00:00Ainda na América Latina, vamos falar da Argentina.
00:04A província de Buenos Aires, onde fica a capital argentina,
00:09realiza amanhã eleições legislativas que irão renovar uma parte do Congresso.
00:14O presidente Javier Milley participou ativamente da campanha de correligionários
00:19na tentativa de aumentar o apoio tanto na Câmara quanto no Senado.
00:26Tudo isso em meio a acusações de corrupção que recaem sobre a irmã dele,
00:32que também é chefe de gabinete da sua presidência.
00:36O cenário político argentino ferve às vésperas das eleições legislativas provinciais em Buenos Aires,
00:45que acontecem neste domingo.
00:47Cerca de 14 milhões e 300 mil eleitores estão convocados às urnas
00:52para eleger 46 deputados e 23 senadores para o Legislativo Provincial.
01:00Mas o que era para ser um termômetro da força do governo Javier Milley
01:04ganhou um novo explosivo ingrediente.
01:07As graves acusações de corrupção envolvendo ninguém menos que Karina Milley, irmã do presidente.
01:14O clima é de tensão na província de Buenos Aires,
01:17um reduto tradicional da oposição peronista.
01:20A votação de amanhã é crucial para medir a capacidade do partido do presidente,
01:26o La Libertad Avança, de converter a popularidade de Milley em votos concretos.
01:33E para adicionar mais drama a esse enredo, o escândalo que abala a Casa Rosada.
01:38Relatos de suposta corrupção envolvendo Karina Milley, figura central no círculo do presidente.
01:45As denúncias apontam que Karina Milley estaria envolvida em um esquema de cobrança de propinas
01:52em contratos de compra e fornecimento de medicamentos.
01:57A base dessas acusações é um áudio gravado por um ex-aliado de Javier Milley.
02:02A situação é tão grave que Karina Milley foi acusada criminalmente de ser beneficiária direta
02:09de um esquema de possível corrupção com retorno de recursos através da Andes,
02:16a Agência Nacional de Deficiência.
02:18No entanto, a justiça argentina vetou a divulgação de áudios da Casa Rosada,
02:25alegando que as conversas privadas de Karina Milley e outros funcionários
02:30foram manipuladas e divulgadas com o objetivo de prejudicar o executivo.
02:36Eu converso agora com Regiane Bressan, que é professora de Relações Internacionais
02:43da Universidade Federal de São Paulo, a quem eu começo a nossa conversa,
02:47agradecendo a presença e desejando uma ótima noite.
02:51Professora Regiane, obrigado pela participação mais uma vez.
02:54Qual a importância dessas eleições legislativas em Buenos Aires
02:58para medir a força política de Milley nesse momento?
03:02E eu lembro um detalhe que faz toda a diferença, né?
03:06Desde a redemocratização da Argentina,
03:11isso eu estou falando aí num arco de tempo de décadas,
03:14o Javier Milley é o primeiro presidente democraticamente eleito
03:17que chega para liderar o executivo sem ter maioria nenhuma no legislativo,
03:24nem entre os deputados, nem entre os senadores.
03:27Ele sabia que a vida dele não ia ser fácil,
03:29porque ele não tinha apoio dentro do Congresso.
03:31Ele pode virar esse jogo agora?
03:34É óbvio que essas acusações de corrupção, né?
03:38Essa suspeita de corrupção que recaem sobre a irmã dele,
03:41figura central na construção da vida política do Javier Milley,
03:45vão ser uma pedra no sapato.
03:47Mas diante da sua avaliação, ele pode conquistar mais força dentro do Congresso?
03:52Boa noite mais uma vez.
03:53Boa noite, Marcelo.
03:56Boa noite a todos que nos assistem.
03:58Realmente, a Argentina amanhã vai passar aí por um dia bastante importante
04:05para o governo de Milley.
04:06O que acontece?
04:08Uma província da Argentina, ou seja, não é o país todo,
04:12irá fazer as prévias para o legislativo.
04:17Isso representa mais ou menos 38% da população da Argentina,
04:23ou seja, é um número expressivo, é um número muito significativo,
04:28que ao mesmo tempo é um grande desafio,
04:30na medida em que é reduto da família Kirchner,
04:34é reduto do kirchnerismo.
04:36Ou seja, existe uma perspectiva muito grande,
04:39até por conta das acusações de corrupção que envolvem a irmã de Milley,
04:45que amanhã ele enfrente uma derrota.
04:48Como você disse, Marcelo,
04:50desde a campanha de Milley, na verdade,
04:54quando ele foi eleito deputado federal,
04:56a gente já sabia que ele era um outsider da política,
04:59ou seja, ele não tinha nenhuma tradição política,
05:02ele não tinha maioria no Congresso,
05:05claro, quando foi eleito, como você disse,
05:07e com isso ele vem enfrentando dificuldades para governar.
05:11Ao mesmo tempo, a sua eleição demonstrou o quê?
05:16Que a população argentina, muito cansada da crise econômica,
05:20que também tem muito tempo,
05:23ou seja, tivemos já alternância de poder entre governos
05:27e diferentes ideologias que não conseguiram dar conta
05:31de solucionar o problema da macroeconomia do país.
05:35Portanto, a população argentina também elegeu Milley
05:38por estar cansada dos partidos tradicionais
05:42e isso foi uma campanha de governo, inclusive, para a Milley.
05:46Agora, professor Regiane, falar de Argentina
05:48não dá para nós dissociarmos, separarmos,
05:52política de economia, né?
05:54E olhar para a economia argentina é sempre muito complexa.
05:57Vamos lá.
05:58Cenário número um,
05:59tem uma queda expressiva,
06:02muito expressiva,
06:03da inflação.
06:04Do outro lado,
06:05o custo de vida
06:07continua crescendo,
06:09o que tem empurrado as pessoas ali,
06:11não vou dizer para a pobreza,
06:12mas tem dificultado ainda mais a vida
06:15da classe média,
06:16da classe média baixa
06:17e daqueles que são mais pobres.
06:20Professor Regiane,
06:20como é que você avalia esse momento na Argentina, né?
06:23Por um lado,
06:25há dados positivos
06:26numa matemática financeira,
06:29mas no chão da realidade
06:30a vida está bem cara na Argentina.
06:32O quanto isso pesa
06:34nessa balança da eleição?
06:38Realmente, Marcelo,
06:39a economia,
06:40ela conta muito
06:41para qualquer governo.
06:43Aliás,
06:43o próprio Trump
06:44deve passar isso
06:45ao longo do seu governo,
06:47na medida em que
06:48a sociedade dos Estados Unidos
06:50também começam a enfrentar
06:53desafios econômicos.
06:54Mas falando da Argentina,
06:56de fato,
06:57em termos macroeconômicos,
06:59o país conseguiu
07:01conter um pouco
07:02da inflação,
07:03conseguiu também
07:04regular a taxa de câmbio,
07:07lembrando que
07:07a moeda argentina
07:09estava muito desvalorizada
07:11e o Milley conseguiu
07:12uma valorização da moeda,
07:13mas isso teve um custo social
07:15muito alto.
07:16Como você mencionou,
07:17a classe média
07:18sentiu bastante,
07:20na medida também,
07:22que determinados subsídios
07:24ou mesmo políticas sociais
07:26foram cortadas,
07:27foram diminuídas.
07:28Portanto,
07:29classe média,
07:30classe média baixa,
07:31como você colocou,
07:32sentiram muito
07:33esses primeiros anos
07:35do governo Milley.
07:36E amanhã,
07:37nas urnas,
07:37nós veremos o resultado
07:39desse descontentamento
07:41ou também
07:42de como
07:43a sociedade argentina
07:45está reagindo,
07:46respondendo
07:47ao governo de Milley.
07:48Professora Regiane,
07:49eu queria nacionalizar
07:51um pouco aqui
07:52a nossa conversa,
07:53porque, obviamente,
07:54o nosso maior parceiro
07:55comercial na região
07:56é a Argentina,
07:58de ter uma relação
07:59umbilical
08:00com a Argentina,
08:01principalmente no contexto
08:02do Mercosul.
08:04O Javier Milley
08:06na campanha
08:07era um,
08:08o Javier Milley
08:09presidente
08:09é outro.
08:11Tudo bem
08:11que ele não morre
08:12de amores
08:13para o seu
08:14par brasileiro,
08:16presidente Lula,
08:17mas ele nunca
08:18levou a cabo
08:18promessas de
08:19vou tirar a Argentina
08:20do Mercosul,
08:22vou romper
08:23com o Brasil.
08:25É outro,
08:26a persona
08:26é a mesma,
08:27mas são dois personagens,
08:28o candidato
08:29e o presidente
08:30eleito.
08:31Não que esse fenômeno
08:32não aconteça
08:32em outros lugares,
08:33mas vamos permanecer
08:35aqui a nossa análise
08:35dentro da Argentina.
08:37Na sua leitura,
08:39estes resultados,
08:40tudo bem,
08:41a gente ainda está
08:41num processo,
08:42são prévias
08:42para as eleições
08:43legislativas,
08:44a gente vai ter
08:45as eleições
08:46legislativas de fato
08:47completas
08:47em outubro
08:49na Argentina,
08:50mas as suas
08:52interpretações,
08:53professora Regiane,
08:54com essa relação
08:55Brasil-Argentina,
08:57uma eventual mudança
08:59no Congresso
09:00que fortaleça
09:02ou enfraqueça
09:04Javier Milley,
09:05como fica
09:06na sua leitura
09:07a relação
09:08Brasil-Argentina?
09:11Bom,
09:11vamos retomar
09:12de um ponto
09:12bastante importante,
09:14Marcelo,
09:14que você trouxe,
09:15que foi a campanha
09:17de governo
09:17de Milley,
09:18onde ele de fato
09:19flerta muito
09:20com os Estados Unidos
09:22e ao mesmo tempo
09:23critica bastante
09:24China e Brasil,
09:25que são parceiros
09:26comerciais,
09:27aliás,
09:28a Argentina
09:29depende dos investimentos
09:30chineses
09:31para manter
09:32a sua economia
09:33crescendo
09:34ou alcançar
09:35determinada
09:36estabilidade.
09:37Ao mesmo tempo,
09:38o Brasil
09:39é um dos principais
09:40parceiros comerciais,
09:42lembrando que
09:43a nossa indústria
09:43ainda não é
09:44uma indústria
09:45competitiva,
09:46portanto,
09:46nós precisamos
09:47da preferência
09:49comercial criada
09:50no Mercosul
09:51para conseguirmos
09:52exportar
09:54os nossos
09:55produtos
09:55industrializados
09:57e, assim,
09:58a Argentina
09:59continua sendo
10:00um parceiro
10:01importante
10:01para o Brasil.
10:02Eu acredito
10:03que,
10:04a partir desse
10:05diagnóstico,
10:06nós temos que lembrar
10:07que existe
10:08o governo,
10:08mas nós temos
10:09deputados,
10:11elites políticas
10:11e elites econômicas
10:13que sustentam
10:13o governo.
10:14ou seja,
10:15eu não vejo
10:16nesse momento,
10:17ainda que ele
10:17venha encontrar
10:18maiores desafios
10:20para governar
10:21o país,
10:22seja agora
10:22nessas eleições
10:23ou em relação
10:25às questões
10:25econômicas,
10:27eu não vejo
10:27o Brasil
10:28perdendo muito
10:29espaço
10:29na medida
10:30em que nós
10:31temos
10:31avançando,
10:32por exemplo,
10:33a ratificação
10:34do acordo
10:34Mercosul-União-Européia
10:36que, a princípio,
10:37deve acontecer
10:38ainda esse ano.
10:39Existe uma expectativa
10:40muito positiva
10:41em torno disso.
10:42e a Argentina,
10:44sobretudo,
10:44a ala
10:45do Milley,
10:46ou seja,
10:47a ala
10:49que faz parte
10:50do seu governo,
10:51é uma ala
10:52muito favorável
10:53ao acordo
10:53Mercosul-União-Européia.
10:55Portanto,
10:56eu entendo
10:56que o Brasil
10:57vai continuar
10:57tendo uma relação
10:59muito pragmática,
11:00como nós vimos
11:00nas últimas cúpulas,
11:02nos últimos poucos
11:03encontros
11:03entre o governo Lula
11:05e o governo
11:06de Milley,
11:07e assim
11:07deve-se estabilizar
11:08a relação
11:09Brasil-Argentina
11:11até o final
11:11do mandato
11:12tanto de Milley
11:14quanto de Lula.
11:15Queria agradecer
11:16a conversa
11:17que eu tive
11:17com o Regiane Bressan,
11:19que é professora
11:20de Relações Internacionais
11:21da Universidade Federal
11:23de São Paulo,
11:24a quem,
11:25além de agradecer,
11:26eu peço
11:26total atenção
11:27às nossas ligações,
11:29professora Regiane,
11:30porque nós estamos
11:31acompanhando aí,
11:32a véspera da eleição,
11:33ou seja,
11:34na semana que vem
11:34nós vamos ter
11:35os resultados disso,
11:37desdobramentos
11:38que vão colocar
11:39o Brasil na pauta
11:40de novo
11:40e certamente
11:41vamos voltar
11:42a entrar em contato
11:43para aí
11:44uma segunda análise
11:46com dados
11:46mais concretos
11:47dessa nova formação
11:49do Congresso
11:51argentino.
11:53Professora Regiane,
11:54obrigado,
11:55bom restinho de sábado,
11:56um ótimo final de semana,
11:58até uma próxima oportunidade.
12:01Marcelo,
12:01eu fico à disposição,
12:03um abraço a você,
12:04um abraço a todos,
12:05até a próxima.
12:05Tchau.
12:06Tchau.
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