00:00E a guerra no Oriente Médio avança com ataques a novos alvos e incursões terrestres.
00:06O conflito entra no quarto dia com um final incerto.
00:10A escalada ocorre após sinais contraditórios sobre a possibilidade de uma saída negociada.
00:16É sobre isso que a gente vai conversar agora com o Williander Salomão.
00:20Ele é mestre e doutor em Direito Internacional.
00:23Tudo bem, professor? Boa tarde, meio-dia em ponto agora.
00:27Seja muito bem vindo The Real Time.
00:28Muito bom poder te ouvir nesse dia para a gente entender a retórica, as falas e o que procede e
00:40o que não procede, professor.
00:42A gente viu Donald Trump ensaiando passos em direção à negociação, depois o Irã desmentiu.
00:48Agora o republicano disse e reafirmou hoje que é tarde demais para conversar.
00:54De fato, teria espaço para alguma conversa e quem teria interesse em conversar nesse momento?
01:02Acredito que sim, haverá e tem necessidade de haver um diálogo, porque a diplomacia precisa vencer.
01:11Porque desde o início desse ataque conjunto entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, os objetivos desses dois países
01:17eram muito claros.
01:18Era impedir que o Irã tivesse armas nucleares, era desestabilizar ou derrubar o governo do Ayatollah Ramenei e também enfraquecer
01:27a estrutura militar da Guarda Revolucionária Islâmica.
01:30E como reflexo também, o Irã atacou as bases americanas no Dorno, no Catar, levando caos para esses países e
01:40agora tem um medo de que essa guerra possa se alastrar ainda mais.
01:44Já que agora o Irã fechou o Estreito de Hormuz, onde 20% do petróleo e o gás mundial transitam.
01:51Então é uma guerra que o próprio Donald Trump disse que ela vai se estender ainda e que os diálogos
01:58não são possíveis.
01:59Mas é claro que isso tem que acontecer, porque como ele mesmo diz, essa guerra tem data para acabar.
02:05E para acabar, tem que negociar com o Irã.
02:07Então, na semana passada ele dizia que eles estavam conversando no sentido de um acordo, né?
02:13E que estava caminhando muito bem e o que a gente viu acontecendo no fim de semana contradiz isso.
02:19Então, pode ser que agora esteja acontecendo o contrário?
02:21E essa fala sobre ter arma para sustentar essa guerra por quanto tempo for necessário e não haver espaço, ser
02:30de forma uma pressão para puxar a mesa?
02:33E, professor, já vou emendar mais uma.
02:35Com quem ele conversaria nesse momento?
02:38Ele teria que usar dos seus aliados ali próximos com o Irã ou até mediados.
02:45A gente tem que ver que em janeiro estava tendo uma conversa entre Estados Unidos e o Irã ali em
02:50Genebra, mediados pelo Oman.
02:52Então, ali os parceiros, que seriam até mesmo China ou até mesmo Rússia,
02:58que poderiam ter uma presença maior no Irã, que não estão envolvidos diretamente com a guerra e já condenaram esse
03:04ataque.
03:04Agora, esses parceiros do Golfo Árabe também estão sendo atacados em suas bases?
03:09Então, acredito que o diálogo entre esses países, por enquanto, é difícil.
03:14Lembrando que os Emirados Árabes, eles fecharam a embaixada inteira.
03:18Então, essa relação diplomática, ela está cada vez mais grave e o Donald Trump teria que colocar os parceiros,
03:26até mesmo Reino Unido, União Europeia ou até mesmo buscando ajuda com Rússia.
03:33Agora, professor, quando eu pergunto, inclusive, com quem que ele conversaria,
03:37quem que seria o nome ou os nomes, os representantes do Irã nesse momento,
03:43em que a gente viu o líder supremo com a morte confirmada, outras lideranças importantes,
03:50e até onde se sabe ainda não há um novo nome escolhido.
03:53O que haveria seria uma reunião, um conselho ali para chegar a esse nome.
03:58Então, com quem que seria esse diálogo em relação ao Irã?
04:03Bom, agora no Irã tem um governo interino, encabeçado provisoriamente por um novo imã,
04:10junto com o presidente e junto com o judiciário.
04:13Bom, o presidente do Irã, ele ainda continua em exercício,
04:17então acredito que seria com esse conselho provisório,
04:21até que o conselho de peritos formado por religiosos elejam um novo Ayatollah.
04:27Então, a conversa seria com esse governo provisório.
04:31E, professor, o senhor vê possíveis desdobramentos jurídicos, possíveis a partir desse conflito?
04:40Olha, nessa guerra, o direito internacional que limita o poder de guerra, ele é muito violado.
04:47Então, o que a gente tem é a Carta da ONU, que determina que quando há uma ameaça à paz,
04:52uma ruptura da paz, o Conselho de Segurança entra em ação.
04:55Como a gente sabe, Estados Unidos, membro do Conselho de Segurança, ele vai vetar qualquer resolução,
05:01mas, mesmo assim, a Carta da ONU é o artefato jurídico mais importante a ser obedecido.
05:08Então, teria que ter, sim, recorrer à mediação, teria que recorrer a acordos mediados,
05:14obviamente, por esses países e pelas Nações Unidas,
05:17para que as partes pudessem sentar e estabelecer novos parâmetros de paz.
05:23É claro que agora está muito confuso os ânimos e muito exaltados,
05:27mas a própria Carta da ONU já indica quais são os mecanismos jurídicos
05:31utilizados no caso de uma guerra, como, por exemplo, a mediação.
05:36E eu vejo, professor, você usando a palavra guerra,
05:39inclusive tem muitos questionamentos em torno do uso,
05:43a partir de que momento a gente pode e deve chamar, classificar dessa forma.
05:48Teria que ter alguma aprovação, uma declaração oficial envolvendo o Congresso americano?
05:57Porque o senhor está usando essa palavra, né?
06:00Sim.
06:01Pela Constituição americana, ali, artigo 2º,
06:04o presidente dos Estados Unidos, mediante uma ameaça iminente,
06:08ele poderia usar de suas forças amadas para combater essa ameaça
06:13e depois reportar o próprio Congresso americano informando desses atos.
06:18É claro que está tendo muita reclamação no Congresso americano
06:22da escalada de violência provocada, né, por esse ataque conjunto
06:26entre Israel e Estados Unidos, ali, junto com o Irã.
06:30Eu chamo de guerra porque realmente é uma situação conflituosa.
06:35Sim.
06:35Então, a palavra guerra pode ser contextualizada como uma ruptura da paz
06:39entre esses Estados.
06:41Certo.
06:42Agora, professor, queria contar com a sua bagagem, com o seu conhecimento,
06:46para ajudar a gente a juntar pontas que tudo indica que não estão soltas, né,
06:52porque quando a gente olha lá com a Venezuela e a intervenção ali dos Estados Unidos, né,
06:58a Venezuela, que é uma fornecedora de petróleo para a China,
07:01agora o Irã, um outro aliado, parceiro comercial dos chineses
07:05e o Estreito de Hormuz ali bloqueado, né, ninguém está passando por ali.
07:11No fim das contas, é sobre o quê?
07:13É sobre derrubar o regime ou a China é que está no pano de fundo desse conflito?
07:19Não.
07:20Bom, pegando as declarações aí de Israel,
07:23pelo Benjamin Netanyahu, seria a completa derrubada do regime dos Yatollahs
07:28com a implantação de uma democracia.
07:30Pelo lado do Donald Trump, seria enfraquecer o governo iraniano
07:35para que um novo regime que surgisse fosse menos hostil aos Estados Unidos.
07:41E, claro, que essa retórica toda, a gente volta para a situação da Venezuela,
07:45com a captura do Nicolás Maduro, como recado do Donald Trump,
07:49como uma ameaça aos outros governos hostis e que ele poderia fazer o mesmo.
07:53Então, a gente viu que no primeiro dia de guerra, as forças aéreas israelenses,
07:58elas conseguiram matar o Ali Haminei.
08:01E, bom, a intenção do Trump é que o novo governo,
08:04porque derrubar esse regime desde 79 é muito difícil,
08:08porque esse regime de governo do Irã tem várias camadas,
08:12não é só pelo Yatollah, tem a Guarda Revolucionária,
08:15tem um presidente, tem um exército.
08:19Então, o que interessa para o Donald Trump é que tenha um governo menos hostil
08:23e que com ele possa conversar, tirando, por exemplo, o chavismo,
08:29o próprio situação da Venezuela.
08:32É, professor.
08:33Enquanto o senhor falava, eu estava pensando aqui.
08:35Claro que são países e questões ali que são muito diferentes,
08:40muitas coisas são incomparáveis, mas na Venezuela a gente também via
08:44essa retórica de derrubar o regime chavista.
08:48A gente sabe que Nicolás Maduro saiu, o regime continuou,
08:52mas aparentemente é um regime com quem Donald Trump conversa,
08:56tem abertura para conversar.
08:59Isso pode vir a acontecer no Irã, então, o regime permanecer,
09:03mas com nomes que sejam mais favoráveis, abertos,
09:09e uma possível influência de Donald Trump, inclusive, nesse nome,
09:13ou isso pode ser descartado?
09:15Olha, nesse atual cenário que a gente está vivendo,
09:18de grandes reviravoltas, de grandes incertezas,
09:21tudo é possível.
09:23Agora, uma conversa com o governo iraniano,
09:27menos os seus Estados Unidos,
09:28se a gente volta na história ali com o regime do Mohamed Reza Parlevi,
09:33que era o maior aliado dos Estados Unidos ali no Oriente Médio,
09:36que foi deposto pela oposição,
09:40dando início aí, desde 1979, ao regime dessa teocracia,
09:44com o fortalecimento dos ayatollahs,
09:47a Guarda Revolucionária Islâmica,
09:49decretando os Estados Unidos como seu maior inimigo,
09:52são quase 50 anos com essa retórica.
09:56Então, eu acredito que, bom, o futuro governo,
09:59a gente vai ter que esperar como que vai ser
10:00a eleição do novo ayatollah,
10:03para a gente ver qual que vai ser o pronunciamento.
10:06Agora, um governo iraniano menos hostil aos Estados Unidos,
10:11por enquanto vai ser difícil,
10:12porque o povo iraniano, ele é muito nacionalista,
10:15ele é muito orgulhoso da sua história.
10:17Claro que essa nova geração que está sob o governo,
10:20dessa teocracia,
10:22ela é contrária a toda essa repressão.
10:24Então, tem muita divisão no Irã,
10:26tem muita oposição no Irã,
10:28mas a gente vai ter que aguardar os próximos passos.
10:30Por enquanto, agora,
10:32eu acho improvável um diálogo menos hostil com os Estados Unidos.
10:37Vamos acompanhando, então.
10:39Eu quero agradecer,
10:40Vilhander Salomão,
10:41mestre doutor em Direito Internacional,
10:43pela conversa ao vivo aqui no Real Time.
10:45Muito obrigada e até a próxima.
10:47Muito obrigado. Boa tarde.
10:49Boa tarde.
Comentários