00:00Eu tinha um professor de direito internacional público que falava o seguinte
00:03Direito internacional é o seguinte
00:06Se você tem canhão, você tem direito
00:09Se você não tem canhão, você não tem direito
00:13Eu quero perguntar o seguinte
00:14A Rússia invade a Ucrânia
00:18Porque a OTAN havia prometido em 1991 que não avançaria em relação a este país
00:24E praticamente está chegando na fronteira com a Ucrânia
00:28Muito bem, então ela usou isso como um pretexto ou uma explicação para se defender
00:33Os Estados Unidos prende o maduro
00:36Pode prender um chefe de estado, ele não tem imunidade
00:39E você tem também outras situações se desenvolvendo em todo o mundo
00:43Agora, por exemplo, a Groenlândia
00:44Eu queria, em primeiro lugar, com a sua análise
00:47Será que aquele professor meu, professor consagrado, infelizmente já falecido
00:51Tinha razão?
00:53Quem não tem canhão não tem direito
00:54Então que direito é esse?
00:56Queria te ouvir
00:56O seu professor era adepto na teoria da capacidade
01:00Então, lá no século XVII, a ideia de que um Estado era Estado
01:04Se tivesse o reconhecimento das potências
01:06Então, bastava ser reconhecido que você tinha todos os direitos e estava em pé de igualdade
01:11Com o mundo atual, não só agora, mas já no século XX
01:15Começou a surgir cada vez mais forte na teoria das relações e do direito internacional
01:21A ideia de capacidade
01:23Ou seja, eu tenho que ser capaz de impor a minha soberania
01:26E isso vem se confirmando nos episódios que você acabou de narrar
01:31Ou seja, parece que um mundo em que você só vai ter soberania
01:35Não pelo reconhecimento lá de ser parte das Nações Unidas e ser reconhecido por potências
01:41Mas sim se você tiver capacidade militar, econômica, financeira de estabelecer isso
01:47Então, digamos que o seu professor estava antecipando um cenário
01:50Era um de volta para o futuro
01:52Ele te contou como o mundo ia ser depois de alguns anos
01:55Agora, eu te pergunto
01:56Nós temos organismos internacionais
01:58Tem a Organização das Nações Unidas, a ONU
02:02Mas se as grandes potências, principalmente aquelas superpotências nucleares
02:07Como Estados Unidos, Rússia e China
02:09Não derem um exemplo, aí não adianta nada
02:12Eu te pergunto
02:13Esse fenômeno, do fenômeno da afirmação pela capacidade militar
02:18Começou a se pronunciar mais a partir do 11 de setembro
02:22Quando os Estados Unidos dizem, eu vou invadir o Iraque
02:25Quem quiser invadir, vem comigo
02:27Quem não quiser, é problema seu
02:28A França e a Alemanha se opuseram
02:30Ele diz, a ONU é apenas um local para discussões intermináveis e monótonas
02:34Foi a partir desse momento que eu queria que o senhor analisasse a evolução
02:38Do desrespeito às normas internacionais a partir do 11 de setembro
02:43Essa data que você coloca, a cabeça de 2001
02:46A gente tem o início de um unilateralismo
02:50Ou seja, se a gente olhar, por exemplo, a guerra do Iraque lá no começo dos anos 90
02:54É um país em conflito com outro no Oriente Médio
02:57E há uma ação americana com, digamos, um certo beneplasto ali do Conselho de Segurança
03:03Ou seja, dentro ainda daquela arquitetura
03:06E aí faz ali uma intervenção militar para cessar a guerra
03:09Entre Iraque, Kuwait, entre aqueles países
03:13Agora, com relação ao 11 de setembro, não
03:16Ou seja, os Estados Unidos se sentem atacados
03:18De modo extraterritorial ali por uma ação que nem é estatal
03:23Uma organização terrorista
03:25Uma organização terrorista
03:26E aí sente que ele está sendo objeto ali de uma declaração de guerra
03:31E essa organização estaria em um território específico
03:35E ele se sente no direito de retaliar e levar a guerra frente aos seus agressores
03:41Essa é a grande mudança
03:42Mas até ali você ainda tem uma certa importância da ONU, das Nações Unidas
03:49Ou seja, existe alguma discussão
03:52Algum reconhecimento que aquilo é um caso excepcional
03:55Seja a Al-Qaeda, seja o Estado Islâmico
04:01Todos são vistos como situações excepcionais
04:03Que permitiriam ações excepcionais
04:05Mas agora, no mundo atual
04:08É como se o unilateralismo tivesse se exercebado
04:11Começando com a guerra de invasão da Crimea em 2014 pela Rússia
04:16Aí é uma ação completamente unilateral
04:18Sem nenhuma provocação
04:21Com um claro intuito de expansão territorial e marítima
04:25A alegação da Rússia é que os Estados Unidos, através da CIA
04:30Realizaram um golpe de Estado
04:33E depuseram o presidente Yanukovych
04:37Da Ucrânia, que era pró-Rússia
04:41E usaram isso como um pretexto
04:42E invadiram a Crimea
04:44E os Estados Unidos, através da Rússia
Comentários