00:00Minha mãe sofria por causa de nossa rudez com ela e se tornava ainda mais tensa, ainda mais impaciente.
00:22Meu pai se sentia sufocado nessa atmosfera familiar, mesmo sendo ele o responsável por inaugurar o ciclo de violência no ambiente doméstico.
00:34Eu vi em seus olhos que ele queria fugir e ir para longe da família, ser jovem e livre novamente.
00:42Eu vi a sua melancolia e o amargor no qual a melancolia se transformava.
00:47Eu sofria com essa atmosfera, meu irmão sofria com ela.
00:50Nós fazíamos nosso pai sofrer de volta e a situação piorava.
00:57O Desabamento, do Eduard Louis, é um livro forte, direto e, ao mesmo tempo, hesitante.
01:05Ele já começa a não sentir nada quando soube que meu irmão tinha morrido.
01:09Essa é a primeira frase do livro, né? O Desabamento.
01:12Só que, ao mesmo tempo, mesmo colocando essa premissa, eu era uma pessoa distante do meu irmão,
01:21meu irmão era alguém que eu não amava, que eu não amei e que eu não importei que ele morreu,
01:26esse irmão também é retratado como uma figura complexa.
01:30Ele também não é um personagem plano, vamos dizer assim, que, na verdade, é até complicado falar isso sobre a obra do Eduard Louis,
01:42porque ele afirma e está dizendo a verdade.
01:45E, se a gente se mune do vocabulário que a gente geralmente usa para falar de literatura,
01:55a gente, na verdade, está indo contra algo que ele mesmo fala,
01:57porque tem outro livro que ele fala que ele escreve contra a literatura, né?
02:02Então, é como se ele nos convidasse a ler, de fato, a partir da chave da realidade.
02:08O irmão do Eduard Louis foi uma pessoa muito violenta, que teve atitudes muito violentas, homofóbicas.
02:19Ele bebia e ficava muito agressivo, ele não respeitava o limite das outras pessoas,
02:25inclusive do próprio Eduard Louis.
02:28Era alguém que se sentia sempre perseguido, sem perceber que estava ele mesmo perseguindo as pessoas,
02:36se sentia vítima do mundo, e aí acabava fazendo as outras pessoas de vítima.
02:42Então, ele é uma figura que, por um lado, ele é odiável.
02:47A gente consegue entender essa postura do autor de se afastar desse irmão.
02:54Mas, ele também coloca a outros lados.
02:58Por exemplo, tem uma cena em que o Eduard Louis conta que precisava pintar a casa,
03:05e não sabia pintar, e chamou o irmão.
03:06O irmão muito caprichosamente ajudou ele por dias, e se ofereceu a ajudar.
03:11E ele, em relacionamentos, era muito amoroso com as mulheres.
03:15Era alguém que, ele parecia manifestar uma violência que não era dele.
03:21Era como se fosse um meio através do qual a violência do meio se manifestava.
03:29Então, o Eduard Louis fala da violência como um fluxo mesmo.
03:35Ela não está na pessoa fixa, ela vai passando de uma pessoa para outra.
03:42A violência circulava entre nossos corpos como um fluxo, como uma corrente elétrica.
03:50Ela estava por toda parte.
03:52Não pertencia a ninguém.
03:53Mas, uma das grandes forças da escrita dele é essa composição instável entre a dureza e a doçura.
04:06São relatos muito fortes, muito contundentes, mas que têm algo de uma afetividade que transborda ali, parece.
04:16Eu acho que se o Eduard Louis não se sentisse tocado por esse irmão, ele não escreveria sobre ele.
04:28É um livro que tenta justamente investigar que tipo de relação é essa e que tipo de luto é esse.
04:36Ele coloca em questão, o Eduard Louis, justamente, tem um capítulo que é um diálogo dele com o fantasma do irmão.
04:43E esse capítulo, ele levanta questões muito importantes, eticamente, sobre a escrita de alguém que não pode se defender porque já morreu.
04:54Mas acho que a gente pode expandir essa discussão para a escrita de outras pessoas que não podem escrever, seja por que motivo for.
05:05Inclusive, acho que levanta a possibilidade de sentir culpa por estar escrevendo esse livro.
05:12Então, acho que tudo isso também faz parte desse processo de luto muito específico por conta dessa relação que praticamente já não existia,
05:21ou existia de uma maneira muito específica, que era através da distância.
05:25Eles se relacionavam através da distância.
05:29Silêncio e desaparecimento.
05:31Apesar de, por um lado, parecer que se trata de um narrador muito seguro de si,
05:57que é um narrador que hesita, que fala o tempo todo, que não sabe, que procura informações.
06:05E esse não saber é algo que é constitutivo no livro.
06:09Ele é estrutural.
06:15A Nernot, por exemplo, recusa o rótulo de autoficção.
06:18Ela fala, eu não faço isso.
06:19O que se diz que eles fazem é a autossócio-biografia, que é outra, é tentar dizer de um ambiente, de um grupo social,
06:32de uma sociedade, através da história de uma pessoa, através da história de uma vida,
06:38que ultrapassa a si mesma, que acaba sendo a história de outras vidas também.
06:43Enquanto meu irmão bebia, eu estudava filosofia, lia romances.
06:50Enquanto meu irmão bebia, eu viajava.
06:54Nada pode revelar essa distância entre nós.
06:57Nada pode revelar a distância, porém, a distância revela tudo.
07:02A distância é uma memória.
07:06Até quando eu não pensava em meu irmão, eu não o esqueci.
07:13A CIDADE NO BRASIL
07:25Tchau, tchau.
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