- há 19 minutos
4- Qual Futuro?
Discute a preservação das línguas indígenas e questiona se já podemos afirmar que falamos uma "língua brasileira".
Discute a preservação das línguas indígenas e questiona se já podemos afirmar que falamos uma "língua brasileira".
Categoria
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AprendizadoTranscrição
00:16O português é um negro dentre as euro-línguas.
00:21Ela não é portuguesa, ela é a língua brasileira, e a língua brasileira não é a única língua do Brasil.
00:26Nós somos produtos de cultura diferente.
00:28Então é interculturalidade que a gente vive.
00:32Eu tenho uma língua que eu sempre quis saber que era carioca.
00:36Portanto, ou os portugueses se fecham na sua fortaleza, ou então aceitam que a sua língua é o brasileiro.
00:43Mas eu me sinto muito acolhida quando eu vejo um bem-vindo em algum lugar, sabe?
00:48A língua é viva e as pessoas têm que ignorar isso.
00:50Eu digo, meu Deus, como é que essa Nelly Jean aqui pôde amar essa língua com tanto fervor desde a
00:58infância?
00:58Qual é o gen da língua?
01:01Gen que ginga na linguagem?
01:05As línguas que a nossa língua tem.
01:31A língua é viva e a língua é viva e a língua é viva.
01:39A língua sem arcaísmo, sem erudição, natural e neológica.
02:02A contribuição milionária de todos os erros, como falamos, como somos.
02:26A garantia do caipira era o fio de bigode, né?
02:30Tirava um fio de bigode, fazia uma compra aí de 100 cabeças de gado e dava um bigode
02:37pra garantia.
02:38Na hora que ele pagava, ele recebia o fio de bigode.
02:43O caipira não tem jeito de mentir.
02:46O que ele fala, ele não consegue mentir.
02:48O caipira, ele fala a verdade.
02:52Você tem no português popular, eu trabalho, tu trabalha, ele trabalha.
02:57Nós trabalha, vocês trabalham, eles trabalham.
03:00E é uma forma altamente estigmatizada, discriminada, considerada como uma marca de inferioridade,
03:07de quem fala assim, cultural, mental, pra legitimar um sistema de exclusão social, de superexploração
03:16da força de trabalho.
03:17E isso legitima.
03:18Porque se ele não sabe nem falar a sua língua, ele tem que ganhar um salário miserável
03:25mesmo, porque é um sujeito incapaz.
03:27E isso é um mito que a gente tem que desconstruir.
03:30Por quê?
03:32Basta você fazer um paralelo básico com o inglês, que você tem o quê no inglês?
03:39Simplificação.
03:40Simplificação.
03:40We work, you work, they work.
03:43É a mesma estrutura do português popular.
03:46E isso mostra que o prestígio linguístico não é uma questão de natureza lógica, estrutural,
03:53como se quer discutir.
03:54Mas está externo.
03:55Não é?
03:55Vem do externo.
03:56É uma convenção.
03:58Isso é uma mera convenção.
03:59Quer ver uma coisa interessante?
04:01Comparando Brasil e Portugal.
04:03Aqui as pessoas até...
04:05Por exemplo, ah, eles trabalham, é destino.
04:08Mas até em alguns contextos, as pessoas...
04:10Ah, tu foi lá ontem?
04:12Tu veio?
04:13E pra nós, pra muitos lugares onde se usa o tu, isso é aceito, né?
04:20Muito mais aceito do que a gente vamos, a gente trabalhamos.
04:24Que é aqui...
04:24O mesmo fenômeno, né?
04:25É, não.
04:26Mas assim, agora o que é interessante, que em Portugal, eles assimilaram muito mais
04:32o a gente vamos, a gente trabalhamos, você... eles ouvem, aceitam muito mais, assim,
04:40porque como a gente corresponde a nós, então a gente vamos, a gente trabalhando.
04:45Que não vai dar.
04:46Que se não der, eu vou falar, hein?
04:51Vem aqui, vem curtir, o band do Tiri. Vem aqui, vem curtir, o band do Tiri.
04:58Que você vai ficar louca.
05:00O que vocês acham que eles estão fazendo agora lá em cima?
05:02Estão vendo o quê? Estão fazendo o quê?
05:04Agora estão muito provavelmente a jogar.
05:06Jogaram.
05:07Um com o outro, e dar dicas um ao outro.
05:10No Teams, talvez.
05:11Falar com o Zoro Pum.
05:13Que você vai ficar louca.
05:15Como o band do Tiri.
05:17A minha língua é muito louca.
05:19O band do Tiri.
05:22Vem aqui, vem curtir, o band do Tiri.
05:26Tem uma língua que eu sempre quis saber que era carioca.
05:29Como falam, acho que é muito engraçado.
05:33E também muito... e é bom pra eu aprender.
05:37Tem que se esforçar pra conseguir aprender a falar igual ao Brasileiro.
05:42Já que você vai... se você morar lá, por exemplo.
05:45Sim.
05:47Igual como eu estou me esforçando pra aprender português.
05:49Falar é português, português, mas é outra língua.
05:53Sim.
05:53É outra língua.
05:54É português, é português, mas eu falo.
05:56Devia ser duas línguas diferentes.
05:57É português e brasileiro.
05:59Brasileiro.
06:00O português do Brasil é muito mais samba, é muito mais aberto.
06:02É muito mais... alegre.
06:04É mais divertido.
06:05Assim, o Caio fala palavras que eu não entendo, mas eu já sei o significado das palavras.
06:14Porque como eu não entendo as outras palavras, então depois eu pesquiso no Google as palavras que eu não entendo
06:22e as palavras que eu não entendo, o Caio fala e eu entendo o que é que ele está a
06:28dizer.
06:29Agora há aí palavras traiçoeiras que muita gente tem, mas tem bastante.
06:34Puto em português de Portugal é só uma criança, só um rapaz pequeno.
06:38Rapaz pequeno.
06:39Não é nada mais do que isso.
06:40É, mas a questão da rapariga aqui em Portugal é comum.
06:46Lá no Brasil não pode.
06:48É uma ofensa chamar uma mulher de rapariga.
06:51De rapariga.
06:52Então assim, são algumas coisas que tem que tomar cuidado.
06:55Uma mulher do vivo.
06:56É, exatamente.
06:58É a famosa mulher da vida.
07:00O moço eu quase apanhei.
07:02Quem te chama é o moço?
07:04O moço.
07:05Eu não sou teu criado.
07:07Quase me bateu.
07:09Ele falou, moço não.
07:11Me respeita.
07:12Eu falei, nossa, desculpa aí.
07:14Oi?
07:14Como assim?
07:16Desculpa.
07:17Descarga, eu não sei.
07:19É...
07:21Autoculismo.
07:22Eu sempre esqueço da palavra.
07:25Descarregas o autoculismo.
07:27Não te esqueças.
07:28Tô tentando aprender português.
07:31Estou me esforçando no máximo para português.
07:44Desde os anos 70, de fim dos anos 70, quando começaram as telenovelas brasileiras aqui,
07:50sobretudo com a primeira, que fez uma imensa impressão,
07:54Gabriela Cravo e Canela.
07:56A partir desse momento, os portugueses começaram a ouvir
07:59outra maneira de exprimir-se, muito interessante, muito criativa, muito musical e muito expressiva também,
08:10e começaram a autotalar.
08:11E, portanto, aos poucos, os portugueses começaram a usar maneiras brasileiras de se exprimir.
08:21Agora, isto é absolutamente unilateral, porque no Brasil isto não se deu com o português de Portugal.
08:30Eu perguntei aos meus amigos brasileiros, alguns, vamos dizer, universitários,
08:37deem-me o exemplo de uma palavra que nos últimos 30, 40 anos se tenha espalhado, generalizado no Brasil,
08:46e que vocês digam que isso veio de Portugal.
08:52Porquê que não tem youtuber português?
08:55Eu tenho, mas nós não vemos.
08:58Tem, mas para mim...
09:00Há alguns vêm, mas...
09:01Para mim, os youtubers portugueses, sim, ofensa, gostavam, são...
09:08Não gosto.
09:09Porque eles não fazem muita coisa que nós gostamos da nossa geração mesmo.
09:16Mas um...
09:16Eu gosto de isoação, essas coisas.
09:19E de jogos.
09:22Isso.
09:24Agora, os seus pais não ficam, assim, preocupados de você ver tanta besteira, não?
09:32Eu fico com o meu.
09:35Eu digo algumas palavras em brasileiro.
09:38E os meus pais ficam meio preocupados quando eu falo em brasileiro.
09:45É?
09:45Porque eles já não...
09:49Já entendi que eles já não ficam muito habituados a eu falar algumas palavras,
09:55porque eles sabem que estamos aqui em Portugal e podemos não ir para o Brasil.
10:02Então...
10:03Não...
10:04Não acho muito correto o que eu digo.
10:09Alguns momentos é difícil...
10:12Ou para vocês incomoda um pouco o Gustavo aprender palavras...
10:18Sim, sim.
10:18No YouTube...
10:19Que vocês não sabem, por exemplo.
10:22Vocês já...
10:23Eu acho que é uma vantagem.
10:25Assim também enriquecemos o nosso...
10:27O nosso vocabulário.
10:28Acho que...
10:29Cada vez mais o mundo fala a mesma língua, não é?
10:32É importante a...
10:33A globalização.
10:35E apesar de tudo, no Brasil, o português...
10:38Se procurarmos no Duolingo, é sempre português do Brasil.
10:41Quais está aí?
10:42Que ensina ao mundo, não é?
10:43Sim.
10:43E acaba por também nos ajudar a não deixar que seja uma língua...
10:48Que vai acabar com o tempo.
10:50Incomoda-me quando ele usa as expressões em português do Brasil.
10:53Principalmente em termos verbais.
10:55Porque eu já sei que ele vai escrever aquilo no teste da escola.
10:58No teste da escola.
10:59Porque já não é a primeira vez.
11:03Agora, é mais difícil para o português entender o brasileiro
11:06ou para o brasileiro entender o português?
11:08Acho que é ao contrário.
11:09Eu acho que o brasileiro é mais difícil para o português.
11:13Para mim, o português é mais difícil de entender o brasileiro.
11:17Então é os dois.
11:18Sim.
11:20Para o português é mais difícil de entender o brasileiro.
11:23E para o brasileiro é mais difícil de entender o português.
11:27Por isso é os dois.
11:27Um beijo.
11:37Entre nós e as palavras há metal fundente.
11:41Entre nós e as palavras há hélices que andam e podem dar-nos morte.
11:48Violar-nos, tirar do mais fundo de nós o mais útil segredo.
11:55Entre nós e as palavras há perfis ardentes.
12:00Espaços cheios de gente de costas.
12:04Altas flores venenosas, portas por abrir.
12:09Escadas e ponteiros e crianças sentadas à espera do seu tempo e do seu precipício.
12:17Ao longo da muralha que habitamos, há palavras de vida, há palavras de morte.
12:24Há palavras imensas que esperam por nós e outras frágeis que deixaram de esperar.
12:33Há palavras acesas como barcos.
12:36E há palavras noturnas.
12:39Palavras gemidos.
12:42Palavras que nos sobem ilegíveis à boca.
12:46Palavras diamantes.
12:49Palavras nunca escritas.
12:51Palavras impossíveis de escrever.
12:54Palavras fato de viver.
12:55Palavras
13:20Palavras
13:21Palavras
13:22Palavras
13:25Normalmente, todas as plateias ficam estéricas nesta parte.
13:28Querem muito ouvir falar sobre ortografia.
13:34É uma das paixões do brasileiro.
13:36É, exatamente.
13:37É futebol.
13:37É certo, meus amigos, é que...
13:40Mas realmente, reparem, alguém pensou o seguinte.
13:43Como é que a gente há de aproximar esta nossa língua?
13:48Como é que a gente há de aproximar, torná-la, digamos, mais una?
13:54Não é?
13:54E pensaram, é pela ortografia.
13:59Ora, a ortografia é provavelmente o único ponto em que a gente não tem desentendimento nenhum.
14:05Se eu, em vez de estar a falar, estivesse a escrever, nós não tínhamos nenhum problema a entendermos.
14:10Nenhum.
14:12Em Portugal, o que o acordo ortográfico fez foi que caíram algumas consoantes mudas.
14:18Que são consoantes que para um português fazem muita falta porque abrem a vogal.
14:23E a gente, normalmente, não abre.
14:25Portanto, quando a gente tinha um C, antes do T, na palavra arquitetas, a gente dizia arquitetas.
14:34Agora caiu o C e a gente diz arquitetas.
14:39E são palavras muito diferentes.
14:43Porque arquitetas são senhoras que desenham edifícios.
14:49Arquitetas.
14:51Como a própria arquibancada é a maior bancada.
14:53O arqui-inimigo é o maior inimigo.
14:56E, portanto, as arquitetas...
14:59Como é evidente, são as maiores tetas.
15:03Ora, isto induz as pessoas ao engano.
15:07Porque está-se a falar de arquitetura e não de coisas que interessam.
15:15Qual é o problema?
15:17O acordo, reparem, na frase...
15:19Eu estou no acostamento porque a minha perua não tem estepe.
15:25O acordo ortográfico não interveio em nenhuma dessas palavras.
15:29Essa frase, em português do Brasil, tem um significado.
15:35Em português de Portugal, a frase...
15:38Eu estou no acostamento porque a minha perua não tem estepe.
15:41Significa...
15:42Eu estou encostado porque o meu peru do sexo feminino...
15:45Não tem uma planície típica da Mongólia.
15:52Em Portugal, nós dizemos essa frase...
15:54Eu estou na berma da estrada porque a minha carrinha não tem pneu subcelente.
16:01Não é por causa da ortografia que a gente não se entende.
16:04Às vezes é por sintaxe, semântica...
16:06A maior parte das vezes é por fonética, é pelo sotaque.
16:11Foi a ideia mais estúpida.
16:13Sim, nunca é por causa da ortografia.
16:15Eu acho que foi uma espécie de...
16:18Tomada de três pinos linguística.
16:21Que aqui nós temos uma tomada de três pinos.
16:23Foi algo que também ninguém pediu.
16:24Ninguém olhava para a tomada e falava...
16:25Está faltando alguma coisa.
16:27Ninguém nunca sentiu falta daquele pino.
16:29Ninguém nunca...
16:30E eu acho que é a mesma coisa.
16:32Ninguém olhava assim...
16:32Está faltando unificar a grafia, hein?
16:35Porque a desculpa deles era...
16:37Tem que aumentar o intercâmbio entre Brasil e Portugal.
16:41O brasileiro tem que ler mais literatura portuguesa.
16:43O português tem que ter mais literatura.
16:44Então vamos unificar.
16:45O brasileiro não estava lendo Camões.
16:47Não era por causa do C a mais em contacto.
16:51Ai, estava uma delícia esse Lusiasmo.
16:53Esse contacto aqui me fodeu.
16:54Vou parar.
16:57Não é por isso que o brasileiro não está lendo literatura portuguesa.
17:01E eu fico revoltado com essa solução para esse problema que não havia.
17:05Que nós nos entendíamos muito bem.
17:07E agora, de repente, você tem que jogar fora todos os livros anteriores.
17:10Aí ninguém mais sabe...
17:10Alguém sabe se Pão de Ló tem hífen em pé de meia não ou se é o contrário?
17:15Ninguém mais sabe onde ficou a porra do hífen em lugar nenhum.
17:18Tiraram de lugares muito importantes, como, por exemplo, de Cocô Mandante.
17:26Agora é o Cocô que é Mandante.
17:30Esse e tantos hífens eram fundamentais sem falar no trema.
17:34Hoje em dia se fala linguiça.
17:37Parece que enguiçou, justamente.
17:40Sequestraram 50 tremas.
17:43Que a gente usava tão frequentemente.
17:48Não dá para dormir tranquilo.
17:50Não dá.
17:51Os pinguins perderam seus pinguins, justamente.
17:55É uma tristeza total.
17:57Então eu sofro muito com o fim do trema.
18:00E com esse problema que hoje em dia você não sabe mais como escrever.
18:04Ninguém sabe as regras do hífen.
18:06Não que antes fosse uma coisa que eu soubesse de coca.
18:11No Portugal tem uma coisa que eu adoro, que é vários cronistas têm baixo assim.
18:15E isso é muito brasileiro e português.
18:18Este autor não segue o acordo ortográfico.
18:20Sim, sim.
18:21No Brasil você não tem essa oportunidade.
18:23O que acontece é que o acordo tinha como objetivo unificar a grafia em todos os países que falam português.
18:31E não conseguiu unificar a grafia em Portugal.
18:36Neste momento em Portugal há jornais que seguem o acordo ortográfico, mas têm colunistas que não seguem.
18:44Há jornais que não seguem, mas têm colunistas que seguem.
18:47E há um jornal que diz, nós seguimos o acordo ortográfico, exceto quando é estúpido.
18:55E então eles fazem, por exemplo, aconteceu uma coisa, há palavra para, do verbo parar.
19:02Para os brasileiros não faz diferença, porque vocês dizem para, por causa dessa brincadeira de abrir as vogais.
19:10Mas um português, se não estiver lá o acento na palavra para, a gente lê para.
19:16É uma preposição.
19:17E portanto na frase, ninguém para o Benfica, eu não sei se é ninguém para o Benfica, ninguém para o
19:24Benfica, ou não vem ninguém para o Benfica.
19:32A língua portuguesa, como as línguas românicas, em geral, elas são muito machistas.
19:39Repara, todas as palavras que têm uma conotação negativa, são sempre do feminino.
19:45Você vê, você não tem puto, você tem puta.
19:49Não é isso?
19:50E todas as outras palavras que você usa no...
19:53Por exemplo, tem um amigo meu, o João do Costa Lima, e o Vivaldo se dizia,
19:57e ainda se essa língua portuguesa não fosse uma língua tão machista, eu diria que você é uma mulher mundana.
20:04Quer dizer, você pode dizer, ele é um homem mundano.
20:06Tudo bem, você dizer, mulher mundana é outra coisa.
20:09É, virou outra coisa.
20:09É, virou outra coisa.
20:10Então você vê que a língua é machista.
20:13Então não valoriza nunca o trabalho da mulher, sem trabalho do homem.
20:16Porque o escravo, o escravo, porque nunca fala da escrava.
20:19Então nós temos, o estudo, exatamente o que eu faço, é uma ciência que se chama de etnolinguística,
20:27que é exatamente separar esses conceitos, entendeu?
20:30Esses preconceitos que existem dentro da língua com as palavras.
20:34Como é que as palavras se transformam simplesmente em preconceito?
20:37As pessoas africanas também têm esse preconceito, vamos dizer assim?
20:43Não, não tem gênero nas línguas africanas, não existe gênero.
20:45Não tem gênero macho, nem firme, nem neutro.
20:47Não existe gênero.
20:50Não tem gênero, não é bom.
20:51Não tem gênero.
20:53Essa é boa.
20:54Não tem gênero.
20:54Se eu gostei.
20:55Não tem gênero nem sexo.
20:57Nós não pode usar sexo na Brasília.
21:00Não tem gênero.
21:01Não tem gênero.
21:02Não tem gênero, tá bom.
21:03As palavras, não tem gênero, não tem resolvido, entendeu?
21:07Então você pode ser o que você quiser e vai entender.
21:09Entendi.
21:09Daí a questão da biaginismo, do homossexualismo, entendeu?
21:14Os terreiros de candomblé, é parte disso também.
21:17Começa a partir disso também.
21:19E os candomblé até é.
21:20É, é parte disso.
21:22Mas o inglês é assim, meio não tem gênero.
21:24É, o inglês também.
21:25O inglês é uma língua bem anômal, né?
21:27Entre as línguas acidentais.
21:29Bem anômal.
21:30Mas português, francês, pelo amor de Deus.
21:37Eu costumo falar bastante com o pessoal que a linguagem neutra, ela é nada mais é do
21:42que a validação da nossa assistência, né?
21:44Sim.
21:44Pelo menos, é muito doido, porque quando eu era mais jovem, assim, quando eu tava começando
21:49a me entender como uma pessoa não binária, eu não curtia a linguagem neutra.
21:53Eu achava que era coisa de gente elitista, da faculdade.
21:56Inclusive, eu lembro de uma situação bem específica, que me perguntaram o que eu achava sobre
22:01o uso de linguagem neutra, né?
22:03E a minha pergunta foi o que eu achava desnecessário.
22:05Nossa!
22:06E hoje eu sou uma pessoa que só utilizo pronomes neutros, né?
22:10Na verdade, eu só utilizo o pronome emo dentro de todos os conjuntos de linguagem neutra, né?
22:15É uma conversa que eu tenho em todos os lugares, praticamente.
22:18Quando eu tenho energia pra discutir isso, né?
22:20É, quando eu tenho energia, né?
22:22Porque depois de um tempo, depois de tanto discutir, depois de...
22:25Primeiro a gente discute com a gente, aí depois a gente tem que discutir com as pessoas
22:30e tentar sempre dizer o quanto é importante.
22:33E ninguém nunca entende o quanto é importante, porque todo mundo que é cis já tá muito
22:38habituado a se identificar com aquilo e tá tranquilo e é natural.
22:43E às vezes as pessoas não entendem o quanto é agressivo, o quanto é extremamente agressivo,
22:48aquela invalidação.
22:49e fazem de uma maneira tão naturalmente cruel que choca.
22:57Eu acho que também tem muito a ver que a gente foi socializado onde existia a só a binariedade,
23:03o homem e a mulher.
23:05Então, se você não estava no espectro mulher, você tinha que ser homem.
23:12Eu, por exemplo, eu transicionei há uns oito, nove anos, ainda nem se falava bem sobre
23:17homem trans, sobre não binário.
23:19Então, além de você ter que se desconstruir, ter que se entender, você tem que entender
23:27que você larga a mão de vários privilégios.
23:31O privilégio do trabalho, o privilégio da família, o privilégio de amigues.
23:37Mas eu me sinto muito acolhida quando eu vejo um bem-vinde em algum lugar, sabe?
23:42E pode parecer muito pouco para quem teve a ideia de, de repente, colocar uma placa
23:46de bem-vinde na frente de um bar.
23:48Mas, para mim, ali, eu leio tanta coisa naquelas letrinhas, sabe?
23:53Eu leio a que a gente lhe respeita, a que a gente lhe acolhe, a que você existe, sabe?
23:59E é uma coisa tão pequena que traz tanta coisa boa.
24:04Eu não preciso chegar e dizer, ah, mar está sentado.
24:10Eu posso dizer, mar se sentou, pronto, é neutro.
24:14Eu não estou dizendo, não estou falando nada sobre o gênero da pessoa.
24:17Não quero destruir a sua família, eu quero só que você me chame de ele, ele ou ela, né?
24:23Cada pessoa.
24:24Mas, muitos homens têm dificuldades de aceitar, principalmente, travestis e transfemininas,
24:30porque essa coisa de, como assim você não quer ser homem?
24:35Você tem o poder todo na sua mão e você vai tirar?
24:39Não, e aí eles ficam, tipo, são muito mais agressivos, com muitas manas.
24:45Elas são as que apanham mais ainda, tipo, em comparação de pessoas trans.
24:51Elas são as que são mais abusadas.
24:53Então, tipo, por causa dessas questões machistas, dessas coisas que os caras não querem desconstruir.
25:00Então, quando a gente fala de linguagem neutra, a gente não está falando de mimimi,
25:04a gente não está falando de militância, a gente está falando de prevenção do suicídio,
25:07a gente está falando de garantia de direitos, a gente está falando de direitos básicos a existir,
25:12a ter o seu nome respeitado, a ter os seus nomes respeitados,
25:15e conseguir existir em sociedade de uma forma que seja minimamente respeitosa.
25:20Não precisa ser acolhedora, porque a sociedade não é acolhedora com a gente,
25:24mas minimamente respeitosa.
25:25E é importante a gente ter pessoas que a gente confia,
25:30pessoas que apoiem a gente, que apoiem o nosso pronome.
25:34Uma rede de apoio, né, assim, com as suas queridas.
25:37E pessoas cis que contem a nossa luta com a gente, né,
25:40porque são as pessoas cis que têm espaço.
25:42Se as pessoas cis não ajudarem a gente, não abrirem portas com a gente,
25:48a gente...
25:49Pois é.
25:51A gente tenta arrombar, né?
25:53É.
25:54Vai com o pé na porta.
25:55Se não abre, a gente tenta arrombar.
25:56Acho que é por isso que eu estou com o pé torcido.
26:03Lutar com palavras é a luta mais vã.
26:07Entanto, lutamos mal rompe amanhã.
26:10São muitas, eu pouco.
26:12Algumas, tão fortes como o javali.
26:15Não me julgo louco.
26:17Se o fosse, teria poder de encantá-las.
26:20Mas, lúcido e frio, apareço e tento apanhar algumas para meu sustento num dia de vida.
26:28Deixam-se enlaçar tontas a carícia e súbito fogem e não há ameaça e nem há serviço que as traga
26:35de novo ao centro da praça.
26:39Insisto, soleste, busco persuadi-las.
26:43Ser-lhes é escravo de rara humildade.
26:46Guardarei sigilo de nosso comércio.
26:49Na voz, nenhum travo desanga o desgosto.
26:54Sem me ouvir, deslizam, perpassam levíssimas e viram-me o rosto.
26:58Lutar com palavras parece sem fruto.
27:02Não tem carne e sangue.
27:04Entretanto, luto.
27:11O que é a literatura brasileira na sua visão?
27:16Pois é, esse conceito é interessante porque a gente é elevado, né?
27:21A gente é ensinado, é doutrinado a acreditar que a literatura brasileira é aquela literatura escrita nessa língua chamada de
27:29português.
27:30Que eu insisto, né? Gosto de insistir em dizer que não é exatamente portuguesa, é a língua brasileira, né?
27:37A literatura brasileira, se a gente for considerar o patrimônio produzido, narrativo, poético, né?
27:44De cantos produzidos nesse território que é chamado de Brasil, em que o Estado do Brasil controla, ele não é
27:51só português, em primeiro lugar.
27:53Não pode ser só aquilo que foi produzido nessa língua chamada portuguesa, a língua comum que nós usamos, né?
28:01Você tem que incluir também o patrimônio nativo, né?
28:05Patrimônio indígena, primordial, original.
28:09E aí você tem, por exemplo, para a história dessa literatura brasileira, da cultura brasileira,
28:15você tem textos fundamentais que foram escritos, até não foram escritos em línguas indígenas,
28:21mas foram escritos em outras línguas europeias, como, por exemplo, francês.
28:26Então, uma das primeiras, se não a primeira documentação de um ciclo mítico, né?
28:31Quase completo, dos Tupinambás, foi escrita em francês, pelo padre André Tevez, né?
28:40Então, isso não está na literatura brasileira, né?
28:44Quem se forma em professor de literatura brasileira não conhece essa obra, porque não se estuda isso.
28:51Isso está excluído do cânone, isso está excluído do conhecimento do que é.
28:57E esse livro, ele é fundamental, porque o documento, o que ele documenta é algo absolutamente espetacular.
29:05Ou seja, a literatura brasileira, ela parte do princípio de que o português é a língua, e só, né?
29:12E esquece livros, por exemplo, mesmo escritos em outras línguas europeias,
29:15mas cujos assuntos são fundamentais para nós, para a história do território que nós vivemos, né?
29:25Então, não estou nem chamando de nação, é porque não acredito muito nesse conceito.
29:30Mas é o território, nós estamos aqui, tem um Estado, né?
29:33Tem um Estado, e esse Estado existe, ele é concreto, né?
29:36Ele impõe coisas e ele domina o território.
29:40E a história desse território, então, passa a ser importante para quem mora nele, né?
29:44Para quem vive nele, né?
29:45É uma das formas subjetivas de você criar identidades, né?
29:49Mas essas coisas são excluídas, né?
29:51Porque se tem uma visão ainda colonizada de que a língua do Brasil é a língua portuguesa.
29:58Ela não é portuguesa, ela é a língua brasileira, e a língua brasileira não é a única língua do Brasil.
30:03Ela é uma das...
30:06Muitas.
30:06Muitas.
30:08Duzentas, trezentas, né?
30:10Quantas foram.
30:12Duzentas, trezentas, né?
30:13Muitas foram.
30:13Duzentas, trezentas, né?
30:20Duzentas, trezentas, né?
30:34Amém.
31:03Amém.
31:21O processo de escolarização dos Baniwa entrou por um objetivo, que foi basicamente de aprender a ler a Bíblia, que
31:33foram inicialmente produzidas na língua, para que trabalhasse essa questão da religião nas aldeias.
32:07Hoje eu entendo como se fosse uma estratégia de colonização mesmo.
32:14A igreja condenou a cultura indígena.
32:17O capitalismo chamou o índio de preguiçoso e a religião também chamou o índio de sem alma.
32:26Tudo como se fosse uma estratégia e eu acho que foi a estratégia de colonização.
32:34Eles sabiam o que faziam.
32:36E não adianta pedir desculpa como o Papa fez.
32:41E as pessoas daquela época fizeram isso.
32:49A, E, E, O, O.
33:04A, E, F.
33:06Mas não adianta할idades para coragem.
33:07Mas é que a turma desse tipo é umas.
33:10E a cukupersão, osstockens, osperformos de coragem também
33:14A préjuda a fazer isso.
33:15E que a turma diz as obras das pessoas.
33:36Nos últimos tempos, a gente vem discutindo e construindo um novo sentido para a escola,
33:42de poder utilizá-la como ferramenta para buscar sempre melhorar a nossa condição de vida dentro do território, dentro das
33:54nossas aldeias,
33:56tanto para o fortalecimento de nossos saberes, das narrativas, da língua, sobretudo a produção de conhecimento sobre o nosso território.
34:08E é isso tudo que a gente chama do nosso bem viver.
34:16E esse processo de escolarização acaba tendo uma influência na nossa cotidianidade.
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