00:00Sol nascente é tão belo
00:04Esse coronel Teodorico tanto fez que conseguiu fazer o melado arrendar as terras dele.
00:10Mas o caipira não dorme no ponto e colocou todo mundo pra trabalhar.
00:14Até uma casinha ele conseguiu reformar.
00:16E agora, quem está arrastando a maior asa para a Berta é o Zé Carijó.
00:21Só que o pai da moça não está gostando nadinha disso.
00:25Ainda tem mais essa história de galinha dos ovos de ouro.
00:27Se entendi bem, os senhores vieram só para ver os ovos da minha galinha Madalena arrependida.
00:37Exatamente.
00:38Sabe o que é, senhor João?
00:39É que a gente ficou interessado em ver os ovos de galinha da galinha.
00:48A morte de quê?
00:50Porque sim, olha.
00:52Dá licença um estanquinho, senhor João Coronel, por favor.
00:56Vem aqui, Coronel.
00:58É, Coronel, eu acho que esse Matuta aí está querendo esconder os ovos.
01:03Os ovos?
01:05De ouro, Coronel.
01:06Ah, são de ouro mesmo.
01:09Esse Matuta querendo me passar a perna.
01:14Deixa ele comigo.
01:16Vamos lá.
01:20Emília, é isso que você está dizendo?
01:22É um despropósito.
01:23Não, é não.
01:24Porque eu nem sei o que é isso.
01:26Eu quero dizer que é um desatino, um absurdo.
01:28Emília, o Visconde tem razão.
01:30É impossível tirar o freio da mula sem cabeça.
01:32É nada.
01:33Claro que é, Emília.
01:34Eu já disse.
01:37Se o freio de uma mula fica na cabeça e a mula é sem cabeça, onde é que vai ter
01:42esse freio?
01:43Ah, é?
01:43Então me responde uma perguntinha só.
01:45Você já levou uma pedida de alho?
01:47Claro que não.
01:48Você já viu o alho passar, Batom?
01:49Não, né, Emília?
01:50Alho não tem boca.
01:51Emília, sim, a Anastasia diz que alho tem dente.
01:55E daí?
01:56E daí que se alho não tem boca e tem dente, por que uma mula sem cabeça não pode ter
02:02freio?
02:03É, há uma certa lógica nisso que a Emília está dizendo.
02:07É, mas mesmo que a mula tenha freio, como é que a gente vai fazer para tirar?
02:12Eu vou pensar num plano, tá, Pedrinho?
02:15Eu sempre penso.
02:16Tá bem.
02:20Ai, ai, ai, acorde aqui, Emília.
02:22Ai, ai, ai, o primo João Melado salvou meus punilhos, Emília.
02:26Acorde.
02:27Ai, água, água, água.
02:30Ai, ai, ai.
02:33Que coisa, Emília?
02:35Ai, Emília.
02:37Ai, Emília, não tem jeito, não.
02:39Ai, o primo João Melado não quer deixar chegar nem perto da Bieta, Emília.
02:44E você tá gostando dela?
02:45Tô, tô, tô, tô, tô gostando.
02:47Fui demais, Emília.
02:50Ai, que eu tenho que pensar em tudo.
02:52Eu estava tendo uma ideia de como tirar o freio da mula sem cabeça.
02:56Ai, e o que que aconteceu?
02:59Aconteceu que essa ideia foi embora, porque chegou outra antes.
03:03E que ideia é essa, Emília?
03:05Uma ideia de como te ajudar a conquistar a Bieta.
03:09É?
03:25Mas é isso mesmo, seu João Melado.
03:28Eu realmente decidi comprar sua galinha.
03:31A Magalena arrependida.
03:32Claro que nós é.
03:34De quem é que a gente tá falando?
03:35É.
03:36Mas a Magalena arrependida, eu não vendo ela, não.
03:42Não vendo?
03:43Não vendo por quê?
03:45Não vendo por quê?
03:47Não vendo por quê?
03:47O senhor não tá cheio de dívidas?
03:49Não tem que pagar alguma coisa?
03:54Precisão de dinheiro, precisão de pagar, precisão, precisão, precisão, precisão.
03:59A gente sempre tem.
04:01É?
04:01Sempre tem.
04:02Então, então, vende a galinha e paga tudo.
04:07Uma galinha, uma galinha tão comum.
04:09E o balazote?
04:10Isso.
04:11É que não, senhor.
04:13Não?
04:14Não, senhor.
04:15O que é que ela tem de tão diferente aí?
04:19Ah, vocês não sabem.
04:25A minha galinha não pode me desfazer dela, não.
04:28Não tem jeito de vender ela, não.
04:31Mas por quê?
04:31Mas eu pago por ela, eu pago o que você quiser, eu pago.
04:36É, o Cornel é um homem muito generoso, senhor.
04:38Eu sei, mas é que a Magalena arrependida, ela tá comigo há muito tempo, desde que ela
04:43era pititinha, pititinha.
04:45Era uma pintinha pititinha, desde o tempo que tá comigo.
04:49Ela é da minha família.
04:55Eu tô disposto a fazer negócio, senhor João Melado.
05:01Você ouviu isso, Madá?
05:04Tão querendo comprar o cê.
05:09Fica sossegada.
05:11Eu não vou deixar o pai vender o cê, não viu?
05:14Onde é que já se viu?
05:21O que que cê tá dizendo, Emília?
05:24Você não lava as orelhas, né?
05:26Emília, você tá querendo que eu ajude você a caçar mula sem cabeça?
05:32É isso mesmo.
05:34Não vou, não vou, mas não vou, não vou, não vou nem morto.
05:37Não vou.
05:37Ah, é?
05:38Então o azar é o seu.
05:40Azar?
05:41Azar é se eu fosse dois dias atrás de mula sem cabeça.
05:44Você não está entendendo, Zé Carijão?
05:46É, eu vou lhe confessar uma coisa, Emília.
05:49A minha pessoa tá com a cabeça assim, meio embaralhada, sabe?
05:52Mas, você não disse que ia ajudar eu a namorar mais a Berta?
05:55O que que tem a ver Berta com a mula sem cabeça?
05:58Tem muita.
06:00O que você acha que a Berta vai pensar?
06:04Quando souber que você foi me ajudar a tirar o freio da mula sem cabeça.
06:08Que eu sou doido.
06:09Claro que não.
06:11Ela vai achar que você é um herói.
06:12E todas as mulheres adoram heróis.
06:15Vai, Emília.
06:17O que você acha que ela vai pensar se souber que você teve medo de enfrentar a mula sem cabeça?
06:22Que eu sou muito sabido.
06:24Claro que não, seu bobo.
06:26Ela vai achar que você é um medroso, tá?
06:29Cadê aí, Emília?
06:34Madalena arrependida, eu não vendo por dinheiro nenhum.
06:37Mas não vende porque a minha proposta é muito boa, seu jovem.
06:42Não vendo nem por, nem por, nem por, nem por, por, cinco real.
06:48Mas a minha proposta é, mas é muito, mas é muito melhor que essa, não é?
06:54É mais do que cinco real?
06:56Mais, muito, mas muito mais.
06:59Sete reais.
07:01Ai, minha nossa senhora, mais que dinheiro, amado.
07:05É, eu não disse, o coronel é um homem muito generoso.
07:09É, eu tô vendo, tô vendo, tô vendo.
07:14Mas eu não sei.
07:17Sete real.
07:19Assim, na bucha.
07:22Na bucha.
07:23Uma nota em cima da outra.
07:25Uma, duas, sete.
07:33Ai, minha querida, você fica tranquila, viu, madalha?
07:37Eu não vou deixar o pai vender você.
07:40Nunca.
07:41Nunquinha mesmo.
07:47Mil reais pela galinha, não se fala mais nisso.
07:50É mil reais pela galinha.
07:52Mil reais por uma galinha?
07:54Mas é uma galinha especial.
07:57É, coronel, é uma galinha muito especial.
08:00Mas mil reais é muito dinheiro.
08:03É muito dinheiro.
08:05Se o senhor não tem...
08:06Não, eu tenho.
08:07Eu tenho.
08:08Eu sou um homem rico.
08:09Tenho fazenda.
08:11Tenho cabeça de gado.
08:12Tenho criação de porco.
08:13É, o coronel é um homem de muitas postas.
08:15É, é um homem de muitas postas.
08:16Eu tô vendo que ele é um homem de muitas postas.
08:18Se então, mil real, mais uma baquinha com miserrinho ao pé, um cavalinho, dois leitãozinhos
08:25bacurinho, não vai fazer diferença.
08:27Isso aí é a fazenda inteira, você tá indo longe demais.
08:30Vou falar em longe demais, se esse cavalinho vier treinado de uma charretinha, tá melhor ainda.
08:36Ele tá completamente maluco, Elias.
08:38É, a galinha é especial.
08:40Ô, tá comigo desde o tempo que ela era um ovico.
08:45Tá bem.
08:47Eu pago.
08:49Me traz essa galinha.
08:50Me dá esse dinheiro.
08:53Você matou, tá desconfiado, Elias?
08:57Hã?
08:58Zé?
08:59Ô, Zé?
09:01Ah, Zé, você tem que me ajudar, Zé.
09:03O que foi, minha formosura?
09:05É o meu...
09:06Tá tudo bem?
09:07É o meu pai.
09:08O meu pai quer vender a Madalena arrependida.
09:10Mas eu não vou deixar.
09:11Eu quero esconder ela aqui.
09:13Você quer esconder a galinha aqui?
09:15É.
09:16Mas aonde?
09:18Num galinheiro.
09:19Não tem lugar a melhor.
09:20Não, não, não.
09:20Peraí, peraí.
09:21A gente precisa pedir autorização pra vovó.
09:27Pulo escredo!
09:49O que foi, Zé?
09:50Parece que viu a assombração.
09:52Ela, ela, ela...
09:53Eu juro!
09:54O Zé Cí!
09:55Calma, Bia.
09:56Calma, Bia.
09:56Calma.
09:57É Zé Cí, é Zé Cí, é Zé Cí.
09:59Mas esse Zé Cí é amigo nosso, né, Zé Cí?
10:01O que foi, Zé Cí?
10:03Você viu alguma coisa?
10:05Eu tô indo embora.
10:07Eu tô indo embora.
10:09Ué.
10:11Ué.
10:14Que coisa estranha.
10:16Eu nunca vi um saci desse jeito.
10:17Meu Deus do céu.
10:19Aquilo ali,
10:20era um saci de verdade?
10:22Você viu aquilo, Madalena?
10:24Calma, Berta.
10:25Calma.
10:25Minha moça, senhora, mamãe Berta.
10:32Pronto, olha aqui, ó.
10:34Já tá tudo aí, ó.
10:36Agora me passa a galinha.
10:38Mas me dá uma dor no meu coração.
10:40Um aperto no meu coração,
10:41me desfazendo.
10:42Minha madalena arrependida.
10:44Ah, mas vê se me passa depressa,
10:46antes que eu me arrependam.
10:48Eu penso um belo negócio, hein?
10:50Belo do investimento, né?
10:52Berta!
10:54Berta chamou a Madalena arrependida.
10:58Senhor João, será que sua filha saiu?
11:00Não, não, não.
11:01Sem falar comigo, não.
11:02De jeito nenhum.
11:03Berta!
11:04Berta!
11:05Berta!
11:05Berta, de que foi se eu chamar a menina?
11:08Agora me passa a galinha.
11:09Não, mas é por isso mesmo.
11:11É que é a mesma coisa.
11:12A Berta e a Madalena arrependida
11:14são ruim e carne,
11:15são muito amiga.
11:16Se a Berta sumiu,
11:17e a Madalena sumiu, então...
11:19Então o quê?
11:20Quer dizer que as duas se escapenderam?
11:22Mas eu quero a minha galinha!
11:24Eu quero a minha filhinha!
11:26Eu quero a minha filhinha!
11:27Berta!
11:28Berta!
11:30Berta!
11:30Deixa eu chamar a menina!
11:31Berta!
11:34Berta!
11:40Berta!
11:50Berta!
11:51Não falei?
11:53Minha Berta é uma santa!
11:57Ai, Zé, você tá querendo me dizer que...
11:59que ela deixou a Madalena ficar aqui?
12:01Deixou!
12:02Deixou!
12:02Deixou!
12:03Mas também fui eu que pedi, né, Berta?
12:06Ai, meu Deus!
12:07A dona Berta é uma santa mesmo!
12:09É!
12:13Berta!
12:15Deu falar com você?
12:16Ficou muito agradecida, viu?
12:20Agora...
12:23Me dá a galinha aqui, que eu vou levar ela lá pro galinheiro.
12:25Quem sabe ela não fica amiga da Carijó.
12:29Anda logo, tá, Sacarijó?
12:31Depois a gente faz aquilo.
12:33Fazer o quê?
12:35Uma coisa que tá deixando a Carijó morto de medo.
12:38Tá com medo o quê, Zé?
12:39Medo?
12:40Que isso, medo?
12:41Medo, eu?
12:41Medo?
12:42Que medo?
12:42Medo?
12:43Que isso, medo?
12:44Eu não tenho medo de nada, não.
12:45Ah, é?
12:46É.
12:46Quer dizer que você vai enfrentar a Nula Sem Cabeça comigo?
12:52Oh, Berta!
12:53Ah, Berta, que bom que você tá aqui.
12:55O seu pai tá aí, atrás de você.
12:57Ô, senhorzinha moça, que história é essa?
13:00De se meter no meio do mato com a Madalena arrependida.
13:04O senhor não pode vendê-la, vai.
13:07Eu já dei a minha palavra de honra.
13:09E eu já paguei um preço muito alto por ela.
13:13É, isso é verdade.
13:14Mas a Madalena arrependida não tá à venda.
13:17Olha o desaforo, menina.
13:19Calma, seu João, calma.
13:21Minha filha.
13:24Infelizmente, seu pai já fechou o negócio.
13:34Vai começar.
13:35Vocês não sabem o que é essa batomia.
13:41Entregue essa galinha pro coroné.
13:43Ele agora quer o dono dela, vamos?
13:46Ei, dono de direito.
13:57E agora nós dois vamos pra casa
13:59que vamos ter uma conversa particular, nós dois.
14:01Ó, seu João.
14:04Finalmente, a galinha é minha.
14:07É, eu acho que o coroné fez um excelente negócio.
14:10Foi não, dona Diana?
14:11Sabe o que eu acho, seu Elias?
14:13Eu acho uma judiação.
14:14Vocês viram o jeito que a menina ficou?
14:17Imagina, a galinha bota ovos de ouro.
14:21Eu paguei um preço mais que justo por ela.
14:24Onde já se viu, coronel Teodorico?
14:28Um homem da sua idade acreditar em galinha de ovos de ouro?
14:34Ora, faça-me o favor.
14:36Ah!
14:37Ah!
14:38Ah!
14:38Ah!
14:39Ah!
14:39Ah!
14:40Ah!
14:41Ah!
14:46Tadinha da Berta.
14:48Vocês viram o jeito que ela foi embora?
14:50É.
14:51Realmente, ela era muito apegada àquela galinha.
14:53O quê?
14:54As duas pareciam até irmã.
14:56É, o Zé entende disso.
14:58Imagina, se alguém tirasse a carijó dele.
15:01Não, eu não falo nem isso, não.
15:02Pelo amor de Deus, hein?
15:03Eu não posso nem pensar nessa história.
15:05Vem, agora só falta a Emília chegar.
15:07A canastrinha dela já está aqui.
15:09Bom, eu não vejo a hora de encontrar a mula safada.
15:11Ai, meu Deus do céu, tem gosto pra tudo, Visconde.
15:14Eu, por mim, eu ficava aqui, quieto, parado.
15:18Jé, mas você prometiu.
15:19Eu sei, eu sei que eu prometi.
15:20Eu falei que vou, então vou.
15:22Não tem outro remédio?
15:23Bom, eu vou ver se a senhora Marquesa de Rabicó já está pronta.
15:25E eu vou conhecer, Visconde.
15:27Quem sabe Emília não mudou de ideia.
15:28Vamos.
15:31O narizinho tocou uma coisa na cabeça.
15:32Eu já sei.
15:33É o saci, né?
15:35É.
15:35Você viu a cara dele com o lúvio aberto?
15:38Por que será que ele fica com tanto medo dela?
15:40Não sei.
15:41Só sei que eu nunca vi o saci assim.
15:44É.
15:45Só foi.
15:49Quando ele viu lobisomem.
15:52Aí, eu apareci.
15:54Não, não, não.
15:55Eu sumi quando vi.
15:59Não, não, não, não.
16:01Eu antes apareci e depois eu sumi.
16:07Seja mais claro, eu não estou entendendo nada do que está dizendo, criatura.
16:11Olha, eu estou falando, Pucca.
16:14Eu vi.
16:15A mula sem cabeça está rodando aqui.
16:17E eu vi ainda hoje.
16:20Que mula sem cabeça.
16:23Dovido em rodó.
16:25Aquela feiosa jamais se atreveria a invadir os meus domínios.
16:29Eu sou a coca.
16:31Ah, é.
16:32Então eu vou te provar.
16:34Eu vou te provar.
16:35Você vai ver só.
16:50Eu vou te provar.
16:58Eu vou te provar.
17:04Eu vou te provar.
17:06Você vai ver só que eu pego.
17:19A gente fica por aqui ou vamos mais adiante?
17:21Eu creio que é melhor...
17:23Eu creio que é melhor a gente ficar parado em algum local e aguardar a mula sem cabeça aparecer.
17:29O que eu disse?
17:29E eu tenho o Tedré Mioves, Conde.
17:31A gente volta para o sítio e espera a mula sem cabeça aparecer por lá, hein?
17:35Você está com medo, é, Zé?
17:37Medo?
17:38Que medo?
17:38Que medo, Marijinho?
17:39Eu estou apavorado mesmo.
17:41É.
17:43Estou ouvindo alguma coisa.
17:51Ai, caramba.
17:52E agora?
17:53O que será que vai acontecer com eles?
17:55Bom, só vendo o próximo capítulo.
17:57E também vamos ver se o Coronel Todorico acha que fez um grande negócio.
18:01E o João Melado, hein?
18:03Será que vai perdoar a filha?
18:04Mas antes, eu quero ver o que vai acontecer aí com essa mula sem cabeça.