00:00O presidente da Argentina, Javier Milley, disse que pretende acelerar as reformas, mesmo depois da derrota nas urnas neste domingo na província de Buenos Aires, a principal do país.
00:12Milley cortou gastos públicos, principalmente com os idosos, desde que assumiu em 2023.
00:18A inflação baixou, mas a pobreza cresceu e o peso perdeu o valor, obrigando intervenções no câmbio.
00:25Hoje, a moeda e os títulos argentinos estão despencando numa reação ao desempenho do presidente na eleição.
00:33O chefe da Casa Rosada aceitou a clara derrota do partido dele pelo movimento peronista de centro-esquerda.
00:41E sobre esse tema, eu converso agora com o Manuel Furriella, que é vice-presidente da Avenue de Nova York.
00:48Oi, Manuel, boa tarde para você. Seja muito bem-vindo ao Real Time. Obrigada por aceitar nosso convite.
00:54Boa tarde.
00:54Boa tarde. Manuel, vamos lá. Como é que fica o xadrez político na Argentina, depois dessa derrota de Milley nas urnas?
01:04Bom, primeiro, só para a gente contextualizar um pouco, para te responder, essas eleições na Argentina, elas funcionam de uma forma muito parecida com os midterms dos Estados Unidos,
01:16que são as eleições no meio do mandato do presidente da República, tanto nos Estados Unidos quanto na Argentina.
01:22Então, elas são um termômetro de popularidade, um termômetro de força política do presidente.
01:28Então, quando você tem uma eleição como essa, com uma grande derrota para a Milley, principalmente na província de Buenos Aires,
01:36que a maior província deles, algo equivalente, como nós tivéssemos aqui o estado de São Paulo, com peso econômico também equivalente, cerca de 40% do PIB,
01:46e lá ainda mais representatividade populacional do que no Brasil, você tem uma grande derrota política para a gestão dele.
01:54Ele tem atravessado muitos problemas, conforme você mencionou, ele elaborou um plano econômico muito severo, muito drástico,
02:04mas que trouxe uma grande redução inflacionária num primeiro momento.
02:08Só que a segunda onda, que seria de uma grande retomada de investimentos com geração de emprego,
02:14ou seja, dando um otimismo à economia, isso ainda não veio por completo.
02:20Já vieram alguns resultados positivos, não só de inflação, como para a economia,
02:25mas a população ainda não teve essa sensação.
02:28Soma-se a isso um grande desgaste político em relação à irmã dele, a Karina Milley,
02:34que ela cuida de políticas sociais e projetos do governo e ela está sendo acusada de corrupção.
02:41Então, ele teve também um peso muito grande contra ele nesse sentido.
02:46O resultado foi uma perda eleitoral na principal província, o que vai dificultar muito a gestão dele.
02:53Então, não é só uma métrica de popularidade, como eu falei, mas também problemas que ele vai ter no futuro,
02:59já que a oposição agora vem com mais força.
03:01E, Manuel, ele garante que vai acelerar as reformas e tal, mas esse resultado todo da eleição
03:08não significa, numa última instância, uma desaprovação às medidas adotadas pelo governo?
03:15Sim, ele tinha conseguido muito sucesso, até surpreendia, em medidas difíceis a serem elaboradas,
03:22a serem apresentadas na Argentina, mas ele veio num ritmo muito forte também de popularidade
03:28e os argentinos estão cansados de mais de 20 anos de impactos econômicos negativos.
03:35Então, havia muito crédito tendo dado a ele nessas medidas mais radicais,
03:39de grande reforma do Estado, principalmente.
03:42Mas a segunda onda de reformas, ela sai agora prejudicada.
03:46Não só porque a medida de popularidade dele mostrou que ele está com pouca força política,
03:52mas porque a oposição também vem mais forte.
03:55E as pautas da oposição peronista, elas não convergem com as pautas de reforma dele.
04:01Então, existem três tipos de reforma na Argentina fundamentais.
04:05A previdenciária, a tributária e, principalmente, a administrativa.
04:10Você tem ainda muita gente, grande parte da população, que vive às custas do Estado,
04:16um Estado que não arrecada para fazer frente a essas obrigações.
04:18Então, a reforma do Estado, no Brasil, a gente sabe que é importante,
04:23a reforma administrativa, por exemplo, mas na Argentina não é que ela é importante,
04:27ela é determinante.
04:29Então, ele vai ter mais dificuldade de aprovar no Parlamento
04:33essas medidas adicionais da segunda onda de reformas a que ele se propunha.
04:38Ele estava esperançoso que viria agora um fôlego político,
04:42mas pelos motivos que a gente falou não vieram,
04:44essa derrota vai trazer dificuldades para essas medidas adicionais
04:48da cartilha, da forma como ele imagina que vai fazer a Argentina
04:52ter uma retomada econômica.
04:54É, ele vai ter bastantes, mais ainda, desafios pela frente, né?
04:58Agora, Manuel, a eleição também desse domingo colocou em disputa
05:0146 vagas locais para deputado e 23 de senador.
05:06Portanto, metade das cadeiras da Câmara e do Senado da província.
05:11O Millen vai encontrar resistência maior em aprovar esses projetos no Parlamento?
05:17Com certeza.
05:17Vai sim.
05:18Ah, mas não tenha dúvida, viu?
05:20Essa nova configuração política do Parlamento, né,
05:24que não foi mudado por completo,
05:27mas o que acontece é que deu à oposição fôlego
05:31para conseguir barrar o andamento dos projetos,
05:34porque ele vinha com muita força.
05:37Ele aprovou projetos e propostas na Argentina
05:40que eram inimagináveis há alguns anos atrás.
05:43Mas agora, nessa segunda onda,
05:46a oposição tem mais força,
05:48ele vai ter muita dificuldade de ter votos, conseguir votos.
05:51E também uma sinalização para os políticos.
05:53Como a gente sabe, eles também caminham
05:55de acordo com o que eles percebem,
05:58que a opinião pública interessa-se.
06:01Então, a oposição e também aqueles
06:03que acabavam dando votos a ele
06:05por acreditar que o reformismo
06:07era uma vontade da população,
06:09agora eles ficam com outro parâmetro.
06:12Você mencionou na sua primeira resposta,
06:14eu vou até retomar ali um pouquinho do que você disse,
06:17por conta do escândalo, né,
06:19de corrupção envolvendo a Karina Milley.
06:22Então, essa derrota amarga para ele
06:23certamente pode agravar o inferno astral, né,
06:27do argentino por conta desses escândalos,
06:29principalmente envolvendo a irmã dele.
06:30Sim, a proposta do...
06:33As propostas do Milley, né,
06:35como um outsider, alguém fora da política,
06:38envolviam não só uma grande reforma econômica,
06:41isso, inclusive, ele fez,
06:43e como a gente falou, até alguns resultados positivos,
06:45a gente tem que reconhecer a derrubada da inflação.
06:48Era um problema crônico na Argentina,
06:50ainda é alto, mas não se compara com o que era.
06:53Então, ele amealhou alguns sucessos
06:56na proposta dele.
06:57Mas vinham outros valores,
06:59uma reforma do Estado,
07:01uma nova visão,
07:02arejar a política,
07:03e principalmente,
07:05que não tivesse problemas de corrupção.
07:08A Argentina, ela sofre,
07:10há muitos anos,
07:11também com problemas de corrupção
07:12muito relevantes, né,
07:14na época da vacina da Covid,
07:15só para a gente dar um exemplo,
07:17foram desviadas, logo do início,
07:19doses para padrinhados do presidente da República,
07:22um escândalo enorme,
07:23a época onde a população
07:25aguardava a vacinação.
07:27Então, é uma coleção de problemas.
07:29E parecia que ele vinha com novidade,
07:32e que ele não teria problemas desse tipo.
07:34E logo, a própria irmã dele,
07:36com uma acusação muito séria.
07:38Então, o referencial para o eleitor,
07:40fica não somente de que
07:42o resultado econômico
07:43não foi o esperado retorno do sacrifício,
07:47né, da população,
07:48mas também que ele está fazendo mais do mesmo,
07:50ao ter problemas tão sérios
07:52de acusação de corrupção.
07:54Isso pegou ele de forma determinante,
07:56com impacto eleitoral muito maior
07:58do que a gente possa imaginar,
07:59já que a população tinha nele
08:01algo que fugiria
08:03dos problemas que tinha no passado,
08:05e começou a perceber
08:06que talvez não seja isso.
08:08Eu achei interessante
08:08que você falou na sua resposta
08:10essa expressão
08:11coleção de problemas, né,
08:13e de fato é isso mesmo,
08:14é estagnação econômica,
08:16é alta do peso,
08:17juros lá em cima,
08:18as derrotas políticas,
08:19o escândalo de corrupção,
08:20como você citou,
08:22então provavelmente
08:23essa coleção de problemas
08:25ajudou a nacionalizar
08:27uma disputa
08:27que deveria ser local.
08:29Sem dúvida,
08:30e tem algumas outras questões
08:32que envolvem a Argentina,
08:33diferente do que a gente tem,
08:35por exemplo, no Brasil,
08:36é que ela já foi
08:37um país desenvolvido,
08:39eles chegaram a esse ponto
08:40em alguns momentos,
08:42tanto é que se você pegar
08:43índices de educação,
08:47esses que contam
08:48níveis de desenvolvimento,
08:49a Argentina é muito mais avançada
08:51do que a maior parte
08:52dos países da América Latina,
08:53por exemplo,
08:54mais do que o Brasil,
08:55se a gente pegar
08:56em nível universitário,
08:57pesquisas,
08:58vários prêmios Nobel,
09:00então ela teve
09:00um passado glorioso
09:01que ainda deixa
09:03a população frustrada
09:05nessas situações,
09:06há sempre aquela expectativa
09:07de uma retomada,
09:09ao contrário do Brasil,
09:10que mesmo com tantos
09:11percalços que a gente
09:12teve na nossa história,
09:14nós sempre temos
09:15essa evolução, né,
09:16independente do governo,
09:17não é meu ponto aqui,
09:19mas a gente tem
09:20uma trajetória,
09:21eu acho que deixa
09:22a população brasileira
09:23sempre um pouco
09:23mais otimista,
09:24então ali você tem
09:26um passado glorioso
09:27e uma sucessão,
09:28principalmente nos últimos
09:2920 anos,
09:30de problemas econômicos
09:32e de corrupção,
09:33então há uma frustração
09:35também com o Emilei
09:36nesse resultado,
09:37ele não teve tempo
09:39de implementar
09:40essa segunda onda
09:41de medidas
09:41que talvez,
09:43na cartilha dele,
09:44trouxessem
09:44os resultados econômicos,
09:46não deu tempo,
09:47isso é um dos fatores,
09:49mas a questão
09:49de corrupção
09:50frustra o eleitorado
09:52ao achar que agora
09:53viria algo diferente,
09:55voltando a esse passado,
09:56né, que está na memória
09:57de grande parte
09:58da população,
09:59passado de que,
10:00no qual o país
10:00estava numa situação
10:01muito melhor
10:02do que está atualmente.
10:04Manuel,
10:04antes da gente
10:05finalizar a entrevista,
10:06tenho só mais uma
10:07pergunta para você,
10:08que o saldo das urnas
10:09deste domingo
10:10pode ser um prenúncio
10:11aí do que pode sair
10:12também na eleição nacional,
10:14que está marcada
10:15para o dia 26 de outubro
10:17lá na Argentina,
10:19quando vão ser renovados
10:20então metade
10:20dos assentos do Congresso
10:21e um terço
10:22do Senado Nacional.
10:24Na sua opinião,
10:25é isso?
10:25É um prenúncio mesmo?
10:27É sim,
10:27inclusive,
10:28tem até um outro
10:29fator curioso,
10:30você tinha no peronismo,
10:32né,
10:33o grupo político
10:34que governou
10:35nos últimos anos
10:35a Argentina
10:36e que foi derrotado
10:38pelo Minas,
10:39teve uma derrota
10:39também pelo Macri
10:40há uns anos atrás,
10:41mas eles voltaram
10:43com força
10:44depois do governo
10:44do Macri.
10:45Foi a mesma situação,
10:46o Macri não,
10:47era de direita,
10:48não de extrema direita
10:48como o Milley,
10:49mas ele não conseguiu
10:50implementar reformas
10:51econômicas na Argentina,
10:53então o resultado
10:54no Vélgara
10:54parece ser nesse sentido,
10:56mas de qualquer forma
10:57tem uma diferença
10:58também para a oposição,
11:00surgiram novos nomes,
11:02então você tinha
11:03o casal Kirchner
11:04governando sempre
11:05junto com seus aliados,
11:07o Fernandes,
11:08por exemplo,
11:08que foi o presidente anterior,
11:10agora você tem
11:11outras figuras
11:12dentro do peronismo,
11:14então pode ser
11:15que o peronismo
11:17saia vitorioso
11:18ou pelo menos
11:19vai agora
11:19ter um candidato forte
11:20para as próximas eleições,
11:22não só porque
11:23Milley se desgastou,
11:24mas também
11:25porque surgindo
11:26novos nomes
11:27na corrente política
11:28da oposição,
11:30o eleitor possa sentir
11:31que tem uma alternativa
11:33ali para votar,
11:34então os políticos
11:35antigos desgastados
11:37do peronismo,
11:37eles também
11:38ficaram de lado,
11:39surgem agora
11:40novos nomes,
11:41então isso também
11:42vai ser um desafio
11:42para Milley
11:43na próxima eleição,
11:44popularidade baixa,
11:46derrota
11:46nas eleições locais,
11:48mas na província
11:48de Buenos Aires
11:49que é importante
11:50como a gente disse,
11:51até muito mais
11:52em termos relativos
11:53do que se a gente
11:53comparasse com
11:54o estado de São Paulo,
11:56Rio de Janeiro,
11:56os estados mais
11:57desenvolvidos aqui,
11:58mas porque agora
11:59tem novos nomes,
12:00então tendo novos nomes
12:01o eleitor pode
12:02se aventurar
12:03a dar uma nova chance
12:05ao grupo político
12:06anterior.
12:07Com certeza,
12:08muito obrigada,
12:09viu,
12:10Manuel Furriella,
12:11que é vice-presidente
12:12da Avenue
12:12de Nova York,
12:14excelente sua entrevista
12:15e os esclarecimentos
12:16também.
12:17Obrigada
12:17e uma ótima semana
12:19para você.
12:20Uma ótima semana
12:21a todos.
12:21Até a próxima,
12:22tchau, tchau.
12:22Tchau.
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