00:00A gente vai começar agora com o Carlos Braga, ele é professor associado da Fundação Dom Cabral e ex-diretor do Banco Mundial.
00:06Carlos, boa noite, obrigada por estar com a gente mais uma vez.
00:11Bom, vamos começar falando de amanhã, IBGE divulga a inflação de janeiro.
00:16Qual é o cenário inflacionário do nosso país hoje e, na sua opinião, ele condiz com a política monetária atual?
00:22Boa noite. Bem, a situação vem melhorando, o que a gente observa é que a política monetária está funcionando como se esperava,
00:38ela tem um atraso para ter um impacto, então crescem as expectativas de que, não necessariamente agora,
00:48mas em março, talvez a gente comece a ver quedas na Selic.
00:54Então, nesse sentido, é uma notícia boa.
00:59Agora, é importante reconhecer, nós estamos ainda bem acima da expectativa para o final desse ano,
01:09se a gente for olhar o boletim Focus, que é o mercado financeiro, no final das contas,
01:16que vocês acabaram de mencionar, está apostando aí algo bem próximo de 4%, 3,97.
01:24E é, vamos dizer, dentro da faixa, dos graus de liberdade que a gente tem, o Banco Central,
01:35mas, sem dúvida, é ainda um nível relativamente elevado.
01:40Mas, de uma maneira geral, está indo na direção correta.
01:43A grande questão é a política fiscal.
01:46A política monetária está fazendo o que deveria fazer.
01:50A política monetária é outra história.
01:52A política fiscal, desculpem, é outra história.
01:55Teoricamente, elas deviam andar de mãos dadas, né?
01:58Pois é, mas, como eu já observei várias vezes em encontros anteriores com vocês,
02:08de um lado, a gente está apertando no freio, a política monetária,
02:13e, de outro, a política fiscal, estamos apertando no acelerador.
02:17E isso, naturalmente, é uma situação esquizofrênica e, infelizmente,
02:24num ano de eleições presidenciais, não há, assim, razão para muito otimismo nesse momento.
02:32O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, disse hoje que a palavra-chave atualmente é calibragem.
02:39Você concorda?
02:41Bem, eu não assisti a entrevista dele.
02:46Então, se por calibrar ele está se referindo à importância de termos aí, vamos dizer,
02:54consistência entre política monetária e política fiscal, concordo plenamente.
03:00Isso é o que eu acabei de mencionar como importante.
03:03Do ponto de vista político, né?
03:06Eu acho que vai ser difícil alcançar um alto nível de calibragem esse ano.
03:13A gente vê o governo continuando, falando de,
03:17ah, estamos atingindo as metas do arcabouço fiscal,
03:22mas, obviamente, com todos aqueles penduricalhos,
03:26sejam precatórios, sejam várias outras despesas
03:30que não são consideradas no cálculo do arcabouço fiscal,
03:35sim, mas se você incorpora todos esses outros dados,
03:42aí o nosso déficit está correndo, aí é quase 0,5%, o déficit primário,
03:48quase é 0,5% do PIB.
03:51Vamos olhar para a Bolsa, bateu um novo recorde de pontos no fechamento,
03:56a gente está vendo recorde atrás de recorde.
03:58Qual é o motivo de tamanho otimismo?
04:01E, na sua opinião, isso vai continuar assim?
04:06Bem, a Bolsa é, no final das contas,
04:11muito influenciada por percepções e pelo que está acontecendo no resto do mundo.
04:18Como a gente sabe, nos Estados Unidos também,
04:22estamos vendo uma Bolsa a pleno vapor,
04:25mas com preços, a relação preço-retorno das ações nos Estados Unidos
04:36está extremamente elevada,
04:39um dos mais elevados da história.
04:42E isso, naturalmente, reflete particularmente
04:45as empresas de alta tecnologia,
04:49as chamadas sete magníficas,
04:52empresas como a Apple,
04:54empresas como a Tesla
04:57e por aí afora.
05:00Aqui no Brasil, o que a gente vê nesse momento
05:03é que há uma preocupação nos Estados Unidos
05:07a respeito da sustentabilidade dessa trajetória.
05:11Existe uma grande euforia com relação
05:14à inteligência artificial,
05:16mas, ao mesmo tempo, existem dúvidas
05:20até que ponto, por exemplo,
05:21os investimentos bilionários,
05:24chegando quase a um trilhão de dólares esse ano,
05:27por exemplo, em investimentos de data centers,
05:31vão trazer retorno no curto prazo.
05:34Todo mundo concorda
05:36que essa é uma tecnologia
05:37que vai ter um impacto fundamental
05:40em termos de produtividade,
05:41mas o retorno ao investimento,
05:45a velocidade com que isso vai ser observado
05:48é outra história.
05:49Para companhias como Amazon, Apple,
05:54isso não é um grande problema
05:56porque elas têm receitas significativas
05:58de outras atividades.
06:01Já para uma empresa como a OpenAI,
06:04há dúvidas
06:05se isso é sustentável.
06:07Então, nesse sentido,
06:09há também uma procura de alternativas.
06:12A gente vê o preço do ouro
06:14disparando
06:16e um processo gradual
06:19de desdolarização.
06:22E aí, procura de alternativas.
06:24E economias emergentes,
06:26o Brasil é o oposto
06:27da situação dos Estados Unidos.
06:30O preço de muitas ações
06:32estão relativamente baixos.
06:35se a gente compara
06:36com indicadores internacionais.
06:40Agora, certamente,
06:42tudo isso pode mudar
06:43de um momento para o outro
06:44se as percepções
06:45da sustentabilidade
06:48da economia brasileira,
06:50por exemplo,
06:51com relação à questão da dívida
06:53e a evolução da política fiscal,
06:56pode, vamos dizer,
06:59mudar esse clima de otimismo.
07:02Mas, nesse momento,
07:02é um clima positivo.
07:05Professor, se a gente olhar
07:06para o dólar,
07:07a moeda americana
07:07atingiu o nível mais baixo
07:09desde maio de 2024,
07:11uma tendência mundial.
07:13Deve continuar caindo assim?
07:17Olha, evidentemente,
07:20tem muita gente apostando
07:21que isso vai acontecer.
07:24A realidade é que
07:26o mercado americano
07:28é de longe o mercado,
07:30o mercado, vamos dizer,
07:31melhor estabelecido
07:34em termos da capacidade
07:37de ser uma fonte de liquidez
07:40para o resto do mundo.
07:42Agora,
07:44no caso de uma eventual
07:45crise geopolítica,
07:47existe ruído aí
07:49que eventualmente
07:50a China, por exemplo,
07:52vai continuar,
07:53vai começar a desovar
07:55significativamente
07:56títulos do Tesouro americano.
07:59Isso tudo pode,
08:01pelo menos,
08:03no curto prazo,
08:04continuar a impactar
08:05o dólar.
08:07Mas, eu diria
08:08que no longo prazo,
08:09a gente não tem alternativa.
08:11Nos próximos cinco anos,
08:13digamos,
08:14não há alternativa
08:15ao dólar.
08:16Agora,
08:16flutuação,
08:18sim,
08:18a gente vai continuar
08:19a observar.
08:21Eu vou passar
08:21para a pergunta
08:22do Vinícius.
08:23Vinícius, por favor.
08:24Voltando para essa questão
08:26do dólar,
08:27agora pensando
08:28no curto prazo mesmo,
08:29um ano,
08:30pelo menos,
08:30até a eleição daqui
08:31e de lá.
08:34Está todo mundo
08:35apostando
08:35em queda do dólar
08:37esse ano
08:37pelos fatores sabidos.
08:40Tem superinvestimento
08:41em ações americanas,
08:43risco de dívida,
08:45movimento da China,
08:46até movimento de Iene.
08:47Agora,
08:48no curto prazo,
08:49nesse curto prazo,
08:50qual poderia ser
08:50o acidente
08:51ou mudança
08:53que poderia
08:54mudar essa trajetória
08:56do dólar
08:56para esse ano?
08:58É uma pergunta
08:58que interessa
08:59imediatamente aqui,
09:00nosso mundinho,
09:01porque isso pode impactar
09:02a política monetária aqui.
09:04Agora,
09:05tem acidente à vista
09:06que possa mudar
09:07essa tendência
09:07ou isso é só
09:08uma mania rápida?
09:10Pode ter uma reversão
09:11de curto prazo
09:11nessa tendência
09:13de desvalorização
09:13do dólar
09:14que é mundial?
09:16Olha, Vinícius,
09:17a minha bola de cristal
09:18é tão boa
09:19quanto a sua.
09:20evidentemente
09:22um choque
09:24geopolítico,
09:25vamos dizer
09:25que amanhã
09:26o senhor Trump
09:27resolva realmente
09:29atacar o Irã
09:30novamente,
09:31e o Irã
09:32decida
09:33bloquear
09:36o Estreito de Hormuz,
09:38que isso
09:39eles têm condições
09:40de fazer.
09:43Isso,
09:43naturalmente,
09:45teria um impacto
09:46bastante significativo
09:47no preço de energia
09:49e levaria
09:50a uma desaceleração
09:52da economia mundial.
09:54Em momentos
09:55como esse,
09:57tipicamente,
09:58há uma correria
09:59exatamente
10:00para aquela moeda
10:01que é a moeda
10:02básica
10:03de reserva
10:04internacional,
10:04que é o dólar.
10:06Basta lembrar,
10:07quando a gente teve
10:08a crise financeira global,
10:10na época,
10:11eu era diretor
10:11de política econômica
10:13e dívida
10:13do Banco Mundial,
10:15então,
10:15eu participava
10:16dos encontros
10:18do G20,
10:19etc.,
10:20a expectativa inicial
10:21era,
10:22bem,
10:22o dólar
10:23vai desabar.
10:24Aconteceu
10:25exatamente o oposto,
10:26quer dizer,
10:27teve aí
10:27alguns soluços,
10:29mas,
10:29no final das contas,
10:30em momentos
10:31de crise,
10:33a fuga
10:33ainda é
10:34para o dólar.
10:36Então,
10:37voltando à sua questão,
10:38acidentes
10:39podem acontecer,
10:40vamos torcer
10:41para que isso
10:42não aconteça.
10:43Como você observa,
10:45acabou de ser mencionado
10:46aí no bloco
10:47anterior,
10:48o Fox
10:49está apostando
10:50aí na relação
10:51do,
10:53a taxa de câmbio
10:54do real,
10:55algo ao final
10:55do ano
10:56da ordem
10:56de 5,5,
10:58que não é
10:59muito diferente
11:01do que a gente
11:01esperava
11:02no final
11:03do ano passado.
11:04Professor Carlos Braga,
11:05muito obrigada
11:06pela entrevista,
11:07boa semana
11:07para você.
11:09Igualmente,
11:10tchau, tchau.
11:10Tchau.
11:11Tchau.
11:12Tchau.
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