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  • há 4 meses
O filme “A Melhor Mãe do Mundo”, com Shirley Cruz e Seu Jorge, mostra a jornada por liberdade de uma catadora de lixo reciclável vítima de violência doméstica.
Transcrição
00:00O que aconteceu, Maria da Graça?
00:17Você veio aqui prestar queixa?
00:18Queixa.
00:20Finalmente, a mulher negra periférica se retratada com tanta dignidade, com tanta força.
00:27Não é a força da guerreira, mas a força, sabe, da alma, sabe, do amor.
00:33Teu marido te bateu?
00:34Bateu, bateu.
00:36O fato de eu ter sofrido violência, não é exatamente isso que me fez fazer uma gal melhor.
00:44Infelizmente, não há orgulho nenhum em passar por isso, mas uma vez que já passei,
00:48traz para a experiência superada, porque eu acho importante também,
00:53porque essa coisa do ator se utilizar de coisas verdadeiras e depois aquilo machucar, não é o meu lance.
00:59Então, isso foi há muitos anos atrás, foi sim, me sinto uma sobrevivente de uma tentativa de feminicídio,
01:06mas eu sou amada, muito amada, há 12 anos, tenho uma filha linda, fruto desse amor.
01:11Então, não é essa a questão.
01:12O problema é que eu estou aqui intacta, mas as manas continuam morrendo.
01:17Então, pede desculpa.
01:19Eu não sei pedir essa porra, eu não sei pedir desculpa.
01:22Eu não fui criado com isso, ninguém me ensinou.
01:25Ele tem esse discurso, né, porque ele trabalha, porque ele gera, mas também ele...
01:34Quando se lhe é exigido desculpas, ele fala, eu não fui criado com isso.
01:42E isso fala muito, né.
01:44Mas da vida, esse cara é, sabe, trazer pensamentos que eu nunca tive, assim.
01:49É bem típico do cara, na minha opinião, parece que ele é um típico do cara que a relação com mulher
01:55é em cima do desejo.
01:59Se você não tem desejo pelaquela mulher, ela nem existe para ele.
02:04Entende?
02:04Ele não ia acabar de pedir desculpas.
02:06Ele não foi criado com isso.
02:08Então, é muito complicado fazer uma análise, assim, de como...
02:15A gente foi descobrindo, né.
02:18A gente foi descobrindo a construção desse, juntos.
02:21Tem que parar de beber.
02:23Eu nem bebo tanto, assim.
02:24Você fala como se eu fosse alcoólatra, pô.
02:26Trabalho, cara.
02:28São dois momentos.
02:29Primeiro, eu decidi falar de violência doméstica, porque era uma experiência pessoal minha.
02:35E ao modo do Paul Schroeder, que ele fala, você vai fazer um filme vivo, você tem que botar uma questão sua na mesa.
02:42Mas você afasta o personagem mais ou possível de você.
02:46E daí entra a parte dois.
02:47Eu resolvi fazer essa mulher na carroça, fugindo de violência doméstica.
02:52E aí entrou uma parte de pesquisa grande para conhecer as catadoras, as recicladoras.
02:58Conheci, fiquei amiga e tal.
02:59Então, tem uma parte que é o meu machucado e uma parte que é uma pesquisa.
03:03Porque eu fiquei fascinada com essa imagem da mulher na carroça, catando papel e com as crianças, né.
03:09Uma das partes mais fundamentais, porque aí trocar com elas, aprender o ofício, né, de verdade, dentro da cooperativa da Glicério.
03:18Com elas me ensinando com muito afeto, com muita conversa, sabe.
03:21Com um banho gostoso, depois de chafurdar o lixo, vem um banho gostoso, que elas saem cheirosas, arrumadas, sabe.
03:28Limpas, para buscar os seus filhos que estão na escola, muito bem arrumados, com a roupinha direita.
03:33Então, eu aprendi muito sobre o que mais interessava.
03:36Honrá-las, né.
03:38E essa espinha dorsal da dignidade, né, que está ali.
03:42As crianças são com as filhas.
03:45Riane e Benique.
03:46Mãe!
03:46Riane, sua mãe chegou?
03:50Não!
03:50Eu fiz questão que a Shirley testasse a carroça, porque eu tinha pânico que acontecesse um acidente.
03:56E aí ela testou e a carroça não estava macia.
04:00E aí a gente foi para a Avenida Angélica e virou o Seu Francisco com esta carroça pronta como estava, um pouco menor.
04:08Pronta.
04:09Aí a Shirley foi atrás e aí, e aí, e aí, como é que você chama? Seu Francisco, Seu Francisco.
04:12Aí eles ficaram estudando por que uma carroça era macia, a outra não.
04:16E era uma questão de eixo, ponto de eixo.
04:19E aí falou, escuta, você não vende sua carroça?
04:22Aí ele vende.
04:23A carroça, para mim, é personagem. Ela é amiga da Gal, ela traz o sustento.
04:26Ela carrega os bens mais preciosos.
04:29Então, quando me foi oferecido dublê para puxar a carroça, eu falei, gente, não!
04:35Porque puxar a carroça me traz ódio, me traz tristeza.
04:40E eu falo aqui, se eu lembrar, esse ódio vem.
04:42Porque, né, uma mulher negra puxando uma carroça de quatro é ranço de escravidão.
04:47Então, tudo isso foi usado também em tudo que eu podia, que eu achava que me fazia bem e que a Ana também achasse, né, essa construção.
04:54Então, puxar a carroça era importante demais.
04:56A mãe sempre quis levar vocês para fazer uma coisa grande, uma grande aventura, sabe?
05:03Chegou a hora!
05:05Ah, mãe, que tipo de aventura?
05:06Ah, filho, não sei, é muita coisa.
05:08Cada dia num lugar, fazendo uma coisa diferente.
05:10E desde o Dorval Discos, eu tenho uma política de direção de criança, que é ficar amiga, ganhar confiança e brincar.
05:20E aí eu sempre chamo um preparador que vai ensaiar cenas, vai até semi-decorar o texto,
05:28para deixar a criança meio pré-fabricada para uma cena ou outra.
05:32Mas aí, quando ela chega na pré-fabricação dela, eu vou e bagunço tudo e falo, faz o que você quiser.
05:39E aí, ela sabe a função dramática, ela faz, mas ela também está solta e viva.
05:45E aí, isso ganha uma vida que vai para a tela, né?
05:48E no caso da Rihanna, eu acho que nem foi isso, porque a Rihanna é uma atriz profissional,
05:54que tem compreensão, leitura, interpretação.
05:56E o Benin, cinco anos de idade, um passarinho voando, né?
06:04E com o olhar atento, eu fui também chamando as pessoas.
06:06Por exemplo, aqueles moradores de rua que dormem do lado dela, na cena ali no calçadão,
06:13com cachorro, com uma coleira de diamantes.
06:18Eles estavam lá.
06:19Outra dona Fátima, lá na cooperativa do Dexter, era uma carroceira, veio conversar comigo.
06:25Eu falei, ela me falou a frase que está no filme.
06:28Pô, os rapazes levaram minha carroça.
06:30E eu, você falaria isso na frente da câmera?
06:33Ela, sim.
06:33Então, teve plano contra o close, sabe?
06:37Então, você vai também enriquecendo o filme com aquilo que você vai encontrando.
06:41Estou livre.
06:42E é isso que você precisa aprender, minha filha, ser livre.
06:45A alegria que eu sinto é que é uma história de vitória, de força, uma história de honra, né?
06:52Como poucas vezes a gente pôde ver a mulher negra ser retratada no audiovisual.
06:57Porque mesmo diante de todas as complexidades, é honrosa.
07:02Começa onde muita gente morre, quando não consegue sentar numa cadeira, né?
07:06Dentro de uma delegacia da mulher.
07:08Então, eu acho que é uma inteligência absurda da Ana começar um filme como um nudes, terminariam.
07:14Apanhou, apanhou, apanhou, foi chutada, tomou na cara.
07:17Aí a gente viu aquilo tudo, né?
07:19Não tem corpo exposto, a gente não viu a violência.
07:21Acho isso de uma dignidade, sabe?
07:24A gente já sabe, pô.
07:25Acho que o principal pra mim era uma chance de contribuir efetivamente pra mudança, né?
07:33Dessa, dessa chacina.
07:36Esse filme fica contribuindo pra proteger a gente, sabe?
07:41Proteger minha filha, pra honrar.
07:43Não fica assim.
07:45Você não é assim.
07:47Então, como que eu sou, filha?
07:50Fala.
07:52Como que eu sou?
07:55Não se aguante.
07:57Tá sem troca.
07:59Dê você.
08:00Dê você.
08:01Dê você.
08:01Tchau!
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