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O presidente da Aprosoja MT, Lucas Costa Beber, afirmou que a associação acompanha com preocupação as negociações comerciais entre Brasil e Estados Unidos, principalmente após o anúncio de tarifas adicionais por parte do governo norte-americano. Ele defende que o Brasil adote uma postura diplomática e evite retaliações, para não comprometer setores estratégicos do agronegócio.

“Entrar em uma guerra contra os Estados Unidos é praticamente uma guerra perdida”, disse Beber em entrevista ao Real Time, do Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, ao comentar os riscos de uma escalada tarifária entre os dois países.

Acompanhe a cobertura em tempo real da guerra tarifária, com exclusividade CNBC: https://timesbrasil.com.br/guerra-comercial/

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Transcrição
00:00Os produtores de soja em alerta e alguns pedem cautela nas negociações e temem efeito retaliatório
00:13da lei de reciprocidade. A gente vai falar agora com o Luca Weber, que é presidente da AproSoja
00:17de Mato Grosso. Bom dia para você, Luca. Seja bem-vindo ao Real Time. Bom dia, Marcelo. Um
00:23prazer poder conversar com vocês. Bom dia a todos que nos assistem. Explica para a gente quais são
00:29as maiores preocupações da AproSoja nessas negociações que estão acontecendo agora.
00:34Marcelo, são várias as preocupações. Primeiro, nós temos que considerar que todos os países
00:40do BRICS estão buscando aproximação e discussão diplomática com os Estados Unidos para tratar
00:47dessas tarifas. Inclusive, alguns deles alegam que a proposta da moeda única do BRICS, essa
00:55moeda para substituir o dólar foi ideia do Brasil. E nós vimos que um dia após a fala
01:02do presidente Lula sobre essa moeda única, mais uma vez insistindo nesse tema, foi posterior
01:09a isso, um dia depois que o Trump anunciou as sanções e o tarifaço ao Brasil. Então,
01:17nós vemos isso daí de fato como estopim. Os Estados Unidos têm essa segurança na questão
01:26de manter o dólar como a moeda de negociação no mercado mundial. Não é à toa que a China,
01:33nas suas negociações internacionais, ela utiliza menos de 3% Yuan. Ela ainda trabalha fortemente,
01:42a moeda que ela mais utiliza é o dólar que a maioria dos países fazem. Então, de fato,
01:48a nossa preocupação, primeiro considerando da dependência de tecnologia dos Estados Unidos,
01:54principalmente a inteligência artificial, que ela favorece a todos os setores, e a agricultura
02:00também vai necessitar da inteligência artificial, componentes eletrônicos, hardware, software,
02:07que são utilizados em máquinas agrícolas. Além da importação de máquinas agrícolas de ponta,
02:15nós temos aí a indústria aeronáutica, né, de aviação agrícola. Nós somos grandes importadores
02:21das aeronaves, air tractors e truches, que são aeronaves de grande porte, né, com motorização turbo-hélice
02:29de alta tecnologia, né, e nós vimos com muita preocupação quando o Lula falou que podia aplicar
02:37a lei da reciprocidade, já que o Trump falou que se somaria aos 50%, se caso tivesse reciprocidade,
02:47eles somariam as taxas também, né, aos 50% estabelecido. E nós temos que lembrar que a John Deere mesmo
02:56e outras marcas que têm grande presença no mercado brasileiro agrícola, muitas máquinas ainda vêm dos
03:04Estados Unidos, assim como seus componentes eletrônicos. Então, para a competitividade da agricultura
03:11brasileira, é ideal nós continuarmos tendo boas relações sem taxação. E já na exportação, né,
03:19a ProSoja defende os produtores de soja e milho do Mato Grosso, e quando nós olhamos para os Estados
03:26Unidos, ele é um dos maiores importadores de carne de frango e carne bovina. O rebanho brasileiro tem
03:33diminuído, desde a década de 70, o tamanho da área ocupada pela tecnificação, claro, pastagens
03:41melhoradas, o melhoramento genético, mas também por via da suplementação alimentar, através do farelo
03:49de soja e do grão do milho, que são os principais componentes da ração para o confinamento,
03:56semiconfinamento e suplementação para a carne bovina. E o frango, no caso, totalmente dependente do farelo de
04:04soja e do milho para a produção de carne, até mesmo ovos, que esse ano o Brasil exportou para os
04:10Estados Unidos. Então, é um mercado muito importante, nós temos uma presença, né, muito grande no mercado
04:18norte-americano, seja nas exportações quanto nas importações. Então, o caminho, é claro, é seguir o que os
04:26outros países estão fazendo e buscar o diálogo, a diplomacia considerando que os Estados Unidos, independente
04:34de politização ou do que qualquer um acha, ele é a maior economia do mundo e é o país que desenvolve as
04:43maiores tecnologias para todos os setores, principalmente a agricultura. E temos que lembrar que o Brasil não
04:51refina o petróleo pesado aqui no extraído do pré-sal, ou seja, nós exportamos para ser refinado em outros
05:00países, os Estados Unidos importam bastante petróleo pesado e exportam para nós gasolina, nafta e o óleo diesel, 25% do
05:10óleo diesel que importamos vem dos Estados Unidos, né, e isso interfere diretamente na produção agrícola, no
05:19cultivo, plantio, a colheita, que essas máquinas utilizam uma grande quantidade de óleo diesel e o
05:26transporte de alimentos, seja para transportar para os portos ou para a indústria, né, através dos
05:34caminhões e seja para voltar esse alimento processado, industrializado para os mercados, para serem vendidos no
05:42varejo, ou seja, isso vai interferir diretamente no preço dos alimentos aqui no país e vai ocasionar mais
05:50inflação. E a preocupação vem com a inflação também, que as taxas de juros do plano safra já estão altas e
05:58podem ficar ainda mais caras para o próximo ano, desestimulando a produção agrícola. Quanto à carne, né, nós temos
06:07que lembrar o exemplo que a Argentina viveu lá em 2006, quando se criou as retenciones, ou seja, a taxação
06:16para diminuir as exportações, na época a Argentina exportava 800 mil toneladas de carne por ano, passou a
06:24exportar menos de 200 mil toneladas, no curto prazo o preço da carne despencou, mas devido o preço estar
06:33barato e não ter rentabilidade, os produtores abateram as matrizes e em três anos a carne estava mais cara
06:42do que estava antes e a Argentina perdeu o espaço no mercado mundial de exportações, deixando de atrair, né, mais
06:50mais dólares, mais divisas para a economia daquele país. Então, se o Brasil não pode seguir o mesmo
06:57caminho e nós temos essa preocupação e nós só vemos uma saída, é a diplomacia deixar de lado esse discurso
07:05de moeda única do BRICS ou de substituição do dólar, que nós temos certeza que é o maior estopim para
07:13essa taxação alta vinda dos Estados Unidos. É, moeda única do BRICS hoje em dia é um sonho muito
07:20distante, né, agora substituir também as transações por dólar, viu Lucas, é algo que eu escuto desde a
07:26primeira reunião do BRICS, se eu não me engano foi em 2009 na Rússia, eu estava lá e já se falava
07:31nisso, mas é o tipo de assunto que volta em cada reunião do BRICS e não significa nada porque não se
07:35avança, porque não encontraram uma maneira prática de fazer isso ainda, né. Agora, vocês exportam
07:41soja também para os Estados Unidos ou o impacto, como você disse, é apenas através da carne, já
07:47que a soja é usada como ração? Olha, diretamente não, mas há anos sim, quando há quebras de safra
07:54para os Estados Unidos, eles acabam importando soja brasileira, né, mas subprodutos como a carne e o
08:02próprio etanol de milho, nós às vezes importamos etanol americano, mas também exportamos e o etanol de
08:09milho tem crescido bastante a produção aqui no Brasil, né, e os Estados Unidos muitas vezes
08:15importa porque eles também têm política de adição de biocombustíveis e diminuição de emissão de
08:21carbono, então acaba impactando indiretamente também na soja e no milho. E lembrando que o Brasil
08:28também já importou soja, já importou milho dos Estados Unidos, isso depende cada ano da escassez
08:35quando há intempéries climáticas, mas é um grande parceiro comercial nosso e é um mercado importante
08:43para todos os países do mundo. É, o recado que eu entendo que você está dando aqui, Lucas, do seu
08:48ponto de vista e do seu setor é o seguinte, se não tiver uma negociação para derrubar esses 50%,
08:54o Brasil não deve retaliar porque isso vai prejudicar, por exemplo, setores como o seu que compram
09:00maquinário dos Estados Unidos e que não querem comprar esses maquinários mais caros, né?
09:05Exato, Marcelo. Imagine também, né, eu, claro, cabe aqui defender o meu setor, mas imagine a Embraer,
09:12né, já nessa taxação ela exporta aeronaves, jatos executivos, é o maior destino de aeronaves e ela
09:20importa componentes eletrônicos de lá, placas que são utilizadas nessas aeronaves, inclusive motores,
09:28turbofã, turbojato, que são importados dos Estados Unidos, ou seja, uma indústria como a Embraer,
09:35que é um orgulho que nós temos aqui no Brasil, pode quebrar, colapsar uma indústria dessa, causando
09:42desemprego e, claro, tudo que ocasiona também desestímulo à produção agrícola também gera inflação e desemprego
09:51e temos que lembrar que o Brasil já vem vivendo uma recessão e hoje o setor que mais gera empregos é o
09:59agronegócio, é tanto a agricultura, a pecuária, quanto a industrialização desses alimentos aqui no nosso país.
10:07Ô Lucas, se nessas negociações fosse colocado na mesa para Brasil e Estados Unidos zerarem as alíquotas de
10:13importação para o etanol, por exemplo, para o milho, para a soja, você acha que seria benéfico para o Brasil?
10:18Eu acredito que sim, o mercado se ajusta, mas quanto mais livre, mais chance nós temos de aumentar exportações
10:27futuramente, ou seja, quanto mais intervenção, mais isso acaba colocando em passe e temos que lembrar que o Brasil
10:35já colocava taxação, principalmente em produtos siderúrgicos, que também é parte também desse descontentamento
10:43do governo norte-americano. Então, nós temos que deixar o mercado mais livre possível, lembrando que também
10:50os Estados Unidos, a maioria dos princípios ativos da indústria farmacêutica são desenvolvidos nos Estados Unidos
10:58e nós importamos produtos que estão resguardados por patentes que só eles têm e, por outro lado, nós exportamos
11:07produtos genéricos fortalecendo a indústria farmacêutica nacional. Então, tudo, qualquer coisa, nós temos que pensar,
11:15claro, eu como produtor, mas como cidadão brasileiro também, quanto mais barreiras, mais nós perdemos.
11:23E é uma briga de Davi contra Golias, né? E nós sabemos que, claro, os Estados Unidos é muito maior que Golias
11:32se comparado à economia e o nível de técnico-científico que aquele país possui. Então, entrar em uma guerra
11:41contra eles é praticamente uma guerra perdida.
11:45Lucas Beber, presidente da AproSoja de Mato Grosso, muito obrigado pela sua participação hoje aqui no Real Time,
11:51Bom dia. Obrigado, Marcelo. Bom dia.
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