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Monique Malcher estreou como romancista na Flip
Canal Arte1
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há 4 meses
Depois do sucesso com o livro de contos "Flor de Gume", a escritora brasileira lança agora o romance "Degola", com uma protagonista que vive na Manaus da década de 1990.
Categoria
🦄
Criatividade
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Música
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Gostaria de ficar com a pele da cara dos que amei.
00:21
Colocaria essa máscara antes de dormir.
00:24
Seria a melhor forma de meninar.
00:27
Com esse simples gesto, atacaria o sono intranquilo, consequência do que não tenho conseguido esquecer.
00:36
A cara é território de construções antigas que abrigam eternas pessoas.
00:43
Não havia outra cara para colocar em cima da minha.
00:48
Eu era uma cunhantã nua de minhas próprias imaginações e embaixo de minha própria cara.
00:56
Ao longe, o som da sirene.
00:59
Era um sábado de aleluia, mas Deus não estava conosco.
01:04
Eu me considero, para além de escritora, uma trabalhadora da palavra, pela palavra.
01:15
Além disso, antropóloga e doutora em ciências humanas.
01:21
Tenho muito interesse por etnografia, ficção, claro.
01:26
E pesquisa de gênero.
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E quando eu recebi o convite para a Flip, fiquei muito feliz, porque eu acredito que numa literatura que acontece através do encontro.
01:39
No encontro com o outro, que eu vejo o que eu quero escrever, que eu encontro literalmente as histórias que eu quero contar.
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E ter esse momento de devolutiva, de carinho com as pessoas que me leem.
01:56
Porque sem elas, a minha literatura não existe.
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De Gola tem uma coisa que Flor de Gume também tem, que é o processo etnográfico abraçado, colado com a ficção.
02:13
Então, eu tenho cadernos de campo, onde eu desenho, onde eu faço colagens, onde eu anoto pensamentos, pesquisas.
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De Gola, eu tinha a vontade de falar sobre ocupação de terras, num contexto amazônida, em Manaus especificamente, na década de 90.
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O livro vai se passar ali entre 95 e 96.
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Quando eu era criança, eu morei numa ocupação, mas eu não lembro nada, eu lembro flashes disso.
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Então, eu queria criar memórias de outras meninas, outras garotas, outras mulheres que moraram numa ocupação.
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Então, eu criei a minha personagem, que se chama Sol.
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Então, a Sol vai nos contar como foi crescer nesse lugar, que é um lugar de disputa, um lugar violento,
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mas também um lugar de esperança, um lugar onde as pessoas têm agência, onde elas não são inteiramente vítimas.
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Elas estão numa situação precária, eu diria, mas sempre em luta, sempre em riste, sempre em resistência.
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As pessoas geralmente falam sobre habitar no que eu escrevo, uma sensibilidade e uma rispidez, uma dureza.
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Eu não diria que é uma violência em si, mas é uma raiva, um sentimento genuíno de revolta.
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Então, eu escrevo a partir dos meus incômodos, e os meus incômodos, eles não são apenas individuais, eles são incômodos coletivos.
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Então, essa raiva é uma raiva de movimentação.
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Só que, ao mesmo tempo, eu sou uma pessoa que ama poesia.
03:57
Eu escrevo prosa, mas acabo lendo muito mais poesia, né?
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Desde criança, leio muita poesia, então isso também me forma.
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Mas, ao mesmo tempo, eu me preocupo em não tornar a violência um espetáculo.
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Saber o momento de falar sobre ela, a necessidade de falar sobre ela,
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mas não tornar ela um grande palco sangrento.
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Eu tenho muitas influências de mulheres intelectuais na minha vida.
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Mas as primeiras mulheres intelectuais que eu conheci foram a minha avó materna e minha mãe.
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Então, foram elas que me apresentaram a palavra, mas não a qualquer palavra,
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não a palavra que apenas nomeia, isso aqui é uma cadeira, isso aqui é uma bola,
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mas a palavra poética, o poder que a palavra tem na nossa vida.
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Então, eu e a minha mãe, a gente partilhava leituras quando era criança.
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E a minha avó era uma grande contadora de histórias.
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Reunia crianças na sala de casa e contava histórias.
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E eu não sabia exatamente que eu queria ser escritora naquele momento,
05:14
mas eu tinha uma certeza que eu queria ser como ela, uma mulher mágica,
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que fazia o tempo parar para aquelas crianças que nada conseguia parar.
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E ela fazia o tempo parar e a gente parar.
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Eu me sentia, assim, encantada por ela.
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Encantadora de crianças, além de minha avó.
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Enquanto eu estava, literalmente, arquitetando como seria esse corpo desse livro, né, do De Gola,
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eu pensava em dois tempos de vida, de narração.
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Então, a personagem principal, a Sol, vai contar a história dela criança,
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mas a gente também pode acompanhar a Sol adulta, né?
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Então, o livro não tem exatamente uma linearidade dos acontecimentos.
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E a minha preocupação é que o leitor não se apegue a sentir o livro através de datas certinhas.
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Esse não é o meu interesse.
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O meu interesse é mostrar, olha o que aconteceu no passado,
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como reflete no presente e como o presente já dava suas caras no passado.
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Muito, eu gosto muito de pensar que aquilo que vivemos na infância
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vai se refletir na vida adulta e me parece, não sei, eu não posso afirmar,
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mas para mim, me parece que a vida adulta é, em parte,
06:46
é dar conta do que nos aconteceu quando criança.
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Sonhar em ter pátio, quintal, grade, portão, cadeado, luz, água saindo da torneira.
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Não sabia que tudo era de importância gigante.
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Meu mundo de criança com um cachorro velho da rua lambendo a cara.
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Não imaginava que uma casa pudesse sumir na mudez de toda felicidade
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que não fica na unha da gente quando se é pobre.
07:21
Ainda não sabia o que era pobreza, mesmo que já vivesse nela.
07:27
Eu não tinha sonhos, apenas vontades.
07:30
Tchau.
07:38
Tchau.
07:39
Legenda Adriana Zanotto
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