00:00A gente vai conversar agora com Carlos Honorato, ele é economista e professor da FIA Business School.
00:05Carlos, boa noite, obrigada por ter aceitado o nosso convite.
00:09Primeiro, quero, claro, ouvir sua impressão sobre esse discurso do presidente do Fed
00:13e saber a sua avaliação sobre a economia americana nesse momento.
00:17Há espaço real para um corte de juros?
00:20Boa noite, Cristiane, a todos os telespectadores aí da CNBC.
00:24É um prazer falar com todos, né?
00:25Olha, o discurso do Powell, ele não surpreendeu muito porque você tem algumas semanas já
00:32em que há uma discussão nos Estados Unidos, principalmente, como foi comentado,
00:36em relação à questão do mercado de trabalho americano, de um desaquecimento, né?
00:41Então, esse é o primeiro fator que eu acho que levou a uma conclusão
00:44de que a possibilidade do corte de juros efetivamente pode acontecer.
00:49A questão das tarifas e do preço, como também foi comentado,
00:52ela é um elemento pontual, né?
00:55Ela pode gerar um processo inflacionário nos Estados Unidos,
00:58mas pense o seguinte, você tem o tarifasso, o preço dos produtos aumenta, né?
01:03E ele não vai continuar aumentando mês a mês, ele vai ter um aumento.
01:06Então, nessa linha, nessa perspectiva, eu acho que é bem possível, realmente,
01:11que a gente tenha setembro aí uma queda de 0,25, né?
01:14Na taxa de juros americana.
01:16É, hoje a gente viu as principais bolsas do mundo reagindo com otimismo,
01:20até muito otimismo, quanto a esse possível corte de juros lá nos Estados Unidos.
01:26Esse otimismo deve continuar na próxima semana, na sua opinião?
01:31É, prever a bolsa nesses momentos está complicado, né?
01:35Porque a gente está vindo aí de um momento da semana passada, por exemplo,
01:40que a gente teve quedas bastante acentuadas, né?
01:43Então, é sempre o fato novo que vai conduzir a gente.
01:47O que aconteceu foi que, desde abril, a gente tem tido um processo aí de depressão,
01:52vamos dizer assim, de alguns preços dos nossos ativos, né?
01:56Então, Petrobras caiu, o setor de minérios, o setor de alimentos também caiu.
02:01Então, talvez a gente tenha um processo aí de recuperação, né?
02:05Eu acho que o estoque das notícias ruins para o Brasil, em termos de tarifas,
02:09aparentemente ele está, eu não diria esgotado, mas ele chegou num limite.
02:14Então, as perspectivas é que talvez a gente possa recuperar,
02:17mas isso depende muito do que vem lá dos Estados Unidos, principalmente.
02:22E, Carlos, considerando que ocorra mesmo esse corte nas taxas de juros americanas em setembro,
02:28quais são os possíveis efeitos para economias emergentes como o Brasil?
02:32Pense o seguinte, né? Toda vez que os Estados Unidos cortam a taxa de juros,
02:38todo mundo fica com a sua taxa relativa potencialmente mais baixa, né?
02:44Quer dizer, como os Estados Unidos, teoricamente, é o país em que ele tem menor risco,
02:48a hora que ele diminui a taxa de juros, nós também podemos olhar com essa perspectiva.
02:53Então, acho que tanto China, Brasil, Índia, quer dizer, o mundo todo, inclusive a Europa,
02:58podem passar por um processo de, na sequência, também abaixar um pouco as suas taxas.
03:03O Brasil tem uma das taxas mais altas do mundo, né?
03:06Nós temos um cenário turbulento e incerto, temos um componente interno,
03:11que é a questão do endividamento das empresas, das pessoas,
03:14que é alguma coisa que pode preocupar.
03:16Então, se a gente tiver um fôlego aí de corte de juros nos Estados Unidos,
03:21é interessante que a gente tenha esse repasse.
03:24As previsões são para o início de janeiro, mas se a gente tivesse alguma coisa esse ano ainda,
03:28seria muito bem-vindo.
03:30Passar para a pergunta do Vinícius Torres Freire, o nacionalista.
03:34Carlos, apesar de ele ter dado o pau e ter feito um discurso em linguagem de Banco Central relativamente enfático
03:42e não ter mencionado que a decisão dependa de dados que vão aparecer até setembro,
03:48tem dois dados de inflação importantes e um dado de emprego importante,
03:52ele ainda diz que a situação é difícil.
03:53Mas dessa vez ele colocou no raciocínio a história do desaquecimento do emprego nos Estados Unidos.
04:03Agora, primeiro que podem vir dados que vão na direção contrária à tese desta semana do Powell.
04:10Segundo, tem três decisões até o final do ano.
04:13Você acha possível que, a depender do andar da carruagem, que ainda é muito incerto,
04:17a gente pode ver inflação subindo e emprego não piorando tanto,
04:23uma situação difícil, ainda mais difícil.
04:26Você acha que pode ter pelo menos um ritmo do tipo,
04:29o Fed mexe uma vez em setembro, espera uma outra e talvez decida se mexe ou não lá para o final do ano?
04:37Quer dizer, ele pode ser influenciado bastante por dados ainda,
04:40porque a situação, como o próprio Powell vinha dizendo até ontem, é incerta,
04:45e hoje ele ainda repetiu com a diferença que ele deu mais ênfase para o desaquecimento das contratações.
04:52Vinícius, eu acho que esse senão que ele colocou, o cenário ainda é muito incerto,
04:59é a dica que ele dá para dizer que a gente não pode ser totalmente otimista,
05:04ou que a perspectiva é de absolutamente otimismo em relação a três cortes de juros
05:10para chegar ao que o pessoal está falando de uma forma otimista,
05:13a menos 1% na taxa de juros.
05:16Ele tem um desafio, porque ele está enfrentando uma pressão muito grande do presidente Trump,
05:21que quer que a política monetária seja mais dovish, como fala o mercado,
05:26mas menos apertada, e ele tem consciência de que precisa se equilibrar nesse ambiente,
05:34de forma que ele lide bem com as expectativas e que não erre,
05:37porque se ele começa um processo de expectativa de queda das taxas de juros
05:42e a inflação dá um repique, isso vai cair no colo do Banco Central e vai ficar muito pior.
05:47Então ele tem a experiência suficiente, e aí o manejo da independência do Banco Central americano
05:53para conduzir, eu acho que esse período, e se a gente for muito otimista,
05:57cair 1% seria ótimo, mas eu não creio que ele vá caminhar nesse sentido,
06:02depende dos dados, como você mesmo disse.
06:04Na sua opinião, vai ser o quê? 0,25%, 0,5% no máximo?
06:10É, o chute é sempre bem-vindo, né?
06:13Eu diria que se a gente chegar a 0,75% é muito positivo.
06:18O que é o grande desafio, que acho que a gente tem que acompanhar,
06:22é a parte do emprego que está tendo impacto nos Estados Unidos tem a ver com imigração, né?
06:27Quer dizer, se você começa a ter menos acesso de mão de obra,
06:30o custo da mão de obra aumenta, você tem um processo inflacionário,
06:34a gente ainda tem esses certos repiques do tarifarço.
06:37Então é muito difícil você cravar isso, mas 0,75% até o fim do ano seria,
06:43eu diria, um cenário positivo para a gente acabar a sexta-feira bem, né?
06:46Para ter uma boa previsão.
06:48É, e verdade seja dita, até setembro, até a data mesmo da reunião deles,
06:53muita coisa pode acontecer diante desse cenário incerto e imprevisível
06:56que a gente está vivendo nos últimos meses.
07:00Sim, eu diria que não é nem cada dia é uma novidade, é cada hora é uma novidade, né?
07:06A gente tem essa política do Trump que é muito relacionada a manter a agenda da informação,
07:12manter o tumulto, ele está mesmo lá buscando tirar uma pessoa da diretoria do Banco Central
07:18por uma acusação, então é complexo, a pressão é grande,
07:23e eu acredito que essa independência do Banco Central americano
07:27é que vai garantir o tom de que a inflação vai estar sob controle
07:30e as expectativas para o resto do mundo vão ser positivas também.
07:34Vinícius.
07:36Carlos, aqui para o Brasil, é claro que o diferencial de juros,
07:41a diferença da taxa de juros do Brasil para os Estados Unidos,
07:44na melhor das hipóteses, como você diz, três cortes de 0,25% vão aumentar,
07:50vai aumentar de qualquer maneira, porque a taxa de juros real do Brasil de curto prazo
07:53vai aumentar até o final do ano, porque as expectativas estão caindo
07:57e o juro de curto prazo vai ficar igual.
08:00Agora, uma questão importante para a gente que tem dominado,
08:03inclusive a bagunça política, a bagunça fiscal aqui no Brasil,
08:06é a queda do dólar com impacto na inflação.
08:09Tem muita gente dizendo que dólar de equilíbrio é 5,40.
08:12Então, você acha que agora, a gente mesmo com o risco aumentado de sanção extra do Trump,
08:18você acha que dá para passar, descer, além de 5,40?
08:23Olha, falar do dólar, eu sigo muito o que um ex-ministro da economia dizia,
08:28o dólar, a gente pode prever que para o fim do ano ele vai estar entre 1 e 10
08:32com margem de erro de 5, porque a gente acertar uma cotação do dólar é muito difícil,
08:37ele é muito volátil.
08:39Eu acho que a gente tem um peso complicado aqui, que é o peso da dívida.
08:43O nosso endividamento, eu diria que não é exclusivo, tem uma questão alarmista
08:48que o pessoal fala, que o endividamento está crescendo, mas nós temos déficit.
08:52Então, se a gente tivesse um superávit primário, a situação seria muito mais tranquila
08:57e talvez até esse impacto positivo do dólar seria bem-vindo,
09:02seria mais, eu diria, mais radical, quer dizer, teria até um potencial
09:05de um dólar em equilíbrio mais baixo.
09:07Todos os elementos que a gente tem estudado aí indicam que o dólar tende a ter
09:12um enfraquecimento, quer dizer, o real se valorizar, não só o real, mas as outras moedas.
09:17Então, a gente pode aproveitar isso.
09:19Só que a gente não tem que deitar em berço esplêndido e achar que a nossa inflação
09:23vai diminuir porque o dólar está caindo.
09:26A gente tem que tentar, em algum momento, saindo dessa bagunça política,
09:30fazer a nossa eleição de casa, que é principalmente ajustar as contas públicas
09:35e buscar o superávit, que não é tão difícil.
09:38Mas, diante do cenário que a gente vive, parece impossível.
09:41Então, essa é a agenda.
09:43Se basear no dólar para ter uma ancoragem de inflação melhor,
09:47eu acho que é um grande risco.
09:50Carlos, muito obrigada pela sua conversa aqui com a gente.
09:54Papo ótimo, bom fim de semana para você.
09:57Cristiane, Vinícius e a todos os espectadores, um grande abraço e bom fim de semana.
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