00:00A gente segue nesse assunto conversando agora com a Denilde Roushacker, que é professora de relações internacionais na ESPM,
00:08que é sempre um prazer conversar com a senhora, professora Denilde, diante agora de números que eu vou pedir a
00:13sua ajuda para a gente tentar destrinchar.
00:16Os números e as linhas da lei são muito claras, mas os desdobramentos, os efeitos na economia é que a
00:23gente precisa de uma análise um pouco mais profunda,
00:25porque isso aí estão nas entrelinhas. A tendência é de que o projeto de lei do Javier Milley seja aprovado
00:34na leitura da senhora?
00:35Existe uma oposição, mas ele foi eleito com promessas, parafraseando o próprio Milley, de cortar na própria carne.
00:44Vai doer, vai piorar para depois melhorar. De fato, está piorando, mas diante desse discurso todo e da baixa aprovação
00:54do governo,
00:55que ainda está acima de 50%, de fato. Mas a senhora acredita numa aprovação desse projeto?
01:00Olha, tudo indica que sim, que o projeto vai ser aprovado. Primeiro porque ele já fez várias mudanças durante a
01:11negociação no Senado.
01:14Então, alguns pontos que eram muito mais sensíveis foram retirados e o governo está agora, obviamente, tentando convencer os deputados
01:28que são mais pró-reforma a terem aceitarem esse custo, porque é um custo altíssimo para a sociedade argentina.
01:40A gente está mexendo aqui com um dos pontos centrais da lógica argentina e do peronismo,
01:48que é a relação com o sindicato e com as relações trabalhistas.
01:53Então, é um pouco comparativamente quando o Brasil fez a primeira grande reforma que flexibilizou algumas das regras trabalhistas.
02:03Aqui, no caso da Argentina, está indo ainda além com uma dessas que você demonstrou aí nos quadros.
02:11Algumas desses pontos mexem com a estrutura do sindical.
02:17Então, com a questão do direito à greve, com a atuação sindical e, de outro lado, o México também com
02:29os ganhos diretos dos trabalhadores.
02:33Então, são as duas pontos muito sensíveis que têm gerado toda essa posição contrária na sociedade,
02:46mas também o Millet tem conseguido negociar e conseguido chegar a alguns acordos.
02:55Então, por isso que se entende que vai passar, pode ser que nem todos os pontos passam.
02:59Aqueles que são mais, com maior impacto na sociedade, pode ser que diminua, como ele já fez nessa mudança,
03:07por exemplo, sobre alguns dos ganhos que poderiam afetar setores muito específicos,
03:15mas a tendência esperada é passar sim.
03:20Pesora Ruhaker, é o seguinte, às vezes a diferença entre a teoria e a realidade é um abismo, né?
03:25Eu estive na Argentina como enviado especial para cobrir a eleição do Millet e, na época, eu conversei com empresários,
03:32com economistas, com analistas, cientistas políticos, mas a melhor conversa que eu tive foi com um vendedor de fruta
03:40que ficava ali numa praça na frente do Palácio Presidencial, a Casa Rosada.
03:45E ele me contou a trajetória dele.
03:47Ele disse que votaria no Millet buscando uma mudança, porque ele estava muito insatisfeito com o dinheiro que lhe sobrava
03:53no bolso.
03:53E ele era torneiro mecânico e ele havia optado deixar a indústria para vender fruta na rua.
04:01E ele me explicou, é muito simples, porque aí eu compro fruta ali no mercado central, vendo aqui,
04:07e eu vou oscilando o preço conforme a inflação e eu não tenho muita perda.
04:11Enquanto trabalhador, o meu salário não é reajustado mediante a inflação e eu vou perdendo dinheiro, eu pago os impostos.
04:19Por que eu estou contando essa história?
04:21Porque uma das justificativas do governo Millet é a seguinte,
04:24essa reforma trabalhista tem de acabar com a informalidade que é muito alta na Argentina.
04:30Números muito parecidos com o que a gente tem no Brasil aqui, ou com o que a gente tinha no
04:33Brasil em épocas de crise.
04:35Agora, o trabalhador, diante dessas dificuldades de receber, ter que trabalhar mais,
04:40ele vai querer sair da informalidade e ir para o trabalho, como a gente chama aqui de CLT?
04:48Essa eu acho que é a grande dúvida.
04:51Primeiro, porque tem mudado também a lógica do trabalho.
04:55Ao contrário, as pessoas querem mais flexibilização.
05:01A gente está discutindo no Brasil diminuir a escala de trabalho.
05:08Então, essa é uma tendência mundial e também está na Argentina.
05:13O que o governo está definindo aqui é que, como para o setor empregador diminui impostos,
05:21isso aumentaria do ponto de vista de ganho real para o salário.
05:28Então, você teria aí um ganho em termos de aumento das possibilidades salariais.
05:37E essa seria, então, formalizar seria um ganho para o trabalhador e para a própria empresa.
05:43Então, aqui acho que é um pouco parte do argumento do Milley.
05:50Eu acho que a grande questão deste processo também é a questão que afeta,
05:59no caso da Argentina, a gente tem um modelo que é muito mais tradicional
06:06e passou por menos reformas do que o modelo brasileiro.
06:10Então, essa é a primeira grande mudança que eles fazem em termos de atualização,
06:17de reforma das leis trabalhistas.
06:21E aí, o quanto para a população vai ser mais vantagem,
06:27acho que vai depender do quanto eles vão perceber que vão ter segurança de estarem no emprego
06:33e um salário que seja mais também compatível em termos de ganho.
06:39E acho que esse é o argumento que o governo está utilizando para conseguir defender a sua política
06:47e defender que para o país vai ser melhor.
06:51Bom, claro que ainda nós estamos no campo da especulação
06:54e é muito importante para nós aqui no Brasil estarmos de olho nos movimentos da Argentina
06:58porque podem se refletir aqui no Brasil, somos países vizinhos,
07:02uma relação comercial, laços políticos centenários,
07:06sem dizer que Brasil e Argentina são os pilares do Mercosul,
07:10a nossa relação de indústria é umbilical, por exemplo.
07:14Então, qualquer tipo de reforma trabalhista que vê que venha a impactar na economia
07:19acaba sendo um reflexo aqui para a gente de alguma maneira.
07:24Eu queria agradecer a conversa que eu tive com a professora Denise Rose-Hacker,
07:29que é professora de Relações Internacionais na ESPM,
07:32e esclarecer que essas imagens que acompanham aqui esse quadro,
07:35entre eu e a professora Denise, são de imagens ao vivo do Congresso Argentino,
07:42da Câmara Baixa, da sessão dos deputados federais.
07:47Essa sessão começou às duas horas da tarde,
07:48não tem diferença horária entre Brasília e Buenos Aires,
07:52as capitais brasileiras e argentina,
07:54então também lá são 19 horas e 34 minutos no horário local.
07:58E existe uma previsão, de acordo com a lista de deputados
08:02que querem falar aí na sessão,
08:04que ela ainda dure pelo menos até lá para umas duas, três horas da manhã.
08:10A gente vai saber então só amanhã, depois da madrugada,
08:14um eventual resultado dessa votação.
08:16Professora Delilde, muito obrigado pelos esclarecimentos,
08:19até uma próxima oportunidade, estou torcendo para que seja muito em breve.
08:24Eu que agradeço, boa noite.
08:26Até mais, professora Delilde.
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