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O episódio acompanha o surgimento da Campanha da Legalidade, movimento liderado pelo governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, para garantir a posse de João Goulart como Presidente do Brasil.
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00:28A CIDADE NO BRASIL
00:30A CIDADE NO BRASIL
01:13A CIDADE NO BRASIL
01:23Com a renúncia do presidente Jânio Quadros, ao completar sete meses de governo, o deputado Ranieri Masili foi empoçado.
01:31O governador Leonel Brizola mobilizava a opinião pública, constituindo uma rede radiofônica diretamente do Palácio Piratini.
02:00A campanha da legalidade, eu até me emociono falar, porque foi importantíssima.
02:06A traição, que um povo só é bem grande, se for livre sua nação.
02:16E é uma novidade na história brasileira.
02:21E, aliás, eu acho que a história é de muitos países, né?
02:24O movimento civil que impede um golpe militar.
02:29Falava muito sobre o movimento em casa, então a gente tinha plena noção do que estava acontecendo.
02:35Mesmo menina, a gente sabia.
02:37Quando houve a renúncia do Jânio, também foi aquela comoção, e todo mundo em casa discutindo como é que ia
02:43se ficar.
02:44Então, a gente tinha a noção do fato político, mas não tinha, sendo uma menina, não tinha a dimensão do
02:52que iria acontecer.
02:54De repente, a gente viu que a coisa estava virando um movimento armado, para a surpresa de todos.
03:01Isso nos levou a ficar assustadas.
03:04As aulas foram suspensas.
03:06Bom, me lembro que foram dias tensos, né?
03:09Eu tinha 10 anos de idade, né?
03:10Eu sou de 51, tenho hoje 72 anos.
03:12Nós morávamos muito próximos do Palácio Piratini, numa rua abaixo, 100, 200 metros do Palácio Piratini.
03:20Era incrível.
03:20Meu pai, na época, era secretário de imprensa do governo do estado.
03:23E, por incrível que pareça, nós não tínhamos nem telefone em casa, né?
03:27Então, a gente usava o telefone de um vizinho.
03:29Quando o governador Brizola precisava falar com o meu pai, mais uma vez ele mandou um batedor da Brigada Militar
03:37de Harley Davidson dizer
03:39que o governador estava chamando o senhor Hamilton no Palácio, porque era tão perto que ele mandava o cara de
03:43moto lá em casa.
03:55João Goulart, vice-presidente, presidente do nosso partido, meu cunhado, meu amigo.
04:03Até por uma questão de honra, nós devíamos reagir.
04:06E passamos, então, a defender a sua posse.
04:08Claro que foi uma verdadeira caça-raposa de início, mas eu fui, como governador, tomando todas as medidas
04:19para salvaguardar a ordem pública e, ao mesmo tempo, criar um clima de defesa da legalidade constitucional
04:29e, por conseguinte, a posse do vice-presidente eleito.
04:33O telefone, naquela época, era muito difícil.
04:35A linha entre Porto Alegre e o Rio de Janeiro, que ficava a central internacional, tinha sido interrompida.
04:43Então, o Brizola fazia a comunicação num triângulo, via Montevideo, se comunicava com o João Goulart.
04:49Quando saiu da China, ele ficou em Singapura.
04:52Quando recebeu a notícia da renúncia do Jânio Quadros, o João Goulart fez uma volta ao mundo
04:57para chegar a Montevideo e daí a Porto Alegre.
05:01Eu recebo o telefonema do João Goulart, de Paris, por telefone de madrugada.
05:08Almino, recebi telefonema, hoje mesmo, do Santiago Dantas, que era da maior confiança do Jânio,
05:18e do Afonso Alinos.
05:19Ambos me telefonaram dizendo que, diante do quadro da evidência da resistência dos militares,
05:25sem maiores análises ainda, parece evidente que a maneira de superarmos esta crise
05:31é irmos para uma hipótese do parlamentarismo, na qual os militares não estão desatendidos,
05:40ao fim e ao cabo, é um presidente que não é presidente, não é, no parlamentarismo, propriamente.
05:46Eles me perguntaram o que eu acho, não me recusam a analisar, mas não dei nenhuma palavra.
05:51Qual é a tua opinião?
05:54Na minha opinião, isto é golpe de Estado.
06:13O momento que ele ficou mais preocupado foi quando ele foi nos encontrar na Espanha.
06:19Eu acho que foi aquele momento, aquele impacto, essa tensão muito nervosa de saber o que poderia acontecer,
06:26porque existia já uma má vontade quando o Jânio renunciou.
06:32Todo mundo sabia disso, não é?
06:34E os militares disseram, se o presidente pesar em território nacional, eu mando prender.
06:40Isso é um diálogo direto com o Marechal Deni.
06:44Os filhos do Jango, com a esposa, estavam na Espanha nesse momento.
06:50E antes, o Brizola inventa que tinha falado com o Jango.
06:53Ele dizia, vou voltar para ser impulsado ou morrer.
06:56Uma dedução do Brizola que ele transmite.
07:00Venha, presidente.
07:01Já o chamando de presidente.
07:03Venha, traga os seus filhos no colo e desembarque.
07:07Desembarque.
07:08Que era uma cena patética, que o povo repetia.
07:12Que nesse momento há uma psicologia social que faz com que as pessoas passem a ter até a capacidade de
07:22inventar ou de fantasiar sobre a realidade.
07:26Então, o Brizola explorou muito bem isso, nessa revolução radiofônica que ele fez.
07:31Só estava uma rádio no ar, lá em Porto Alegre.
07:34Que era a Rádio Guaíba.
07:38Porque as outras todas, nós tínhamos pedido para irradiar um manifesto do Jalote, em favor da legalidade.
07:47E cada rádio que lia, o exército ia lá e tirava o cristal.
07:50Só uma se recusou, que foi a Rádio Guaíba.
07:53Eu digo, bem, não tem outro caminho, vou requisitar essa rádio.
07:56Vou ocupar com a força do Estado e vou trazer o microfone para cá.
08:01E vou dizer, explicar a opinião pública da situação.
08:08Tomaram atitude.
08:10Eu digo, bem, porque a nossa situação aqui agora é de tubir ou não tubir.
08:16Não tem, agora nós entramos nisso e não podemos sair mais.
08:20Então, trouxemos a rádio para o Palácio, ocupamos.
08:23E eu fui à rádio e botei os pulmões para fora.
08:28Botei o coração para fora.
08:30Neste momento, entra em cadeia, em conexão com a rede gaúcha da legalidade,
08:42a Rádio Nacional de Brasília e centenas de emissoras pelo Brasil afora.
08:50Eu tenho uma lembrança muito clara que nós assistíamos pelo rádio as notícias pela
08:57cadeia da legalidade.
08:58Nós escutávamos sempre a cadeia da legalidade.
09:02Eu não lembro o teor do discurso, mas eu lembro que tinha muito ruído, não era uma transmissão
09:10muito clara, porque a gente ouvia barulho atrás da fala do Brizola e lembro de ele falar muito exaltado, muito
09:19entusiasmado.
09:33Eu lembro claramente da gente escutando essas notícias.
09:37Havia um clima tenso no Rio Grande do Sul.
09:40Até hoje de lembrar me dá emoção, porque eu via que era uma coisa muito inflamada.
09:45O Brizola tinha uma excelente oratória.
09:49Na verdade, eu acho que dos políticos que nós tivemos, das melhores oratórias que eu
09:52conheço, é do Brizola.
09:53Aquela voz potente, forte, entende?
09:57E aí começa essa rebelião radiofônica, que a grande arma do Brizola foi o rádio.
10:03A televisão era incipiente, poucas pessoas tinham televisão.
10:07Naquele momento, todo mundo tinha o rádio em depilha.
10:10Era a época do rádio portátil, os transistores eram uma novidade ainda.
10:15A rede radiofônica funcionou como uma base de sustentação para o movimento.
10:19É o que seriam hoje as redes sociais.
10:22Através do microfone da Rádio Guaíba, que foi instalado no gabinete onde meu pai trabalhava,
10:27no porão do Palácio Piratini, e o microfone instalado lá, meu pai coordenou a rede radiofônica.
10:32E era incrível, eles tinham boletins em outros idiomas, inclusive, tinham correspondentes
10:39da imprensa internacional aqui em Porto Alegre.
10:42Duzentas rádios, pequenas ou grandes, do Brasil inteiro se filiam à rede da legalidade
10:50e passam a transmitir.
10:52E esse engenheiro Homero Simon, que é importantíssimo, tinha aumentado a potência da rádio,
10:59da rádio principal que transmitia, que era ouvida até no Caribe, e depois transmitia
11:07em castelhano também, em árabe.
11:11Tinha os noticiários em alemão, assim como tinha em inglês também.
11:16Os noticiários eu fazia.
11:18A minha missão principal era a língua alemã.
11:21E eu guardei até, acho capaz de ter por aí ainda, alguns boletins que meu pai aprovava
11:28para que fossem lidos.
11:29Porque como a rede radiofônica se mantinha no ar 24 horas por dia, tocando marchas militares
11:34e tal, para também manter a programação menos monótona e tal, eles ficavam lendo
11:42algumas telegramas e coisas assim, tipo, Grêmio Estudantil da Escola Júlio de Castilho,
11:48hipoteca a solidariedade, ao movimento da legalidade, diz que está pronto para isso
11:53e aquilo e tal.
11:54Quando não era o Brizola falando, que ele usou o microfone muitas vezes para discursos
11:59históricos e épicos assim.
12:01Tem um jornalista, Godoy Bezerra, ele foi assessor do Brizola, muitos anos, e o Godoy
12:08aí pegou os alunos de comunicação das duas universidades, que era a Católica e a Federal.
12:17O Godoy era muito, assim, muito afável, então ele montou um timezinho assim que eu me toquei
12:26para o palácio e fiquei dia e noite no palácio com o Godoy Bezerra.
12:30Eu fiquei sete dias aqui no palácio do governo, fazendo tudo aqui, comendo e até descomendo
12:38aqui também.
12:39E me perguntavam, e sem tomar banho, eu disse, bom, nós estávamos lutando pela sobrevivência,
12:44como íamos tomar banho?
12:47Dormia, comia, não tomava banho, né?
12:50E essas coisas todas, né?
12:52Porque a gente estava enclausurado ali embaixo, né?
12:55Nós estávamos todos de gravata, gravatados, como era comum na época, não se saía à rua
13:01sem gravata, dormindo nos sofás e nas poltronas e armados sempre, armados sempre.
13:08E éramos neófitos, não sabíamos direito manejar um revólver.
13:15O Isola tinha requisitado todos os revólveres da Taurus, que era uma fabricante de revólveres
13:20no Rio Grande do Sul, e deixou a Taurus sem nenhum revólver.
13:24Até o cozinheiro do palácio andava de revólver.
13:27No Rio Grande do Sul, o povo se alistava firme no propósito de defender a Constituição,
13:34acesa que estava a chama patriótica pela cadeia de rádio da legalidade.
13:38No centro de Porto Alegre, na Avenida Borges de Medeiros, era o Comitê de Resistência
13:44Democrática, onde as pessoas iam se inscrever, deixavam o nome, para formar os batalhões
13:51pela legalidade, ou seja, os batalhões de resistência.
13:55Havia treinamento no campo de futebol, havia resistência de fuzis, como manejar um fuzil.
14:03Toda resistência militar, né?
14:05Era um processo de guerra, tinha a mobilização popular, no chamado Mataborrão, que chamava
14:12o lugar lá, que o movimento popular se reunia, formavam batalhões, batalhões na rua, marchando,
14:20e o Brizola distribui, revolve para todo mundo, distribui armas, tal, etc.
14:25O pior dia foi o dos tanques, é o seguinte, é do sábado à noite, é que os tanques,
14:33é o quartel mecanizado que tem na serraria, e esses tanques se deslocaram para o centro,
14:41e o pessoal pensou que eles vinham para atacar o palácio.
14:44Aí, os estudantes, eles arrancaram os bancos de cimento da Praça da Matriz, que é de fronte
14:51ao palácio, colocaram fechando todas as ruas que davam acesso ao palácio.
14:55Isso não ia trancar o tanque, mas eles fizeram isso.
15:00O Josué Guimarães, um grande jornalista e grande escritor, que estava de metralhadora
15:06na mão, era o único que nós que estava com metralhadora na mão, nós estávamos com
15:09um rebobozinho Taurus, que eu nunca tinha pego e eu não sei como é que eu ia usar aquilo.
15:14Bom, o Josué chegou e disse assim, tranque a porta, porque daqui a pouco vão ficar
15:19muito poucos aqui.
15:21Já teve um pessoal que estava saindo, com a história dos tanques.
15:25Mas os tanques não vieram para o palácio, os tanques vieram e estacionaram no cais do
15:30porto, atrás do quartel do terceiro exército, do comando do terceiro exército.
15:35E o radinho de pilha, que chegou aos quartéis, as companhias, chamadas companhias, que estão
15:41junto ao quartel general, os comandantes das companhias, influenciados pela radiofonia, vão
15:48ao comandante do terceiro exército, o general Machado Lopes, que os recebe de pé, não
15:54manda nem entrar para o gabinete e eles dizem que estão a favor da pregação do governador.
16:00Por isso que eu digo a revolução foi feita pelo rádio.
16:02Na véspera desse momento mais tenso, que foi num fim de semana, estava previsto um
16:09o Grenal, que é uma espécie de Corinthians e São Paulo, Corinthians e Palmeiras, e é
16:15o Fla-Flu no Rio de Janeiro.
16:18O Grêmio Internacional iam jogar no domingo, o domingo que explode, digamos assim, começa,
16:26digamos assim, o movimento da legalidade.
16:29E lá pelas tantas, meu pai, eu acho que conversando com o Flávio Tavares, chegava à conclusão
16:35que não era o momento de dividir os gaúchos entre gremistas e colorados, era o movimento
16:39de todo mundo se unir.
16:41Nós estávamos aqui reunidos na sala da imprensa e eu disse, bom, nós estamos todos reunidos
16:48aqui e amanhã vamos nos dividir todos aqui.
16:52Bom, o Hamilton Chaves ouviu isso e subiu direto para o gabinete do governador e em seguida
16:59voltou a dizer, o Grenal foi suspenso.
17:01O presidente do Conselho Regional de Desportos era assessor do Brizola, Sibílis da Rocha
17:08Viana, e tinha poderes para anular a realização do Grenal.
17:15Quer dizer, meu pai e alguns colegas tiveram a ousadia de suspender um Grenal, que não
17:20é pouca coisa para quem conhece esse lugar aqui, esse estado.
17:23E o Hamilton consegue ainda um quadradinho na primeira página do Correio do Povo, que
17:29era o grande jornal de Porto Alegre, lido aos domingos, dando conta da suspensão do Grenal.
17:35E aí que então o povo se dá conta, percebe a importância do movimento derivado da renúncia
17:45do Jânio Quadros?
17:46Bom, a primeira palavra dita pelo Brizola, e eu acho que foi no rádio, nós já estávamos
17:54assim anunciando pela mesma rádio a criação do Comitê dos Intelectuais e Artistas.
18:01E no momento seguinte o teatro estava lotado.
18:05Porque nós tínhamos, além desses artistas intelectuais que a gente reunia, tinha todas
18:09as pessoas que simpatizavam com a equipe.
18:13E aí abrimos e tinha ficha, e a ficha era bem feita, a gente conta com o senhor para
18:18isso, para aquilo, para aquilo, tem arma, não tem arma.
18:21Por exemplo, todo o pessoal que fazia rádio teatro, que a gente não conhecia essa relação,
18:26a gente não tinha.
18:27O pessoal estava lá.
18:28Sabe?
18:29Foi um negócio assim muito bacana.
18:31E estava lá, eu vim para ficar.
18:35Muitos de nós, eu era uma delas, eu dormia no teatro, entre as cadeiras, sabe?
18:41Eu saía do teatro uma vez por dia para tomar banho em casa, quando então eu passava no
18:46palácio para deixar o material.
18:49O material que eu estou falando é o seguinte, tudo que era escrito, slogans, eram escritos
18:57lá.
18:58Afinal, nós tínhamos um grupo de intelectuais escrevendo.
19:03As faixas, para as faceatas e coisas, eram feitas, não todas, mas a grande maioria,
19:09feitas lá pelos nossos artistas.
19:12E a gente saía a marchar pela cidade cantando o hino da pátria que ia ler.
19:17E o Brizola achou que não está faltando o hino da legalidade.
19:22E disse para o Mário de Almeida, está faltando um hino, os intelectuais lá não molam um hino?
19:28O Mário chegou no teatro, se o Brizola quer um hino, quer um hino.
19:34Eu não participei disso porque eu estava já no outro setor, pegando assinaturas.
19:41Mas o pessoal que criava, se reuniu lá.
19:46Lara de Lemos, bolou a letra.
19:48Perei, bolou o hino.
19:51Dizia o Pereio que tirou da Marseleza, que partiu da Marseleza.
19:55Eu fiz o hino.
19:58Eu sou autor do hino da legalidade.
20:02Nós nos reunimos a um grupo de jovens.
20:07Fizemos o hino, cantamos, gravamos e aí levamos para o Brizola.
20:13E o Brizola, a única correção que ele fez, a Lara tinha escrito, avante gaúchos de pé.
20:20E o Brizola pediu para mudar para brasileiros.
20:24Avante brasileiros de pé e o resto continua igual.
20:28Avante brasileiros de pé, unidos pela liberdade.
20:35Marchemos todos juntos com a bandeira, que prega a lealdade.
20:43Protesta contra os tiranos, se recusa a traição.
20:52Que um povo só é bem grande, se for livre como nação.
20:58Avante brasileiros de pé, unidos pela liberdade.
21:07Marchemos todos juntos com a bandeira, que prega a lealdade.
21:16Protesta contra o tirano, se recusa a traição.
21:21Os batalhões de resistência desfilaram pelo ponto mais central de Porto Alegre,
21:27que já havia, nesse momento, se transformado, da fala do Brizola, da convocação do Brizola,
21:33numa rebelião popular, que foi o grande movimento da segunda metade do século XX.
21:40Essa campanha, liderada por Brizola e com apoio de governo de Goiás e do Paraná,
21:51foi importantíssima.
21:53Primeiro, pelo talento de Brizola para entusiasmar os seus seguidores, a sua firmeza.
22:03E o Brizola sabia falar principalmente com essa gente do interior,
22:08que iniciava um êxodo rural para a periferia das cidades maiores.
22:14A gauchada de CTG, de Centro de Tradições Gaúcha,
22:17todo mundo piochado, vestido de gaúcho, de bota, bombacha, tudo, faca na cintura e tal.
22:22Pois é, nós estamos aqui, governador, para se solidarizar com o senhor,
22:26para o movimento da legalidade e tal.
22:29Ele levantou o Rio Grande do Sul, ele unificou paixões, não foi segmentada, foi pelo rádio.
22:37Com relação às emissoras, as duas que haviam fechado, das três do Rio Grande do Sul,
22:43na época, das três importantes, depois reabrem.
22:46Reabrem.
22:47Nós estávamos em rebelião, não tínhamos que obedecer às ordens federais,
22:53que eram para nós ilegais, anticonstitucionais.
22:57Contou com a imprensa escrita e contou com o apoio do movimento estudantil,
23:04do movimento sindical e do forte PTB.
23:07O PTB foi muito forte em dois estados, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.
23:13E ele contou com esse apoio.
23:15Eles estavam dispostos a pegar em armas.
23:20No domingo, para segunda-feira, nós esperamos o ataque do exército aqui no Palácio Governo.
23:30Nós vamos todos de revólver em punho.
23:33O Brizola sobe de metralhadora em punho, que ele aprendeu a manejar a metralhadora na hora.
23:41E nós vamos para as janelas do Palácio, esperando o ataque do terceiro exército,
23:47assim se chamava, porque o general Machado Lopes, que era o comandante,
23:51tinha dito que era soldado e obedecia às ordens dos comandantes militares.
23:56Estávamos lá no terceiro dia, mais ou menos, daquelas tensões,
23:59quando um rádio amador me telefonou lá para o Palácio,
24:03dizendo que tinha ouvido um diálogo pelo rádio,
24:06onde havia uma ordem para o exército usar a força que quisesse,
24:13no sentido de destituir o governo,
24:17usando tanques contra o Palácio, enfim, toda uma determinação.
24:21E ordens para a base aérea bombardear o Palácio.
24:53Então, quando houve aquela ameaça de bombardeio do Palácio,
24:58me lembro do meu pai ter mandado alguém avisar lá
25:01que a gente saísse imediatamente de casa,
25:03provavelmente porque ele não confiava muito na pontaria da FAB, né?
25:06E como os aviões estavam previstos para bombardear o quarteirão do Palácio ali,
25:11ele mandou a gente sair de casa,
25:12a gente foi para a casa de uma tia, um pouco mais afastada do centro,
25:15e ficamos hospedados lá alguns dias.
25:18Então, o que eu mais me lembro é isso.
25:21Fechem todas as escolas.
25:24Se alguma escola estiver aberta, fechem e mandem as crianças para casa.
25:30Mandem para junto dos seus pais.
25:32Aquela locução que eu nunca mais consegui ouvir,
25:36porque, não sei, perdeu-se essa gravação,
25:39eu nunca mais consegui ouvir.
25:41Ler, sim, mas não é a mesma coisa.
25:46Lido lá no porão do Palácio.
25:49Me recordo que o engenheiro Simon, que era o técnico,
25:53depois foi presidente do Clube de Engenharia,
25:55tinha uma luzinha vermelha lá.
25:57Ele dizia, governador, enquanto aquela luzinha vermelha estiver acesa,
26:00nós estamos no ar.
26:02O Palácio Piratini, meus patrícios,
26:05está aqui transformado numa cidadela
26:08que há de ser heroica
26:12da liberdade,
26:14dos direitos humanos,
26:17da civilização,
26:18da ordem jurídica.
26:21Uma cidadela contra a violência,
26:27contra o absolutismo,
26:30contra os atos inferiores dos prepotentes.
26:36Vem uma ordem de bombardeio ao Palácio,
26:39que seria uma chacina,
26:42que o Palácio tinha 20 ou 30 mil pessoas
26:45junto à Praça do Palácio.
26:47É a Praça da Matriz, assim chamada.
26:50Naquele quadro de tensão,
26:51sem saber o que o Terceiro Exército ia fazer,
26:53nós mobilizamos da Brigada Militar
26:55tudo o que tínhamos.
26:56A Brigada Militar tinha um armamento
27:00inconvencional,
27:02com a Polícia Militar.
27:04guardado,
27:05um armamento tchecoslovaco,
27:09que era na briga do Flores da Cunha com Getú.
27:12Nas metradoras antigas,
27:13desta grossura assim,
27:15ponto 50,
27:16cartuchos assim,
27:18mas dava 10 tiros e saía um,
27:20que a munição não prestava.
27:22Mas o Exército nem viu aquilo,
27:23não sabia.
27:25Criou-se um quadro de tensão muito forte.
27:28Brizola convoca o povo
27:30a vir ao Palácio.
27:32Em uma hora e meia,
27:34naquela época,
27:35tinha menos automóveis,
27:36era mais fácil o deslocamento pela cidade.
27:39Foi um movimento de mobilização.
27:41A Praça da Matriz,
27:43de fronte ao Palácio,
27:44se enche com 10, 15, 20 mil pessoas.
27:47Depois do discurso do Brizola,
27:49acho que uma hora depois,
27:51duas horas depois,
27:51o Machado Lopes vai no Palácio.
27:54Olha, pessoal,
27:56o Brizola já se despediu,
27:58Machado Lopes está vindo
28:00para tomar o Palácio,
28:02e as coisas estão ficando feias.
28:05Então, cada um vai para a sua casa
28:07ou faz o que quiser.
28:08O Brizola me contou depois,
28:11no exílio,
28:13que não sabia
28:14por que o Machado Lopes
28:16vinha ao Palácio.
28:18Achava que vinha,
28:19inclusive,
28:19para lhe dar voz em prisão.
28:21Por isso que ele convoca o povo
28:23do Brizola,
28:24pelo rádio,
28:25aqui vem
28:26a Praça da Matriz,
28:28de fronte ao Palácio,
28:29como uma forma
28:29de pressioná-lo.
28:33E o Machado Lopes chega aqui
28:34meio que apupado pelo povo,
28:37meio vaiado pelo povo.
28:39E entrou ao Palácio
28:41junto com o general,
28:43que era aqui
28:44da guarnição de São Leopoldo.
28:48Eles conversam durante uma hora,
28:50mais ou menos.
28:51Fumam muito,
28:52todos eles.
28:53Só quem entra
28:54são os garçons do Palácio
28:56para servir cafezinhos.
28:59E o Brizola sai
29:01com o Machado Lopes
29:02nas janelas do Palácio,
29:04estende a mão,
29:05mostrando que
29:06o Machado Lopes
29:08está a favor
29:09e se solidariza
29:10com a campanha
29:11pela legalidade,
29:13que ainda não se chamava assim.
29:14Passa a chamar-se
29:15no dia seguinte,
29:17quando o terceiro exército,
29:19digamos,
29:20adere à campanha
29:21pela legalidade.
29:22E o Machado Lopes
29:23havia chegado aqui
29:25sobre as vaias
29:26da multidão,
29:27que depois passa a aplaudi-lo.
29:30O Machado Lopes
29:31aderiu ao Brizola,
29:34que foi um momento
29:35extraordinário, né?
29:36Como também
29:37outro momento
29:38extraordinário
29:38foi a adesão,
29:40porque todo Porto Alegre
29:42aderiu praticamente,
29:43o Rio Grande do Sul
29:44aderiu, né?
29:44Por exemplo,
29:45o exemplo claro disso aí
29:46é o Breno Caldas,
29:47que era o dono
29:49do Correio do Povo
29:50e diretor do Correio do Povo,
29:51junto com a Aline Pasqualini,
29:53que era o diretor
29:53da Folha da Tarde,
29:55né?
29:55Vieram ao Palácio
29:56e aderiam
29:58ao movimento
29:59do Brizola.
30:00E a cidade toda
30:01estava
30:02completamente
30:04engajada
30:05nisso, né?
30:06Daí também
30:07o ódio
30:08dos militares
30:09do Brizola
30:10é que,
30:10embora sejam
30:11uma liderança
30:12civil, né?
30:13Político,
30:15ex-governador,
30:15deputado,
30:17ele conseguiu,
30:18naquele momento,
30:19dividir
30:20o exército, né?
30:23E até ainda
30:23para a causa
30:24democrática
30:26e tudo mais,
30:26o Machado Lopes, né?
30:28No momento crucial,
30:29com o apoio
30:30da brigada, né?
30:31Foi importantíssimo,
30:32entende?
30:33O Brizola diz,
30:34bom, então,
30:35eu ponho
30:36a brigada militar
30:37às ordens
30:38do terceiro exército
30:40e o Brizola
30:40acompanha
30:41o Machado Lopes
30:42até o quartel
30:43general
30:44no centro
30:44da cidade
30:45e volta
30:46depois.
30:48Mas eu acho
30:48que o Machado Lopes
30:49também
30:51mudou de opinião
30:52na hora
30:52que veio a ordem
30:53para ele
30:53que tinha que
30:54determinar
30:54o bombardeio
30:55do palácio.
30:56É uma decisão
30:57muito forte, né?
30:58E foi interessante
30:59porque eles já eram
31:00num grupo grande
31:01e só um grupo
31:02pequeno entrou,
31:03assim,
31:04cinco
31:06sargentos
31:06entraram no palácio
31:08e os outros
31:08ficaram fora
31:09e ficaram conversando
31:10com a multidão.
31:11Então,
31:12eu estava lá
31:12na multidão
31:13que eu entrava
31:14no palácio
31:15e saía todo o tempo
31:16para ver o movimento
31:17da multidão.
31:18E eu estava lá
31:19na multidão
31:19e vi os relatos deles
31:21sobre como
31:22que eles tinham
31:22feito a rebelião
31:24lá no palácio.
31:43Curiosamente,
31:44na nota
31:44do Machado,
31:46ele diz
31:47e defendemos
31:49a manutenção
31:50da legalidade
31:51na ordem
31:52em sonda
31:53sua grandeza,
31:54inclusive cristã.
31:56Ele fala até cristã.
31:57Quero dizer
31:58que ele não propunha
31:59a admissão
32:00de não haver
32:02o parlamentarismo.
32:03Me parece
32:04não explícito.
32:06Mas as coisas
32:07eram tão tumultuadas,
32:09essa ficou
32:09para o segundo plano.
32:10Era para o Brizola.
32:13O Brizola
32:13aceitava
32:14essa posição
32:14do Machado
32:16total.
32:17Respeita
32:18essa Constituição
32:19na íntegra.
32:20Nós nunca imaginávamos
32:21que houvesse
32:22essa defecção.
32:23Se não houvesse
32:24essa defecção
32:24do governo
32:25do terceiro exército,
32:25se o exército
32:26tivesse matido nisso,
32:27o Congresso
32:27inteirinho
32:28aprovaria.
32:30Mas acontece
32:31que grande parte
32:32dos nossos generais,
32:34boa parte,
32:35ficou na moleza.
32:37Inclusive,
32:38acho que inclusive
32:39meu amigo Cordeiro.
32:40O exército
32:41que no Rio
32:42e São Paulo
32:43e em todo o Nordeste
32:45estavam ainda
32:47contra a posse
32:48do vice-presidente
32:49Angular.
33:11ministro do exército
33:13indica
33:14ao Cordeiro de Farias
33:14que tinha sido
33:15interventor federal,
33:16ou seja,
33:17governador
33:17do Rio Grande do Sul,
33:18que era a pessoa
33:21mais ligada
33:22ao Rio Grande do Sul,
33:23do generalato.
33:24Então,
33:25ele é enviado...
33:26O Cordeiro de Farias
34:25A CIDADE NO BRASIL
34:26A CIDADE NO BRASIL
34:59A CIDADE NO BRASIL
35:02A CIDADE NO BRASIL
35:12A CIDADE NO BRASIL
35:40A CIDADE NO BRASIL
35:50A CIDADE NO BRASIL
35:54A CIDADE NO BRASIL
36:16A CIDADE NO BRASIL
36:23A CIDADE NO BRASIL
36:31A CIDADE NO BRASIL
36:40A CIDADE NO BRASIL
36:45A MARINHA DESLOCA O PORTA-AVIÕES
36:47QUE ERA O ÚNICO QUE Havia NO BRASIL
36:49NA ÉPCO PORTA-AVIÕES MINAS GERAIS
36:51ASSIM SE CHAMAVA
36:52PARA ENTRAR PELA LARGOA DOS PATOS
36:56PELA BARRA DE RIO GRANDE
36:58E BOMBARDEAR O PALÁCIO
37:01E BOMBARDEAR DE FATO PORTO ALEGRE
37:04ENTÃO O BRIZOLA
37:06MANDA AFUNDAR
37:08OS BATELÕES
37:10ASSIM SE CHAMAMAS
37:11AS CHATAS
37:12O COMANDANTE DO PORTO
37:14Diz o BRIZOLA
37:15Então simulem
37:20Simulem o afundamento
37:23E a simulação foi perfeitíssima
37:25E foram os dois grandes atos
37:28que impediram o bombardeio
37:30da cidade de Porto Alegre
37:32e outros pontos do estado do Rio Grande do Sul
37:35O primeiro apoio ostensivo à legalidade
37:38foi do Mauro Borges
37:40lá em Goiás
37:41com a rádio de Goiás
37:42posta também em cadeia com a rede da legalidade
37:45O Mauro Borges descendia
37:47de um caudilho de Goiás
37:49e o Brizola tinha a fama de caudilho
37:52e todos os aspectos exteriores do caudilho
37:56isso de convocar o povo
37:57de armar-se
37:58e talvez isso tenha influenciado o Mauro Borges
38:02Viu?
38:02Essa situação
38:03que é meio inexplicável
38:06As primeiras emissoras
38:07que se filiam à rede da legalidade
38:10são de Goiás
38:11Mas em outros estados não
38:14Ah, no Piauí
38:15foi destituído o comando
38:17de quem manifestou
38:19a defesa da constituição
38:22Alguns batalhões em São Paulo
38:24no estado de São Paulo
38:26não na cidade
38:27tinham aderido, digamos assim
38:30à legalidade
38:32mas era uma situação
38:34inclusive houve prisões de oficiais
38:37que tinham aderido à legalidade
38:40Em um certo momento
38:42Cordeiro nomeado comando do exército
38:44não ia para Porto Alegre assumir
38:47evidentemente não tinha condições de assumir em Porto Alegre
38:50se o exército estava do outro lado
38:54Eu conversando pelo telefone
38:56com o Orlando
38:57Eu disse ele
38:58Vem cá
38:58Por que que o Cordeiro não vai assumir
39:01comando do terceiro exército em Curitiba?
39:04Porque o terceiro exército compreende o Rio Grande
39:07Santa Catarina
39:08e Paraná
39:10A guarnição do padre de Curitiba
39:13pode reagir
39:15Mas a solução é fácil
39:17no meu modo de ver
39:18Vocês tem aí os paraquedistas
39:21Vocês lançam os paraquedistas
39:24no campo Afonso Pena
39:26que é o campo de aviação de Curitiba
39:30Tomam o campo com esse pessoal
39:33as redondezas, as áreas próximas ao campo
39:39Depois desce o Regimento Infantaria
39:42o terceiro aí com a aviação
39:45e com esse terceiro Regimento
39:47vem o Cordeiro
39:48e ela vai assumir
39:50porque aí a guarnição de Curitiba toda
39:52passa para o nosso lado
39:56Ah, mas o Denis não quer empregar os paraquedistas
39:59considera reserva
40:01Ele diz
40:02Bom, a reserva existe para ser empregada
40:05Ser empregada
40:06Ah, vamos ver e tal
40:07Mas o próprio Cordeiro não quis
40:09Quer dizer, o que acontece
40:11é que o comando
40:12não tinha
40:13não tinha necessária coisão
40:15Mas como é que o bombom não
40:17teve que impedir o jango
40:23Quando o movimento acalmou
40:27me lembro do meu pai ter me convidado
40:29para ir até o palácio
40:30Eu fui, cheguei a estar na sacada do palácio
40:32Peretini
40:33vendo as pessoas concentradas
40:35na frente do palácio
40:36Claro que aí a tensão já tinha aliviado
40:39o general Machado Lopes
40:40já tinha aderido
40:42ao movimento da legalidade
40:43e as tensões já estavam mais aliviadas
40:46e eu me lembro de ter chegado na sacada do palácio
40:48com o meu pai assim
40:49e o que mais me chamou atenção
40:50foi que havia
40:52preso numa das árvores da Praça da Matriz ali
40:55preso pelo pescoço assim, enforcado
40:57um jacaré
40:59empalhado, enorme assim
41:00e no jacaré estava escrito Denis
41:02que era o general Odile Denis, né?
41:04então estava escrito Denis
41:05eu na época não entendi aquilo
41:07mas a imagem de um jacaré pendurado numa árvore
41:09me gravou muito na memória da criança que eu era, né?
41:14Muitos anos depois
41:15já como editor de fotografia da Zero Hora
41:16preparando um caderno especial sobre a legalidade
41:19comecei a ver antigos negativos
41:22da época do arquivo do jornal
41:25e encontrei a foto do tal jacaré preso na árvore
41:28lá tinha uma foto do jacaré escrito Denis
41:30eu falei
41:30ah, eu não estava sonhando
41:32a coisa houve mesmo, existiu
41:35aí o Cruzeiro me dirou
41:37vou pra lá
41:39voo
41:39foi o último voo que conseguiu posar em Porto Alegre
41:45eu peço a todos que permaneçam atentos
41:51porque possivelmente ainda hoje
41:57tenhamos as mais importantes e decisivas informações
42:04a prestar ao povo gaúcho e ao povo brasileiro
42:09sobre a crise político-militar
42:14e com entendimentos lá
42:15e daqui
42:17numa madrugada
42:18finalmente
42:19o João Goulart vinha já pelos Estados Unidos
42:22pelo Pacífico
42:23vinha pelo Uruguai para entrar por lá
42:25ele não tinha ideia do que estava
42:27e nem nossa comunicação com ele
42:31ao mesmo tempo chegava a Montevidéu o vice-presidente João Goulart
42:35que recebeu do povo uruguaio efusivas manifestações de entusiasmo
42:39após uma viagem cansativa ao extremo oriente
42:42passando pelo Pacífico
42:44o senhor João Goulart encontra-se finalmente às portas do Brasil
42:49o Montevidéu ele me deu notícia também
42:51não, ele disse que estava tudo calmo
42:53que ele estava numa expectativa para saber o que iria acontecer chegando no Brasil
42:58eu sentia nele uma força maior
43:02eu sentia nele uma, sei lá, uma esperança de que algo bom iria acontecer
43:07já se levantava suspeita de que o Jango
43:11o Jango Goulart
43:13havia entabulado negociações para a volta
43:18aquela expressão do Brizola
43:20o meu temor é que o Jango Goulart que eu conheço bem
43:25toma sempre a iniciativa da última pessoa que falou com ele
43:30e aí é realmente as raposas do PSD
43:36que assumem o controle da situação
43:40com Tancredo de Almeida Neves
43:45Tancredo Neves começa a ter contatos com chefes militares
43:51para impedir que eles vetem radicalmente a posse de João Goulart
43:59o que seria um golpe militar
44:01Tancredo Neves consegue com a sua extrema habilidade política
44:08o apoio do general Geisel para encaminhar uma proposta parlamentarista
44:16Tancredo convence os militares de que com o parlamentarismo
44:21o poder do presidente ficaria muito diminuído
44:27e não seria necessário o trauma de um golpe militar
44:32ou seja, o golpe militar teve que esperar três anos
44:37e o Jango tomou posse
44:40mas a posse do Jango é um trabalho do PSD sob a liderança de Tancredo Neves
44:51isso não há dúvida
44:52Aí há toda uma polêmica
44:54porque o PTB que era o partido do presidente Jango não concordou
44:58nesse íter eu mando duas cartas
45:02uma para a Brizola
45:04não chega
45:05aí mandaram um Tancredo para visitar o Jango lá em Montevideo
45:12e eu diria ganhá-lo
45:14porque foi em nome da tese do parlamentarismo
45:19não sei da coisa
45:20mas bom
45:21e aí eu fui a ele e disse
45:22isso não está incorreto com vocês
45:24o PTB está nessa batalha e vocês não dão espaço
45:27não, Almino
45:28mande o seu emissário
45:31fiz a carta
45:31e entreguei a tarefa ao Wilson Cadu
45:35Wilson Fadu
45:35que era deputado
45:38tenente da aeronáutica e amigo do Jango
45:41vai
45:42o avião já tinha partido
45:44o avião não leva
45:45o avião leva
45:47o Tancredo não leva o Fadu
45:49o que ficou para mim
45:50foi muito desagradável isso
45:52custa admitir que o Tancredo foi inocente
45:55não foi
45:56não foi
45:57ele quis levar a mensagem maioritária
46:01não a mensagem minoritária
46:03que a minha era minoritária
46:05sem dúvida
46:05e então o congresso
46:08faz com que o Tancredo Neves
46:11que tinha perdido as eleições
46:14para governador de Minas Gerais
46:15não era
46:17ninguém mais
46:18mas tinha sido
46:20colega do Jango Goulart
46:22quando ministro do Getúlio Vargas
46:25anos atrás
46:26então tinha certa intimidade com o João Goulart
46:29e ele vai a Montevideo
46:32num avião da Força Aérea Brasileira
46:34o problema do Tancredo era
46:36ele tinha que
46:37como é que ele podia ir
46:39vir o problema do avião
46:40eu arranchei um avião da FAP para ele
46:43doutor Tancredo
46:45foi ao encontro dele em Montevideo
46:49e ia parar em Porto Alegre
46:52o avião dele sobrevoou o aeroporto
46:54nós até limpamos as pistas
46:56que lá já essa altura estava tudo na nossa mão
47:00para ele passar
47:01para ele pousar
47:03deu três voltas sobre a pista e foi embora
47:06parece que adivinhou
47:08que a nossa intenção era segurar o doutor Tancredo
47:11não prendê-lo
47:11segurá-lo
47:14utilizar o avião para buscar o João Goulart
47:16para dizer um não ao parlamentarismo
47:20mas ele adivinhou
47:23e foi
47:27as coisas foram se agravando
47:30aqui em Brasília
47:32surgiu um manifesto dos três ministros militares
47:35dizendo que não aceitava a posse do vice-presidente
47:52e Tancredo
47:54convence João Goulart
47:56que era bom
47:57aceitar a proposta parlamentarista
48:00convencia o presidente João Goulart
48:02que ele não tinha alternativo
48:04ou ele se empossava sobre a égita emenda parlamentar
48:07ou teria que chegar à presidência da república
48:10com as suas botas machadas de sangue
48:12e nessa ocasião o Brizola me chama
48:15e diz
48:16capricha aí agora
48:17capricha
48:18que era um termo que o Brizola usava muito
48:20o Jango está saindo de Montevideo
48:22de automóvel
48:24para entrar no Brasil
48:26capricha
48:28capricha nisso aí
48:29e ele insistia
48:29e eu ingenuamente caprichei
48:32e o Brizola depois
48:34faz o Hamilton Chaves
48:35uma série de notas na rádio
48:38dizendo
48:38João Goulart
48:39agora acaba de entrar em território brasileiro
48:42está vindo de automóvel
48:45bom
48:46e chega de avião
48:48e aí diz
48:48eu me lembro do nome
48:50Daniel Garrick
48:51um francês do Le Figaro de Paris
48:54que é um jornal conservador de Paris
48:57e diz
48:58o governador
49:00o senhor nos enganou
49:01e o Brizola diz
49:03não
49:03eu me enganei
49:04a força aérea brasileira
49:05a FAB
49:07nós não podemos evitar
49:09ele
49:10ao chegar
49:11já em Montevideo
49:13falamos por telefone
49:14que a única comunicação que eu tinha com Montevideo
49:16aí
49:20ele ao chegar em Porto Alegre
49:21de certa forma
49:22já tinha aceito
49:23agora
49:24quando chegou no Brasil
49:25já
49:28ficou
49:28a coisa
49:29ficou muito complicada
49:31porque eu notava nele
49:32quando ele falava comigo
49:33que ele realmente
49:34estava muito
49:35muito
49:36muito nervoso
49:37muito preocupado
49:38ele me falou
49:39do regime
49:41parlamentarista
49:42que ele estava com o Tancredo
49:44mas eu
49:45já não gostei muito
49:47e falei para ele
49:49como?
49:50como assim?
49:51não estou entendendo
49:52ele disse
49:53não
49:53porque eu acho que é uma solução
49:55para esse problema
49:56eu disse
49:57mas o problema que existe qual?
49:59você tem que assumir
50:00você é o vice-presidente
50:02ele disse
50:03é mas aqui no Brasil
50:04as coisas
50:05estão muito complicadas
50:07foi o que ele me disse
50:09e o Tancredo também
50:11depois falou comigo
50:12e o Tancredo gostava muito de mim
50:14então ele falou assim
50:15eu gosto muito de ouvir as suas opiniões
50:18o que que a senhora acha?
50:19eu disse
50:19eu sou contra
50:21e ele riu
50:23e disse
50:23é mas é uma saída
50:25que nós temos
50:26eu tinha razão
50:27mas que não dava certo
50:29o senhor João Goulart
50:31acompanhado do senhor
50:33Leonel Brizola
50:33chega ao Palácio Piratini
50:35já pisava solo brasileiro
50:37vice-presidente da república
50:39quando então declarou
50:41que chegava decidido a cumprir seu dever
50:43para fazer cumprir as leis da constituição
50:46estava chegando ao ponto culminante
50:49a crise criada
50:50com a renúncia do senhor Jânio Quadros
50:56o João Goulart chega
50:58e acena apenas ao povo
51:00ao povo que está reunido aqui
51:03o esperando
51:04no Palácio do Governo em Porto Alegre
51:06que tinha também 20 mil pessoas
51:10ou 30 mil
51:11e acena
51:12só acena
51:14depois de vários entendimentos
51:16com o governador Leonel Brizola
51:18e próceres políticos
51:19o senhor João Goulart
51:21reclamado pelo povo de Porto Alegre
51:23apareceu na sacada do Palácio Piratini
51:26quando foi entusiasticamente opacionado
51:30o senhor estava ali na praça
51:32com todo mundo
51:32e disse
51:33vai chegar o João Goulart
51:35chegou
51:35naquela cidade
51:36todo mundo tinha um tempo ali
51:38esperando o avião chegar
51:39chegou
51:40apareceu o Jango
51:41todo mundo até o palácio
51:42mas não falou
51:43quando se esperava
51:45a voz do João Goulart
51:46pelo menos
51:47para dizer pelo menos
51:49muito obrigado
51:50mas ele não faz nada disso
51:52o movimento aqui foi de frustração
51:56com aquela demora
51:57o Jango chegar só na janela
52:00dar um abano
52:01nada a declarar
52:02eu por exemplo
52:03aquela noite
52:04fui para casa
52:05o fazendeiro
52:06ficou do lado dos grandes
52:09então
52:09e esse deve ter sido
52:11o sentimento da maioria das pessoas
52:12a indignação foi ali
52:14mas indignação mesmo
52:15com vaias
52:16com protestos
52:18afinal de contas
52:18eram 70 mil pessoas extasiadas
52:21foi a maior
52:24vai aparecer
52:26o estádio do Maracanã
52:29com 200 mil pessoas vaiando
52:32a praça da matriz
52:34de fronte ao palácio
52:35estava cheia de faixas
52:37o povo entendeu
52:38aquele aceno do João Goulart
52:41e queimou as faixas
52:43ele saiu da sacada
52:46e a multidão
52:47continuou vaiando
53:16do João Goulart
53:23se o samba está errado
53:27eu não vou ficar calado
53:30consertando a melodia
53:33Sou poeta popular
53:37Dentro da honestidade
53:39Ninguém pode me calmar
53:42Lá, lá, lá, lá
53:44Eu não sou politiqueiro
53:47Meu negócio é um pandeiro
53:50Dentro da legalidade
53:54Sou poeta popular
53:57Dentro da legalidade
54:00Ninguém pode me calmar
54:03Lá, lá, lá, lá
54:07Lá, lá, lá, lá, lá
54:12Lá, lá, lá, lá, lá
54:13Lá, lá, lá, lá, lá
54:18Lá, lá, lá, lá, lá
54:20Lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá
54:22Lá, lá, lá, lá, lá, lá, lá