00:00O superávit comercial da China esse ano ultrapassou 1 trilhão de dólares.
00:05É a primeira vez que essa cifra é registrada não só na economia chinesa, mas também mundial.
00:10Nos primeiros 11 meses de 2025, as exportações da China aumentaram 5,4% em relação ao mesmo período do ano anterior,
00:18atingindo 3,4 trilhões de dólares.
00:21Já as importações diminuíram 0,6%, chegando a 2,3 trilhões de dólares também.
00:27Sobre esse marco histórico, eu converso agora com José Pimenta.
00:31Ele é diretor de Relações Governamentais e Comércio Internacional da BMJ.
00:36Boa noite, Pimenta.
00:39Boa noite, Felipe. Boa noite a todos. Um prazer estar aqui com vocês.
00:43Tudo bem? Muito bem.
00:44Pimenta, eu queria que você falasse um pouquinho.
00:46Esse número de 1 trilhão de dólares na economia chinesa é um número que impressiona até pelo volume.
00:51Eu queria que você falasse um pouquinho desse marco praticamente histórico.
00:57O marco histórico, Felipe, é um marco que realmente prova toda a potência trabalhada pela China,
01:04potência econômica, potência política, potência em negociações comerciais, não de hoje.
01:10A gente vê isso há mais de duas décadas.
01:13E, particularmente, o que tem acontecido nesses últimos anos, e sobretudo nesse último ano,
01:17a China mostra uma resiliência muito forte, uma economia que aí é composta basicamente 36% mais ou menos do seu PIB na casa,
01:2636% em indústria manufatureira, você tem um pouco mais, 56% em serviço, o resto é agricultura.
01:34E vem passando por dificuldades internas, porque você vai se lembrar que no começo da década,
01:39a China transferiu um pouco dessa necessidade de crescimento para o mercado interno,
01:46para a necessidade de crescimento interno, aquele crescimento de modelo de exportação,
01:50ele vinha se esgotando até por conta da demanda externa.
01:53Porém, com o tarifácio e com o arrefecimento da economia chinesa,
01:59a China vem passando por um processo de deflação,
02:01um processo de retração do seu mercado imobiliário,
02:04que ocupa aí na casa de 20%, 25% do PIB, dependendo de como você analisa,
02:08uma população com uma poupança muito forte ainda, em termos de gastos, se mostra muito retraída.
02:14Então, a China volta a ter também um crescimento ancorado em mercado externo.
02:19E aí, quando eu ia falar particularmente esse ano, salta aos olhos a questão com os Estados Unidos,
02:24a gente vai falar um pouquinho disso, mas salta aos olhos por conta de tudo que viveu,
02:29em termos de instabilidade e por ter nos Estados Unidos um dos seus principais mercados consumidores.
02:34A China redirecionou as exportações para outros países,
02:38isso acho que é o importante da gente passar a mensagem para quem nos escuta.
02:42Então, União Europeia, ASEAN, África, América Latina passaram a absorver as exportações chinesas
02:49e mesmo os Estados Unidos, com as tarifas elevadas, compraram produtos chineses de certa forma com uma certa significância.
02:56Mas o que salta aos olhos é esse redirecionamento que mostra resiliência, adaptabilidade e competitividade do produto chinês mundo afora, Felipe.
03:05Agora, Pimenta, olhando para esses meses mais caóticos do mundo,
03:12da guerra comercial entre Estados Unidos e China,
03:14isso com certeza deve ter afetado um pouco a economia chinesa,
03:17mas o que parece que a gente lembra do presidente Donald Trump exigindo que as empresas não fabricassem na China,
03:23quer dizer, que ele não comprasse, que os Estados Unidos não comprassem produtos chineses,
03:27e aí acabou tendo uma certa transferência de algumas produções chinesas que eram feitas na China.
03:33A gente lembra, por exemplo, do iPhone, que foi para uma produção importante para a Índia.
03:37Esse tipo de negociação com os Estados Unidos, ela acabou afetando o comércio da China,
03:41mas a médio prazo, vamos sentir isso?
03:43Felipe, é importante notar o seguinte, aquele modelo de crescimento voltado para a atração de investimento
03:50de empresas estrangeiras em solo chinês, e essas empresas obviamente se beneficiando
03:55de vantagens comparativas ali da China, vantagens competitivas da China,
03:59que vão desde mão de obra, que na época era uma mão de obra relativamente barata,
04:05insumos estratégicos, rede de infraestrutura,
04:07aquilo é um modelo de 20 anos atrás, a China diversificou muito o seu modelo produtivo,
04:12expandiu inclusive essas multinacionais chinesas, que aprenderam a produzir,
04:18obviamente, com multinacionais norte-americanas, europeias, que foram para lá,
04:24produzindo na década de 90, nos anos 2000,
04:26essas multinacionais chinesas cresceram, ganharam musculatura,
04:31e expandiram a sua produção em nível regional para a Ásia, Sudeste e Asiático como um todo.
04:35Então, acho que essa é a grande virtude.
04:39Vai sim, obviamente, ocorrer algum tipo de reacomodação produtiva,
04:43você citou o caso do iPhone, mas também tem que olhar do outro lado
04:46o quanto que a economia norte-americana vai sofrer e tem sofrido por conta dessas restrições
04:51às importações.
04:52São duas economias muito, muito, muito complementares,
04:55duas economias que, de alguma forma, criaram laços produtivos muito fortes
05:01nas décadas passadas.
05:02De alguma forma, você teve uma ruptura, mas a China mostrou resiliência
05:07e pulverizou a sua produção, não só no mundo afora,
05:10mas, sobretudo, no Sudeste e Asiático, para outros lugares também.
05:13O que a gente vê é essa resiliência, com esse dado de um trilhão,
05:18colocando uma realidade.
05:20Então, o que você tem hoje, sim, o tarifácio impactou a economia chinesa.
05:24Se você olhar para as exportações para os Estados Unidos,
05:27as divinas da China caíram aí na casa de 25%, 30% se você olhar para alguns setores.
05:31mesmo assim, o superávit continua, um superávit histórico,
05:36o que mostra, de novo, resiliência e adaptabilidade da economia e da produção chinesa.
05:42O que a gente tem visto, a gente fala bastante sobre isso aqui,
05:45é a produção chinesa, a produtividade, o ganho da produtividade chinesa.
05:50Inclusive, agora, a gente tem visto, por causa da inteligência artificial,
05:53do uso da robótica combinada com a inteligência artificial.
05:56Não é uma robótica humanóide, que a gente acaba vendo de uma maneira um pouco
06:00mas até folclórica, mas aquela robótica nas linhas de montagem
06:04das empresas, das fábricas, das linhas de produção chinesas.
06:08Você acha que isso a gente vai começar a ver cada vez mais,
06:10esse número aumentando de um trilhão até superando isso,
06:13graças a essa produção com a robótica,
06:16incentivando essa produtividade, Pimenta?
06:18Não tem a dúvida que a automação como um todo, a automatização,
06:23a automação da economia e da produção chinesa de vários setores
06:27tem um papel fundamental para esse ganho de produtividade.
06:30Acho que esse é um ponto a ser salientado.
06:32Porém, esse crescimento em termos de exportação vai depender muito
06:35da demanda adivinda do exterior.
06:37Por que isso?
06:38Porque você tem uma economia interna que vive ainda alguns pontos importantes
06:42em termos de gargalo produtivo e, sobretudo, de gargalo de consumo.
06:46Então, você tem pontos de atenção, como eu falei para você,
06:49questão da deflação, poupança interna ainda das famílias muito pujante
06:54e o mercado imobiliário ainda em retração.
06:57Então, para crescer dessa forma, você vai depender de uma demanda externa muito forte.
07:02Com todas essas instabilidades que estão ocorrendo no mundo afora,
07:05vai depender muito desse comportamento.
07:07Quer dizer, o que a China vai poder substituir em termos de mercado externo
07:11para outros países, como vai se dar essa complementaridade produtiva,
07:14como, de alguma forma, o investimento estrangeiro chinês que ganhou escala
07:18nos últimos anos em diversos países,
07:20olhar, por exemplo, no começo dos anos 2000,
07:23a China nem aparecia entre os top 10 principais parceiros comerciais do Brasil.
07:27Hoje é o principal parceiro comercial do Brasil e de alguns países da América Latina.
07:31Então, a China ganhou muito espaço, de novo, por conta desse aumento de produtividade.
07:35Mas há um limite em termos de exportação.
07:38Quando a gente fala de comércio, a análise tem que ser um pouco mais restrita,
07:41porque há um limite em termos de demanda.
07:43Com o mundo crescendo aí na casa de 2%, 3%, que é o que tem acontecido nos últimos 5 anos,
07:48se a gente tirar um pouquinho a pandemia, até a casa de 4%,
07:52é depender de como a gente olha o dado, mas não foge disso.
07:56E a China tem um papel importante.
07:58China e Estados Unidos ocupam praticamente 30%, 40% da corrente de comércio mundial.
08:04De novo, vai depender de demanda externa, vai depender do que a China consegue em termos de novas parcerias,
08:11manutenção e expansão das atuais parcerias, Felipe.
08:14Com certeza, a potência chinesa é realmente incrível.
08:17José Pimenta, diretor de Relações Governamentais e Comércio Internacional da BMJ.
08:22Pimenta, superobrigado mais uma vez, boa noite para você.
08:25Boa noite, meu cara, até uma próxima, um abraço.
08:27Boa noite.
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