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O analista de negócios Guilherme Ravache comenta a escalada de tensão em frente ao Congresso argentino, onde manifestantes convocados pela CGT enfrentam a repressão policial sob o comando de Patrícia Bullrich. O debate na Câmara dos Deputados foca em pontos controversos da reforma, como a jornada de 12 horas sem hora extra e a centralização da decisão de férias nas mãos do empregador.

Ravache discute como a popularidade de Milei, sustentada pela queda da inflação de 200% para 30%, permite a execução de um "remédio amargo" comparável ao ajuste grego. A análise aborda ainda como o sucesso ou fracasso do modelo argentino se tornou um fator ideológico central para as eleições presidenciais de 2026 no Brasil.

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Transcrição
00:00A gente vai voltar agora ao vivo com imagens de Buenos Aires, porque os argentinos estão protestando em frente ao
00:05Congresso
00:06no meio do debate sobre a reforma trabalhista que já foi aprovada pelo Senado e agora está na Câmara dos
00:12Deputados.
00:13É uma das iniciativas mais controversas do governo do presidente Javier Milley e no Senado algumas medidas mais drásticas dessa
00:21reforma trabalhista
00:22já haviam sido retiradas. Foram retiradas, por exemplo, partes da lei que falavam que o salário poderia ser pago com
00:30acomodação e com alimentação,
00:32o que aqui no Brasil corresponde a trabalho análogo à escravidão, por exemplo.
00:36Mas ainda tem muita coisa polêmica nesse texto. Tem autorização para que as pessoas trabalhem 12 horas por dia sem
00:42receber hora extra,
00:43com o empregador podendo fazer depois uma compensação de horas no dia que ele escolher.
00:49Também tem na lei aí que a escolha das férias, por exemplo, dos dias de férias, pode ser uma decisão
00:55unicamente da empresa
00:56e muitos outros artigos aí que estão causando uma grande indignação entre os trabalhadores argentinos.
01:03Agora há pouco, um veículo militar começou a dispersar os manifestantes com jatos d'água.
01:08A ação das autoridades continua, mas os manifestantes estão se juntando aí nas proximidades da grande cerca
01:15que está protegendo o parlamento argentino.
01:19Só para vocês terem uma ideia, a discussão começou agora há pouco, às 3h20 da tarde.
01:23Esse texto começou a ser lido na Câmara dos Deputados.
01:27E, tradicionalmente, na Argentina, é mais no fim da tarde que as manifestações crescem.
01:33As pessoas saem do trabalho.
01:34Hoje nem é o caso, porque tem greve geral lá.
01:36Mas, tradicionalmente, mais no fim do dia, as pessoas vão ali para a frente do parlamento.
01:41No ano de 2024, quando eu morei na Argentina, eu acompanhei uma grande manifestação dessas também
01:46contra medidas do Javier Milley.
01:48Naquele caso específico ali, era um protesto de aposentados.
01:52Houve uma repressão muito forte.
01:54Eu fui atingido na época também por gás de pimenta.
01:57E depois houve uma quebradeira muito grande ali em frente ao Congresso.
02:01Carros foram incendiados.
02:03Essa manifestação de hoje, ela foi convocada pela CGT, que é a maior central sindical da Argentina.
02:09A CGT, no passado, foi muitíssimo poderosa.
02:13Hoje, como a maioria das centrais sindicais pelo mundo, ela perdeu um pouco de força.
02:17Mas, continua comparativamente bem mais poderosa na Argentina do que, por exemplo, a CUT é aqui no Brasil.
02:23A gente está vendo que as pessoas estão se juntando ali em frente ao parlamento.
02:27Essa greve geral pode causar um prejuízo de 575 milhões de dólares, equivalente a mais ou menos 3 bilhões de
02:35reais,
02:36sendo que essa estimativa foi feita pelo Instituto de Economia da Universidade Argentina da Empresa
02:41e também do Ministério da Economia, usando projeções macroeconômicas baseadas no que deixa de ser produzido em um dia de
02:49paralisação.
02:50As pessoas estão, portanto, se aglomerando em frente ao Congresso argentino, que fica na região central de Buenos Aires.
02:58Barricadas foram feitas aí, essas barreiras de metal e de madeira foram colocadas para impedir que os manifestantes avancem.
03:06E, atrás dessa barreira, a gente consegue ver nas imagens aí o batalhão de choque da polícia argentina.
03:12A polícia tem sido bastante criticada desde que Javier Melech chegou ao poder.
03:17A ministra da Justiça, que se chama Patrícia Burrit, que foi a terceira colocada na eleição argentina, na última eleição
03:25presidencial,
03:26ela tem comandado as forças policiais aí com bastante rigor e tem coibido manifestações.
03:34A gente está vendo aí agora jatos d'água sendo lançados contra os manifestantes.
03:38Por enquanto, a gente não está vendo aí uma grande multidão, não, comparado com o que já houve aí em
03:43frente ao Congresso,
03:44em outras ocasiões, é um número relativamente pequeno de pessoas.
03:48Até agora, a gente viu o governo Melech reprimindo duramente manifestações de aposentados,
03:53manifestações também aí, nesse caso, de pessoas que são contra reforma trabalhista,
03:58mas teve apenas uma manifestação que foi, entre aspas, muito respeitada pelo governo Melech,
04:04que foi uma manifestação contra a tentativa de cobrar pela educação pública na Argentina.
04:12Porque essa é uma pauta que une toda a sociedade, é impressionante como na Argentina,
04:16esse é um valor muito enraizado assim na sociedade.
04:21Quando houve a manifestação também em 2024 de alunos, de professores, da sociedade como um todo aí,
04:26para falar contra a tentativa de cobrar pela educação nas universidades públicas,
04:33aí sim foi uma manifestação que excedeu um pouco esse campo aí do sindicalismo,
04:38esse campo da esquerda, assustou o governo e não houve uma repressão tão grande.
04:42Hoje, o que a gente vê em frente ao Congresso argentino é uma aglomeração relativamente pequena,
04:48mas que a gente acredita que pode crescer até o fim do dia, como já aconteceu em outras ocasiões na
04:54Argentina.
04:55O Guilherme Ravaste está aqui comigo para comentar um pouco dessa situação também.
04:59Bom, o argentino a gente sabe que tem uma tradição de protestar, né?
05:03Ele gosta de ir para as ruas.
05:04Historicamente, a gente sabe que o argentino nunca engole muito quieto o que o governo faz e não o agrada,
05:11né, Guilherme?
05:12Olha, você estava falando, né, que quando você foi, você teve a manifestação,
05:16eu já trabalhei para uma empresa argentina, eu fui umas quatro, cinco vezes para a Argentina.
05:21Todas as vezes que eu fui, no período anterior até o Milley,
05:25tinha manifestação, eu encontrei alguma manifestação na rua.
05:30Coincidência, mas o fato é que é um país que, nos últimos anos,
05:34passou por muitas dificuldades, desafios, e aí nesse momento agora com o Milley.
05:39O que que, acho que é importante, o mundo inteiro está observando atentamente a Argentina.
05:45Porque tem uma questão hoje, que é central na Argentina, que é o autoendividamento
05:49e a questão de cargos públicos, de como leis trabalhistas funcionam,
05:56que são problemas no mundo inteiro, principalmente nos países desenvolvidos.
06:01Mas no Brasil a gente também tem questões de pejotização,
06:05que não estão claras, não estão bem resolvidas, né?
06:08Um número crescente de pessoas trabalhando com o PJ, mas também tem o CLT.
06:12Quem tem CLT na empresa diz que não concorre de igual para igual com o PJ.
06:17Mesmo questão tributária.
06:18Então, as reformas, elas são necessárias.
06:21E o Milley, ele é um político que sempre foi desacreditado.
06:26Quando ele se candidatou, ninguém levou muito a sério, mas ele venceu a eleição.
06:30Aí disseram, ah, voto de protesto.
06:32Quando ele começar a cortar, quando ele colocar em prática o que ele falou,
06:37ele vai perder força ou vai perder influência.
06:41Ganhou a última eleição de parlamentar aí, mas a popularidade dele não é igual a que era no começo do
06:47mandato.
06:47Não é igual.
06:48Mas o fato dele ter vencido essa eleição de meio termo, vencido não porque ele não ganhou a maioria,
06:54mas de ter conseguido colocar um número suficiente de representantes que permitem que ele bloqueie
07:02ou possa formar colisões para passar leis, como ele está fazendo agora, é uma vitória.
07:07É, não. Eu concordo com o seu ponto de que o Milley ainda tem uma popularidade impressionante
07:12se você levar em conta medidas antipopulares que ele está adotando.
07:16O único país, exatamente isso, dentro desse contexto, o único país na história recente
07:21que tomou medidas tão duras e tão drásticas quanto o Milley foi a Grécia.
07:26Quando a Grécia quebrou, depois de pressão internacional, do FMI e de outros órgãos internacionais
07:33para fazer que essa reforma acontecesse.
07:35E o Milley faz isso sem ter a mesma pressão internacional, num certo sentido.
07:40Ele faz porque ele acredita.
07:42Ele está com o FMI no cangote ali também, né, Guilherme?
07:44Está no cangote, mas eu acho que era diferente, né, porque a Grécia, ela tinha uma situação
07:48que vinha do boom do euro e, de repente, aquela crise.
07:56É, só de você estar na zona do euro também, a pressão já é muito maior, porque tem um risco
08:00de contaminação sistêmica ali.
08:02E tem acordos que você realizou.
08:04A Argentina vem de décadas de crise, infelizmente, mas vem de décadas de crise.
08:09Então, você ter mais um período de crise seria, num certo sentido, justificável.
08:14Mas, de um jeito ou de outro, o Milley tem se mantido fiel à sua agenda.
08:19Ele tem apoio.
08:21A questão sindical, a gente precisa lembrar também que tem uma influência política grande, né,
08:26tradicionalmente o sindicato na Argentina é ligado ao governo, ele é muito próximo do governo,
08:33e o Milley rompe com isso.
08:35E essa ruptura tem causado também resistências, tanto dos sindicatos quanto dos opositores, né,
08:44do governo que hoje não está na liderança do país.
08:48Então, é bastante interessante a gente observar o que vai acontecer na Argentina, não só agora,
08:53mas nos próximos anos, porque, de fato, pode se tornar uma cartilha para diversos governos pelo mundo.
09:01E eu não estou aqui fazendo juízo de valor dizendo que essa cartilha é boa ou ruim.
09:06O que eu estou dizendo é que quando você olha custos de pensão crescendo no mundo inteiro...
09:12É, mas aí o que ele fez, você vai me desculpar, mas o que ele fez no caso específico das
09:16aposentadorias
09:17foi bastante injusto, né, porque ele pegou num ano em que a inflação foi mais de 200%,
09:22deu um reajuste de 100%, na prática, só por causa do efeito da inflação,
09:27ele cortou pela metade a aposentadoria de pessoas que muitas vezes não ganhavam tanto.
09:31Aí é muito fácil, né?
09:32Agora, na minha opinião, o grande trunfo do Milley, o que faz que ele tenha uma popularidade relevante ainda na
09:39Argentina,
09:39foi o fato de ele ter diminuído a inflação.
09:42A inflação lá ainda é alta, ainda está acima de 30% ao ano, mas ele pegou uma inflação de
09:47200%.
09:47Então, eu acho que o fato de ele ter conseguido diminuir um pouco a inflação, isso dá respiro para ele.
09:53Acho que é por isso que ele está conseguindo ainda tocar reformas impopulares
09:57sem ter uma oposição gigante no país, digamos assim.
10:00Talvez o ponto seja justamente esse, né, Marcelo?
10:03Essa questão que você trouxe da aposentadoria, que óbvio, a gente sabe como se impacta o aposentado,
10:08como as pessoas sofrem, mas é justamente esse tipo de medida drástica que governos como o do Milley
10:15e até o Trump, se a gente lembrar do DOJ nos Estados Unidos, o departamento de corte de custos,
10:21que no final não cortou custos assim, ou não foi efetivo da mesma forma,
10:24mas tem um cansaço, num certo sentido, ou tem uma parcela da população que acredita que essas medidas drásticas,
10:35radicais, são a solução para as questões econômicas de países como a Argentina e até os Estados Unidos.
10:41E o crescimento da direita na Europa também é um indicador de que essa aposta em medidas mais duras economicamente...
10:52Pensam no resultado final, se a conta fecha no Excel, se assim a gente pode dizer,
10:58tem conquistado muitos apoiadores aí pelo mundo.
11:01E no caso específico do Milley, Guilherme, ele na campanha já falava isso,
11:05a gente vai ter dois anos duros e depois a gente vai voltar a crescer.
11:09Então, muita gente na Argentina comprou essa promessa,
11:12e quando vê uma situação como essa, de uma reforma trabalhista que pode tirar muitos direitos de trabalhadores,
11:18elas podem estar pensando, podem estar com essa linha de raciocínio,
11:22não, está fazendo isso para melhorar, se não melhorar, aí a coisa fica feia para eles.
11:26É o remédio amargo, que é muito similar nos Estados Unidos.
11:32O Trump falou, não, a gente vai ter as tarifas, vai ser duro, mas a gente vai conseguir negociar
11:39e vai sair todo mundo melhor no final do túnel.
11:43Se vai sair melhor ou não, nos Estados Unidos a gente já vê sinais discutíveis,
11:47que isso de fato esteja acontecendo.
11:50Na Argentina, vamos ver se a reforma passa também para ver o que acontece.
11:54Mas você tem razão, Marcelo, esses dois anos aí vão ser determinantes para o Milley e também para o Trump,
12:00que vai enfrentar eleições agora de mês de mandato de novo, né?
12:04É, e a gente vai ter talvez uma narrativa envolvendo a Argentina na própria eleição brasileira,
12:09porque a gente vê a ultradireita aqui sempre trazendo o Milley como um exemplo,
12:16enfim, nas ações que ele está tomando na Argentina, e a esquerda também.
12:20A esquerda já está começando a falar, por exemplo, coisas como,
12:25ah, estão fazendo isso na Argentina, vão querer fazer igual no Brasil, vão querer cortar direito dos trabalhadores.
12:31O que é um discurso que, como você disse, também é bastante confuso aqui, né?
12:35Porque a gente tem duas situações aqui, tem a CLT e tem o fato da pejotização estar cada vez mais
12:40liberada.
12:41Isso foi aprovado pelo Supremo, inclusive, né?
12:44Exatamente.
12:44Então, a gente está aqui também com dois sistemas no Brasil, né?
12:48Um sistema em que pode tudo e outro sistema que é ainda bastante restrito.
12:52E no Brasil, até agora, a gente não vê o Congresso falando em liberalizar mais o sistema trabalhista,
13:00justamente porque já tem uma alternativa, que é a pejotização.
13:03É, ou mesmo enxugar a máquina pública, né?
13:05Quando o Dino tomou a decisão de tirar os penduricalhos, gerou muita polêmica, dependendo do lado que você está,
13:15mas teve nas ruas, por exemplo, táxi, Uber, eu encontro muita gente defendendo o Dino.
13:23No momento que o STF tem uma percepção tão negativa em torno do STF,
13:28o Dino conseguiu fazer com que várias pessoas elogiassem a postura dele,
13:34porque o sentimento de muitos é que o super salário está sendo combatido.
13:38Então, a gente não... é muito difícil, né?
13:41Se avaliar o todo por uma manifestação ou pelo resultado.
13:48Agora, você não tem a dúvida que na eleição desse ano,
13:50o Milley pode ser uma figura aqui no Brasil, sim, que vai aparecer na campanha.
13:53Se estiver indo bem o governo dele, vai ser muito usado aí, por exemplo, pela candidatura do Flávio Bolsonaro.
13:59E se o governo estiver indo mal, se a popularidade dele cair muito, vai ser usado pela campanha do Lula.
14:04Eu não tenho dúvida de que isso vai acontecer, não, porque o Milley também virou um fator ideológico ali, né?
14:09Porque ele tem uma conexão grande com o Trump, com outras forças de ultradireita do mundo.
14:13Então, o sucesso ou o fracasso do Milley, eu acho que vai ser um ator importante na nossa eleição aqui.
14:18É verdade, Marcelo.
14:19A própria questão da criminalidade, que na Argentina, do crime, segurança pública, se tornou uma questão pertinente,
14:27porque a gente tinha uma visão de uma Argentina muito diferente do que é hoje, né?
14:31Teve uma intensificação do debate em torno de segurança.
14:36Quando você está na Argentina, você vê hoje na TV, por exemplo, programas jornalísticos mostrando assalto, violência,
14:43coisa que há alguns anos a gente não via atrás.
14:45E lá, a segurança pública se tornou também um ponto de debate.
14:50O Milley tem uma linha muito dura, como você notou agora há pouco, né?
14:54Uma polícia muito rígida, né?
14:58Mesmo na repressão, as manifestações, ao combate à manifestação.
15:01E, novamente, isso é um elemento político aí, essa percepção de que você é duro na segurança pública,
15:08ajuda o Milley com uma parcela da população e pode ter um peso importante aqui no Brasil também, como você
15:14bem falou, né?
15:14Tá certo, Guilherme.
15:15A gente vai continuar acompanhando esse caso com bastante interesse,
15:18porque, obviamente, o que acontece na economia argentina interessa muito para a economia brasileira.
15:23Mas, agora, eu vou mudar de assunto, porque teve mais um caso de racismo.
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