00:00O agronegócio é um segmento acostumado a enfrentar desafios.
00:04Eventos climáticos, desafios logísticos, oscilações de preços,
00:09são questões bem conhecidas para o setor.
00:12Com a guerra tarifária, o agronegócio mais uma vez reage a uma nova influência externa.
00:17Só que tem algo de novo no front, que traz ainda mais complexidade ao setor,
00:22além do cenário político e econômico mundial.
00:25As mudanças no comportamento dos consumidores.
00:28E a adaptação a essa nova dinâmica exige uma reinvenção da cadeia de suprimentos.
00:33Sobre esse assunto, eu converso agora com o Otávio Lopes,
00:37sócio-líder de agro da IUAI para a América Latina.
00:40Tudo bem, Otávio? Boa noite, tudo certo?
00:42Obrigado, Turcio. Boa noite.
00:44Obrigado pela sua presença aqui.
00:46Boa noite a todo mundo que está nos assistindo também. Obrigado.
00:49Seja muito bem-vindo aqui ao nosso estúdio.
00:51Otávio, como é que a cadeia de suprimentos do agro
00:54vem sendo impactada por essas mudanças na preferência dos consumidores?
00:58E que mudanças são essas?
01:01Turcio, o consumidor está muito mais consciente.
01:06Começa tudo pela consciência.
01:08O consumidor quer um alimento saudável, ele quer um alimento fresco e ele quer preço.
01:14Então, ele quer tudo ao mesmo tempo e ele quer conveniência e ele quer para agora.
01:21Tudo isso somado cria uma complexidade muito grande.
01:25A gente vê que, em alguns lugares, o consumidor quer comprar direto do produtor.
01:33Isso é uma desintermediação da cadeia do agronegócio.
01:37Ele só quer o que está bonito, ele só quer aquela fruta que está brilhando,
01:42que não tem nenhum ponto preto.
01:44Isso cria muita complexidade.
01:46E essas mudanças, elas trazem uma pressão na organização logística
01:52e trazem uma pressão por custo também.
01:56O que, no final das contas, resulta em escolhas.
02:00Porque a principal premissa é que os alimentos sejam acessíveis do ponto de vista de preço.
02:07E por falar em preço, a impressão, e na verdade é fato, que a gente tem quando vai para o supermercado,
02:15é que está tudo ficando mais caro.
02:17A gente enche o carrinho no supermercado, tudo fica mais caro.
02:21E você preparou, inclusive, uma arte aqui.
02:23Tem algumas informações aqui na tela para a gente apresentar, para dar suporte à sua explicação.
02:28Isso é um ponto muito relevante, Turci, porque quando a gente olha a inflação acumulada dos 5 anos,
02:36a gente tem algo em torno de 33%.
02:38E quando a gente olha a inflação de alimentos acumulada, ela é de 55%.
02:44Então, ela está acima da inflação geral de preços.
02:47E esse gráfico, ele mostra para a gente uma coisa muito interessante.
02:53A gente viveu anos de estabilidade.
02:55Esse é um índice da FAO, que traz algumas commodities que são responsáveis por 40% do trade de alimentos global.
03:04Então, a gente vê um período de estabilidade.
03:07E aqui de 2021 para cá, começo da pandemia, isso não para de subir.
03:13A gente vê esse índice crescendo, crescendo, crescendo.
03:17E isso não dá nenhuma trégua à inflação, no final das contas.
03:21A gente vê essa linha que começa em 2015, você falou de um período de estabilidade.
03:25Isso vai mais ou menos até exatamente a pandemia, 2020.
03:28Até ali era quase que uma linha horizontal.
03:30Exatamente, Turci.
03:31E uma coisa que fica muito clara para a gente, quando a gente para para pensar em alimentos,
03:39a pressão em cima de uma máquina que possui ineficiências,
03:44gera uma pressão que ocasiona esse aumento de preços e, consequentemente, a inflação.
03:50A gente pegou um vento de cauda muito grande durante o começo da Covid.
03:55As pessoas comprando muito para estocar em casa com medo.
04:00E isso colocou uma pressão na cadeia.
04:04A gente teve problemas de abastecimento, a gente teve problemas de distribuição.
04:08E isso causou essa inflação de preços.
04:11A gente vê aqui, a partir de 2021, com o final da pandemia, os conflitos armados, por exemplo,
04:21a guerra Rússia-Ucrânia colocando pressão em fertilizantes, por exemplo.
04:26A gente vê crises de petróleo onerando a logística de distribuição.
04:32Tudo isso impacta a cadeia de alimentos, no final das contas.
04:36E como é que o agro vem reagindo a essa pressão de preços?
04:43O agronegócio sempre esteve sob pressão.
04:46É um business, é um segmento que opera com margens baixas.
04:52A gente precisa olhar isso de uma forma segmentada.
04:56O agronegócio, quando a gente olha o custo do produto final que está indo ao mercado,
05:02seja ele um produto que vai ser exportado ou um produto de mercado doméstico,
05:06a gente tem os custos que começam na ponta da cadeia, lá na produção agrícola.
05:11A gente tem os custos de produção e os custos de distribuição.
05:17Esses três grandes grupos de custos, eles precisam ser individualizadamente analisados
05:23e a gente precisa entender quais são as alavancas de valor que o agronegócio trabalha.
05:28O agronegócio busca, por exemplo, no começo da cadeia, produzir mais com menos.
05:33Então, ele olha o custo de terra, o custo de fertilizante,
05:37para que o insumo que vem para a indústria venha num preço competitivo.
05:42A transformação na indústria tem que entregar o produto final naquele preço,
05:47que é o preço que vai ser, depois, quando somado ao custo de venda,
05:51entrega o preço real ao consumidor.
05:53Essa segmentação é muito importante ao agronegócio.
05:57O agronegócio precisa entender a cadeia de forma estendida,
06:01é uma cadeia complexa, e atuar nesses três grandes grupos de custo que ela gerencia.
06:08E a tecnologia é fundamental para melhorar essa competitividade?
06:12Eu diria que tecnologia e sustentabilidade.
06:15A gente falou de consumidor.
06:17O consumidor está muito atento para requerimentos de sustentabilidade.
06:22Ele está procurando coisas que estejam sendo produzidas sem agredir o meio ambiente,
06:27sem usar trabalho escravo, conceitos de fair trade.
06:31O chocolate é um grande exemplo,
06:33onde a ponta do cacau e o preço do chocolate vendido,
06:38o consumidor já entende que existe uma grande disparidade nisso tudo.
06:42Então, o consumidor olha para a sustentabilidade,
06:46e o agronegócio responde com a tecnologia.
06:50A tecnologia é fundamental para duas coisas.
06:53Para entregar resiliência a essa cadeia,
06:56e a gente vai ver um pouco mais à frente aqui,
06:59quando a gente está falando de inteligência artificial,
07:02para entregar autonomia.
07:04Porque a resposta a tudo isso,
07:06esse ambiente muito volátil, muito dinâmico,
07:09carece de autonomia.
07:10Temos uma arte também para essa discussão,
07:13se a gente puder colocar aqui mais uma tela aqui.
07:17Trata exatamente da tecnologia,
07:19é o ponto que você estava explicando aí.
07:21É, eu vou começar esse gráfico,
07:23a gente vai falar,
07:24quando a gente fala de alimentos,
07:26a gente não pode esquecer do campo.
07:29A gente começa com a tecnologia no campo.
07:33Quando a gente olha a produção agrícola no Brasil,
07:36a gente teve um crescimento de produtividade por hectare
07:38da ordem de 6%,
07:41desculpa, 6 vezes,
07:43600% de aumento de produtividade.
07:46E quando a gente olha o incremento de terras agriculturáveis,
07:51isso é marginal.
07:53Então, a primeira tecnologia que a gente tem que destacar
07:56na indústria de alimentos,
07:58é a tecnologia no campo.
07:59É a tecnologia que está entregando mais insumos para a indústria,
08:04a um custo menor,
08:05a um custo não só de dinheiro,
08:07mas a um custo de natureza,
08:08de sustentabilidade menor.
08:11E aí a gente passa por tecnologias de agricultura de precisão,
08:15utilização de satélite,
08:17sensoriamento remoto,
08:18sensoriamento no campo,
08:20muita inteligência analítica,
08:23inteligência artificial,
08:25que faz com que a indústria entenda quais são
08:27as variáveis explicativas pela produtividade agrícola.
08:31E como é que a cadeia de suprimentos,
08:35falando agora um pouco de guerra tarifária,
08:37porque não podemos ficar de fora,
08:38estamos aí a poucas horas do início da vigência da nova tarifa,
08:42como é que a cadeia de suprimentos do agro
08:44está reagindo a essa nova realidade tarifária?
08:48Turf, ontem a gente ouviu o ministro Carlos Fávaro
08:51falar do mercado da carne,
08:52da abertura de 398 mercados para a carne bovina brasileira.
08:56A gente deveria ter uma gestão de risco
09:00onde a produção agrícola brasileira
09:03poderia escoar por diferentes lugares,
09:06que daria poder de arbitragem à empresa brasileira
09:10e dizer, eu vou vender a minha manga para o mercado B
09:13porque ela me remunera melhor do que o mercado A.
09:17Isso passa por inteligência de dados,
09:20inteligência de mercado
09:21e também por resiliência na cadeia logística.
09:25aonde vão estar os meus estoques?
09:28Como eu me credencio para vender para esses mercados?
09:33A gente tem ouvido falar da UDR,
09:34que é a norma da União Europeia,
09:37para garantir que os produtos que entram na comunidade europeia
09:42não sejam de áreas desflorestadas.
09:46E a gente precisa estar preparado para isso.
09:48Isso é um tema de resiliência,
09:50que é um tema que passa por processos e por tecnologia.
09:54Eu quero saber se o café que está sendo exportado para a Europa,
09:58da onde ele vem?
10:00Essa informação vai ser georreferenciada.
10:03O europeu vai poder olhar se essa é uma área de desmatamento,
10:07se é uma área que está com queimada,
10:09se é uma área degradada
10:11e vai poder tomar a decisão de compra.
10:14Eu quero enfatizar, por exemplo, o café brasileiro.
10:17O café brasileiro está se antecipando,
10:19o C-Café preparou uma base de dados
10:21só para atender a UDR e se antecipar a isso.
10:25Esse é um exemplo
10:26de como é que a gente deveria estar se preparando
10:29e aproveitar o tarifácio como uma oportunidade
10:32para que a gente tenha arbitragem no mercado internacional.
10:36Quando a gente olha a razão de estoques para uso de café existente
10:42e a gente olha o preço da commodity,
10:44a gente vê que tem muito mais demanda por café do que suprimento.
10:49O preço da commodity está lá em cima
10:52e por que isso deveria ser um motivo de pânico para a gente agora?
10:56Otávio Lopes, sócio-líder de agro da UI para a América Latina.
11:00Obrigado, Otávio, pela sua participação aqui. Valeu.
11:02Muito obrigado, torce.
11:03Obrigado. Até a próxima.
11:04Tchau, tchau.
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