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  • há 4 meses
Depois do sucesso com o livro de contos "Flor de Gume", a escritora brasileira lança agora o romance "Degola", com uma protagonista que vive na Manaus da década de 1990.
Transcrição
00:00Música
00:00Gostaria de ficar com a pele da cara dos que amei.
00:21Colocaria essa máscara antes de dormir.
00:24Seria a melhor forma de meninar.
00:27Com esse simples gesto, atacaria o sono intranquilo, consequência do que não tenho conseguido esquecer.
00:36A cara é território de construções antigas que abrigam eternas pessoas.
00:43Não havia outra cara para colocar em cima da minha.
00:48Eu era uma cunhantã nua de minhas próprias imaginações e embaixo de minha própria cara.
00:56Ao longe, o som da sirene.
00:59Era um sábado de aleluia, mas Deus não estava conosco.
01:04Eu me considero, para além de escritora, uma trabalhadora da palavra, pela palavra.
01:15Além disso, antropóloga e doutora em ciências humanas.
01:21Tenho muito interesse por etnografia, ficção, claro.
01:26E pesquisa de gênero.
01:28E quando eu recebi o convite para a Flip, fiquei muito feliz, porque eu acredito que numa literatura que acontece através do encontro.
01:39No encontro com o outro, que eu vejo o que eu quero escrever, que eu encontro literalmente as histórias que eu quero contar.
01:50E ter esse momento de devolutiva, de carinho com as pessoas que me leem.
01:56Porque sem elas, a minha literatura não existe.
01:59De Gola tem uma coisa que Flor de Gume também tem, que é o processo etnográfico abraçado, colado com a ficção.
02:13Então, eu tenho cadernos de campo, onde eu desenho, onde eu faço colagens, onde eu anoto pensamentos, pesquisas.
02:25De Gola, eu tinha a vontade de falar sobre ocupação de terras, num contexto amazônida, em Manaus especificamente, na década de 90.
02:37O livro vai se passar ali entre 95 e 96.
02:40Quando eu era criança, eu morei numa ocupação, mas eu não lembro nada, eu lembro flashes disso.
02:49Então, eu queria criar memórias de outras meninas, outras garotas, outras mulheres que moraram numa ocupação.
02:56Então, eu criei a minha personagem, que se chama Sol.
03:00Então, a Sol vai nos contar como foi crescer nesse lugar, que é um lugar de disputa, um lugar violento,
03:08mas também um lugar de esperança, um lugar onde as pessoas têm agência, onde elas não são inteiramente vítimas.
03:15Elas estão numa situação precária, eu diria, mas sempre em luta, sempre em riste, sempre em resistência.
03:23As pessoas geralmente falam sobre habitar no que eu escrevo, uma sensibilidade e uma rispidez, uma dureza.
03:33Eu não diria que é uma violência em si, mas é uma raiva, um sentimento genuíno de revolta.
03:40Então, eu escrevo a partir dos meus incômodos, e os meus incômodos, eles não são apenas individuais, eles são incômodos coletivos.
03:50Então, essa raiva é uma raiva de movimentação.
03:53Só que, ao mesmo tempo, eu sou uma pessoa que ama poesia.
03:57Eu escrevo prosa, mas acabo lendo muito mais poesia, né?
04:01Desde criança, leio muita poesia, então isso também me forma.
04:07Mas, ao mesmo tempo, eu me preocupo em não tornar a violência um espetáculo.
04:13Saber o momento de falar sobre ela, a necessidade de falar sobre ela,
04:17mas não tornar ela um grande palco sangrento.
04:22Eu tenho muitas influências de mulheres intelectuais na minha vida.
04:33Mas as primeiras mulheres intelectuais que eu conheci foram a minha avó materna e minha mãe.
04:40Então, foram elas que me apresentaram a palavra, mas não a qualquer palavra,
04:45não a palavra que apenas nomeia, isso aqui é uma cadeira, isso aqui é uma bola,
04:50mas a palavra poética, o poder que a palavra tem na nossa vida.
04:55Então, eu e a minha mãe, a gente partilhava leituras quando era criança.
05:00E a minha avó era uma grande contadora de histórias.
05:04Reunia crianças na sala de casa e contava histórias.
05:09E eu não sabia exatamente que eu queria ser escritora naquele momento,
05:14mas eu tinha uma certeza que eu queria ser como ela, uma mulher mágica,
05:19que fazia o tempo parar para aquelas crianças que nada conseguia parar.
05:24E ela fazia o tempo parar e a gente parar.
05:27Eu me sentia, assim, encantada por ela.
05:31Encantadora de crianças, além de minha avó.
05:33Enquanto eu estava, literalmente, arquitetando como seria esse corpo desse livro, né, do De Gola,
05:47eu pensava em dois tempos de vida, de narração.
05:54Então, a personagem principal, a Sol, vai contar a história dela criança,
05:58mas a gente também pode acompanhar a Sol adulta, né?
06:03Então, o livro não tem exatamente uma linearidade dos acontecimentos.
06:09E a minha preocupação é que o leitor não se apegue a sentir o livro através de datas certinhas.
06:19Esse não é o meu interesse.
06:20O meu interesse é mostrar, olha o que aconteceu no passado,
06:24como reflete no presente e como o presente já dava suas caras no passado.
06:31Muito, eu gosto muito de pensar que aquilo que vivemos na infância
06:36vai se refletir na vida adulta e me parece, não sei, eu não posso afirmar,
06:43mas para mim, me parece que a vida adulta é, em parte,
06:46é dar conta do que nos aconteceu quando criança.
06:54Sonhar em ter pátio, quintal, grade, portão, cadeado, luz, água saindo da torneira.
07:04Não sabia que tudo era de importância gigante.
07:08Meu mundo de criança com um cachorro velho da rua lambendo a cara.
07:12Não imaginava que uma casa pudesse sumir na mudez de toda felicidade
07:18que não fica na unha da gente quando se é pobre.
07:21Ainda não sabia o que era pobreza, mesmo que já vivesse nela.
07:27Eu não tinha sonhos, apenas vontades.
07:30Tchau.
07:38Tchau.
07:39Legenda Adriana Zanotto
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