00:00Nosso assunto agora é mudanças na dinâmica da geopolítica, especialmente nas políticas dos Estados Unidos e da União Europeia.
00:09E este será um dos temas dos eventos FT Climate and Impact Summit, Latina América, e Brasil 2030, uma nação de oportunidades,
00:20promovidos na próxima semana pelo Times Brasil, licenciado exclusivo CNBC, em parceria com o Financial Times.
00:27Vamos conversar agora com Igor Lucena, economista, CEO da Amero Consulting e doutor em Relações Internacionais.
00:37Boa noite, Lucena, sempre um prazer te receber aqui.
00:41Bom, a gente está olhando aí para um panorama em que política e economia sempre andaram de mãos dadas, mais do que nunca agora, né?
00:50E agora a gente tem que olhar esse pacote da geopolítica.
00:54Temos um player novo agora a partir de janeiro, que é o Donald Trump, que está remodelando aí, inclusive, as cadeias de relação econômica entre os países.
01:09Na tua avaliação, né? O que a gente tem daqui para frente, principalmente diante dessa névoa da incerteza?
01:15O tarifácio começa, depois ele é suspenso, mudam os valores, a relação entre Estados Unidos e China ainda é uma incógnita,
01:25porque o presidente Donald Trump já deu duas protelações para a aplicação do tarifácio à China.
01:33Como é que é fazer uma análise e o que esperarmos para o final do ano, principalmente diante desse cenário de incertezas?
01:40Boa noite mais uma vez, Lucenar.
01:43Boa noite, Marcelo. É um prazer estar aqui com você mais uma vez.
01:47Bom, antes de mais nada, a gente está... São duas palavrinhas que eu acho que são importantes, né?
01:52A geopolítica é o que a gente está vendo e quando a gente fala de geopolítica a gente está falando de territórios, né?
01:59A gente está falando de mudanças de territórios e mudanças geográficas.
02:03Essas mudanças geográficas vão, não só pelo que a gente assistiu nas últimas 48 horas, né?
02:10A possibilidade de uma mudança geográfica logo na região da Ucrânia, né?
02:15Como a gente também assiste outra palavra que é a geoeconomia,
02:20onde eventos políticos influenciam a economia e onde eventos econômicos influenciam a política.
02:28E eu acho que isso vai se tornar cada vez mais presente na vida de todos nós.
02:33Mas, do ponto de vista prático, Marcelo, o que a gente está assistindo?
02:38A gente está vendo muito nitidamente uma queda da importância de instituições multilaterais.
02:45Então, a Organização Mundial do Comércio, até mesmo a própria ONU, perde muita força.
02:51E você vê que as instituições internacionais que têm força são aquelas instituições
02:57ou que têm uma capacidade financeira, grandes bancos como o Asian Development Bank
03:03ou o próprio Banco dos BRICS, mas principalmente as instituições militares.
03:08E aí eu vou dar um exemplo da própria OTAN, que se tornou mais forte do que nunca nos últimos dois anos, né?
03:15Um outro ponto fundamental, e eu acho que é importante, é uma nova corrida armamentista.
03:20As grandes nações estão investindo radicalmente recursos militares,
03:25seja do ponto de vista público ou privado, para passar de metas de 2%, em alguns casos, até 5%.
03:33Mas quando a gente fala de remodelação das cadeias globais de valor,
03:38acho que o mundo vai ver produtos e serviços mais caros
03:41e países que vão fazer relações comerciais com aqueles que eles têm mais afinidade,
03:49seja um histórico político, seja um histórico de administração democrática ou menos democrática, mais autoritária.
03:58Porém, eu acho que tem alguns exemplos que, para mim, são muito claros.
04:02A gente está vendo hoje a China com problemas na sua própria produção,
04:08ainda um grande problema interno do ponto de vista dos imóveis.
04:13O governo não está conseguindo resolver o problema imobiliário.
04:16A gente está vendo os Estados Unidos abrindo um gap em relação à China do ponto de vista de maior economia.
04:21Então, acho que a gente ainda vai ver um século dos Estados Unidos.
04:25E aquela visão que o próprio presidente Lula coloca, Marcelo, de desdolarização,
04:29não bate com a realidade.
04:31Nas últimas duas semanas, a gente viu mais de 9 trilhões de dólares
04:34serem alocados em títulos americanos, uma máxima histórica.
04:38Mostrando que, apesar de Donald Trump estar fazendo esse jogo,
04:43pesado com os outros países,
04:45em muitos casos, para a visão americana, está dando certo.
04:48E a gente está vendo isso no mercado acionário americano, que está com máximas históricas.
04:53Então, no meu ponto de vista, a gente vai ver negociações
04:56que são muito mais a ferro e fogo, por assim dizer,
04:59E o que me preocupa, Marcelo, é o Brasil,
05:01que está muito desconectado de uma estratégia.
05:05A gente está sem uma estratégia geoeconômica
05:07para esse novo cenário internacional.
05:09E o acordo dos europeus com os americanos recente
05:13acho que coloca muito em cima do muro a nossa maior vantagem,
05:17que seria o acordo do Mercosul e União Europeia.
05:19Então, eu fico muito preocupado que o mundo está se reorganizando
05:24nesse tipo de nova conversa com os Estados Unidos
05:26e o Brasil está muito parado.
05:29Agora, professor Igor, a gente tem visto...
05:32Eu vou resumir aqui para a gente colocar os polos no mesmo eixo, né?
05:37Um afastamento com relação aos Estados Unidos,
05:41sem nenhum proselitismo, está certo, está errado,
05:44se isso é ruim, bom, bonito ou feio.
05:47E talvez muitas fichas sendo colocadas na China.
05:51Quais são os riscos e as vantagens de uma jogada dessa?
05:57Olha, Marcelo, eu acho que é uma jogada extremamente arriscada
06:01e do meu ponto de vista equivocada.
06:03A China já consome muitos produtos de exportação brasileiros,
06:07mas ela não tem espaço para consumir o que nós mandamos para os Estados Unidos.
06:12A China hoje faz uma negociação com os Estados Unidos
06:15para o aumento do consumo de soja americana,
06:17ao mesmo tempo que os Estados Unidos liberam os chips de alta tecnologia
06:21que os chineses querem, como, por exemplo, da NVIDIA.
06:25E isso nós não temos, essa ficha de barganho.
06:28E apesar da gente estar falando aqui de exportação,
06:33o que é mais preocupante para o meu ponto de vista
06:35é o chamado investimento direto estrangeiro, o IDE,
06:39onde a China investe pouco mais de 28 a 32 bilhões de dólares no Brasil,
06:45enquanto os Estados Unidos passam de 150 bilhões de dólares.
06:50É o maior investidor direto.
06:52Isso significa que esse afastamento pode significar
06:55não necessariamente um aumento de nossas exportações para a China,
06:59mas provavelmente significa uma queda do investimento direto norte-americano.
07:04E por que isso é ruim?
07:05Porque o investimento direto estrangeiro
07:07significa abertura de novas empresas,
07:10mais contratações, mais impostos dentro do Brasil.
07:14Então, se a gente faz uma análise criteriosa,
07:18esse afastamento que existe dos governos norte-americanos,
07:21dos Estados Unidos e essa visão pró-China
07:23não favorece o Brasil do ponto de vista de médio e longo prazo
07:27e realmente é muito preocupante.
07:29Eu acho que, no meu ponto de vista, é muito claro.
07:31As relações com a China já estão consolidadas
07:33e a China não pede um alinhamento político.
07:39Então, não haveria sentido de ter um afastamento de um polo
07:43para a entrada no outro.
07:44Muito pelo contrário.
07:45Nós teríamos que estar trabalhando
07:47para uma visão de aproximação com o governo norte-americano.
07:51Em Washington, hoje, o que mais ganha dinheiro, Marcelo,
07:54são os escritórios de lobby.
07:56E a gente precisa contratar rapidamente um escritório de lobby
07:59para o Brasil.
08:00E eu acho que aproveitar o momento até para regulamentar
08:02essa profissão que é importante para o Brasil
08:05e que a gente possa ter isso.
08:06Porque, meu ponto de vista,
08:08essa vai ser a primeira de várias crises geoeconômicas.
08:12Outras virão não só dos Estados Unidos,
08:14mas, por exemplo, uma vitória de Marine Le Pen
08:17ou Gru, que já estão com uma forte 12, 13 pontos na frente na França.
08:22Pode gerar uma crise com um governo francês mais à direita.
08:25E assim com outros governos nos próximos anos.
08:29Então, ou o Brasil muda a sua estratégia
08:32ou essa crise com o Donald Trump vai ser a primeira de muitas
08:35com outras nações daqui para frente.
08:37Eu tendo a terminar as entrevistas,
08:40professor Lucena, sempre falando dos próximos capítulos.
08:43Eu sei que eu estou caindo em um lugar comum,
08:45mas é isso.
08:46A gente ainda tem muitos desdobramentos a esperar.
08:49Queria agradecer a entrevista,
08:51a conversa que eu tive com Igor Lucena,
08:53economista, CEO da Amaro Consulting
08:56e doutor em Relações Internacionais.
08:58Muito obrigado mais uma vez pelos esclarecimentos, Igor.
09:02Bom final de semana.
09:03Muito obrigado, Marcelo.
09:04Bom final de semana a todos.
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