00:00Fast Money de volta. Europa, Groenlândia, Venezuela, as tensões geopolíticas em torno do governo Trump
00:08marcaram o discurso do presidente americano ontem no Fórum Econômico Mundial de Davos.
00:13Aliás, o mundo parou para ver o que o Donald Trump iria falar.
00:17Não à toa, investidores acompanham com atenção as falas do republicano de olho em impacto nos mercados globais.
00:26Para analisar esse tema, fazer aqui quase que um exercício de futurologia, eu recebo o Maurício Moura,
00:33que é sócio do fundo ZAFTRA e professor lá nos Estados Unidos da Universidade George Washington,
00:39a quem tenho o imenso prazer sempre de receber aqui na nossa programação, Maurício, nós que nos conhecemos há muitos anos.
00:46Maurício, que difícil função a sua de analista, de tentar prever o que é o governo Donald Trump.
00:52Por quê? Tem ameaças, tem um discurso, às vezes muito anabolizado de conquistas próprias e, de repente, o impensável.
01:02Parece exagero mesmo, mas se a gente voltar para o dia 3 de janeiro, quando no governo Trump há uma invasão de tropas especiais militares da Venezuela,
01:12a captura do presidente Nicolás Maduro.
01:15Não que isso já não tenha acontecido na história com o envolvimento dos Estados Unidos, mas a gente achava que tinha ficado um pouco mais para trás aí,
01:23só nos livros de história com H maiúsculo.
01:26Agora, a gente viu essa repetição.
01:27Isso cria, claro, que um panorama de incerteza.
01:32O Donald Trump ontem falou, olha, não vou usar a força para conquistar a Groenlândia, mas não abro a mão da conquista.
01:40O problema é que a Europa Ocidental, e aí quase que um discurso oníssono do resto do mundo, está dizendo, olha, não é bem assim.
01:47É aí que eu cheguei no meu ponto de incerteza.
01:50Daqui para frente, o que investidores, analistas, no seu caso, têm olhado sobre não só o futuro da Groenlândia, a participação dos Estados Unidos,
02:00mas o quanto isso pode fragmentar ou isolar os Estados Unidos na administração do Donald Trump do resto do que a gente se acostumou a chamar de sistema mundo.
02:12Boa tarde mais uma vez. Obrigado pela presença, Maurício.
02:15Boa tarde. Bom vê-lo. Feliz Ano Novo para você.
02:19Bom, nossa, você fez várias perguntas aqui. Eu queria dividir em três partes.
02:23A primeira é a gente olhando o mercado financeiro, olhando a curva de juros dos Estados Unidos.
02:30Os Estados Unidos, obviamente, eles precisam ser financiados.
02:34Os investidores e o mercado internacional acessam a dívida americana comprando títulos do título americano.
02:40E é importante mencionar que esses títulos do título americano estão sofrendo de algum estresse,
02:46dessas incertezas que o Donald Trump gera.
02:49Então, o que a gente está percebendo no mercado são curvas de juros mais acentuadas,
02:53que incorporam um elemento de incerteza que foi colocado por essa administração.
02:59E a grande pergunta, inclusive, o que a gente viu ao longo de 2025 e vem se repetindo já no início de 2026,
03:05é que existe uma busca até de uma certa diversificação em relação a essa dívida americana,
03:12que costumava ser o que o mercado chama de risco zero.
03:15Então, a gente está vendo uma tensão, uma tensão pequena ainda.
03:19Não dá para comparar com o que aconteceu no Reino Unido,
03:21quando teve uma pressão sobre os títulos britânicos com a Alice Trust,
03:25que foi uma primeira-ministra que ficou super rápido.
03:27A gente não está nesse patamar ainda, mas existe.
03:30As curvas estão mostrando que existe uma preocupação do mercado,
03:32e o mercado está olhando o longo prazo nos Estados Unidos com um coeficiente de incerteza.
03:37Isso é uma coisa importante.
03:39Aí, o segundo elemento é justamente isso que você mencionou.
03:44É difícil de avaliar agora, porque a gente está passando por isso,
03:47mas uma coisa é certa.
03:49Eu acho que esse Fórum Econômico Mundial, principalmente o discurso do primeiro-ministro canadense,
03:55ele colocou a público uma coisa que todo mundo conversa nos bastidores,
03:58inclusive aqui em Washington, que é uma grande preocupação de republicanos, inclusive.
04:02Esse governo Donald Trump está colocando um custo reputacional
04:08que não é fácil de mensurar o dano que esse custo reputacional pode trazer aos Estados Unidos no longo prazo,
04:15porque basicamente é um mundo, e foi expresso isso no discurso do Mark Cunning,
04:20não dá mais para contar com os Estados Unidos,
04:22porque os Estados Unidos basicamente estão vivendo de uma mudança de administração
04:25que pode levar para um lado ou levar para o outro.
04:28Isso é uma coisa inédita.
04:29Inclusive, o ano passado e agora em 2016, a gente vê um pouco
04:33alguns investidores que querem permanecer na Bolsa Americana.
04:37É importante dizer que a Bolsa Americana continua trazendo grandes retornos,
04:41principalmente com o pacote de tecnologia das ações de Bolsa,
04:44mas investidores agora estão até buscando réde no dólar,
04:47que não era uma coisa usual.
04:48E, obviamente, que isso tem a ver com essa instabilidade
04:51que essa administração trouxe, não só para agora,
04:53como para o relação ao futuro.
04:55E o terceiro ponto, que o Donald Trump está numa jornada,
05:00numa cruzada muito complexa, porque, ao mesmo tempo,
05:03e todas as minhas fontes da Casa Breca falam,
05:05ele quer ser um presidente com um impacto histórico único.
05:09Acho que existe uma busca de legado,
05:12e, obviamente, que essas coisas de expansão de território,
05:15de avanço numa política de, entre aspas,
05:18mais agressiva em relação à América Latina,
05:21esse confronto com a Europa, está nesse pacote de ter um governo impactante.
05:25Mas, ao mesmo tempo, ele é um governo impopular nos Estados Unidos.
05:29A popularidade dele caiu ao longo do mandato.
05:32As questões que foram cruciais para a eleição dele,
05:34como o custo de vida, é um problema,
05:36que esse governo não endereçou,
05:38e, obviamente, as paristas não ajudam a endereçar isso.
05:40E a forma como o governo tem lidado internamente para a imigração
05:43também é um problema,
05:44porque está sendo muito diferente do que foi proposto na campanha.
05:47Para além disso, só para encerrar,
05:48eu acho que eu falei muito,
05:50ainda tem uma preocupação do mercado em relação à interferência,
05:54à ingerência do Donald Trump,
05:56especificamente, no Federal Reserve,
05:58que é o Banco Central americano.
05:59Que isso, sim, pode ter um custo enorme,
06:01adicionado a esse elemento de incerteza
06:03que está sendo incorporado nas curvas de juros.
06:05Se houver uma percepção que o Federal Reserve
06:07é um braço político da Casa Branca,
06:10independente se é republicano ou democrata,
06:12isso vai ter um impacto que vai ser maior
06:14do que a gente está vendo hoje no mercado.
06:16Maurício, pode anotar,
06:17eu tenho certeza que a gente vai se falar muito em 2026,
06:19porque temos as chamadas eleições de meio de mandato,
06:22renovação do Congresso,
06:24e historicamente,
06:25a reputação do presidente,
06:27a aceitação, popularidade,
06:29acaba refletindo no partido dele,
06:32nessa opção do eleitor.
06:34Então, pode anotar que a gente ainda vai falar muito de Fed,
06:37de popularidade,
06:39mas eu ainda queria manter um olhar
06:40no discurso de ontem do Trump,
06:43que ainda está reverberando,
06:44porque depois do discurso,
06:46o Trump recuou das tarifas
06:48que seriam impostas à Europa
06:50em duas partes,
06:51agora a primeira já em 1º de fevereiro,
06:54depois outra mais para meados do ano,
06:56de 10%,
06:57depois subiriam para mais de 20%.
07:00Disse o Donald Trump,
07:02cheguei a um acordo
07:03para aqui o controle da Groenlândia.
07:06Aí depois veio o secretário-geral da OTAN,
07:09e falou,
07:09ó, não é bem assim não, né?
07:11Acabou recuando um pouco ali
07:12do discurso do Donald Trump.
07:15Bom, o presidente americano,
07:16ele segue crítico aos países do continente,
07:20me referindo obviamente à Europa Ocidental,
07:22os países que compõem a OTAN,
07:24e ali ele tocou num ponto de imigração.
07:28Ah, a Europa já não é mais o que era antes,
07:31eu não reconheço mais a Europa,
07:33é difícil falar para os meus amigos,
07:35olha, a sua casa não era como foi antes, né?
07:39Foi antes.
07:40O que essas críticas sinalizam
07:42com relação a Estados Unidos?
07:46Gestão Trump, Europa,
07:48e aí a resposta,
07:49não vou dizer que veio a cavalo,
07:51mas ela veio com uma outra cartada da Europa,
07:53que é suspenda o acordo União Europeia-Estados Unidos.
07:58Eu só queria colocar mais um tempero nessa conversa, Maurício,
08:01não sei se você concorda comigo,
08:02os Estados Unidos hoje,
08:03na terceira década do século XXI,
08:05não é o mesmo Estados Unidos,
08:07ou não são os mesmos Estados Unidos,
08:08de ir logo depois da Segunda Guerra Mundial,
08:11essa reconstrução da Europa, do Japão,
08:16a zona de influência ainda existe, claro,
08:19mas nós temos outros players mundiais,
08:21e os Estados Unidos não estão mais com essa bola toda,
08:23como esteve na década de 60, 70, 80, 90.
08:28O que isso pode,
08:29essa tensão, para dizer o mínimo,
08:31entre União Europeia e Estados Unidos,
08:33pode refletir no resto do mundo,
08:35inclusive na visão do investidor?
08:39Bom, eu acho que aí tem um risco e uma oportunidade,
08:42de maneiras bem gerais.
08:43primeiro, o risco que você descreveu,
08:45a gente ter uma nação com o poder dos Estados Unidos,
08:49econômico, militar,
08:50basicamente exalando incerteza
08:53na relação com aliados históricos,
08:55como é o caso da União Europeia,
08:57obviamente que isso introduz uma imprevisibilidade
09:00que é péssima,
09:01e obviamente que a gente viu essa semana
09:02um pouco da amostra do que é no mercado,
09:05o mercado oscilou bastante,
09:06essa semana,
09:08e eu acho que
09:09isso é muito ruim
09:11para o longo prazo,
09:13e porque obviamente,
09:14se os Estados Unidos de alguma maneira se isola,
09:17obviamente com essa relação tensa
09:19com a União Europeia,
09:21não existe vácuo de poder,
09:22esse poder vai ser ocupado,
09:24eventualmente,
09:24por atores que não jogam
09:26a regra do jogo,
09:28a regra do direito internacional,
09:29a regra estabelecida
09:30na pós-segunda guerra mundial,
09:32e esses atores são conhecidos,
09:34a gente está falando de Rússia,
09:35a gente está falando de, eventualmente, a China,
09:37a gente está falando de Coreia do Norte,
09:38a gente está falando de Irã,
09:39enfim,
09:40esse espaço tende a ser ocupado,
09:42esse vácuo de poder,
09:43esse vácuo que os Estados Unidos exercia.
09:45Por outro lado,
09:46vou falar de oportunidade também,
09:47a gente vê,
09:48pelo menos a Europa,
09:50que tem uma dificuldade de coordenação,
09:51por vários motivos,
09:52que ela é começando a agilizar coisas
09:55que eram improváveis,
09:56a gente tem um exemplo agora
09:57desse acordo com o Mercosul,
09:58que demorou 25 anos,
10:00e eu tenho convicção,
10:01até pela apuração que eu fiz aqui,
10:03que se acelerou por causa do Donald Trump.
10:07Também tem a Europa agora visualizando
10:09o fato de que precisa se organizar militarmente,
10:12que era uma coisa que era impensável
10:14do ponto de vista de coordenação.
10:16Agora, assim,
10:17do mercado,
10:18é importante dizer que
10:19existe a possibilidade,
10:22que hoje é muito embrionária,
10:25de eventualmente,
10:26se os Estados Unidos e o Donald Trump
10:28estressarem muito essa relação,
10:30de haver uma coordenação
10:31em relação aos títulos do tesouro americano.
10:33A gente teve ontem uma amostra
10:35de um país falando
10:36que não vai vender os títulos,
10:38mas é uma coisa muito séria,
10:40realmente a Europa tem essa força,
10:43ela é consumidora dos títulos americanos,
10:46então essa é uma possibilidade
10:48que quando isso for colocada em jogo,
10:51pode trazer muito estresse para o mercado.
10:53Por outro lado,
10:54só para finalizar,
10:55o Donald Trump gosta de embates
10:57e ele respeita quem,
11:00de alguma maneira,
11:01mostra poder e mostra reação.
11:03Foi assim com a negociação com a China comercial,
11:06de alguma maneira foi assim com o Brasil,
11:08e eu acho que,
11:09não acho ruim para a relação
11:11com o Donald Trump,
11:12uma resposta,
11:13mesmo que seja uma resposta pública,
11:15são medidas mais atômicas,
11:19eu acho que para a relação,
11:20pelo que eu conheço da administração Trump,
11:22é que ele se sentiu respeitado
11:24quando tem esse enfrentamento.
11:27Obrigado, Maurício Moura,
11:28mais uma vez,
11:29que é sócio do Fundo ZAFTRA
11:31e professor da Universidade George Washington,
11:34nos Estados Unidos,
11:35e a quem sempre nos recebe aqui
11:37com muita precisão.
11:38Maurício, obrigado,
11:39bom restinho de semana,
11:41ótimo começo de 2026,
11:43a gente já está quase em fevereiro,
11:44mas é a primeira vez
11:45que a gente se falou no ano,
11:46então ainda vale o Feliz Ano Novo.
11:48Até uma próxima.
11:50Bom trabalho, um abraço.
Comentários