00:00A gente vai conversar agora mais sobre os impactos da guerra no Irã e o que a gente pode esperar
00:05para as próximas semanas com o José Nehmeyer, que é economista e professor de Relações Internacionais do IBMEC do Rio
00:12de Janeiro.
00:12Professor, seja bem-vindo, bom dia.
00:14Bom dia.
00:16Oi, Marcelo, obrigado pelo convite. Estamos aqui ouvindo as informações importantíssimas da CNPC.
00:23É fundamental o assinante da CNPC e outros também perceberem como essas informações muito on time, muito bem organizadas, elas
00:36mudam a percepção dos analistas com relação à guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã.
00:43Então, conversando aqui, observando as informações, eu pude perceber que há uma grande possibilidade desta guerra ser limitada, tanto em
00:54operação como em tempo também, a partir da CNPC.
00:58Senhora, eu queria entender na sua avaliação o que significou esse gesto do presidente do Irã de pedir desculpa para
01:04os vizinhos hoje e prometer que não vai fazer mais ataques.
01:06Porque, por um lado, a gente pensa que ele pode estar, de repente, sem munição, com pouca infraestrutura para fazer
01:12ataque e decidiu parar.
01:14Por outro lado, também, ele pode estar tentando criar uma situação que ele possa fazer ataque surpresa à infraestrutura americana,
01:22ainda que seja no território desses vizinhos.
01:25Qual que é a avaliação que o senhor faz?
01:26Olha, eu acho que é a primeira, é o início de um processo de fadiga de material com relação às
01:35munições iranianas, principalmente mísseis terra-terra.
01:38Então, eles estão repensando, eles exageraram nos ataques aos países vizinhos para atingir as bases norte-americanas, principalmente nos países
01:48árabes aliados nos Estados Unidos, como Emirados Árabes, Jordânia.
01:52Então, eles estão repensando isso, até porque os europeus podem começar a defender específicos países árabes, aliados nos europeus.
02:02Isso não interessa até o Irã, porque não vou dizer que esses países europeus, isso estaria em uma outra entrevista,
02:09serão aliados diretos dos Estados Unidos e Israel.
02:12Não é isso. Estão distanciados.
02:14Os europeus se distanciaram dos Estados Unidos, principalmente, mas seria mais difícil para o Irã conseguir manter a sua dinâmica
02:22de guerra.
02:23Uma outra questão foi colocada agora pela CNBC.
02:26Vai ser muito complicado fechar o Estreito de Hormuz, sendo que o Irã depende das exportações, principalmente para a China
02:34e Índia, que passam pelo Estreito.
02:36Então, a situação do Irã hoje é uma situação delicada. O que eles podem estar contando é com uma necessidade,
02:44por parte da Casa Branca e de Israel, de uma invasão do Irã.
02:49E aí eles teriam ainda, principalmente, força armada terrestre para impedir essa invasão e seriam um combate corpo a corpo,
02:58porque seriam muito custosos para os Estados Unidos da América, do ponto de vista político interno dos Estados Unidos.
03:03Eles devem estar contando com isso, mas isso é pouco para um país poder se defender de duas potências militares,
03:11uma regional, outra internacional, que é o caso dos Estados Unidos da América.
03:14Professor, eu vou pedir para o senhor continuar com a gente, que nós vamos jogar imagens aqui ao vivo,
03:18que a gente está recebendo agora de Paris, porque está tendo um protesto lá, ou melhor,
03:22uma manifestação de seguidores do ex-príncipe iraniano Reza Parlevi,
03:26e essas pessoas foram às ruas de Paris, pedindo, obviamente, que ele assuma uma possível transição de poder,
03:34algo que, neste momento, não parece muito provável, mas sempre tem a esperança dessas pessoas
03:39de que ele possa fazer a liderança dessa transição.
03:43Por quê? Um pouco de contexto, né?
03:47O Reza Parlevi, o pai, o pai desse atual príncipe aí, ele era o, digamos, imperador do Irã no tempo
03:55anterior à Revolução Islâmica de 1979.
03:59Ele era uma espécie também de líder supremo lá, e a revolução acabou tirando ele do poder,
04:05era um governo secular, um governo que, inclusive, perseguia algumas facções religiosas,
04:10e aí veio a Revolução Islâmica e veio o primeiro líder supremo, que era o Ayatollah Khomeini.
04:16Agora, muita gente com essa memória ainda do passado, né, professor?
04:20Espera que esse príncipe herdeiro pudesse fazer essa transição.
04:24Mas não é um cenário muito provável, não, né?
04:31Professor?
04:32Marcelo, eu acho que nós perdemos o canal. Você está me ouvindo?
04:34Eu continuo ouvindo. O senhor me ouve bem?
04:38Agora eu estou ouvindo. A questão de um regime, a questão de um regime monárquico é sempre muito complicada,
04:45porque o regime monárquico é um regime com baixa representatividade junto à sociedade,
04:51nem sempre tem representatividade.
04:54É um regime que se utiliza da força, tem um caráter muito elitista,
04:58e vai ser difícil competir com o regime instaurado em 79, que é um regime republicano,
05:03que quer você queira ou não, tem um parlamento funcionando, tem um executivo, tem um setor judiciário.
05:12Os regimes monárquicos, Marcelo, eles passam para a população esse caráter muito elitista da política
05:18que eu acho que não daria certo na sociedade iraniana agora.
05:24Eu acho que é importante manter o sistema republicano, a forma republicana.
05:29O que tem que fazer é se colocar no Irã um líder que tem uma conversa mais próxima com a
05:35sociedade
05:36e que tem uma visão de mundo mais interdependente, não uma visão de mundo como a maioria dos yatolás
05:43que querem sempre observar o Ocidente como inimigo.
05:47O que eu acho que precisa no Irã hoje é um regime dentro do modelo republicano,
05:52mas um regime mais aberto à negociação, à conversa, tanto com a sociedade iraniana,
05:59para modernizar essa sociedade, mesmo com o aspecto religioso ainda tendo um peso,
06:04porque isso vai ser difícil de mudar, é um país tiíta, então a religião vai ter sempre um peso.
06:10Pode até manter os yatolás como conselheiros desta república,
06:15mas com uma postura mais de abertura com a sociedade e principalmente com os países,
06:20tanto da região como do sistema internacional.
06:23Ah, mas o Irã, o modelo, na verdade, é contra o capitalismo internacional.
06:29Pode até ser que a postura chiíta do Irã, do ponto de vista religioso,
06:35faça uma crítica estrutural ao capitalismo.
06:38Pode ser, mas é possível, mesmo com essa crítica,
06:41que você tenha líderes que conversem mais, principalmente com o Ocidente.
06:45Professor, acho que ninguém dentro do Irã espera que o Reza Palev volte para lá
06:50e implante uma monarquia absolutista, como era parecido com o que o pai dele fez.
06:54Mas eu acho que tem muita gente com esperança de que, pela história,
06:57e também pelo fato de que tem uma diáspora imensa iraniana ao redor do mundo,
07:03de gente que perdeu muito dinheiro, perdeu patrimônio,
07:05que foi confiscado pela Revolução Islâmica,
07:08tem essa esperança de que, na falta de um líder melhor, entre aspas,
07:13que o Reza Palev Júnior, digamos assim,
07:16que ele possa ser usado no Irã como alguém para fazer uma mediação aí,
07:20para que surja uma nova liderança,
07:22num cenário em que não houvesse esse Conselho de Guardiões aí,
07:26que é presidido pelos ayatolás, né?
07:29Inclusive.
07:29O senhor acredita, só encerrando aqui, Pablo,
07:32o senhor acredita que há espaço ainda para um representante da antiga monarquia
07:37fazer esse tipo de mediação?
07:41Fazer o tipo de mediação, você tem razão.
07:44Numa situação de crise, de país invadido, como o Irã,
07:48sempre é bom você ter novos interlocutores, né?
07:50De várias tendências.
07:52Agora, o que se está falando é que dos cinco candidatos a substituir Khamenei,
07:57o mais liberal, por incrível que pareça,
08:00Marcelo, seja o neto de Khamenei, do fundador da República Islâmica,
08:06do primeiro ayatolá, é o neto de Khamenei.
08:10E ele parece que tem uma visão mais liberal.
08:13Talvez ele tenha vivido esse tempo todo, observando a situação no Irã,
08:17e tenha, talvez também, com uma conversa com o mundo ocidental,
08:22vamos dizer assim, com as sociedades ocidentais,
08:24porque essa elite política iraniana, ela anda muito pelo mundo,
08:29em universidades, ela tem um relacionamento empresarial.
08:33Então, o neto de Khamenei parece que seria a liderança menos radical
08:39a assumir hoje a República Iraniana como ayatolá principal.
08:45E ele é um yatolá, o neto de Khamenei é um yatolá,
08:50de Khamenei não, de Khamenei é um yatolá,
08:52mas ele, como eu falei, tem uma conversa mais próxima com o Ocidente.
08:58É a informação que eu tenho.
08:59Professor, mas reza a Palev, né?
09:01Voltando a ele, que o Marcelo estava contando também,
09:03ele é exilado hoje nos Estados Unidos, né?
09:06E há informação de que ele tem, diríamos,
09:09uma relação até um pouco mais próxima com associações
09:14que pedem um regime mesmo que monárquico, né?
09:19Mais democrático, com eleições,
09:22até grupos de mulheres iranianas, né?
09:24Que sofrem muito no país,
09:27pedindo a ele que fosse, então, um governo mais flexível
09:30e ele estaria se comprometendo a isso.
09:33Para trazer ele de volta, o que seria preciso, né?
09:36Uma movimentação popular às ruas pedindo isso
09:40ou isso também, hoje em dia, não conseguiria nem ser feito?
09:45Não, eu acho que poderia ser feito.
09:47A gente viu nas manifestações de semanas atrás,
09:50com muita violência,
09:52com resposta muito violenta do governo iraniano,
09:54que há grande parte da população,
09:58talvez mais ligada a uma classe média iraniana,
10:00aos jovens, que quer uma mudança política.
10:03Mas isso é o que eu estou colocando aqui com você e com o Marcelo.
10:06Eu acho que não precisa mudar o regime.
10:08Para o regime monárquico, até porque eu sou um crítico,
10:11do ponto de vista da ciência política,
10:12há regimes monárquicos,
10:14manter a estrutura republicana,
10:16trazer um líder e expor esse líder,
10:18que seria, por exemplo, o neto, né?
10:22O filho de Reza Paletti,
10:24a um processo eleitoral.
10:26E aí, ele participando de um processo eleitoral,
10:29nada melhor do que um processo eleitoral
10:31em qualquer país para apaziguar a situação daquele país específico.
10:37Ele participaria de um processo eleitoral,
10:39inclusive competindo com outros candidatos,
10:43o que pressupõe a República,
10:45porque a República Islâmica do Irã,
10:47ela tem também grupos políticos que poderiam participar.
10:51Ele venceria as eleições, se acontecer,
10:53e assumiria com essa agenda mais liberal,
10:56que ele vem conversando,
10:58inclusive com associações dos Estados Unidos.
11:00Agora, o que é interessante
11:02é que parece que a Casa Branca
11:04não aceita muito o nome
11:06de um familiar de Reza Paletti.
11:09Por quê?
11:10Talvez pelo mesmo motivo
11:12que a Casa Branca não aceitou
11:14uma mudança brusca na Venezuela.
11:16A Casa Branca prefere um indicado,
11:19se posso colocar assim,
11:20que não mexa tanto em estruturas
11:24do ponto de vista político.
11:25Por quê?
11:26Porque na hora que você faz uma nova eleição,
11:29pode ser que essa população
11:31queira muito mais uma parceria econômica e comercial
11:34a manutenção e o aprofundamento
11:36com o China e com o Índia
11:37do que com os Estados Unidos.
11:39Isso é importante também deixar claro.
11:41Há uma interferência muito grande
11:42da China na vida iraniana.
11:44Então, pode ser que uma nova eleição,
11:47uma abertura do regime,
11:49possa trazer como resposta
11:51uma necessidade de aprofundar
11:53laços com o China e com o Índia,
11:55por exemplo,
11:56ou com o Brasil,
11:57com outros países.
11:58Tem uma visão mais multilateral
11:59da economia internacional.
12:01E não uma coisa exclusiva
12:03com os Estados Unidos.
12:03Por isso que na Venezuela,
12:05a Casa Branca
12:06manteve Delci Rodrigues
12:07por algum motivo,
12:09que aí é uma conversa de bastidor
12:10que eu não tenho informação,
12:12que Delci Rodrigues
12:13não vai abrir tanto o regime,
12:14mas vai fazer com que o regime
12:16fique muito próximo
12:17dos interesses norte-americanos.
12:19José Nehmeyer,
12:21economista e professor
12:22de Relações Internacionais
12:23do BMEC do Rio de Janeiro.
12:24Muito obrigado
12:25pela sua participação.
12:27Obrigado, professor.
12:28Eu que aprendo muito com vocês
12:30e eu que agradeço, Marcelo.
12:31Um bom final de semana.
12:33Estou à disposição
12:34e um abração
12:35ao assinante da CNBC.
12:37Um abraço, professor.
12:38Obrigado.
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