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O ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega analisa o impacto da guerra no Oriente Médio, destacando que o Banco Central do Brasil pode enfrentar um dilema sobre o ciclo de queda da Selic, possivelmente limitando reduções a 0,25 ponto percentual ou mantendo a taxa em patamares mais elevados se o petróleo consolidar-se acima dos US$ 90.

Ao lado de Vinicius Torres Freire, o economista aponta que a combinação de alta das commodities com a valorização do dólar frente ao real é o maior risco inflacionário imediato. Maílson questiona a promessa de Donald Trump de uma guerra de cinco semanas, ressaltando que quedas de regime historicamente exigem invasões terrestres complexas.

No mercado financeiro, a recomendação é de cautela, com migração para a renda fixa e títulos do Tesouro, visto que até a Petrobras na Ibovespa B3 sofre com a percepção de que o conflito pode reduzir a atividade econômica global a longo prazo.

Acompanhe em tempo real a cobertura do conflito no Oriente Médio entre EUA, Israel e Irã, com exclusividade CNBC: https://timesbrasil.com.br/guerra-no-oriente-medio/

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Transcrição
00:00E para falar sobre o dia no mercado e o que esperado as próximas semanas, eu recebo agora
00:05Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda e sócio da Tendências Consultoria.
00:09Boa noite, ministro. Seja muito bem-vindo.
00:11Obrigado, Marcelo, pelo convite.
00:13Bom, eu queria começar perguntando o seguinte.
00:15Tem muito analista dizendo que o preço do petróleo até que não está tão alto assim
00:19se a gente considerar os riscos dessa guerra.
00:21Como é que o senhor vê a evolução do petróleo para as próximas semanas?
00:25Olha, é difícil dizer, porque depende dos acontecimentos, está certo?
00:28Depende da evolução da crise, depende do que acontecer no Estreito de Hormuz.
00:32Se haverá alguma chance de algum petroleiro ultrapassar o bloqueio, parece que não.
00:39Então, eu acho que é muito cedo para dizer.
00:41Mas eu diria que a tendência é a de continuar subindo o preço do petróleo.
00:46Talvez não os 100 dólares que se estimou no começo do conflito,
00:51mas provavelmente muito mais do que os 81 dólares de hoje no Brent.
00:54Bom, vamos imaginar que o dólar fique em uma média de 80, 90 dólares pelo restante do ano.
00:59Que efeito que isso teria para a economia brasileira?
01:02Eu acho que o efeito mais claro é provavelmente o Banco Central não seguir a expectativa que ele mesmo alimentou
01:11de uma queda da Selic, que pode chegar a 12, 12,5% no final do ano.
01:15E se, dependendo do que acontecer nas próximas duas semanas, duas, três semanas,
01:20pode ser que o Banco Central se veja no dilema de não cumprir aquela diretiva que ele anunciou com a
01:27ata da última reunião,
01:28de que sinalizou que seria uma queda de 0,5% na reunião de março.
01:32Ele pode hesitar, digamos assim, de avançar, mas eu diria que, na pior das hipóteses,
01:39nós veríamos uma queda da Selic de 0,25% percentual.
01:43Agora o Vinícius Torres Freire tem uma pergunta para você, ministro.
01:46Ministro, tem o problema de preço do petróleo.
01:50A gente não tem bola de cristal aqui para dizer se ele vai ficar mais perto de 80, 90,
01:57ou se vai para 140, cenário de guerra Rússia-Ucrânia.
02:01Agora, tem um problema básico aí que a gente não está falando muito, é taxa de câmbio.
02:06Taxa de câmbio foi o que fez a inflação do Brasil refluir mais do que esperado no ano passado,
02:11que facilitou, pelo menos, essa promessa de início de queda da Selic
02:15e poderia facilitar a tarefa do BC fazer uma queda da Selic mais rápida até a eleição.
02:22Mas agora a gente está com 5,26%.
02:25Sabe-se lá para onde vai.
02:27O que vai pesar mais aí?
02:28Taxa de câmbio, que vai pegar tudo quanto é preço, ou petróleo?
02:32Pode ser esse o risco maior para a economia agora, nos próximos meses?
02:36Eu diria que são as duas coisas, Vinícius.
02:39O câmbio, porque as incertezas levam à busca de ambiente seguro,
02:47o Estados Unidos deixou de ser o ambiente seguro do passado,
02:50e a inflação que aumenta os preços de commodities, os preços ao consumidor em muitos produtos que variam de acordo
02:59com o dólar.
02:59De modo que eu acho que o Banco Central tem, você lembrou bem o câmbio,
03:03tem dois grandes problemas para pensar.
03:07Prolongamento da guerra, vai preço do petróleo chegar a 100 dólares,
03:11o câmbio, o dólar volta a 5,50, que estava aí um ano atrás,
03:17então tudo isso vai depender do andamento da guerra.
03:20E como toda guerra, Vinícius, você mesmo falou aí,
03:23é um elemento de grandes incertezas.
03:25A guerra é essencialmente um evento de incertezas.
03:29E no caso agora, a incerteza é maior,
03:33porque tudo indica que os Estados Unidos entraram numa guerra que é de Israel,
03:37não é dos Estados Unidos, não é isso?
03:39Embora o Trump esteja dizendo que ele que trouxe o Nathaniel para essa briga.
03:46Então, eu acho que é um ambiente de muitas incertezas.
03:49E pode até acontecer de o Trump não cumprir essa promessa que ele anunciou ontem,
03:55que duraria cinco semanas.
03:57Eu acho surpreendente que o presidente da República
03:59põe um prazo para uma guerra terminar.
04:03Não tem esse poder, né?
04:04Não tem esse poder, né?
04:06Então, eu acho que o ambiente é de inteira incerteza,
04:11incertezas totais, como dizem a vez os economistas,
04:13quando é uma incerteza muito grande, né?
04:15Que pode abalar não apenas a economia mundial,
04:18mas, principalmente, a economia americana,
04:21do ponto de vista político,
04:22porque o Trump pode ter que descumprir uma promessa
04:25que ele fez na campanha de que não iria entrar em nenhuma guerra, né?
04:30E o objetivo dele, tudo indica, é a queda do regime
04:34e não tem na história nenhum caso em que o regime tenha caído,
04:39por mais violento que ele seja, por mais detestado que ele seja,
04:44como bombardeio aéreo.
04:45Todas as quedas de regime intentada por uma potência estrangeira
04:51incluíram a invasão por terra, né?
04:53E invadir o Irã por terra não é um negócio muito simples.
04:58Menos ainda, tem Teherã, tá certo?
05:00É um país enorme, né?
05:01É um país enorme, com 90 milhões de habitantes, tá certo?
05:04Com capacidade de soltar foguetes e tudo mais, né?
05:08Enquanto a gente tava conversando aqui, apareceu a notícia
05:11que caiu um drone perto da embaixada...
05:14Na embaixada americana em Dubai.
05:15Americana em Dubai, tá certo?
05:17Então, é uma guerra que pode gerar muitas surpresas, né?
05:21E seu andamento é totalmente imprevisível.
05:23Agora, ministro, do ponto de vista de investimentos,
05:26na sua avaliação, que tipo de postura defensiva
05:29que pelo menos uma parte dos investidores vai tomar a partir de agora?
05:32Que tipo de caminho, que jornada de investimento aí
05:35que pode mudar por causa da guerra?
05:36Olha, eu acho que o investimento em ações
05:41vai continuar o investimento muito mais arriscado.
05:44Nesse momento, a proteção é renda fixa.
05:49Renda fixa de preferência de alta confiança, né?
05:53Títulos do Tesouro, por exemplo, né?
05:56Agora, se houver algum setor aí que ganha com essa guerra no mercado?
06:01Olha, eu acho que não.
06:03Eu acho que não.
06:04Então, em tese, a Petrobras deveria ganhar.
06:07Algumas ações internacionais também ligadas à defesa, né?
06:10É, pode ser, né?
06:12Mas você diz lá fora, aqui dentro, eu acho que ninguém vai ganhar.
06:17Mesmo com o preço do petróleo mais alto,
06:19o senhor acha que a Petrobras não se beneficia disso no valor de mercado?
06:22Porque entra um elemento de incerteza, né?
06:24Como o Vinícius falou há pouco, né?
06:27A Petrobras, todo mundo dizia que ela ia ganhar e hoje a ação dela caiu.
06:31Porque se percebeu que a guerra pode levar a um ambiente inflacionário no mundo
06:39e uma redução da atividade econômica e do potencial do crescimento.
06:44Isso significa queda de demanda por petróleo.
06:46E, por outro lado, os países exportadores do Oriente Médio estão comprometidos a aumentar
06:53a produção se realmente o preço subir muito, né?
06:56Então, o senhor acredita que vai ter uma equação aí para não deixar a crise avançar ainda mais?
07:03Eu acho que sim.
07:04Às vezes não funciona, tá certo?
07:05Porque as incertezas são tão grandes.
07:07Suponha que um míssel iraniano atinja um petroleiro que esteja tentando chegar por perto do...
07:16Isso é uma mera, digamos assim...
07:23Uma hipótese, né?
07:24Uma hipótese, né?
07:25Então, uma incerteza vira tudo, né?
07:29O imponderável, digamos assim, está sempre presente numa guerra.
07:33Sobretudo essa, né?
07:34Em que o objetivo é muito difícil de atingir.
07:37Tá certo.
07:37Que é o fim do regime ditatorial iraniano.
07:41Vinícius, eu vou pedir para o senhor continuar com a gente.
07:43Daqui a pouco a gente vai voltar a conversar e, dessa vez, sobre o crescimento do PIB brasileiro.
07:47Então, vamos lá.
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