:31:23eu estudei muito pelas técnicas francesas,
00:31:26eu trabalhei com militares,
00:31:27então,
00:31:28eu tenho uma rigidez,
00:31:29mas essa rigidez,
00:31:30ela está mais confortável também.
00:31:33Então,
00:31:33eu acho que a gente deve procurar os caminhos,
00:31:36que fazem sentido para a gente,
00:31:38porque aí a gente consegue expressar como está aqui.
00:31:41Sim.
00:31:42Né?
00:31:42Cada um aqui tem uma história para contar,
00:31:44e se estiver mais confortável com a sua história,
00:31:47a história vai ser mais bem contada.
00:31:49Com certeza.
00:31:50Eu te avisei que eu falava muito.
00:31:51É, não,
00:31:51assim que a gente gosta.
00:31:53E vamos já aproveitar e provar mais uma coisinha,
00:31:55eu vou falar aqui das pastas pão do RIG Gastronomia,
00:32:01da Isabela e do Guilherme,
00:32:03muito obrigada a vocês.
00:32:04Eles mandaram um pesto de,
00:32:08que tem castanha de baru.
00:32:10Ah,
00:32:10eu adoro castanha de baru.
00:32:12Então,
00:32:12Minas,
00:32:12e aqui também tem Minas na caponata,
00:32:15que é de berinjela e giló.
00:32:17Olha que legal.
00:32:18Então,
00:32:18eles fazem aí essa releitura.
00:32:20E aqui é uma focaccia?
00:32:22E aqui é uma focaccia.
00:32:23Linda.
00:32:23Então,
00:32:23vamos provar um pedacinho.
00:32:26Aqui está o pedacinho do pão,
00:32:29eu vou te passar a pasta.
00:32:31Acho que eu vou na de giló.
00:32:33Você serve aí.
00:32:34Nossa,
00:32:34essa aí,
00:32:35eu estou curiosa também,
00:32:36porque eu nunca comi.
00:32:37Estou...
00:32:38É muito Minas,
00:32:39né,
00:32:39gente?
00:32:40Tem um gilózinho.
00:32:42Você gosta de giló,
00:32:42lógico,
00:32:43né,
00:32:43Roberta?
00:32:44Todos os renegados,
00:32:45eu adoro.
00:32:47Falou,
00:32:47ah,
00:32:48eu não gosto disso,
00:32:48eu não gosto daquilo,
00:32:49eu vou encontrar um jeito de fazer você gostar.
00:32:52Aqui,
00:32:53passar um gilózinho.
00:32:54Obrigada.
00:32:56Vamos experimentar.
00:32:58E aí,
00:32:59Roberta,
00:33:00eu quero já entrar num outro episódio,
00:33:02que é muito marcante da sua história,
00:33:04que teve uma repercussão mundial,
00:33:06que foi logo depois que você fecha o restaurante,
00:33:10você ia assinar lá a parte gastronomia,
00:33:13do Rock in Rio,
00:33:14e de repente a vigilância sanitária chega,
00:33:18apreende todo o seu produto,
00:33:20era linguiça e era queijo,
00:33:22porque não tinha o selo para comercialização interna,
00:33:28né,
00:33:28entre estados.
00:33:29E aí,
00:33:30isso te faz,
00:33:32inclusive,
00:33:33você deixou o evento,
00:33:34você não participou,
00:33:35foi apreendido,
00:33:36teve um prejuízo enorme,
00:33:37e mais que isso,
00:33:38eu até li que você entrou numa depressão depois,
00:33:41né,
00:33:42e você conseguiu,
00:33:44inclusive,
00:33:45que a lei mudasse,
00:33:46essa foi uma grande luta,
00:33:48uma grande vitória,
00:33:49mas ao mesmo tempo você caiu nessa depressão.
00:33:51Como que foi superar tudo isso?
00:33:54Porque eu acho que esse episódio tem vários elementos aí,
00:33:57que são muito complexos,
00:33:58e a gente está falando de uma pessoa que sempre valorizou esses produtores,
00:34:04que quis dar espaço para essas pessoas, né,
00:34:06que fazem produtos artesanais e que são maravilhosos, né?
00:34:10Como é que foi para você?
00:34:12É,
00:34:12ali naquele momento,
00:34:14eu tinha acabado de fechar o Roberto Sudbrake,
00:34:18e estava imaginando como seria o que é hoje o sul de Pássaro Verde.
00:34:22E aí eu fiz uma volta na minha história para a comida de rua.
00:34:27Então, eu, enfim,
00:34:29e também isso para mim foi muito importante,
00:34:31porque na alta gastronomia,
00:34:34eu estava,
00:34:35a casa onde era o Roberto Sudbrake tinha dois andares,
00:34:38eu ficava no andar de cima,
00:34:40descia para falar com as pessoas,
00:34:42claro, toda noite,
00:34:43mas era uma coisa muito distante, né?
00:34:47Toda a roupa, toda a indumentária.
00:34:49E na comida de rua,
00:34:52eu que estava vivendo essa angústia de estar mais próxima do público,
00:34:55eu pegava o, enfim, o sanduíche do cachorro quente,
00:34:58eu entregava na mão da pessoa e olhava nos olhos.
00:35:02Aquilo foi muito significativo para mim.
00:35:04E aí, no meio desse movimento,
00:35:06o Rock in Rio me procurou e me disse,
00:35:07olha, a gente quer fazer uma coisa,
00:35:08primeiro, o Rock in Rio,
00:35:10eu falei, não, de jeito nenhum.
00:35:11Não tem a menor condição,
00:35:13como é que eu vou fazer uma coisa dessa quantidade
00:35:17com o produto que eu trabalho,
00:35:18se eu trabalho com o produto artesanal.
00:35:20Não, mas a gente quer fazer justamente uma coisa diferente,
00:35:23a gente quer ter um lugar,
00:35:24era justamente um lugarzinho
00:35:26no meio daquela multidão de coisas
00:35:29onde o produto artesanal vai ser a estrela.
00:35:33Ah, então, enfim, vamos fazer uma curadoria aí,
00:35:36vamos ver quem que pode participar.
00:35:39Apresentamos os produtos que iam ser utilizados,
00:35:41passaram por todos os crivos
00:35:44lá da vigilância interna do Rock in Rio.
00:35:48Então, estava tudo certo, vamos lá.
00:35:51E aí, aconteceu aquilo que eu acho
00:35:53que Deus sabe o que faz,
00:35:55caiu no colo certo.
00:35:58Porque, se teve um prejuízo emocional muito grande,
00:36:02teve um ganho para a gastronomia brasileira,
00:36:07para o produto que eu tanto amo,
00:36:09que eu tanto defendo,
00:36:11que acabou só acontecendo,
00:36:13porque, felizmente, eu tive força para ir
00:36:16até o momento de conseguir mudar essa lei.
00:36:19Todo mundo dizia, você não vai conseguir.
00:36:21Eu falava, eu vou conseguir.
00:36:22A minha vida passou a ser isso.
00:36:25De novo...
00:36:25Como você falou, obstinada.
00:36:27De novo, de novo, obstinação.
00:36:29E as pessoas diziam,
00:36:30olha, tem não sei quantos projetos de lei
00:36:33no Congresso, você não vai conseguir.
00:36:35Eu falava, eu vou conseguir.
00:36:36E eu fiz de tudo, eu fui a Brasília.
00:36:38Eu fui ao mundo inteiro.
00:36:39O episódio rodou o mundo inteiro,
00:36:42porque foi uma tonelada de ingredientes
00:36:44da melhor qualidade.
00:36:46Ai, que absurdo.
00:36:47Que foram jogados fora,
00:36:48que foram inutilizados.
00:36:49Então, esta dor,
00:36:51ela estava dentro de mim ali,
00:36:55gritando,
00:36:56mas eu falava para ela,
00:36:57você vai ter que aguentar,
00:36:58porque eu tenho que mudar uma lei.
00:36:59e aí eu fui, fui, fui.
00:37:02No dia que eu recebi,
00:37:05eu soube antes de todo mundo.
00:37:08Foi lindo aquilo,
00:37:10porque uma pessoa
00:37:11que estava me ajudando
00:37:13a ver aquilo acontecer
00:37:15foi o presidente Michel Temer,
00:37:18que assinou.
00:37:18Quando ele assinou,
00:37:19essa pessoa me mandou uma foto.
00:37:21Naquele momento,
00:37:22foi como o meu corpo dissesse assim,
00:37:24tá bom, agora você pode descansar.
00:37:26E aí sim,
00:37:27aí eu tive uma depressão
00:37:28por causa de toda essa dor
00:37:31que eu senti
00:37:32exatamente como você,
00:37:35exatamente pelo motivo
00:37:37como você colocou.
00:37:38Naquele momento
00:37:39que eu vi aqueles ingredientes,
00:37:40que eu sabia
00:37:41que aquelas pessoas
00:37:42tinham parado
00:37:43as suas produções
00:37:44para fazer só para mim,
00:37:45e que eu sei exatamente
00:37:47o que vai dentro de cada coisa,
00:37:49e que eu conheço cada pessoa,
00:37:50eu tenho esse costume
00:37:53de conhecer o meu pequeno produtor,
00:37:56de ir na casa dele,
00:37:57se eu puder,
00:37:58de olhar nos olhos dele.
00:38:00Então, eu sabia
00:38:01o que era cada um,
00:38:02o que tinha custado,
00:38:03e as minhas crenças.
00:38:05Eu vi todas as minhas crenças
00:38:06serem jogadas literalmente
00:38:08no lixo, né?
00:38:10E também a minha crença
00:38:11de cozinheira brasileira.
00:38:13Quando eu ia falar,
00:38:14fui falar na França,
00:38:16na Espanha,
00:38:16sobre esse episódio,
00:38:17eu falava,
00:38:19nós somos,
00:38:19a gente está querendo,
00:38:22a gente está fazendo
00:38:23um movimento lindo
00:38:24de moderna cozinha brasileira,
00:38:25e a gente não pode usar
00:38:26um queijo
00:38:27que está em um estado
00:38:28que faz divisa com o outro.
00:38:31E essa lei,
00:38:32ela era de 1950.
00:38:35Ou seja,
00:38:36em 1950,
00:38:36eu acho que ela era razoável,
00:38:38por causa das estradas,
00:38:40a falta de tecnologia
00:38:42para refrigeração,
00:38:44a falta, inclusive,
00:38:46de tecnologia para,
00:38:48ainda que seja um produto artesanal,
00:38:52certas coisas de segurança
00:38:53precisam ser utilizadas,
00:38:56e para isso,
00:38:56você precisa de tecnologia.
00:38:57Para você ter uma ideia,
00:38:59o queijo que foi apreendido,
00:39:01que é da dona Vitória,
00:39:03que é uma queijeira maravilhosa
00:39:05do interior de Pernambuco,
00:39:07ela é engenheira química.
00:39:10Então,
00:39:10a gente fez um programa de TV
00:39:12na época
00:39:12para falar sobre isso,
00:39:14e aí,
00:39:15o apresentador fala assim,
00:39:16olha,
00:39:18cuidado,
00:39:19ele passou três dias
00:39:20lá com ela
00:39:20para entender tudo
00:39:21e para ser o mais fiel possível
00:39:24ao que ele tinha visto ali.
00:39:26Vocês tenham muito cuidado,
00:39:27tirem as crianças da sala agora,
00:39:29porque nós vamos entrar
00:39:31no lugar onde se fornou os queijos,
00:39:34onde a Vitória faz os queijos dela e tal,
00:39:37e é onde a Roberta Soutibraque compra queijo.
00:39:40Era o lugar mais limpo do mundo.
00:39:42Ela é engenheira química,
00:39:44ela estudou na França,
00:39:46no Canadá,
00:39:47na Suíça,
00:39:48e ela tinha uma tal
00:39:50de uma maquininha lá
00:39:51que ela sabia
00:39:53exatamente
00:39:53de qual vaca
00:39:55era o queijo,
00:39:57como a vaca
00:39:58estava de saúde,
00:39:59ou seja,
00:40:00era de um cuidado,
00:40:02assim,
00:40:03que não é que nem
00:40:04um pequeno produtor
00:40:05precisa ter tudo isso,
00:40:07mas aquele tinha,
00:40:08mas, enfim,
00:40:09aquele queijo
00:40:10também não podia
00:40:11estar ali.
00:40:14Então,
00:40:14quando a gente consegue mudar,
00:40:16quando a gente consegue
00:40:17fazer o selo arte,
00:40:19que eu tive o prazer
00:40:20de dar um nome
00:40:21para o selo,
00:40:22eu,
00:40:22hoje em dia,
00:40:23quando eu chego em qualquer lugar
00:40:24que eu leio o selo arte,
00:40:25eu caio no choro,
00:40:26porque foi uma luta de vida,
00:40:29foi uma luta de vida
00:40:30no sentido de que
00:40:32dependeu de mim
00:40:33não desistir daquilo,
00:40:35e uma luta de vida
00:40:36depois por causa
00:40:37da questão emocional
00:40:38que pesou muito,
00:40:39e aí é a gente com a gente.
00:40:42mas eu acho que
00:40:44ver essa mesa aqui,
00:40:47sabe,
00:40:47ver as pessoas
00:40:48que hoje
00:40:49produzem,
00:40:50ver como o produto
00:40:52artesanal
00:40:52está mais próximo
00:40:54de nós,
00:40:55ver que as pessoas
00:40:56que produzem
00:40:57estão mais próximas
00:40:58de nós,
00:40:58além do produto
00:40:59delas,
00:41:00eu acho que
00:41:01vale a pena,
00:41:02valeu a pena
00:41:02tudo isso.
00:41:03Que bom,
00:41:04e aproveitando
00:41:05que estamos falando
00:41:05de queijo,
00:41:06eu quero te apresentar
00:41:07os queijos aqui,
00:41:09que temos,
00:41:10vou pegar
00:41:10minha colinha aqui.
00:41:13Estamos no grande
00:41:14estado,
00:41:15no coração
00:41:17do Brasil,
00:41:18onde os queijos
00:41:19fazem parte
00:41:20do dia a dia
00:41:21de vocês,
00:41:22desde que amanhece
00:41:23até que o dia
00:41:24dorme.
00:41:25Então não pode
00:41:26deixar de ter queijo
00:41:27na mesa,
00:41:27isso é obrigatório.
00:41:28E olha,
00:41:29quem mandou pra gente
00:41:30foi o Jordani
00:41:31de um projeto
00:41:31que chama
00:41:32Rota do Queijo de Minas.
00:41:33Ah, que eu conheço.
00:41:34Maravilhoso.
00:41:35Trabalho impecável.
00:41:36Isso,
00:41:37e ele mandou pra gente
00:41:38três queijos,
00:41:39um é da Serra da Casa,
00:41:40Nastra,
00:41:41que é esse aqui,
00:41:44os produtores são
00:41:45Vinícius e Zé Arthur.
00:41:47O outro que ele mandou
00:41:48é o queijo
00:41:49Maria Fumaça,
00:41:50que é esse aqui,
00:41:52que é da Mantiqueira.
00:41:54E o terceiro
00:41:55é um queijo
00:41:56de cabra,
00:41:57e ele mandou falar
00:41:58o seguinte,
00:41:59que esse produto
00:42:00ainda não está
00:42:01no mercado.
00:42:03Então você
00:42:03vai provar
00:42:04
00:42:05com exclusividade
00:42:07esse queijo
00:42:07e depois ele quer saber
00:42:08a sua opinião
00:42:09sincera.
00:42:09Você sabe que uma
00:42:10das minhas lutas
00:42:11agora é essa.
00:42:12Você vai
00:42:13na França,
00:42:15enfim,
00:42:16na Espanha,
00:42:17em Portugal,
00:42:18você vai comprar
00:42:20um queijo
00:42:21ou vai comprar
00:42:24uma barquetinha
00:42:26de morango
00:42:27ou uma
00:42:28dúzia de ovos,
00:42:29está lá.
00:42:30A cara do produtor
00:42:31e o nome do produtor.
00:42:33Eu acho que isso
00:42:34é uma coisa que a gente
00:42:35tem que lutar muito
00:42:36para acontecer.
00:42:37Quando você
00:42:37falou o nome
00:42:38das pessoas,
00:42:39isso deixa de ser
00:42:40só um queijo.
00:42:41É uma história.
00:42:42Sim,
00:42:43com certeza.
00:42:43É uma história deles
00:42:44e que quando a gente
00:42:45prova,
00:42:45quando a gente gosta,
00:42:47quando o cozinheiro
00:42:48começa a usar
00:42:48no restaurante
00:42:49ou quando você
00:42:49leva para a sua casa,
00:42:50passa a ser
00:42:51uma história conjunta.
00:42:52Então isso é
00:42:53uma luta minha
00:42:54para que aconteça.
00:42:56Acho que a gente
00:42:57vai conseguir.
00:42:57Vamos,
00:42:58com certeza.
00:42:59Então,
00:42:59vamos lá.
00:42:59Eu vou te ajudar
00:43:00aqui com a tábua.
00:43:04Sirva-se.
00:43:05Vamos ver.
00:43:06Esse aí,
00:43:07então,
00:43:07é o de cabra
00:43:09que não está
00:43:10no mercado.
00:43:11Esse é da mantiqueira.
00:43:13Da mantiqueira.
00:43:14E esse aqui
00:43:14é o canastra.
00:43:18Aí,
00:43:19sirva-se.
00:43:20meleira,
00:43:20não estou deixando
00:43:21passar nenhum,
00:43:22tá vendo?
00:43:22Não deve.
00:43:25Não deve.
00:43:26E aí,
00:43:27enquanto você
00:43:27saboreia o queijo,
00:43:29eu vou aproveitar
00:43:30para mostrar aqui
00:43:31o nosso conteúdo
00:43:33que a gente publica
00:43:34toda semana
00:43:34no jornal.
00:43:36E eu trouxe aqui
00:43:37duas matérias.
00:43:39Uma,
00:43:40a gente fala
00:43:41sobre a batata frita.
00:43:43Como que ela
00:43:43vem conquistando
00:43:45um protagonismo
00:43:46na mesa.
00:43:46Ela deixou de ser
00:43:47só um acompanhamento
00:43:49sem graça
00:43:50para ter agora
00:43:51muito protagonismo
00:43:55aí com combinações
00:43:56diferentes.
00:43:57E a outra matéria
00:43:58que eu trouxe
00:43:59que eu achei
00:44:00que tinha a ver
00:44:01inclusive com Roberta,
00:44:03que é,
00:44:04a gente está contando
00:44:05histórias de pessoas
00:44:06que têm negócios
00:44:07que são
00:44:09receitas de família.
00:44:10Pessoas se transformaram
00:44:11receitas de família
00:44:12em produto
00:44:13e em negócio.
00:44:15Então,
00:44:15a gente conta aqui
00:44:16várias histórias,
00:44:17depois vocês
00:44:18leem tudo lá.
00:44:19Tá bonito,
00:44:19é doce de leite
00:44:20aquele ali?
00:44:21Tem,
00:44:22na verdade,
00:44:23esse da capa?
00:44:24Esse da capa
00:44:25é um bolo
00:44:25de pão de queijo
00:44:26com um molho
00:44:27de tomate.
00:44:28molho de tomate.
00:44:31Quer ver?
00:44:31Tudo eu estou vendo
00:44:32pão,
00:44:32tudo eu já estou vendo
00:44:33doce de leite,
00:44:34tudo eu vejo.
00:44:35Nós vamos chegar lá
00:44:35nos doces.
00:44:37E, Roberta,
00:44:38inclusive,
00:44:39eu trouxe essa matéria
00:44:40que eu acho que tem
00:44:42muito a ver com você
00:44:43e já quero entrar
00:44:44no assunto Minas.
00:44:45Vamos puxar agora
00:44:46a conversa
00:44:47para Minas,
00:44:48que você já falou
00:44:49no início,
00:44:49que vem dos seus avós,
00:44:52que são daqui de Minas,
00:44:55e você até já me falou
00:44:57numa outra conversa
00:44:57que a gente teve
00:44:58que aqui você se sente
00:44:59abraçada.
00:45:01Como é que é
00:45:01toda vez que você pisa aqui,
00:45:03o que você sente?
00:45:06Eu me sinto realmente
00:45:07acolhida.
00:45:08A palavra é acolhimento.
00:45:10Para mim,
00:45:10Minas é acolhimento.
00:45:12Eu não estou puxando
00:45:13para o lado de casa
00:45:15as coisas, não,
00:45:16mas sempre que me perguntam
00:45:18quando eu vou dar
00:45:20uma palestra
00:45:20no exterior,
00:45:22ou mesmo um brasileiro
00:45:23que me pergunta
00:45:23qual é a cozinha
00:45:24que você acha
00:45:24que define o Brasil.
00:45:25Eu acho que é a mineira.
00:45:27Porque eu acho
00:45:28que ela está conectada
00:45:32com tudo
00:45:34que a gente reconhece
00:45:35no dia a dia.
00:45:36O assado,
00:45:37o refogado,
00:45:38o cozimento
00:45:39mais demorado,
00:45:43a questão
00:45:43do fogão à lenha,
00:45:46do forno à lenha,
00:45:46esse gostinho,
00:45:48a rapa do tacho,
00:45:50tudo isso
00:45:51a gente consegue
00:45:52se reconhecer
00:45:53como brasileiro.
00:45:54Não é uma coisa...
00:45:56A gente tem
00:45:57milhões de expressões
00:46:00da culinária,
00:46:02mas, assim,
00:46:03as que eu acho
00:46:04que a gente se reconhece,
00:46:05todo brasileiro se reconhece,
00:46:07do norte ao sul,
00:46:09é o que a gente vê em Minas.
00:46:11Então, Minas,
00:46:12para mim,
00:46:12é acolhimento.
00:46:13Eu acho que você
00:46:15é sempre abraçado
00:46:17em Minas,
00:46:18e é como a gente
00:46:19estava conversando antes,
00:46:21o mineiro,
00:46:21ele é até bem reservado,
00:46:23mas, quando bota a mesa,
00:46:25ele perde as estribeiras.
00:46:28Totalmente.
00:46:28Aí ele se entrega totalmente.
00:46:31Ele pode estar até
00:46:31meio desconfiado do negócio,
00:46:33mas, quando põe a mesa,
00:46:34ele se entrega totalmente.
00:46:36Então, acho que é acolhimento.
00:46:37Eu me sinto sempre acolhida aqui.
00:46:39Eu me sinto realmente
00:46:41como se eu tivesse saído daqui
00:46:45e, na verdade,
00:46:47nunca tivesse saído, sabe?
00:46:49É uma coisa muito impressionante,
00:46:51porque vem da minha avó,
00:46:52passei muito as férias
00:46:54quando pequena com eles aqui.
00:46:56Então, essa questão do forno a lenha
00:46:59é uma volta
00:47:00a muitas lembranças da minha infância.
00:47:04Ah, eu ia te perguntar isso.
00:47:05Eu tinha uma irmã da minha avó,
00:47:07Tia Jasanã.
00:47:07Eu fui criada ali do lado do fogão,
00:47:11a lenha dela.
00:47:12Ela era daquelas cozinheiras
00:47:13que tinham todas as coisas no quintal
00:47:18e faziam de tudo.
00:47:20Então, aqueles cheiros,
00:47:22eu, naquele momento,
00:47:24não tinha a menor ideia
00:47:25que eu ia devotar a minha vida
00:47:28à gastronomia,
00:47:31mas aquilo tudo estava em mim.
00:47:33Então, eu acho que,
00:47:34depois de tanto trajeto,
00:47:36chegou num ponto que eu falei,
00:47:38é esse ponto aí,
00:47:40é o ponto do acolhimento,
00:47:41é o ponto do afeto,
00:47:42é onde eu me reconheço,
00:47:43que é a comida que eu faço hoje.
00:47:45Porque é bom,
00:47:47para quem não sabe,
00:47:48que no seu restaurante no Sud,
00:47:51o forno a lenha,
00:47:53ele é protagonista do salão,
00:47:55inclusive.
00:47:56De tudo, quando eu fiz,
00:47:57quando eu comprei,
00:47:58quando eu aluguei a casa
00:48:00e eu chamei esse meu amigo,
00:48:02que é um uruguaio,
00:48:03um chefe maravilhoso,
00:48:04que chama Federico Desenho,
00:48:06ele é dono do restaurante Marismo
00:48:08em Rosé Inácio,
00:48:09e ele é que faz os fornos
00:48:11do Francis Malma,
00:48:12que também é um grande amigo.
00:48:13Uau, que legal.
00:48:14Eu, quando cheguei nele,
00:48:16eu falei,
00:48:17Fred, você faz o que você quiser,
00:48:19mas o coração da casa,
00:48:22a pessoa mais importante da casa,
00:48:25não sou eu,
00:48:25não é minha comida,
00:48:27é o forno.
00:48:27O forno vai ser,
00:48:29e ele fez realmente,
00:48:30você chega e ali parece um útero,
00:48:35é uma coisa de realmente dizer,
00:48:39olha, daqui sai o que vai te acarinhar.
00:48:44Legal.
00:48:45E quando você vem a Minas,
00:48:48o que você não pode deixar de comer
00:48:50de jeito nenhum?
00:48:51Se você não comer,
00:48:52você não vem.
00:48:53Está aqui na mesa.
00:48:53Olha, a gente acertou em cheio.
00:48:55Claro que a gente teve uma dica,
00:48:57né?
00:48:57Acertou em cheio.
00:48:58Esse aqui,
00:48:58esse biscoito de queijo,
00:49:00eu não posso deixar de comer.
00:49:01É a primeira coisa,
00:49:02a primeira que me vem à mente,
00:49:04depois a gente tem várias,
00:49:06mas é o biscoito de queijo
00:49:07do Café Elisa.
00:49:09Que bom,
00:49:10que bom que a gente acertou nessa mesa.
00:49:11Acertou em cheio.
00:49:12E eu estou aqui,
00:49:13você vê que eu estou aqui,
00:49:14eu seguro.
00:49:16Acho que eu vou sair assim.
00:49:18Pode levar,
00:49:18é seu,
00:49:19é seu.
00:49:22E aproveitando então
00:49:23a sua passagem por BH,
00:49:25você veio e cozinhou
00:49:27com duas mulheres maravilhosas.
00:49:29Maravilhosas.
00:49:30E eu convidei as duas
00:49:32para entrarem nessa conversa aqui.
00:49:35Oh, que bom.
00:49:35As duas são então,
00:49:37a Ana Gabi,
00:49:39que é do restaurante 31,
00:49:40onde você fez um jantar.
00:49:42Isso.
00:49:42E a Ana,
00:49:43são duas Anas inclusive,
00:49:44Duas Anas,
00:49:44eu gosto de Anas,
00:49:45eu gosto de andar com Anas.
00:49:46E a Ana Elisa...
00:49:47A minha subchefe é a Ana,
00:49:48não é o Flávio?
00:49:49Então são muitas Anas na sua vida.
00:49:51Muitas Anas.
00:49:52E a Ana Elisa,
00:49:53que é do Elisa Café,
00:49:54que trouxe o biscoito,
00:49:55que trouxe o café,
00:49:56e que também você cozinhou com a ela
00:49:58no fim de semana,
00:49:59num evento mais descontraído.
00:50:01Isso,
00:50:01mais de comida de rua,
00:50:03com bolo molhado de chocolate,
00:50:05uma farra...
00:50:05Maravilhoso.
00:50:06Muito cachorro.
00:50:08Então nós convidamos as duas
00:50:11para entrar nessa conversa.
00:50:12Então eu quero,
00:50:13Ana Elisa e Ana Gabi,
00:50:15eu quero que vocês contem para a gente,
00:50:17como que é dividir a cozinha
00:50:19com essa mulher,
00:50:20Roberta Sutibraque?
00:50:23Cozinhar com a Roberta
00:50:24é uma demonstração presencial
00:50:27de tudo que a gente espera dela,
00:50:29que é uma pessoa que a gente sempre percebe
00:50:32ao estudar o trabalho dela,
00:50:34que tem uma generosidade imensa
00:50:36com relação ao produto,
00:50:37com relação ao ingrediente.
00:50:38A gente percebe isso de um jeito
00:50:39muito óbvio no gestual dela
00:50:42e da equipe,
00:50:43na forma de lidar com cada produto,
00:50:45com cada ingrediente,
00:50:46com cada preparo.
00:50:47Um cuidado muito genuíno
00:50:51em garantir que cada produto ali
00:50:53vai receber o máximo de respeito
00:50:56com os seus processos,
00:50:58para que ele possa entregar
00:50:59todo o seu potencial
00:51:00do que ele veio a dizer.
00:51:01Então foi maravilhoso estar junto dela,
00:51:03a gente ver isso ao vivo pessoalmente
00:51:05e a generosidade de compartilhar isso
00:51:07com a nossa equipe.
00:51:09Trabalhar na cozinha da Roberta
00:51:11foi um momento de grande aprendizado
00:51:14e de reafirmar muito
00:51:16o que eu acreditava como verdade.
00:51:18A cozinha da Roberta,
00:51:19ela não é uma cozinha comercial,
00:51:22ela não é uma cozinha,
00:51:23um restaurante feito
00:51:24para se ter o maior lucro possível,
00:51:26mas ela começa uma história
00:51:29com um grande propósito,
00:51:31que é a origem.
00:51:32Então a Roberta conhece os produtores,
00:51:35ela sabe o que ela está servindo
00:51:38e ela faz isso com uma maestria muito grande,
00:51:41porque além de conhecer o ingrediente,
00:51:43o produtor que ela vai servir,
00:51:46ela tem uma apreciação da beleza muito grande.
00:51:49Então os pratos dela são muito harmônicos,
00:51:52a gente come com os olhos
00:51:53a beleza da estética dos pratos.
00:51:56Hoje eu carrego muito do que eu aprendi
00:51:58com a Roberta no meu negócio,
00:52:02origem fundamental
00:52:03para tudo que eu faço hoje.
00:52:06Com certeza a Roberta faz parte dessa história,
00:52:10além de a gente conseguir ter
00:52:11uma amizade muito grande,
00:52:13porque os valores são muito iguais.
00:52:15Então quando a gente tem os valores iguais,
00:52:17a gente carrega muito mais além do profissional,
00:52:20e isso é o mais gostoso do negócio,
00:52:22a vida se misturando
00:52:24entre o profissional e o pessoal.
00:52:26E a Roberta consegue fazer isso com muita maestria.
00:52:30Ai, que ótimo!
00:52:31Obrigada, Ana Gabi e Ana Elisa,
00:52:33por esse recado.
00:52:34Que legal, né, Roberta?
00:52:36Ouvir essas pessoas falando de você.
00:52:39É, a Ana Elisa é uma pessoa importantíssima na minha vida,
00:52:42trabalhou comigo, acho que em todos os momentos,
00:52:45no momento do restaurante de alta gastronomia,
00:52:49na comida de rua,
00:52:50me ajudou a abrir o da Roberta,
00:52:51que é o xodó da minha vida,
00:52:53que é o bar de comida de rua.
00:52:54E quando eu venho à Minas,
00:52:56se eu vou fazer alguma coisa,
00:52:57tenho que passar por ela,
00:52:58ela tem que dizer se dá para fazer ou se não dá,
00:53:01porque ela vai estar sempre comigo.
00:53:02E a Ana Gabi,
00:53:03ela me emociona muito,
00:53:06porque ela me lembra,
00:53:08ela me lembra muito o começo,
00:53:10quando eu lutava por todas as coisas
00:53:15que eu vejo hoje na cozinha dela.
00:53:17Então, é muito bonito ver ela começando esse trabalho no 31,
00:53:21com tantas referências de coisas que eu acredito
00:53:24e que eu amo tão profundamente.
00:53:26E ela é muito entusiasmada,
00:53:28isso é muito lindo.
00:53:29Então, foram momentos muito,
00:53:31muito mais agradáveis e muito mais acolhedores
00:53:35do que normalmente já são.
00:53:36Ah, que bom.
00:53:37E eu queria falar,
00:53:39aproveitando que você comentou do 31,
00:53:41que a gente falar um pouco mais
00:53:43desses ingredientes renegados
00:53:45que você comentou, né?
00:53:47E que você traz muito para a sua cozinha,
00:53:50que a Ana Gabi também, né?
00:53:51Fazendo essa cozinha mineira moderna,
00:53:54também faz questão de colocar.
00:53:56Não tem como a gente não falar do seu quiabo,
00:53:58do seu caviar de quiabo,
00:53:59que é um ícone
00:54:02e que por onde você vai,
00:54:04você tem que levar, né?
00:54:05Me conta um pouco dessa história, assim,
00:54:08como é que você chegou nisso
00:54:09e o quiabo,
00:54:11que você até já comentou,
00:54:12que é um ingrediente que é controverso,
00:54:14não é todo mundo que gosta,
00:54:16como é que é colocar ele aí no mundo?
00:54:18Isso começou, como eu te disse,
00:54:20no Palácio da Alvorada.
00:54:23Eu tinha essa liberdade muito grande
00:54:26que o presidente Fernando Henrique
00:54:28e a doutora Ruth, a primeira dama,
00:54:30me davam para fazer, nos banquetes,
00:54:33essa exploração dessa cozinha brasileira
00:54:37pela vertente que eu decidisse.
00:54:39E a vertente que eu mais amo,
00:54:41gostando tanto de carinho,
00:54:43de acolhimento, de afeto,
00:54:44é o cotidiano,
00:54:46que é onde eu acho que a gente,
00:54:48como eu te disse,
00:54:49a gente se reconhece como brasileiro
00:54:51de norte a sul.
00:54:53Claro, cada estado tem a sua particularidade,
00:54:56cada estado tem a sua maneira
00:54:59de enxergar essa cozinha brasileira,
00:55:01mas no cotidiano a gente é muito parecido.
00:55:04Então, o cotidiano,
00:55:06que parece uma coisa banal,
00:55:07para mim é a coisa mais importante,
00:55:09é a coisa que mais me interessa,
00:55:11é a coisa que mais me dá vontade de explorar.
00:55:15Então, eu sempre fui muito fundo
00:55:19nesses ingredientes que as pessoas diziam,
00:55:22hoje em dia não mais.
00:55:23Então, é isso que eu acho lindo.
00:55:25A Ana Gabi pega um momento
00:55:27da gastronomia brasileira
00:55:29onde ela já pode explorar esses ingredientes
00:55:32sem ser algo...
00:55:33Oh, não, não é possível.
00:55:35Não vou comer quiabo.
00:55:36Deus me livre,
00:55:37de ló não como.
00:55:38Chuchu.
00:55:39Chuchu, chuchu, não tem gosto de nada.
00:55:41Eu me lembro que quando eu comecei
00:55:44e a primeira vez que eu botei
00:55:45num cardápio de alta gastronomia
00:55:47a palavra quiabo
00:55:49e o quiabo ainda vinha em pé,
00:55:51as pessoas acharam que eu era louca.
00:55:54E hoje em dia,
00:55:55você abrir os cardápios
00:55:56e ver a palavra quiabo,
00:55:58ver a palavra chuchu,
00:55:59ver a palavra machete,
00:56:01é lindo.
00:56:01É aquilo que eu te falei,
00:56:03é o solo que foi arado,
00:56:06que foi cultivado
00:56:07e que agora dá os seus frutos
00:56:08através de pessoas tão talentosas
00:56:11como as que temos hoje no Brasil.
00:56:13E o quiabo,
00:56:15enfim, através desses estudos,
00:56:18eu sempre fiz um estudo muito profundo
00:56:20com todos os ingredientes,
00:56:21faço até hoje.
00:56:23Gosto, acho que é importante
00:56:24para os meus cozinheiros,
00:56:25acho que é importante para mim.
00:56:28O geminiano não pode ficar parado.
00:56:30Se a coisa fica muito parada,
00:56:31já invento uma doideira nova.
00:56:34Então, colocar toda essa energia
00:56:37nesses ingredientes,
00:56:39trazer eles para uma...
00:56:42Eu sempre brinco assim,
00:56:43o ingrediente...
00:56:44Brinco não,
00:56:44é uma verdade muito importante
00:56:47na minha cozinha.
00:56:49Procurar não transformar o ingrediente
00:56:51em algo que ele não pediu para ser.
00:56:52Então, você ser criativo
00:56:54não significa você transformar o quiabo
00:56:56em uma coisa que ele não imaginou ser.
00:57:01O quiabo tem que continuar sendo quiabo.
00:57:02Então, através desses estudos,
00:57:04a gente desenvolveu o caviar vegetal
00:57:06e aí a gente foi convidado
00:57:08pelo mundo inteiro
00:57:09para falar sobre isso.
00:57:10Eu conheço o mundo inteiro,
00:57:12felizmente,
00:57:12por causa de um quiabo.
00:57:14E isso aconteceu
00:57:15numa observação,
00:57:17num almoço
00:57:18que eu fiz
00:57:20em Tiradentes.
00:57:22Um dia que eu cortei o quiabo
00:57:23e a sementinha saiu andando pelo prato,
00:57:25eu falei,
00:57:25meu Deus,
00:57:27ninguém está prestando atenção
00:57:28nisso aqui.
00:57:29E aí,
00:57:30através também
00:57:31de uma negação,
00:57:32eu não como quiabo por quê?
00:57:33Eu não como quiabo
00:57:34porque eu não gosto da baba.
00:57:36Então, vamos estudar
00:57:36o que é essa baba?
00:57:38Essa baba é uma gelatina natural.
00:57:40Uma gelatina natural concentrada,
00:57:42ela há de ser boa.
00:57:43Então, a gente faz essa...
00:57:45Isso tudo de uma maneira
00:57:46muito empírica,
00:57:47porque eu sou autodidata,
00:57:49sem nada de material.
00:57:50Não tenho na minha cozinha,
00:57:52nunca tive.
00:57:53Eu sempre tive fogão,
00:57:55forno,
00:57:55muito forno.
00:57:56Quando eu vou construir
00:57:57as minhas cozinhas,
00:57:58eu tenho que chamar
00:58:00a pessoa
00:58:02que faz a construção de cozinha
00:58:04e pedir para fazer
00:58:05um especial para mim,
00:58:06porque eu gosto que tenha
00:58:07forno embaixo
00:58:08do piano,
00:58:10que a gente chama,
00:58:11que é onde tem
00:58:12a pancada,
00:58:13central.
00:58:14Eu gosto de ter forno
00:58:15por tudo que é lado
00:58:15porque eu gosto de assar.
00:58:17Eu gosto de assar
00:58:18como a minha avó assava.
00:58:20É aquela coisa, né,
00:58:21de botou o ingrediente ali,
00:58:23papel, alumínio,
00:58:24vamos abrir de vez em quando,
00:58:25vamos trocar o vapor.
00:58:27Tudo isso é ciência.
00:58:29Tudo isso tem muita técnica,
00:58:31mas é, ao mesmo tempo,
00:58:32muito caseiro,
00:58:34muito do nosso dia a dia.
00:58:36Então, a descoberta
00:58:37de como a gente fazia isso,
00:58:39de mostrar para as pessoas
00:58:41que essa baba é gostosa,
00:58:43ela vem através do cotidiano,
00:58:46ela vem através de chegar na casa,
00:58:49principalmente numa casa mineira,
00:58:51e ir devagarinho para não assustar o mineiro,
00:58:54mas fazer a pergunta
00:58:55que eu mais gosto de fazer,
00:58:56mas como é que você faz isso?
00:58:58E como é que você faz isso?
00:59:00Vou te dizer,
00:59:00não peço receita,
00:59:01não gosto de pedir receita
00:59:03para as pessoas,
00:59:04porque eu não sei
00:59:04como elas vão lidar com isso.
00:59:05Você pode me pedir a receita
00:59:06que você quiser,
00:59:07que eu vou te dar,
00:59:07mas tem gente que não gosta
00:59:09que a gente peça receita.
00:59:10Então, como é que você faz isso?
00:59:12Não é receita.
00:59:13Ah, eu ponho um picadinho disso,
00:59:14vou pôr um pouquinho daquilo.
00:59:16Minha avó foi-se embora
00:59:18sem me ensinar o arroz dela.
00:59:20E eu dizia que até outro dia
00:59:22eu não conseguia fazer o arroz dela.
00:59:24Eu faço um arroz técnico.
00:59:26Eu faço um arroz para 100 pessoas,
00:59:27se precisar.
00:59:28Ela fazia um arroz para 6 pessoas,
00:59:30que era o melhor do mundo.
00:59:32Então, com muito empenho,
00:59:34eu consigo fazer o arroz dela hoje.
00:59:36Mas a explicação que ela me deu
00:59:38foi sempre isso.
00:59:39Ah, o que é isso?
00:59:40Um dedinho de água aqui,
00:59:42um não sei o que.
00:59:43Não, refoga aqui o alinho,
00:59:44não sei o que lá.
00:59:44E nada explicado muito bem.
00:59:46Então, me interessa entender
00:59:49esse não explicado muito bem.
00:59:51E o quiabo me proporcionou isso.
00:59:53Ele me proporcionou essa viagem
00:59:55literalmente ao mundo,
00:59:57mostrando o Brasil,
00:59:58mostrando a qualidade
00:59:59dos ingredientes brasileiros,
01:00:01mostrando que um quiabo
01:00:01pode ficar em pé,
01:00:03que ele é elegante
01:00:04e que a gente tem muito
01:00:06a explorar,
01:00:09a aproveitar.
01:00:10É infinito.
01:00:11Eu digo assim,
01:00:12eu sou muito curiosa,
01:00:13gosto muito de conhecer,
01:00:15gosto muito de fuçar.
01:00:17E, assim,
01:00:18cada vez eu vejo
01:00:18que é infinito,
01:00:19que não vai dar tempo
01:00:20de ver tudo.
01:00:21Mas, felizmente,
01:00:23tem pessoas maravilhosas aí
01:00:24que estão trazendo
01:00:27todo esse conhecimento
01:00:29e todo o que a gente proporcionou
01:00:34que hoje pudesse estar
01:00:35no cardápio de um restaurante.
01:00:37Eu e outros chefes
01:00:39que fizeram trabalhos incríveis
01:00:40também lá atrás,
01:00:41com muito esforço.
01:00:43Então, é lindo hoje
01:00:44você ver o nome
01:00:44desses ingredientes renegados,
01:00:47não mais renegados,
01:00:48e até despertando curiosidade.
01:00:51Sim.
01:00:51Você querendo experimentar.
01:00:53Você falou aqui,
01:00:54giló,
01:00:54eu falei,
01:00:54não,
01:00:55quero experimentar o giló.
01:00:56Que bom.
01:00:57E, olha,
01:00:58tivemos a informação privilegiada
01:01:00que você é apaixonada
01:01:02por um biscoito
01:01:04de queijo
01:01:06com goiabada.
01:01:09E fizemos questão
01:01:10de colocá-lo na mesa,
01:01:12que é da Bendy,
01:01:14Juliela e Luísa,
01:01:15obrigada.
01:01:16Artistas,
01:01:17artistas.
01:01:17Aqui, olha.
01:01:18A minha mala volta,
01:01:19vem uma mala vazia
01:01:20para voltar cheia
01:01:21desse biscoitinho.
01:01:23Quer dizer,
01:01:24metade desse
01:01:25e metade do dia.
01:01:26E a gente aproveitou
01:01:29essa combinação
01:01:30queijo
01:01:31com goiabada
01:01:32que aqui em Minas
01:01:33a gente faz
01:01:34de todas as formas
01:01:36possíveis, né?
01:01:37Em qualquer horário do dia.
01:01:38Não tem limite.
01:01:40E aí a gente também
01:01:41trouxe esse bolo,
01:01:42olha que lindo
01:01:43que está esse bolo.
01:01:45Que é um bolo
01:01:45da Feto,
01:01:46que é uma cafeteria
01:01:47e confeitaria
01:01:48aqui de BH.
01:01:50Malu,
01:01:50obrigada
01:01:51por ter mandado
01:01:52esse bolo lindo.
01:01:53E ele é um bolo
01:01:54de fubá
01:01:54que tem cobertura
01:01:56de coalhada
01:01:57e de goiabada.
01:01:58Olha, coalhada.
01:01:59Então, é.
01:02:00Que coisa linda.
01:02:01Então, olha,
01:02:01vamos provar.
01:02:04Você consegue colocar...
01:02:06É, isso.
01:02:06Por favor.
01:02:07Eu acho que vai ficar
01:02:07mais fácil.
01:02:10E eu já quero emendar
01:02:12com outra coisa
01:02:13que eu sei
01:02:13que você gosta
01:02:15que é hora pronobis.
01:02:17Que você não vem...
01:02:18Se você vem à mina
01:02:19você tem que levar
01:02:20uma mudinha,
01:02:21não é isso?
01:02:21Vou te contar.
01:02:22Me conta essa sua história
01:02:23com hora pronobis.
01:02:25Eu sou alucinada
01:02:25por hora pronobis.
01:02:27E eu ganhei uma muda
01:02:28na época que eu trabalhava
01:02:30no Palácio da Alvorada
01:02:31e eu plantei
01:02:31no Palácio da Alvorada.
01:02:34E aí, enfim,
01:02:35por sete anos
01:02:36eu usei demais
01:02:37o hora pronobis
01:02:37porque era
01:02:39absolutamente impossível
01:02:40conseguir hora pronobis
01:02:41se não fosse um pé
01:02:43que você tivesse.
01:02:45Hoje em dia, não.
01:02:46Minha produtora,
01:02:47a Fátima,
01:02:47trabalha comigo há 30 anos.
01:02:48Ela tem hora pronobis.
01:02:50Eu sei que aqui em Minas,
01:02:51quando eu fui fazer o jantar,
01:02:52com a Ana Gabi,
01:02:54eu também pedi,
01:02:54ela conseguiu para mim,
01:02:57já como uma coisa
01:02:58que se usa...
01:03:00Era muito assim
01:03:01de interior,
01:03:01hoje em dia, não.
01:03:02Uma coisa que você usa
01:03:04na sua cozinha cotidiana.
01:03:07Enfim,
01:03:07e quando acabou
01:03:08o mandato do presidente,
01:03:09a única coisa
01:03:10que me deixava
01:03:14mais angustiada,
01:03:15é claro,
01:03:15tinha a tristeza
01:03:16de me separar
01:03:17da minha equipe,
01:03:17mas era o pé
01:03:18de hora pronobis.
01:03:19e agora?
01:03:19Como é que eu vou
01:03:20me embora
01:03:20sem meu pé
01:03:21de hora pronobis?
01:03:22E aí eu levei
01:03:22um galhinho
01:03:23e levei para o Roberto Sudibrak,
01:03:25que era o restaurante
01:03:26de alta gastronomia,
01:03:27e por todos os 11 anos
01:03:30trabalhei lá
01:03:30com hora pronobis.
01:03:31Quando fui embora,
01:03:32tirei o galhinho,
01:03:33hoje está na minha casa,
01:03:34então não vivo
01:03:35sem hora pronobis.
01:03:36O hora pronobis,
01:03:36para mim,
01:03:38é vida,
01:03:38é vida.
01:03:40Representa...
01:03:40Acho que é isso,
01:03:42representa esse acolhimento
01:03:44desse Estado,
01:03:45representa esse carinho
01:03:47o refogado,
01:03:49aquela base
01:03:51da cozinha
01:03:52de refogado,
01:03:55a Santíssima Trindade,
01:03:57o tomate,
01:03:58o alho,
01:03:58a cebola.
01:04:01Eu falo que o alicerce
01:04:03de uma receita
01:04:03é como de uma casa.
01:04:05Precisa ser muito bem feito,
01:04:07precisa ser muito bem tratado
01:04:08para chegar,
01:04:10por exemplo,
01:04:11num caldo maravilhoso
01:04:12que você vai
01:04:13deitar o seu hora pronobis ali,
01:04:16seja com franguinho,
01:04:17seja com alguma outra carne.
01:04:19Que delícia.
01:04:20Ou nem isso,
01:04:21só ele,
01:04:21o arrozinho branco.
01:04:23Já está bom demais.
01:04:24Já estamos até com fome.
01:04:25Não é?
01:04:27A gente está nessa mesa
01:04:28e já está com fome.
01:04:30Minas faz isso com a gente.
01:04:32Não tem jeito.
01:04:33Então, olha só,
01:04:34essa combinação,
01:04:36queijo, goiabada,
01:04:36coalhada, goiabada.
01:04:38Maravilhoso.
01:04:39Bolo, biscoito,
01:04:40eu nem falo.
01:04:40Ah, que você já conhece,
01:04:42cabarrado.
01:04:43Na mala, na mala.
01:04:46E um detalhe interessante
01:04:48do seu restaurante
01:04:49é que ele tem como símbolo
01:04:51um pássaro verde.
01:04:53Eu queria que você me explicasse,
01:04:55então,
01:04:56por que a escolha desse pássaro
01:04:59para representar a sua cozinha?
01:05:01Bom, naquele momento, assim,
01:05:03de quebrar,
01:05:06ninguém esperava,
01:05:08eu não avisei para ninguém.
01:05:10Foi uma decisão muito pessoal minha.
01:05:12Obviamente, as pessoas mais próximas
01:05:14sabiam, mas muito poucas.
01:05:17Eu fiz o último jantar
01:05:19do Roberto de Braga
01:05:19como se fosse um jantar normal.
01:05:22Não avisei a imprensa,
01:05:24ninguém,
01:05:24porque eu não queria
01:05:25esse estardalhaço.
01:05:27Eu não sabia
01:05:27que ia criar esse estardalhaço,
01:05:29mesmo,
01:05:30e também não queria.
01:05:32E eu estava num momento
01:05:34de realmente me libertar.
01:05:36Eu estava me sentindo
01:05:37muito presa,
01:05:40sabe?
01:05:41Por mais que eu não andasse...
01:05:43Nunca andei na...
01:05:44Nunca andei...
01:05:45Sempre andei contra a correnteza.
01:05:47Nunca andei junto com a correnteza.
01:05:49Se estavam usando
01:05:50muita máquina na cozinha,
01:05:52eu estava botando
01:05:53uma parrilha dentro da cozinha.
01:05:55Como te disse,
01:05:56o Francis Malm,
01:05:56meu amigo,
01:05:57ele foi cozinhar lá,
01:05:58e eu falei,
01:05:58cara,
01:05:59eu não posso botar isso aqui.
01:06:01Ele falou,
01:06:01pode, tanto pode,
01:06:02que quando eu for embora,
01:06:03você vai querer ficar com ela.
01:06:04Fiquei com ela na cozinha.
01:06:06O fogo sempre fez parte
01:06:08da minha cozinha,
01:06:09mas aí dá até
01:06:10botar uma parrilha
01:06:11só o Francis
01:06:12para me fazer
01:06:13cometer essa loucura
01:06:14e daí partir
01:06:15para o forno a lenha.
01:06:18Nunca usei
01:06:19nenhum dessas coisas
01:06:21de máquinas e coisas.
01:06:24Entendo.
01:06:25Hoje em dia,
01:06:26não critico mais,
01:06:27já critiquei muito,
01:06:28mas acho que
01:06:29cada um faz a sua comida
01:06:30como acredita
01:06:32e chega num resultado.
01:06:33se você chegou
01:06:33num resultado
01:06:34que você acredita,
01:06:35eu estou batendo palma.
01:06:36Mas a minha praia
01:06:38sempre foi
01:06:39fazer um pouquinho
01:06:41mais difícil.
01:06:43Eu brinco
01:06:44que aquele cozimento
01:06:46que ficou muito em moda,
01:06:48que era baixa temperatura,
01:06:50que era tudo
01:06:51naquela maquininha,
01:06:52no suvide.
01:06:53Eu tenho horror daquilo,
01:06:54principalmente
01:06:55porque eu sou gaúcha.
01:06:56Então,
01:06:57o assado,
01:06:58para mim,
01:06:58é uma coisa importante.
01:07:00Eu sou gaúcha
01:07:01apaixonada por Minas.
01:07:03já com sotaque mineiro.
01:07:05Aquilo ali,
01:07:06para mim,
01:07:06não dá.
01:07:07Sabe?
01:07:07É o fundo da panela,
01:07:09é o assado,
01:07:11é o assado
01:07:12por muito tempo
01:07:13na brasa.
01:07:14Então,
01:07:15eu nunca fui chegada
01:07:17a essas coisas.
01:07:19E sempre me forcei
01:07:22a fazer realmente
01:07:24um pouquinho
01:07:25mais difícil,
01:07:27porque eu sei
01:07:27que eu vou chegar
01:07:28no resultado
01:07:29que eu sei
01:07:32que é o melhor.
01:07:33Então,
01:07:33a gente chamava
01:07:34esse cozimento
01:07:35que eu fazia
01:07:36de baixa temperatura
01:07:38caseira.
01:07:38Botava no cardápio,
01:07:40caseira.
01:07:40Porque a gente fazia
01:07:41aquele da minha avó,
01:07:43que é botar
01:07:45a panela.
01:07:46Hoje em dia,
01:07:47eu boto a panela
01:07:48dentro do forno
01:07:49de barro
01:07:50quando acaba
01:07:51o serviço,
01:07:52em cima das brasas
01:07:54e no outro dia
01:07:55o meu assado
01:07:56está pronto.
01:07:57Que incrível.
01:07:59Então,
01:08:00enfim,
01:08:00são coisas assim
01:08:01que a gente vai...
01:08:02E aí,
01:08:03eu estava naquele momento
01:08:04assim,
01:08:05eu preciso dessa liberdade,
01:08:06eu preciso voltar a isso.
01:08:08Eu não sabia muito bem
01:08:10como ia ser esse lugar,
01:08:11eu só sabia
01:08:12que ia ter um forno a lenha
01:08:14e que eu achava
01:08:15que eu ia fazer
01:08:16algumas coisas na lenha,
01:08:17nem achava
01:08:18que ia fazer tudo.
01:08:19Bom,
01:08:22começamos a fazer
01:08:23a obra e tal
01:08:24e passa
01:08:25na liberdade,
01:08:26né?
01:08:26E aí,
01:08:27uma rolinha
01:08:30fez um ninho
01:08:32no lugar
01:08:32onde ia ser
01:08:33o salão interno
01:08:34onde o forno
01:08:35de barro fica.
01:08:37E aí,
01:08:38olha,
01:08:38a gente,
01:08:38infelizmente,
01:08:39vai ter que mover
01:08:40essa...
01:08:40Era um buganvilho,
01:08:42a gente vai ter que mover
01:08:42esse buganvilho.
01:08:44Falei,
01:08:44não,
01:08:44mas só depois
01:08:45que ela tiver
01:08:46a primeira ninhada.
01:08:49E aí nasceu
01:08:50a primeira ninhada
01:08:51e os passarinhos
01:08:53nascem verdinhos.
01:08:55Gente!
01:08:56E aí,
01:08:57bom,
01:08:57deu a primeira ninhada,
01:08:59todo mundo diz assim,
01:09:00olha,
01:09:00quando eles fazem
01:09:01uma ninhada,
01:09:02eles não fazem a segunda.
01:09:03Bom,
01:09:03quando estava tudo preparado,
01:09:05mandamos trazer
01:09:05uma bióloga
01:09:06para tirar
01:09:08o buganvilho
01:09:09dali,
01:09:09passar para um outro lugar,
01:09:10para dar tudo certo,
01:09:11a gente encontrou
01:09:12outro ninho.
01:09:12foram quatro ninhadas
01:09:14e eu atrasei
01:09:15a obra
01:09:16por causa
01:09:16de quatro ninhadas
01:09:19até ela ir embora.
01:09:20Eu ouvi o dia
01:09:21que ela voou,
01:09:22a gente chamava ela
01:09:22de Ofélia,
01:09:23de Amélia,
01:09:24que eu falava,
01:09:25você é que é a mulher
01:09:26de verdade,
01:09:27aquela música,
01:09:28porque era a obra
01:09:30e ela lá
01:09:31com os filhos dela
01:09:33assistir,
01:09:34ela cuidar
01:09:35daquelas crianças
01:09:36e todo mundo voar
01:09:37junto com ela,
01:09:39enfim.
01:09:39E aí foram
01:09:40quatro ninhadas.
01:09:41E aí, enfim,
01:09:43ia chamar Sud.
01:09:44Aí um belo dia,
01:09:45eu viajando,
01:09:46estava na França,
01:09:48que eu, enfim,
01:09:49normalmente vou à França
01:09:51e tal,
01:09:51que tem aqueles nomes
01:09:52esquisitos de restaurante,
01:09:55tem Le Chanc,
01:09:56Fouma,
01:09:57uma coisa,
01:09:58eu falei,
01:09:58sabe uma coisa,
01:09:59meu restaurante vai chamar
01:10:00uma coisa que não tem
01:10:01nada a ver,
01:10:02ninguém vai entender
01:10:03e não precisa entender,
01:10:04vou chamar Sud
01:10:05o Pássaro Verde.
01:10:06Eu entendo,
01:10:07tem a ver com liberdade
01:10:08e vamos embora.
01:10:10E foi isso que aconteceu,
01:10:11mas tem a ver
01:10:11com a Amélia,
01:10:13que foi a mulher de verdade
01:10:14que me inspirou.
01:10:17Muito boa essa história,
01:10:18eu não sabia.
01:10:20E aqui,
01:10:21completando a nossa mesa
01:10:23nos doces,
01:10:24temos agora
01:10:25mais duas provas.
01:10:27Olha só,
01:10:28o RIG Gastronomia,
01:10:29além dos salgados,
01:10:30mandou também doces.
01:10:31Esse aqui é um suspiro
01:10:33de rapadura.
01:10:34Nossa.
01:10:35E aquele ali
01:10:36é entremer
01:10:37de doce de leite
01:10:39com café.
01:10:40Aí é no coração, né?
01:10:42Esse aí,
01:10:43olha,
01:10:43é no coração,
01:10:44vamos nesse?
01:10:45Vamos, vamos.
01:10:46Que é uma maravilha.
01:10:48Deixa eu te passar
01:10:49para você servir
01:10:50e depois me ensinar.
01:10:51Tá, vamos lá.
01:10:53Olha só,
01:10:54que coisa linda, gente.
01:10:55Lindo demais,
01:10:55além de tudo,
01:10:56é lindo.
01:10:56É lindo demais.
01:11:05E você hoje,
01:11:07além do sud,
01:11:08você tem o da Roberta,
01:11:09que é uma cozinha
01:11:10ainda mais descontraída.
01:11:12Mais,
01:11:12que é o meu retorno
01:11:15à comida de rua,
01:11:16que é a minha grande paixão.
01:11:18Comecei com a minha avó
01:11:19realmente numa carrocinha
01:11:21vendendo cachorro-quente
01:11:22e me apaixonei
01:11:23por esse movimento
01:11:24de comida de rua,
01:11:25que, principalmente,
01:11:29um dos lugares
01:11:30onde eu vi
01:11:31prestarem mais atenção nisso
01:11:33foi na Alemanha,
01:11:35onde a comida de rua
01:11:36tem procedência,
01:11:39ela vende pequeno produtor,
01:11:41ela é feita
01:11:42com muito cuidado,
01:11:44muito artesanato mesmo.
01:11:47Então, você vai comer
01:11:48uma coisa descontraída,
01:11:49você pode estar em pé,
01:11:51você pode estar, enfim,
01:11:52sentado num banquinho de praça,
01:11:54mas você está comendo
01:11:55uma coisa de extrema qualidade
01:11:58com ingredientes de procedência
01:12:00e valorizando a pequena produção.
01:12:02Então, eu sou apaixonada por isso
01:12:04e o da Roberta
01:12:05tem essa expressão também
01:12:07muito livre da comida de rua
01:12:09do mundo inteiro,
01:12:11mas com ingredientes brasileiros.
01:12:12E tem o cachorro-quente
01:12:14lá do início?
01:12:15o cachorro-quente lá do início.
01:12:16As pessoas podem comer o cachorro-quente.
01:12:18Podem ir lá, comer o sud-dog,
01:12:19que ele vai...
01:12:20Esse não tem jeito,
01:12:21não tem como...
01:12:21Não tem como...
01:12:22O quiabo e o sud-dog não dá pra...
01:12:24Você não tem escapatória.
01:12:25Não tem, não.
01:12:26E tem um ano, né,
01:12:28que você assumiu a cozinha
01:12:30de um restaurante
01:12:32que fica no hotel lá em Gramado, né?
01:12:34É, na verdade,
01:12:35eu faço a curadoria
01:12:36do hotel inteiro.
01:12:37Ah, tá.
01:12:37O hotel se chama Ud,
01:12:39em Gramado,
01:12:40e o restaurante fica dentro
01:12:42do hotel,
01:12:43se chama Ocre.
01:12:45E eu brinco com os donos
01:12:47que eles...
01:12:48Quando eles me chamaram,
01:12:49eu fui pra dizer não.
01:12:50Eu fui criada
01:12:52meio Minas,
01:12:53meio Rio Grande do Sul.
01:12:55Então, Gramado
01:12:56é uma das cidades
01:12:57que eu passava muito férias,
01:12:59assim como em Minas,
01:13:01com a minha avó e com o meu avô,
01:13:02ali perto de
01:13:03Maiomirim, Pequiá,
01:13:05que é quase de vida
01:13:06com o Espírito Santo.
01:13:08Então,
01:13:09são os dois lugares
01:13:12que eu sempre relembro
01:13:13da minha infância.
01:13:15E, quando eu fui a Gramado,
01:13:17eu falei,
01:13:17não, eu vou,
01:13:18porque eu fui criada
01:13:19por a voz,
01:13:20fui muito bem educada,
01:13:22e mesmo que eu vá dizer não,
01:13:24eu tenho que ir lá.
01:13:25Estão me chamando,
01:13:25eu vou lá ouvir a proposta,
01:13:27mas é óbvio
01:13:27que eu vou dizer não,
01:13:28porque está muito longe,
01:13:30eu sou muito controladora,
01:13:32e não vou...
01:13:33Não vai dar certo.
01:13:34Quando cheguei lá,
01:13:35o Rio Grande do Sul também
01:13:36tem uma questão
01:13:37com a mesa,
01:13:39tem uma questão
01:13:40com o exagero,
01:13:42também,
01:13:42tem esse exagero afetivo
01:13:44que eu amo,
01:13:45e aquilo me pegou
01:13:46de um jeito
01:13:47que eu acabei dizendo
01:13:50o não,
01:13:50mas sim da minha vida.
01:13:52O Ocre fez um ano agora,
01:13:54e lá eu estou podendo
01:13:56fazer o trabalho
01:13:57que eu me dediquei
01:13:58a vida inteira,
01:13:59que é justamente
01:14:01a gente tem um bar
01:14:02de charcutaria,
01:14:04onde eu reúno
01:14:05charcutaria e queijos
01:14:06do Brasil inteiro,
01:14:08e a gente fica fazendo
01:14:10uma troca de tempo em tempo,
01:14:11porque é tanta coisa
01:14:13que a gente tem
01:14:14para servir.
01:14:14Você vê,
01:14:14esse queijo maravilhoso
01:14:16que a gente provou
01:14:18para...
01:14:19Quem sou eu
01:14:20para dar o aval,
01:14:20mas ele está maravilhoso,
01:14:22ele nem entrou
01:14:23no mercado ainda.
01:14:24Então,
01:14:24eu faço uma curadoria
01:14:26constante.
01:14:27Então,
01:14:27a gente não tem como
01:14:28colocar todos
01:14:29de uma vez,
01:14:30a gente fica colocando
01:14:31aos poucos.
01:14:32eu tenho na charcutaria,
01:14:34eu tenho presunto,
01:14:37presunto crude
01:14:38do interior de Pernambuco,
01:14:40sabe?
01:14:40Tenho queijo maturado
01:14:42em caverna,
01:14:43no interior de Goiás.
01:14:45Que legal!
01:14:45Coisas incríveis!
01:14:47Então,
01:14:47isso me diverte muito,
01:14:48eu fico muito feliz
01:14:49de fazer.
01:14:50E a questão
01:14:51do acolher,
01:14:53para mim,
01:14:53ela é fundamental.
01:14:55Então,
01:14:55quando eu aceito,
01:14:55eu já não ia aceitar
01:14:57uma coisa.
01:14:57Aí eu falei,
01:14:58eu aceito,
01:14:59mas eu quero o pacote inteiro,
01:15:00eu quero cuidar do hóspede,
01:15:01desde a hora que ele chegar,
01:15:03quero cuidar dele
01:15:04no café da manhã,
01:15:06quero cuidar dele
01:15:07no jantar.
01:15:08Está sendo muito gostoso,
01:15:10está sendo muito gratificante,
01:15:11principalmente por poder
01:15:12estar fazendo esse trabalho
01:15:14com os pequenos produtores,
01:15:15que são
01:15:18o porquê da minha vida.
01:15:20E,
01:15:21considerando,
01:15:21então,
01:15:22todos esses projetos
01:15:23que você está atualmente,
01:15:25como que você diria
01:15:26que momento é esse
01:15:27da sua carreira
01:15:28que você está vivendo
01:15:29hoje,
01:15:30com os dois restaurantes,
01:15:31do Rio,
01:15:32com esse projeto lá
01:15:33engramado,
01:15:34como é que você diria,
01:15:35que momento é esse
01:15:35que você está vivendo?
01:15:36Um momento de mais liberdade
01:15:37que eu tive,
01:15:38que é o que o sul
01:15:40de O Pássaro Verde
01:15:41quer dizer,
01:15:41que é o que eu fui procurar,
01:15:44que é
01:15:44de continuar
01:15:46fazendo as coisas
01:15:47que eu acredito,
01:15:48claro que o rigor
01:15:50técnico,
01:15:51o rigor de execução,
01:15:52o rigor de qualidade,
01:15:53eles vão continuar,
01:15:54mas de uma maneira
01:15:56mais leve.
01:15:57Então,
01:15:57eu me sinto leve,
01:15:58eu me sinto livre,
01:15:59eu me sinto muito feliz.
01:16:01E para a gente
01:16:02encerrar,
01:16:03pegando esse...
01:16:04E esse entretenimento
01:16:05é uma coisa de novo.
01:16:06Maravilhoso,
01:16:06né, Roberta?
01:16:08Depois,
01:16:09quando acabar,
01:16:09a gente termina
01:16:10de comer tudo.
01:16:15E usando o Pássaro Verde
01:16:17como uma metáfora,
01:16:19eu quero que você me fale,
01:16:21quais são os seus próximos voos?
01:16:24Para onde você quer voar?
01:16:25Ah, eu sempre,
01:16:26eu aprendi,
01:16:27depois de tantos voos,
01:16:29assim,
01:16:29alguns programados
01:16:31e outros não,
01:16:31eu aprendi que a gente deve
01:16:34deixar a vida levar a gente.
01:16:37Eu não imaginei
01:16:38que eu fosse parar
01:16:39no Rio Grande do Sul
01:16:39de novo e acabei
01:16:41indo parar lá.
01:16:43Tenho de novo
01:16:44uma relação fortíssima
01:16:45com a minha equipe,
01:16:48faço visitas constantes
01:16:49e, quando não estou lá,
01:16:52sinto falta deles.
01:16:53Então,
01:16:54tudo que eu faço
01:16:55é com muito envolvimento.
01:16:56Então,
01:16:57os próximos passos,
01:16:59que eles venham,
01:16:59mas que eles consigam me fazer
01:17:01ter esse envolvimento.
01:17:02eu tenho orgulho de falar
01:17:04que nunca fiz nada por dinheiro.
01:17:06Isso é muito importante,
01:17:07eu acho,
01:17:08porque,
01:17:09quando você está falando
01:17:10em comida,
01:17:11você está falando em alimentar,
01:17:12você está falando em abraçar,
01:17:13você está falando em acolher,
01:17:15realmente.
01:17:16E isso realmente
01:17:17não tem nada a ver com dinheiro.
01:17:18Isso tem a ver com doação,
01:17:20isso tem a ver com estar presente.
01:17:21Ainda que eu não esteja
01:17:24em Gramado,
01:17:25por exemplo,
01:17:26eu sei que o que eles estão fazendo lá
01:17:27tem um nível de entrega
01:17:30e de envolvimento comigo
01:17:31e com a minha filosofia
01:17:32que permite eles fazerem
01:17:34uma comida que vai acolher
01:17:35da maneira que eu gostaria.
01:17:37Que bom.
01:17:38Olha,
01:17:38muitíssimo obrigada.
01:17:40Um prazer muito grande.
01:17:41Foi uma alegria ter você
01:17:42aqui na nossa mesa,
01:17:43compartilhar com você
01:17:45essas delícias.
01:17:46Incrível.
01:17:47Viu?
01:17:47Obrigada mesmo.
01:17:48Eu fiquei muito feliz,
01:17:49muito feliz de te rever,
01:17:50muito feliz de estar em Minas novamente
01:17:52e muito feliz de comer
01:17:54todas essas delícias aqui
01:17:55que a gente vai continuar agora.
01:17:56Vamos.
01:17:58Olha,
01:17:59eu convido você também.
01:18:01Chega mais essa mesa aqui.
01:18:02Mas a gente já está encerrando.
01:18:04Muitíssimo obrigada também a você
01:18:05que ouviu esse papo
01:18:07com essa presença maravilhosa
01:18:08da Roberta
01:18:09e aguarde que em breve
01:18:11a gente volta com o próximo episódio.
01:18:13Enquanto isso,
01:18:14você vê lá o nosso conteúdo
01:18:16no site
01:18:18em.com.br
01:18:19barra degusta.
01:18:20No impresso a gente tem caderno
01:18:22às segundas e às quintas
01:18:24e no Instagram
01:18:26a gente está lá no
01:18:27arroba degusta.em.
01:18:29Muito obrigada
01:18:30e até o próximo episódio.
01:18:32Tchau.
01:18:33Tchau.
01:18:34Tchau.
01:18:34Tchau.
01:18:35Tchau.
01:18:38Tchau.
01:18:42Tchau.
01:18:43Tchau.
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