00:00Claro que o nosso assunto agora é o Fórum Econômico Mundial em Davos.
00:09Tensões geopolíticas e comerciais marcaram o encontro anual do Fórum Econômico Mundial
00:15de Davos, na Suíça, que termina neste sábado.
00:19O discurso do presidente americano, Donald Trump, concentrou boa parte das atenções,
00:24roubou ali todas as conversas paralelas, com destaque para a disputa pela Groenlândia
00:33e para a ação dos Estados Unidos na Venezuela, temas que foram muito enfatizados
00:38no discurso de quarta-feira do presidente Donald Trump.
00:42Tarifas, acordos e reservas de minerais críticos também pautaram discussões no evento,
00:48principalmente depois da passagem de Trump por Davos.
00:51Vamos analisar os reflexos dessa edição de Davos para o ambiente global de negócios
00:56com Vinícius Rodrigues Vieira, que é professor de Economia e Relações Internacionais da
01:01FAAP e também da Fundação Getúlio Vargas, que é sempre um prazer recebê-lo aqui na
01:07nossa programação.
01:09Vinícius, boa tarde mais uma vez.
01:11Bom, gostei de uma expressão que eu li nos jornais europeus hoje, né?
01:15O Trump fez o Fórum de Davos ser grande de novo?
01:20Estava meio eclipsado, meio ali colocado às margens.
01:24É uma discussão importante, claro, do mundo dos negócios, mas a presença bombástica
01:29do Donald Trump fez com que o mundo parasse para ouvi-lo e agora continuasse discutindo,
01:36reverberando o que ele falou, né?
01:38Diante do que foi apresentado, esses desdobramentos, a gente queria começar a conversa com a primeira
01:44avaliação sua, professor Vinícius, né?
01:47O quanto ele acabou pautando outras discussões que até estavam previstas no Fórum, acabaram
01:55sendo de alguma maneira eclipsadas por conta das fortíssimas declarações do presidente
02:00Trump.
02:01Boa tarde, professor Vinícius, mais uma vez, obrigado por estar aqui na nossa programação.
02:05Boa tarde, Favali, é um prazer sempre estar com vocês.
02:09Nós estamos aqui, Trump, sim, trazendo ali nova luz, né?
02:13Novos holofotes para o Fórum Econômico de Davos, mas sobretudo em função daquilo
02:20que o Fórum nunca foi, justamente era um ambiente o quê?
02:25De mercado, de defesa do livre mercado, um ambiente da economia de mercado, da economia
02:31mais aberta possível, enquanto Trump, ele mostra ali que é possível pensarmos ainda
02:38em alguma forma de integração econômica, porém subordinada a uma agenda de segurança.
02:43Então, sim, o Fórum, ele volta aí depois de um período eclipsado, principalmente no pós-pandemia
02:48e, sobretudo, em virtude da ascensão da China, com o seu modelo mais centralizado
02:54no Estado.
02:55O Trump, ainda que ele, obviamente, como presidente dos Estados Unidos, vá favorecer ali soluções
03:02que passam, de alguma maneira, pelo mercado, não obstante o seu protecionismo, o seu intervencionismo
03:08na economia, ele, porém, ele coloca ali novas cartas no jogo, ou seja, a ideia de que
03:14é necessário preocupar-se, sim, com questões de segurança e, portanto, sai aquela velha
03:21agenda que caracterizou também o Fórum aí nos anos da globalização.
03:26Ou seja, o Trump, ele redireciona as discussões, traz aí atenção novamente para Davos, mas
03:33de uma maneira bastante diferente daquela que o Fórum, na sua concepção original,
03:39tinha sido vislumbrado.
03:40Agora, professor Vinícius, também vou precisar da sua interpretação para me ajudar a entender
03:45o que pode ter sido uma contradição em termos.
03:48Onde que eu quero chegar, né?
03:49O Fórum, que é famoso por décadas, por primeiro reunir governos e agentes de mercado
03:56e, com o avanço das comunicações, ganhou aí o interesse de um público maior, mas ele
04:03foi construído muito sobre um discurso multilateralista, principalmente depois da Segunda Guerra Mundial,
04:10principalmente depois da reconstrução da Europa a partir de uma ajuda dos Estados
04:14Unidos, a ascensão dos tigres asiáticos.
04:18Então, muitas das discussões é abertura de mercado, cooperação.
04:24O Donald Trump chega com um discurso que é uma das bases do segundo mandato sobre a
04:30quebra desse multilateralismo.
04:32O discurso dele, inclusive, com uma coincidência que acontece na semana em que os Estados Unidos
04:38terminam o processo de sair de 60 organizações internacionais.
04:43Hoje, deu ali a última assinatura para retirar dos Estados Unidos da ONC, por exemplo, desculpa,
04:48a OMS, a Organização Mundial da Saúde.
04:52Ele fala que os Estados Unidos são a grande roda motriz do mundo e que todo mundo ali dança
04:57conforme a música.
04:59Não estou sendo exatamente fiel ao discurso, mas dando este conceito.
05:04E depois, os outros líderes que falaram após Trump desmontando esse discurso.
05:10A exemplo do canadense Mark Carney, o primeiro-ministro do Canadá, que levou depois uma lapada dizendo
05:16que o Trump não quer mais que ele faça parte desse Board of Peace.
05:20E o Donald Trump apresenta, aproveita um palco de discussões multilaterais para tentar esvaziar
05:28ainda mais as Nações Unidas e criar um Conselho da Paz em que ele, não Estados Unidos, mas
05:34ele, propriamente dito, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é o pilar principal de
05:40condução.
05:41É o chefe de uma espécie de Organização Mundial de Paz paralela, que não é nem na ONU
05:46e nem no Conselho de Segurança.
05:49Fiz tudo isso para chegar à pergunta principal, professor Vinícius.
05:52Qual é o risco dos Estados Unidos, nesta gestão, acabar isolado?
05:58É um risco bastante alto, Favale, porque o Trump ainda tem muito essa aposta de que
06:04os Estados Unidos são o único centro econômico-financeiro do mundo.
06:10E, de fato, ele tem certa razão.
06:11Porém, houve o surgimento de alternativas, principalmente aquelas lideradas pela China.
06:17Sistemas de pagamentos, a própria internacionalização da moeda chinesa, tanto que o Trump teme isso
06:22bastante.
06:23Basta lembrar de algo que hoje está um pouco apagado, mas da preocupação do Trump há
06:28um ano, quando ele iniciava o seu segundo mandato, com os BRICS e a eventual desdolarização.
06:34O que pode acontecer ao longo do tempo é que o Trump fique isolado e, por consequência,
06:39os Estados Unidos, um exemplo, acho que excelente, é esse Board of Peace, que, aliás, aqui é
06:44importante dizer, a palavra board, ela não é neutra, ela é traduzida para o português
06:47como conselho, mas a ideia de conselho, originalmente, em inglês, de nações, é council, ou seja,
06:53algo mais horizontalizado.
06:55Board é muito mais do que uma imposição, lembra a lógica de uma empresa, de uma corporação,
07:00que funciona muito bem no mundo privado, sem dúvida, as grandes corporações trabalham
07:04assim, mas as nações não são corporações.
07:07E tanto que o Trump só atraiu ali para o Board of Peace países que figuram hoje, vamos
07:13assim dizer, com todo respeito aos líderes, uma segunda divisão da política internacional.
07:18Então, países, mesmo os que são mais fortes nas suas regiões, como o Brasil, por exemplo,
07:23ainda não entraram, se é que vão entrar.
07:25Por que estou falando tudo isso da questão política?
07:28Eu posso alentar que Trump usa a questão política para tentar manter a economia americana
07:34na ribalta e ganhar mais força política, porque ele vê o multilateralismo não mais
07:40servindo aos propósitos dos Estados Unidos, e de fato a China ganhou muita força nas organizações
07:47multilaterais, a própria OMS é um exemplo, assim como na própria OMC, na qual os Estados
07:52Unidos ainda fazem parte, porém, aí sempre com grandes tensões, basta pensar no tarifácio.
07:58Mas é uma aposta que, ao meu ver, está fadada ao fracasso.
08:01Se Trump não for, vamos dizer, constrangido pela política interna americana nessas eleições
08:06de 2026, de meio de mandato, com a potencial e muito provável vitória dos democratas ali,
08:12pelo menos na Câmara dos Representantes, os aliados dos Estados Unidos vão buscar alternativas.
08:17E a gente vê aí já movimentações nesse sentido, uso de moedas regionais, troca nas
08:23próprias moedas, não a criação de uma nova moeda, como se aventou aí no contexto dos
08:27BRICS, acho isso muito pouco provável. Mas canais alternativos serão explorados não
08:32só, importante dizer, pelos governos que não mais confiam nos Estados Unidos, embora
08:37não digam isso explicitamente, mas sobretudo que pelos atores de mercado. Da mesma maneira
08:42que no passado nós tivemos a libra esterlina sendo deixada de lado pelo mercado, nós também
08:49corremos o risco de, não imediatamente, mas que esse segundo governo Trump seja o começo
08:54do declínio do dólar americano como moeda de transação internacional. Ainda não há
08:59sinais nesse sentido, mas a história ensina que os passos para a desconfiança estão,
09:06infelizmente, sendo plantados por Donald Trump.
09:08Professor Vinícius, o senhor que estudou economia e depois relações internacionais sabe que
09:13existe um ponto de intersecção que é a história. Para a gente projetar o futuro, a gente olha
09:18o passado e tenta ver as coincidências. E mais do que cíclica, a história é helicoidal.
09:25Ela dá um ciclo e um passo à frente. Se isso aconteceu no passado, a gente tem aí uma
09:31previsão bastante sólida que vai voltar a acontecer. Declínio do dólar, declínio
09:37dessa hegemonia americana. A ver, né? Por tudo que passou, parece que nós já estamos
09:43quase no final de 2026. Sequer acabamos janeiro. Certeza que eu tenho que nós poderemos contar
09:49com os seus conhecimentos para desmembrar tudo que há por ver. Vinícius Rodrigues Vieira,
09:55professor de Economia e Relações Internacionais, tanto na FAAP quanto na Fundação Getúlio Vargas.
10:00Sempre um prazer recebê-lo. Vinícius, até uma próxima oportunidade.
10:05Muito obrigado, Favali. Excelente fim de semana a todos. Até mais.
10:08Até mais.
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