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  • há 2 dias
Documentário sobre Luiz Carlos Barreto, o icônico produtor de cinema brasileiro. Narrado na primeira pessoa, o filme presta uma homenagem a esse grande "agitador cultural", como ele próprio se define.

Direção: Marcelo Santiago
Transcrição
00:00:00É um nome que significa muito para a América Latina e que significa muito para o cinema internacional.
00:00:07Acho que para nós é uma satisfação não somente ser latino-americanos como são Luís Carlos e Lucy,
00:00:15mas ser amigos personagens deles.
00:00:17Cada vez que eu vejo a papá Barreto, o abraço como se fosse meu pai cinematográfico.
00:00:23Eu diria que são como os pais da nova cinematografia da América Latina.
00:00:28De Lucy e, sobretudo, de Luís Carlos, eu admiro profundamente a vocação de luta que têm para que o cinema
00:00:37brasileiro tenha uma posição na cultura deste país.
00:00:41É, a meu ponto de vista, um dos grandes produtores mundiais que existe hoje.
00:00:46Por causa da sua, primeiro, da sua luta à defesa do cinema nacional, que é uma coisa importante, que é
00:00:51a base da vida dele.
00:00:52Segundo, porque ele conquistou toda a cinematografia.
00:00:56E quando está a vida de conquistar, não é um problema de conquista do público,
00:01:01é a conquista da gente de cinema internacional e dos outros países.
00:01:04O grande breakthrough para o cinema brasileiro foi Dona Flora.
00:01:10O que abriu o mercado para a América do público,
00:01:17e foi maravilhoso.
00:01:21É uma famosa família.
00:01:24E, por favor, é uma pessoa que está vivendo.
00:01:31É uma pessoa que está vivendo.
00:01:34A pessoa que está vivendo nos anos.
00:01:37Para falar sobre filmes.
00:01:39Ela está interessada em o que está acontecendo aqui na América do Brasil.
00:01:44Ela está interessada em seus filhos brasileiros.
00:01:47E ela e Luiz Carlos são consideradas uma instituição,
00:01:56uma família famosa que todos os comuns do filme no New York conhecem e amam.
00:02:06E que vem de uma grande sensação de história, de história em film.
00:02:45A CIDADE NO BRASIL
00:03:01A CIDADE NO BRASIL
00:03:17A CIDADE NO BRASIL
00:03:22A CIDADE NO BRASIL
00:03:23OK, SEQUÊNCIA 3...
00:03:28A CIDADE NO BRASIL
00:03:35A CIDADE NO BRASIL
00:03:37A CIDADE NO BRASIL
00:03:39A CIDADE NO BRASIL
00:03:47A CIDADE NO BRASIL
00:04:08A CIDADE NO BRASIL
00:04:12A CIDADE NO BRASIL
00:04:22Vocês não têm memória?
00:04:36A internet na minha lua foi causada.
00:04:38É falta.
00:05:06O produtor no Brasil é tratado assim como, né?
00:05:12Ah, lá vem o produtor.
00:05:13Olha a produção.
00:05:15Ah, faltou não sei o quê.
00:05:16A culpa de quem é?
00:05:17Da produção.
00:05:18Ah, a produção não é...
00:05:19Mas quem é a produção, gente?
00:05:21A produção tem que ter um nome.
00:06:02Olha, o meu entrevistado de hoje é Luiz Carlos Barreto,
00:06:06produtor de Vidas Secas, Garrincha,
00:06:09de vários, Dona Flor e Seus Maridos,
00:06:11vários filmes brasileiros.
00:06:12A história do cinema brasileiro dos últimos 10 anos, 15 anos,
00:06:16é inconfundível com a história, confundível, aliás,
00:06:20com a história de Luiz Carlos Barreto.
00:06:22Mas o assunto não é cinema, cinema, cinema.
00:06:26O assunto é o Ceará.
00:06:29O Rossellini tem um livro que ele diz,
00:06:34o homem não aprende nada obrigatoriamente.
00:06:40O homem aprende dependendo da necessidade dele.
00:06:57Eu tenho um mecanismo mental próprio do sobrevivente do nordestino,
00:07:03que é não se deter nas derrotas e nas decepções.
00:07:09Se eu cheguei até aqui, eu chego com os meus acertos.
00:07:13Mexe a tua mão um pouquinho, tá?
00:07:15Hein?
00:07:16Mexe um pouco, assim.
00:07:19Será que eu mereço um verbete da Uniciclopédia de Cinema?
00:07:24Se merecesse, eu mesmo escreveria.
00:07:27Produtor de cinema, fotógrafo, ex-fotógrafo e animador cultural,
00:07:39mas, na verdade, apenas um discípulo de Lucie Barreto.
00:08:00Eu gosto muito da fotografia de gente.
00:08:06Pra isso, você tem que gostar também de gente.
00:08:30Seu olho capta.
00:08:32Tem que captar o que tá tudo fora de você.
00:08:36Não tá nada dentro.
00:08:38O problema é a leitura do seu olho.
00:08:55No Ceará, eu era repórter de jornal,
00:08:58jornal lá do Partido Comunista e tal.
00:09:02Quando vinha aqui pro Rio,
00:09:05foi saindo um pouco lá do Fortaleza,
00:09:08que eu era uma das lideranças da juventude comunista,
00:09:13muito visado.
00:09:14Então, minha família achou melhor eu ir pro Rio.
00:09:19Até que um dia entrei pra fazer um concurso
00:09:22na revista Cigarra, que era ligada ao Cruzeiro.
00:09:27Mas era uma reportagem de revista que tinha que ter o fotógrafo e o repórter.
00:09:36E eu tinha um amigo meu, o fotógrafo, o Indaless Fanderlei,
00:09:39que eu fiz a reportagem junto com ele.
00:09:41E eu continuei fazendo dupla com o Indaless,
00:09:44porque naquela época era dupla.
00:09:46Jamazon, Davi Nassi, Zé Medeiros, Zé Leal,
00:09:49Jorge Ferreira, Henri Baloa.
00:09:51Escrevia de vez em quando textos e tal,
00:09:55mas tomei um gosto muito grande por fotografia
00:09:58e descobri que eu era um fotógrafo mesmo.
00:10:25Os anos 50 ainda, 51 por aí,
00:10:29eu fui fazer uma reportagem.
00:10:34que era sobre uma missa em Goiás
00:10:36que estava no Rio de Janeiro
00:10:38e na casa da família da Lucie Barreto,
00:10:43que veio a se transformar em Lucie Barreto,
00:10:46estava sendo feita uma homenagem a essa missa em Goiás,
00:10:50que a mãe dela era de Goiás,
00:10:51a família dela toda de Goiás
00:10:52estavam fazendo uma homenagem.
00:10:54E eu fui lá com o Indaless para fazer uma reportagem
00:10:56sobre essa missa.
00:10:57Aí veio a minha terceira,
00:11:01mas passou a ser a primeira paixão, né?
00:11:03futebol, jornalismo e Lucie Barreto.
00:11:09Quem é ela?
00:11:11É a Lenisa Maia,
00:11:13uma cantora famosa no Rio de Janeiro.
00:11:22Eu gostava muito, sempre gostei muito de futebol
00:11:26e o campo do esporte era uma coisa mais deixada comigo,
00:11:33embora eu sempre fizesse outras reportagens políticas.
00:11:36Então, eu tinha que viajar muito para seguir seleção,
00:11:41times brasileiros que eu posteriou.
00:11:44E com a minha estada em Paris,
00:11:48fui morar lá para ser correspondente lá,
00:11:51aí eu conheci a turma da Agência Magno,
00:11:55onde era a agência do Cartier-Bresson,
00:11:58conheci o próprio Cartier-Bresson,
00:12:00e aí a fotografia me tomou.
00:12:04E aí a fotografia me tomou.
00:12:32Tudo que aconteceu
00:12:35desde os anos 50,
00:12:38que é o ponto de testemunhar,
00:12:40eu participei de muita coisa por dentro,
00:12:42por dentro mesmo.
00:13:09O que tal da minha casa era um que tal
00:13:11onde se reunia a Bolsa Nova da UDN,
00:13:14junto com o Miguel Raiz,
00:13:17com o Zé Aparecido,
00:13:19com não sei o quê.
00:13:20Eu presenciei muita coisa
00:13:22e sei muito dos meandros
00:13:26e dos bastidores dessas coisas.
00:13:29Getúlio, por exemplo,
00:13:31eu era fotógrafo,
00:13:33acompanhava muito o Chateaubriand
00:13:35e o encontro dos dois
00:13:37era sempre um encontro muito,
00:13:40porque eles tinham uma relação
00:13:42de amor e ódio entre eles,
00:13:44porque eles disputavam
00:13:49uma namorada de ambos,
00:13:52que chamava Emé de Réry,
00:13:53que era uma senhora lindíssima
00:13:55que morreu há pouco tempo,
00:13:58morreu há alguns três ou quatro anos atrás,
00:14:00que era amante do Chateaubriand
00:14:03e do Getúlio.
00:14:05E os dois tinham essa rivalidade.
00:14:07E quando se encontravam,
00:14:10eles procuravam não falar de coisas sérias,
00:14:14ficavam falando muito amenidades.
00:14:18Ali o presidente poderoso do Brasil
00:14:21com o homem mais poderoso
00:14:22da comunicação brasileira.
00:14:30A característica principal do Getúlio
00:14:33era uma pessoa bonachona,
00:14:38porque ele tinha essa capacidade
00:14:41de levar tudo pelo humor.
00:14:50Eu tive essa sorte de ter vários momentos
00:14:53que eu compartilhei com o Juscelino.
00:14:56Senhor presidente,
00:14:58na previsão
00:14:59de que se confirme
00:15:01a cassação dos meus direitos políticos,
00:15:05que implicaria
00:15:07na cassação do meu direito
00:15:09de cidadão,
00:15:11chungo do meu dever,
00:15:12dirigir desta tribuna
00:15:14algumas palavras
00:15:16da nação brasileira.
00:15:18Ele estava
00:15:19num apartamento
00:15:20ali em frente
00:15:21ao Boa de Boulogne,
00:15:23e eu fui lá
00:15:23para fazer
00:15:24uma entrevista com ele
00:15:26para a revista O Cruzeiro,
00:15:28o réveillon
00:15:29do presidente exilado.
00:15:31Juscelino
00:15:32era
00:15:33um bom ator.
00:15:36Ele se compenetrou
00:15:37do papel também,
00:15:39e aí
00:15:39andou ali,
00:15:41botou as mãos nos bolsos
00:15:42e saiu
00:15:43caminhando
00:15:44pelas Alamedas.
00:15:45Ele, inclusive,
00:15:47citava muito
00:15:48uma frase
00:15:48do Chateaubriand,
00:15:49ele dizia
00:15:49o teu patrão
00:15:51tem uma frase
00:15:52que é,
00:15:53vamos dizer,
00:15:54meu guia,
00:15:55a hipocrisia
00:15:56e as virtudes
00:15:57são
00:15:58o câncer
00:16:00da alma.
00:16:04Mesmo no regime militar,
00:16:05eu abordava
00:16:08nessa relação
00:16:10com o presidente
00:16:12e tal,
00:16:13como se eu
00:16:15estivesse ainda
00:16:16na função
00:16:17de repórter.
00:16:18Isso facilitava
00:16:20muito
00:16:20a relação
00:16:21com o poder.
00:16:35o Genário Carvalho,
00:16:37que era
00:16:37um artista baiano,
00:16:40me falou,
00:16:41também mostrou
00:16:41um filme lá,
00:16:42eu quero te mostrar
00:16:43um filme aqui
00:16:43de um garoto baiano
00:16:45que é um gênio
00:16:46e tal,
00:16:47mostrou um filme
00:16:48curta metade
00:16:49chamado
00:16:49do pátio.
00:16:50Aí eu
00:16:51achei lindíssimo
00:16:52aquilo,
00:16:53uma coisa
00:16:53deslumbrante.
00:16:55Eu queria conhecer
00:16:56esse cara,
00:16:57ele estava filmando
00:16:58lá um filme
00:16:58Barra Vento
00:16:59e tal.
00:17:00Eu falei,
00:17:01vamos lá,
00:17:01vamos lá.
00:17:02Aí eu fui bater
00:17:03lá em buraquinho
00:17:04para ver a filmagem
00:17:06do Barra Vento
00:17:06e conhecer o Glauber.
00:17:08Aí o Glauber
00:17:08me pegou,
00:17:09saiu mandando
00:17:10pela praia,
00:17:12andamos assim
00:17:12uns seis quilômetros
00:17:14de praia
00:17:15e ele contando
00:17:16histórias,
00:17:17falando de cinema
00:17:17brasileiro
00:17:18obsessivamente
00:17:19porque isso,
00:17:20não,
00:17:20estava contando
00:17:21as histórias
00:17:22dos filmes,
00:17:23falando do Roberto
00:17:24Faria,
00:17:24do Nelson Pereira.
00:17:29Aí ele começou
00:17:31com o negócio
00:17:31de você tem
00:17:32que escrever
00:17:33roteiro
00:17:33para o cinema.
00:17:36Praticamente
00:17:37me escalou
00:17:37para fazer
00:17:38o roteiro
00:17:38do Trem Pagador.
00:17:51na hora
00:17:52que o roteiro
00:17:53estava pronto
00:17:53eu falei
00:17:53para o Roberto
00:17:54e falei,
00:17:54mas e agora,
00:17:55como é que acontece?
00:17:56Não,
00:17:56vou aí
00:17:57procurar um produtor,
00:17:58tem um amigo meu,
00:17:59o cara que produziu.
00:18:00Mas o que é produtor?
00:18:01O que o produtor faz?
00:18:03Na época,
00:18:05o José Luiz Magalhães
00:18:07queria financiar
00:18:08um filme.
00:18:09Eu falei,
00:18:09opa,
00:18:10está pronto
00:18:11o roteiro.
00:18:12aí fizemos
00:18:14uma co-produção
00:18:15com o Herbert Richard.
00:18:16Foi o primeiro filme
00:18:18que eu entrei
00:18:18como co-produtor.
00:18:46O Glauber Nelson
00:18:48quer conversar
00:18:49comigo
00:18:50e eu falei,
00:18:51olha,
00:18:51gente,
00:18:51eu não sou fotógrafo
00:18:54de cinema,
00:18:55nunca fotografei cinema,
00:18:58de cinema
00:18:58eu sou
00:19:00frequentador
00:19:01de cinema,
00:19:02mas
00:19:03como eu sou
00:19:04co-produtor
00:19:04do filme,
00:19:06eu
00:19:07não quero
00:19:08correr
00:19:09esse risco
00:19:09também.
00:19:11Luiz Carlos
00:19:12é cearense
00:19:12de Sobral.
00:19:13Você está voltando
00:19:14do sertão central,
00:19:15como é que está
00:19:15o nordeste?
00:19:17Bom,
00:19:17o nordeste,
00:19:18como se diz
00:19:18por lá,
00:19:19está pegando fogo,
00:19:20Glauber.
00:19:20É uma seca
00:19:22pior do que as secas
00:19:23de 77
00:19:24e do 15.
00:19:27Para você ter uma ideia,
00:19:29desde junho
00:19:30que não chove,
00:19:31não cai,
00:19:32uma gota
00:19:33d'água
00:19:33no sertão central
00:19:34do Ceará.
00:19:35Uma,
00:19:35uma gota,
00:19:36não é exagerado.
00:19:36E o pessoal
00:19:37morrendo de fome?
00:19:38De fome
00:19:39e de sede,
00:19:40porque não se está,
00:19:41mas não há água
00:19:42nem para beber,
00:19:43então a banha é luxo.
00:19:44E você, aliás,
00:19:45fotografou,
00:19:46filmou o nordeste.
00:19:47Durante a vida.
00:19:47Qual é a solução?
00:19:49A solução é que tem
00:19:50que aplicar no nordeste.
00:19:52A solução.
00:19:53É, eu acho,
00:19:54quer dizer,
00:19:54eu não sou economista,
00:19:55não sou político,
00:19:56mas nós sabemos muito bem.
00:19:57Você é economista.
00:19:58Esses economistas profissionais
00:20:00que estão aí
00:20:00não sabem nada.
00:20:07E aí eu embarquei na aventura.
00:20:13Fui fazer
00:20:13e era proposta
00:20:16fotografar a sombra
00:20:18e não tentar equilibrar
00:20:20a sombra com a luz.
00:20:21Se o ator estava na sombra,
00:20:24se o ator tinha
00:20:24uma sombra no rosto,
00:20:27media pela sombra
00:20:28e deixava o fundo
00:20:29vir do jeito que via.
00:20:48O filme ficou marcado
00:20:52como um filme
00:20:53que mudava a fotografia
00:20:56no cinema brasileiro.
00:20:58E, ao mesmo tempo,
00:20:59isso também tinha um lado
00:21:00também econômico,
00:21:02porque o equipamento de luz
00:21:05que se tinha que alugar
00:21:08ou tinha que botar
00:21:11à disposição
00:21:12era muito grande,
00:21:14muito pesado,
00:21:15exigia geradores.
00:21:16O inferno.
00:21:18Era uma fotografia
00:21:20de uma escola
00:21:23hollywoodiana.
00:21:24Lugar ruim.
00:21:24E a gente
00:21:26rompeu com isso.
00:21:30Lugar ruim.
00:21:53Viva a amizade cada vez mais estreita
00:21:57entre a China popular
00:22:00e os Estados Unidos do Brasil.
00:22:06O Jango estava voltando da China,
00:22:10onde ele,
00:22:11naquela época,
00:22:13e a China era um pecado.
00:22:14Com a renúncia do presidente,
00:22:16tinha que assumir o vice.
00:22:18Aí é que surgiu...
00:22:20Não, está na China,
00:22:21é comunista,
00:22:21não pode assumir.
00:22:23E o Jango teve que voltar
00:22:26para Montevidéu,
00:22:29ficar esperando lá em Montevidéu
00:22:31um sinal lá de Brasília,
00:22:36dado pelo Tancredo Neves.
00:22:42Nessa situação toda,
00:22:44o Brizola foi armou
00:22:45uma reação ao golpe
00:22:49e transformou o Porto Alegre
00:22:51numa praça de guerra.
00:22:53E eu fui designado pelo Cruzeiro
00:22:57para ir cobrir lá.
00:22:59E fui o único jornalista
00:23:01do eixo Rio-São Paulo
00:23:03que conseguiu chegar em Porto Alegre.
00:23:05O senhor acredita
00:23:06no regime parlamentarista,
00:23:07no êxito desse regime
00:23:09que se instala
00:23:09com a sua pessoa
00:23:11como presidente da República?
00:23:15do eixo Rio-São Paulo
00:23:45Comunista, confesso.
00:23:46De forma nenhuma?
00:23:48Não confessei nada?
00:23:50Comunista.
00:23:53Se o governo deixasse,
00:23:55eu mandaria o senhor
00:23:56para um pelotão de fuzilamento.
00:23:58E por que não manda fazê-lo, primo?
00:24:01E o senhor?
00:24:04Sou inocente e silenciado.
00:24:09No dia do golpe,
00:24:11no dia 1º de abril,
00:24:13tinha uma manifestação,
00:24:15os populares lá
00:24:17manifestando contra o golpe.
00:24:19Eu vi um tenente,
00:24:21a três metros assim,
00:24:23puxar um revólver,
00:24:24botar na cabeça do cara
00:24:26e atirar.
00:24:27Na cabeça do cara, assim, pum.
00:24:30Amém.
00:24:32Amém.
00:24:37Amém.
00:24:41Amém.
00:24:43Nós, pecadores, agora é a hora da nossa morte.
00:25:12Eu na época ainda não tinha saído do cruzeiro, tinha ido levar o Vidas Secas para concorrer no festival de
00:25:21Cannes.
00:25:51A imprensa francesa ataca o filme brasileiro porque matou a cachorra e tal, sociedade dos protetores dos animais, a França
00:26:02protesta, e aí a Air France soube que a baleia efetivamente não tinha morrido, que morava na minha casa,
00:26:10que quando o filme terminou nós trouxemos ela de Alagoa para cá, porque era uma cachorra muito bonita e tal.
00:26:16E foram lá em casa procurar e propor que a Air France queria levar a cachorra para o festival de
00:26:24Cannes.
00:26:34Era 1964, no ano do golpe.
00:26:38O Darcy Ribeiro estava em Paris nos primeiros dias de maio com a missão de arranjar um apoio do governo
00:26:49francês
00:26:50para um contra-golpe organizado a partir do Uruguai, que ele, Darcy, estava com o Jango Armando.
00:27:03Eu me sentei com o Darcy num bar e fiquei conversando no bar com o Darcy.
00:27:08E ele me contou a noite toda do dia 31 de março, vivido dentro do Palácio das Laranjeiras.
00:27:24Era um filme de suspense maravilhoso, ao mesmo tempo com lances de comédia chanchada.
00:27:35E aí
00:28:01OLE!
00:28:04Jango telefonando para alguns comandantes de exército que se diziam leais a ele e traíram o general Assis Brasil,
00:28:15considerado o general de esquerda do exército brasileiro.
00:28:21Os líderes sindicais pedindo providências e apresentando providências, o cara não se mexia.
00:28:28E evidentemente não seriam os fatos daquela noite que poderiam justificar um golpe, não é isso, mas é o comportamento
00:28:37das pessoas.
00:29:05A visita do Charles de Gaulle ao Brasil tomou um aspecto de grande importância.
00:29:11Houve um esquema de segurança muito rígido, muito forte, já era o governo militar.
00:29:21Aí tinha aquele carro, aquele Roller Royce dos anos 30 ou 40, sei lá, no banco de trás, não no
00:29:32banco, mas no assento de trás,
00:29:33o de Gaulle e o Castelo Branco encenando para a multidão.
00:29:38Só que o de Gaulle tinha 2 metros e 10 de altura.
00:29:45E o Castelo Branco era 1 metro e 60.
00:29:49Era a melhor foto que eu ia fazer.
00:29:544 caras fardados lá me pegaram, braço e perna, com máquina, com tudo, me jogaram num canteiro da Simmelândia.
00:30:07Eu falei, não tenho mais idade para ser jogado no canteiro como um saco de batata, porra.
00:30:13Não vou mais continuar nessa...
00:30:17Dali eu decidi que ia pedir licença.
00:30:23Aproveitei que aí eu já estava entrando no negócio de cinema e tal.
00:30:28E nunca mais voltei na revista Cruzeiro.
00:30:36O negócio seguinte foi o Terra em Trânsito,
00:30:39que também o Glauber não queria que identificasse.
00:30:43Hein?
00:30:44Desculpa, Marcelo.
00:30:47É, está tão...
00:30:48Hein?
00:30:50Você resolveu ficar olhando para cá?
00:30:53Não, eu estava...
00:30:54Porque, senão, eu vou ter que mexer nessa luz.
00:30:57Olha lá...
00:30:58Está bom.
00:30:58Olha lá onde está o...
00:31:00Tá?
00:31:03Quer ver? Olha lá para o...
00:31:05Eu estava olhando o Trave.
00:31:06Eu sei, mas...
00:31:10O que seria da fé?
00:31:17O Glauber falou, porra, Barreto, eu queria fazer um filme
00:31:21que não se identificasse onde está sendo filmado.
00:31:27Que no Rio de Janeiro não apareça.
00:31:30Não, nós vamos ter problema com a censura.
00:31:36Quando voltei para o Eldorado, não sei se antes ou depois,
00:31:41quando revi a paisagem imutável, a natureza,
00:31:46a mesma gente perdida em sua impossível grandeza,
00:31:52eu trazia uma forte amargura dos encontros perdidos
00:31:56e outra vez me perdia no fundo dos meus sentidos.
00:32:02Eu não acreditava em sonhos, em mais nada,
00:32:05apenas a carne me ardia e nela eu me encontrava.
00:32:10Não tinha nenhuma luz artificial,
00:32:14nenhuma iluminação artificial,
00:32:17era tudo mesmo os interiores,
00:32:20tanto interiores pequenos quanto grandes.
00:32:23Raramente a gente usava, quando muito, um pau de luz,
00:32:27uma cruzeta com quatro fotofluides,
00:32:29que era luz de reportagem.
00:32:37O teatro municipal,
00:32:40em que o Galbra precisava,
00:32:42queria pegar todo o fundo,
00:32:44só tinha uma maneira,
00:32:45era de não iluminar os primeiros planos,
00:32:49era fotografar com a luz existente do teatro.
00:32:52Carlos Barreto mede a luz Eldorado.
00:32:54Para isso, você tinha que pegar e dobrar a sensibilidade do filme.
00:33:01Quem é a espécie?
00:33:09Você age em nome de quem?
00:33:11De quem?
00:33:13Você age em nome do Silvio,
00:33:15só esse seu sujeito não pode, para mim.
00:33:18O que você quer?
00:33:20Primeiro?
00:33:28Após o laboratório, o chope é ao lado.
00:33:31O lugar é, ao mesmo tempo, centro de informações,
00:33:35desculpa para bate-papo, ponto de recado.
00:33:39Nós queríamos uma distribuidora própria,
00:33:41e eu tratei de organizar essa distribuidora.
00:33:43Minha tarefa era organizar uma distribuidora
00:33:47que servisse de aglomeração dos filmes de cinema novo.
00:33:50Tinha uma casa na frente grande,
00:33:53que era, vamos dizer, a sede principal da família,
00:33:56e tinha uma casa no fundo do quintal.
00:34:00Essa casa no fundo do quintal,
00:34:02imediatamente, passou a ser uma sede de cinema.
00:34:05Depois, ela foi, aos poucos, também se transformando
00:34:10numa... não só na sede da Morviola,
00:34:12como na sede das ideias políticas do cinema,
00:34:16e do encontro do cinema com outras áreas.
00:34:30A gente vinha...
00:34:32Há algum tempo, o Glauber, eu, o Gustavo, o Cacá,
00:34:37a Grupo de Cinema Nova, a gente vinha bolando uma festa
00:34:41que ia se chamar Tropicália.
00:34:45A gente ia fazer uma cenografia com bananeiros,
00:34:50cajueiros falsos.
00:34:52Quando o Caetano cantou a música,
00:34:56e eu falei, pô, isso é Tropicália.
00:35:00Aí o Caetano, o que é Tropicália?
00:35:02Eu falei, não, é uma festa, nossa, que nós estamos aí,
00:35:05e essa música vai ser, o fundo musical da festa vai ser,
00:35:09essa música.
00:35:11Tropicália, eu posso botar o nome da música também,
00:35:14vai ser chamada Tropicália.
00:35:16Tá legal, não tem problema.
00:35:17Tropicália, eu inalcuro o monumento no Tropicália.
00:35:19A música aconteceu, a festa não aconteceu.
00:35:41Estamos completando seis meses de imprensa censurada,
00:35:43a extrema-direita se instalou no poder
00:35:45e não dá nenhum sinal de que vai sair.
00:35:47Nós queremos saber, Arthur, o que você pretende fazer a respeito?
00:35:50Eu e o Fernando vamos para a luta armada,
00:35:52a gente quer saber se você também vai.
00:35:53Ah, vocês estão brincando.
00:35:54Não, estamos falando sério.
00:35:59O povo, o milho, jamais será vencido!
00:36:02Abaixa a ditadura! Abaixa a ditadura! Abaixa a ditadura!
00:36:09Nós estamos contra este governo corrupto!
00:36:13E a Pai amadou-me fugido, jamais será vencido!
00:36:17Há muita agitação nas ruas. Aguardo, Arthur.
00:36:21O povo, o milho, jamais será vencido!
00:36:25O povo, o milho, jamais será vencido!
00:36:26O povo, o milho, jamais será vencido!
00:36:26A realidade está madura para a revolução.
00:36:35O povo, o milho, jamais será vencido!
00:36:51O povo, o milho, jamais será vencido!
00:36:53O povo, o milho, jamais será vencido!
00:37:03O mundo, o milho, jamais será vencido!
00:37:30Nós estávamos com o problema de liberação do terra em transe.
00:37:36Eu e Glauber resolvemos pedir uma audiência ao chefe de polícia, coronel Moletale.
00:37:44Quando nos recebeu, foi, trancou uma porta, trancou a outra, e eu e Glauber meio assim, sabendo
00:37:55por que ele está trancando as portas, né?
00:37:58Aí começa o nome mesmo, aí eu falo, não, eu sou Luiz Carlos Barreto e ele é o Glauber
00:38:04Rocha.
00:38:05Ah, você, eu estou processando você na lei de segurança nacional e vou te botar
00:38:14na cadeia.
00:38:15Aí o Glauber virou para o coronel e falou, mas eu, coronel, o que eu fiz para o senhor
00:38:21me processar na lei de segurança?
00:38:24Ah, o senhor deu uma entrevista no jornal Diário da Noite, São Paulo, dizendo que eu sou nazista.
00:38:32aí puxou o jornal e mostrou a manchete, coronel Moletale é nazista, afirma Glauci Rocha.
00:38:40Aí o Glauber olhou e falou, mãe, coronel Glauci Rocha, eu sou Glauber, Glauci Rocha é uma
00:38:49atriz, não é sua irmã, não é nada sua?
00:38:52Não, não é nada.
00:38:54Ela é apenas minha amiga, atriz.
00:38:56Então você avisa para ela que eu vou botar ela na cadeia.
00:38:58Aí o Glauber falou, o coronel, o jornal deturpa as coisas e tal, ela não deve ter declarado
00:39:07assim, ela é muito boa gente, tal, tal, então tá bom.
00:39:12Dessa vez eu vou perdoar, você fala com ela que ela não faça mais esse tipo de declaração,
00:39:18porque eu enquadro ela na lei de segurança.
00:39:23Finalmente, o que é que o senhor vieram falar?
00:39:25É sobre o filme Terra em Trance.
00:39:28E aí?
00:39:28Eu detesto cinema, detesto teatro, detesto esse negócio todo de cultura.
00:39:35Um analfabeto, um despolitizado.
00:39:39Agora, eu sou aqui chefe de polícia e tem essa censura que é subordinada a mim, mas esses
00:39:48censores são todos civis.
00:39:52Vê os filmes, vê as peças de teatro, não tem coragem de tomar, e começam a interditar
00:40:00coisa que não tem que interditar.
00:40:02Isso não depende de mim, vocês vão ter que falar com eles, porque vocês têm que
00:40:08ter consciência de uma coisa, que nós estamos vivendo num regime de ditadura, e deu um murro
00:40:17na mesa.
00:40:18Isso aqui é uma ditadura.
00:40:20Aí eu olhei para o Glauber, o Glauber olhou para mim, a gente vendo como é que ia sair
00:40:26daquela, eu falei, coronel, não estou de acordo com o seu pensamento, nós não estamos vivendo
00:40:34numa ditadura.
00:40:35O que é ditadura para o senhor?
00:40:38A Rússia é uma ditadura?
00:40:40A Rússia é a ditadura, a ditadura do proletariado.
00:40:45Portugal é uma ditadura?
00:40:47É uma ditadura.
00:40:48Salazar é um ditador.
00:40:51E por que o Brasil não é ditadura?
00:40:53Não, porque o Brasil tem um regime, podemos dizer, um regime autoritário, mas tem o Congresso
00:41:03aberto, tem Câmara de Deputados, tem eleição.
00:41:06É, o conceito de ditadura de vocês está muito democrático.
00:41:12O diálogo começou a ficar maluco.
00:41:15Esse negócio de terra em transe, o filme de vocês fala de quê?
00:41:21Ah, o filme fala de um país imaginário, não é nem sobre o Brasil.
00:41:27Marcaram a reunião para o dia seguinte.
00:41:29Aí os censores resolveram liberar.
00:41:42Um momento.
00:41:43Um momento, minha gente.
00:41:46Um momento!
00:41:53O que eu vou falar agora?
00:41:57O que eu vou falar?
00:42:00Um grupo de cinema novo se engajou internacionalmente num cinema.
00:42:07Ele passou a ser uma referência não só nacional, era internacional.
00:42:12Esse cinema aconteceu dentro do regime militar porque nós soubemos negociar, nós soubemos
00:42:18firmar uma posição de resistência sem fazer concessões nenhuma.
00:42:24Os filmes, quando foram exibidos em Nova York, no ano de 68, o New York Times publicou um artigo
00:42:35da Susan Sontag, dizendo como é que um país debaixo de uma ditadura produz filmes tão vigorosos
00:42:45e tão livres.
00:42:55Não está sentindo o cheiro?
00:42:57Respira.
00:42:58Muito cheiro para dentro de você que até acostuma.
00:43:02Dire o que você pensa.
00:43:04Perfume francês, cheiro de flor.
00:43:08Respira.
00:43:12Os filmes que fazem esses filmes são lá, entourados de outros cinéastas vêmos de todos os países.
00:43:17Para se conhecer, para conversar, para avançar.
00:43:20É tempo de fazer suas conhecimentos.
00:43:23Carlos Dieguez, que fez Angazumba.
00:43:26Glober Rocha.
00:43:28Roberto Faria.
00:43:31Paulo César Saraceni.
00:43:34Joaquim Pedro de Andrade.
00:43:38Léon Yachman.
00:43:40Geraldo Sarno.
00:43:42Eduardo Coutinho.
00:43:45Walter Hugo Curi.
00:43:48E depois disso, nós temos agora de problemas muito difíceis porque o público reclama que nossos filmes são muito triste.
00:43:58Eles não mostram o lado bonito do Brésil, o lado desenvolvido, e que isso não é interessante.
00:44:06Então nós temos agora de problemas.
00:44:08Mas mesmo que nós mostramos a riqueza do Brésil, lá dentro nós vemos a misére também.
00:44:15Porque a riqueza aqui se construiu sobre a misére, principalmente pela produção americana.
00:44:23E vocês veem bem que os filmes americanos não têm o mesmo sentido que os nossos.
00:44:31E então o mensagem, o público foi habituado a receber um outro tipo de cinéastas.
00:44:47Mais tarde, a esquerda brasileira resolveu crucificar o Glober Rocha, sobretudo aqueles intelectuais que estavam exilados.
00:44:59É um absurdo, é uma injustiça com a memória do Glauber e de outros cineastas como Joaquim Pedro, Leon Richman.
00:45:10Nenhum cineasta do cinema novo foi cooptado.
00:45:13Nós fizemos todos os filmes que a gente queria fazer.
00:45:20Música
00:45:22Música
00:45:49Eu costumo dizer que o cinema brasileiro,
00:45:51Perdeu muito cedo, Joaquim, Glauber e Leon.
00:45:59Era a mesma coisa que o futebol brasileiro perdesse Pelé, Garrincha e Didi.
00:46:09Música
00:46:11Música
00:46:11Música
00:46:23Música
00:46:25Música
00:46:49O futebol sempre foi uma coisa presente na minha vida.
00:46:53No Ceará mesmo, eu era presidente, roupeiro, técnico de um time que eu era o dono, 24 de maio.
00:47:04E que se tornou campeão, inclusive, de juvenil da primeira divisão e tudo.
00:47:10Eu era meio de campo craque.
00:47:13É, tanto que quando eu vim para o Rio, depois eu entrei para o Flamengo.
00:47:18Eu cheguei a treinar no juvenil contra profissionais do Flamengo, o Zizinho, por exemplo, era o Pelé da época.
00:47:38O Brasil e o povo brasileiro não tem vocação para a tristeza nem para a mediocridade.
00:47:46Se você tem ela, você, claro, você vai com ela.
00:47:48O futebol é uma atividade lúdica e o povo brasileiro é um povo lúdico.
00:47:55É você, o mistério é você que tem que fazer.
00:47:57Certo?
00:47:58Música
00:47:59Música
00:47:59Música
00:48:00Música
00:48:00Nenhuma criança aprende a andar porque você ensina a andar.
00:48:05Não tem teoria para andar.
00:48:07Aprende fazendo.
00:48:11Música
00:48:15Tereza, Anete, Sara, Maria Angélica, Maria das Graças, Maria Tereza e Denise.
00:48:22Sete filhas de Garrincha, sete dribles do destino que só lhe tem dado meninas quando ele espera um menino.
00:48:29Um Garrinchinha de pernas tortas que conta merecer na próxima jogada.
00:48:34Transportado eles para o cinema brasileiro, o cinema brasileiro é um cinema que tem a melhor mão de obra técnica
00:48:40que eu conheço.
00:48:42Todo mundo que vem filmar aqui no Brasil diz isso.
00:48:46Se aprendeu a fazer cinema no Brasil fazendo.
00:48:51Silêncio!
00:48:53Câmera!
00:48:54Roda!
00:48:54Tom!
00:48:55Câmera!
00:48:57Por quê?
00:48:58Vai!
00:48:59As equipes nos anos 60, 70, eram no máximo de 40, 35 pessoas.
00:49:08Seito não tinha só uma tarefa.
00:49:12O cara fazia assistência de câmara e era também fotógrafo estilo, enfim.
00:49:19Havia uma acumulação de funções.
00:49:21A Lucy Barreto, ela chegou a imaginar e bolou, executou um manual de produção
00:49:29que descrevia as funções de cada pessoa de uma equipe de filme.
00:49:37E a Lucy organizou esse método de qualificar a mão de obra.
00:49:45Isso foi uma coisa que avançou muito a produção.
00:49:55Este é o Largo da Palma, na cidade de Salvador.
00:49:59Aqui no mês de outubro de 1975, tiveram início as filmagens de Dona Flor e seus dois maridos.
00:50:08Dona Flor e seus dois maridos não é um fato isolado no panorama do cinema brasileiro.
00:50:15A Garota de Ipanema foi, na sua época, um fenômeno igual a Dona Flor.
00:50:20Foi um filme para romper o mercado.
00:50:23Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, também foi um filme para romper o mercado.
00:50:28Eu queria aproveitar a oportunidade para dedicar nacionalmente esse filme a Joajanato.
00:50:35A Dona Flor do Bruna é minha meta.
00:50:38Eu tenho a Dona Flor do livro, que é minha filha, a Dona Flor do livro, do filme, é minha
00:50:45neta.
00:50:46Eu estou muito babado, gente, ela é demais, porque ela foi feita pela Sônia Braga,
00:50:52que é duas vezes minha filha, porque fez Gabriela e fez Dona Flor.
00:51:11Quando um filme estrangeiro custa 24, 30 milhões de dólares,
00:51:15isso é noticiado com um fanismo ao contrário,
00:51:19quer dizer, uma admiração fantástica pelo fato de um filme ter custado 15, 20, 30 milhões de dólares.
00:51:42Entretanto, quando se diz que um filme brasileiro, como foi o caso de Dona Flor,
00:51:46custou 5 milhões e 800, isto serve de elemento de ataque ao filme brasileiro.
00:51:52Eu acho que é um filme que me enriqueceu como ator,
00:51:54e é um filme que fatalmente vai enriquecer, porque vai divertir muito as pessoas que forem ver.
00:52:03O filme é extremamente bem cuidado, eu acho.
00:52:07Custou caríssimo.
00:52:09É uma superprodução nacional,
00:52:13mas sem a papagaiada das superproduções.
00:52:20Eu acho que é um filme muito legal.
00:52:22O cinema brasileiro pode produzir, fazer superproduções no seu nível,
00:52:27no seu nível de Dona Flor, de Chica da Silva, de Tenda dos Milagres,
00:52:31de Macunaíma, de Garota de Ipanema,
00:52:34e pode fazer, e tem o direito e deve fazer, os seus filmes médios de 800 mil,
00:52:39um milhão, dois milhões, porque isso é que renova a linguagem cinematográfica,
00:52:43que renova a experiência cinematográfica,
00:52:46e que diversifica a conquista do mercado.
00:52:49Uma produção Luiz Carlos Barreto.
00:52:56O Brasil, nos anos 60, com seu cinema político,
00:52:59com seu cinema de crítica social,
00:53:02conquistou um lugar de grande prestígio cultural
00:53:04e fez de canes sua plataforma para o mercado externo.
00:53:08O cinema brasileiro deve, antes que tudo,
00:53:12se preocupar com a conquista do mercado interno.
00:53:14É um mercado que ainda não é dominado pelo nosso cinema,
00:53:18e sim pelo cinema estrangeiro.
00:53:19Então, eu acho muito mais importante a gente estar preocupado
00:53:22em penetrar profundamente o mercado brasileiro
00:53:26e buscar todas as grandes praças do interior de São Paulo,
00:53:30de Mato Grosso, do Amazonas, do Ceará, de Pernambuco, entendeu?
00:53:33Porque qualquer Bauru desses, Bauru, Ribeirão Preto,
00:53:37vale mais do que Bélgico, Holanda, Luxemburgo e Juntos.
00:53:43O que realmente existe é um cinema brasileiro
00:53:47que vinha sendo bloqueado no seu próprio mercado
00:53:50e que, de um momento para o outro,
00:53:53está começando a romper essas amarras no mercado
00:53:56e conseguindo atingir os objetivos a que se propõem,
00:54:02ou seja, dialogar com o público brasileiro,
00:54:05atingir em cheio o público brasileiro,
00:54:07atrair o público brasileiro,
00:54:09sem desrespeitar esse público.
00:54:21A melhor música do filme.
00:54:35A Embra Filme participava e financiava e coproduzia e distribuía
00:54:41mais de 100 filmes por ano
00:54:44e o cinema estava em uma embalagem muito grande
00:54:46quando o Figueiredo assumiu.
00:55:09Esse negócio da qualidade do cinema brasileiro
00:55:11é que o cinema brasileiro hoje tem uma qualidade técnica-artística,
00:55:16como a televisão brasileira,
00:55:19igual ou superior até a muitos cinemas de outros países.
00:55:22E eu acho que devia haver, inclusive,
00:55:25uma atitude um pouco menos subserviente da Embra Filme
00:55:28de romper de uma vez por todas com esse esquema.
00:56:00A Embra Filme de Romero
00:56:17Quando o Cacá ia rodar Joana Francesa,
00:56:22o Arnond de Mello chegou para mim e falou
00:56:25o Marleto, será que não tem um lugar na equipe
00:56:28para o Fernando Collor?
00:56:29Aí o Cacá botou ele de assistente de produção.
00:56:33E o Fernando foi, tinha um carro muito bonito,
00:56:37morava num apartamento muito bonito.
00:56:41A tarefa principal dele era todo dia pegar
00:56:45a Jane Morro no hotel, levar para a filmagem,
00:56:48ficava lá na filmagem
00:56:49e trazia ela de volta.
00:56:55Na primeira folga da equipe,
00:56:58ele resolveu dar uma festa no apartamento dele.
00:57:05Correu lá,
00:57:06o jantar muito bem,
00:57:08lá para as tantas,
00:57:10aparece a Jane Morro,
00:57:12descendo, era uma cobertura,
00:57:14descendo lá da cobertura,
00:57:15foi para o Cacá e falou
00:57:18Dieguês
00:57:21Germain Vé,
00:57:22quer dizer, eu me vou,
00:57:24ou ele ou eu.
00:57:27Aí o Cacá teve que
00:57:29demitir o Fernando Collor
00:57:31para poder
00:57:32ficar com a atriz.
00:57:36Mais tarde,
00:57:37eu estava em Los Angeles,
00:57:38o Cacá me telefonou,
00:57:40falando,
00:57:42o Fernando Collor assumiu,
00:57:45o primeiro ato dele foi
00:57:46extinguir a Embra Filme,
00:57:48revogou todas as leis de proteção,
00:57:51não sei o quê,
00:57:51pá, pá, pá.
00:57:53Aí eu falei,
00:57:54o Cacá,
00:57:56não é surpresa,
00:57:58você é o culpado,
00:57:59você demitiu o cara.
00:58:07Na sua opinião,
00:58:08qual filme que deverá ser premiado
00:58:09com o Oscar essa noite?
00:58:25Mas nos anos 90,
00:58:28depois do tufão
00:58:31e do, vamos dizer,
00:58:34do terremoto Collor,
00:58:35a gente voltou
00:58:38com um cinema
00:58:39de muito boa qualidade
00:58:40com competitividade
00:58:43no mercado internacional.
00:58:45O Quatrilho,
00:58:47foi a confirmação disso,
00:58:49logo ali no início
00:58:50da retomada.
00:58:51O fato da nomeação
00:58:53do Quatrilho
00:58:55para o Oscar,
00:58:57quer dizer,
00:58:57que tomou a todos nós
00:58:58de surpresa,
00:58:59a estima até esquecida,
00:59:01tinha mandado,
00:59:02como em outros tempos
00:59:03se mandou,
00:59:03muitos filmes.
00:59:04e o fato do filme
00:59:06ter sido incluído
00:59:09entre os cinco finalistas,
00:59:10aquilo deu uma certeza,
00:59:12não só nós,
00:59:13mas a todos nós
00:59:13que fazemos cinema no Brasil,
00:59:15de que a gente tem
00:59:16uma cinematografia competitiva.
00:59:18O Fábio está aqui com a gente,
00:59:19Fábio,
00:59:19você está nervoso,
00:59:20já preparou o seu discurso?
00:59:22Como é?
00:59:22Não, eu estou calmo,
00:59:25o discurso já está preparado,
00:59:27caso a gente ganhe,
00:59:28quero só dizer mais uma vez,
00:59:30que já ganhamos com a indicação,
00:59:32já valeu,
00:59:33isso aqui é o importante,
00:59:35bola para frente,
00:59:36o importante é o Brasil
00:59:38exportar mais imagens,
00:59:40não ser só importador,
00:59:41produzir muita imagem,
00:59:42a gente tem uma política
00:59:43de audiovisual para o país,
00:59:45isso aqui é importante,
00:59:46porque nós vamos botar
00:59:47muito filme aqui,
00:59:48muito.
00:59:54O cinema brasileiro
00:59:56não será melhor nem pior
00:59:57se ganhar ou não ganhar o Oscar,
01:00:00o Oscar é uma jogada
01:00:03de marketing muito bem feita,
01:00:05que tem uma importância
01:00:06pela audiência,
01:00:07não pelos resultados que obtém,
01:00:09que muitas vezes o resultado
01:00:10não contenta nem os que ganham.
01:00:13A modéstia nunca foi forte deles,
01:00:16o Milico decorou direitinho
01:00:17o diálogo do Hollywood,
01:00:18não parar com a inveja.
01:00:20Eu tive,
01:00:21nas duas vezes que eu tive presente lá,
01:00:23me deu a sensação
01:00:25de que estava participando
01:00:27de um programa de auditório
01:00:28de televisão.
01:00:34Boa noite.
01:00:35Grupos terroristas
01:00:36sequestraram hoje
01:00:37no Rio de Janeiro
01:00:38o embaixador
01:00:39dos Estados Unidos da América,
01:00:41Charles Burke Elbrick.
01:00:43Eis o texto do manifesto
01:00:44que foi deixado no carro
01:00:46que tem os seus intervalos comerciais.
01:00:49No intervalo comercial,
01:00:51as pessoas se levantam,
01:00:54vão para os bares
01:00:54tomar seus drinks.
01:00:56Enquanto você levanta,
01:00:58já tem uma turma de figurantes
01:01:00vestida a rigor
01:01:01para ocupar teu lugar,
01:01:03para não ficar nada vazio.
01:01:05Atenção!
01:01:06Vai para o troco,
01:01:07não vai?
01:01:09Está fraco,
01:01:10vai e ou não vai?
01:01:11É um programa de televisão.
01:01:13É tudo dirigido,
01:01:15não é coisa só de controle.
01:01:17É importante e é.
01:01:18Importante porque tem um resultado
01:01:20de marketing pelo mundo todo.
01:01:23O filme que é indicado
01:01:25ou que ganha prêmio no Oscar,
01:01:27ele passa a ter
01:01:28uma performance
01:01:31comercial melhor.
01:01:37Aí nós fomos batalhar
01:01:39para botar o incentivo fiscal
01:01:41no mecanismo de financiamento.
01:01:44Aí foi que surgiu
01:01:46a lei do audiovisual.
01:01:47O Itamar topou.
01:01:48E aquela nomeação
01:01:49daqueles filmes,
01:01:51ela suscitou
01:01:52um negócio muito grande
01:01:54na mídia
01:01:55e a lei pegou.
01:01:57A lei pegou.
01:01:58esse impulso,
01:02:01depois veio
01:02:03a cidade,
01:02:06o central do Brasil,
01:02:08do Valtinho,
01:02:09então o cinema brasileiro
01:02:11pegou uma embalagem ali
01:02:13boa.
01:02:15No segundo mandato
01:02:16do Fernando Henrique,
01:02:17ele queria deixar o Brasil
01:02:19de posse de uma estrutura,
01:02:22de uma lei
01:02:23que possibilitasse
01:02:26a instalação
01:02:28de uma grande indústria
01:02:29cultural,
01:02:32com foco
01:02:34no audiovisual.
01:02:36Mas aí o Fernando Henrique
01:02:37convocou uma reunião
01:02:39para o Palácio
01:02:41do Alvorada
01:02:42para fazer
01:02:43uma solenidade
01:02:44de lançamento
01:02:45da Ancine.
01:02:47Todo mundo
01:02:48foi um avião
01:02:48de São Paulo,
01:02:49avião do Rio.
01:02:51Chegamos em Brasília,
01:02:53eu cheguei
01:02:54no aeroporto,
01:02:55liguei para o Cacá de X,
01:02:57estava já em Brasília,
01:02:58no Hotel Nacional,
01:02:59falei,
01:03:00pô,
01:03:00estou chegando aqui
01:03:01agora para a solenidade.
01:03:03Foi cancelada a solenidade,
01:03:04era às 11 horas da manhã.
01:03:06Mas como foi cancelada?
01:03:07Pô, você não está sabendo?
01:03:12Um avião derrubou
01:03:14as torres
01:03:15em Nova Iorque,
01:03:16era o dia 11 de setembro.
01:03:18Aconteceu aquela catástrofe.
01:03:21Aí a solenidade
01:03:22de instalação
01:03:24da Ancine
01:03:25foi cancelada.
01:03:27Foi cancelada.
01:03:28Quer dizer,
01:03:29o nascimento da Ancine
01:03:30nasceu sob esse signo
01:03:31de catástrofe.
01:03:33E, na verdade,
01:03:35ela está cumprindo
01:03:36o seu papel
01:03:37porque ela se transformou
01:03:38num monstro
01:03:39de sete cabeças.
01:03:41Foi, aos poucos,
01:03:42se deformando,
01:03:44desde o início.
01:03:46Logo,
01:03:46ela começou
01:03:47a se deformar,
01:03:49a assumir funções
01:03:50que não são próprias
01:03:51para uma agência,
01:03:52como é o fomento.
01:03:53Fomento não é função
01:03:54de agência,
01:03:55é agência para regular
01:03:56e fiscalizar.
01:03:57a Ancine virou um monstro
01:03:59de sete cabeças
01:04:00que, hoje,
01:04:02você,
01:04:03para fazer qualquer
01:04:05projeto que dependa
01:04:07da administração
01:04:09da Ancine,
01:04:10você dá mais trabalho.
01:04:12Você vencer
01:04:13as barreiras burocráticas
01:04:15da Ancine,
01:04:16dá mais trabalho
01:04:17do que fazer um filme.
01:04:20e aí, Bruno?
01:04:21Bruno?
01:04:23Porra, quer dizer
01:04:23que estão te cortando
01:04:24a produção?
01:04:25Como é que está
01:04:25esse negócio?
01:04:26Reclame?
01:04:27Reclame ao vivo.
01:04:35Lucie, música.
01:04:37E eu, fotógrafo.
01:04:38Nós somos o,
01:04:40vamos dizer,
01:04:41a representação
01:04:42do audiovisual.
01:04:44Então,
01:04:44os filhos
01:04:45não podiam dar outra coisa
01:04:47a não ser animais
01:04:48audiovisuais.
01:04:49Tenho sorte
01:04:50de ter
01:04:52tido a Lucie.
01:04:54Hoje em dia,
01:04:56isso passou,
01:04:57essa tarefa
01:04:57está com a Paula Barreto,
01:04:59que desde pequena,
01:05:02mesmo sendo
01:05:03uma esportista,
01:05:04a praia dela
01:05:06sempre foi
01:05:06um negócio de esporte
01:05:07e tal,
01:05:08mas, do momento
01:05:09que ela se voltou
01:05:10para o cinema,
01:05:11a Paula Barreto
01:05:12é uma produtora
01:05:14gênero Lucie Barreto,
01:05:16de alta capacidade.
01:05:19Mas, com relação
01:05:21ao Bruno e o Fábio,
01:05:23que são os dois
01:05:25diretores de sangue,
01:05:26do saído do sangue
01:05:29do casal audiovisual,
01:05:31o Fábio tem uma linha,
01:05:33ele se interessa muito
01:05:34pela, vamos dizer,
01:05:36pelo conteúdo humano
01:05:37dos personagens,
01:05:38pela humanidade
01:05:39dos personagens
01:05:40e desvendar
01:05:41e desvendar a alma
01:05:42dos personagens.
01:05:43O filme dele,
01:05:44todos são assim.
01:05:46Na trajetória do Bruno,
01:05:48quer dizer,
01:05:48o Bruno,
01:05:49ele tem um tal domínio
01:05:52da linguagem,
01:05:54um domínio da mise-en-scène,
01:05:56e que ele se dá
01:06:00ao prazer
01:06:02de fazer
01:06:03os filmes
01:06:05mais, vamos,
01:06:07diferenciados
01:06:08uns dos outros.
01:06:10Eu classificaria
01:06:12como os dois,
01:06:15nos seus estilos,
01:06:17como
01:06:19cineastas
01:06:23de primeiro nível.
01:06:25Mário Júnior,
01:06:27plano 1,
01:06:27take 3.
01:06:35Há uma ideia
01:06:37que o trabalho
01:06:39de produção
01:06:40e da feitura
01:06:42de um filme
01:06:42é uma festa
01:06:43de artistas
01:06:44que fazem
01:06:46a filmagem,
01:06:48mas a filmagem
01:06:49se mistura
01:06:49com
01:06:50um clima
01:06:52de festa
01:06:53que se tomam
01:06:54umas e outras,
01:06:56e não é isso.
01:06:58A operação
01:06:59de produção
01:07:00de um filme,
01:07:01o trabalho
01:07:02de um filme,
01:07:04seja documentário,
01:07:05seja...
01:07:05É uma operação
01:07:06artístico-militar.
01:07:09Tem que ter planejamento.
01:07:10Nisso, por exemplo,
01:07:11foi o grande papel
01:07:12da Lucy.
01:07:14Filme, por exemplo,
01:07:15como Bye Bye Brasil
01:07:18foi filmado
01:07:19ao longo
01:07:20de 15 mil quilômetros
01:07:22de estrada
01:07:22de viagens,
01:07:24né?
01:07:24Que saía
01:07:25daqui do Rio
01:07:27de janeiro
01:07:27fomos até
01:07:28o desconfinho
01:07:31da Amazônia,
01:07:33né?
01:07:33Na Transamazônia.
01:07:36Era uma operação
01:07:37de lugar
01:07:38que não tinha
01:07:38nem onde alojar.
01:07:40Equipe,
01:07:41como no interior
01:07:43do Alagoas,
01:07:44nós tivemos
01:07:45que transformar
01:07:46uma estação
01:07:47de trem
01:07:48desativada
01:07:49em hotel.
01:07:52o produtor
01:07:53é aquele
01:07:54que é parceiro
01:07:55do diretor
01:07:56e é um conjunto,
01:07:58um trabalho
01:07:59de equipe.
01:08:00O filme do Lula
01:08:01era tão bem
01:08:02planejado,
01:08:03tão bem planejado,
01:08:05nós tínhamos
01:08:05cinco dias de filmagem
01:08:07em Pernambuco,
01:08:09em Caruaru,
01:08:10lá no sertão
01:08:11de Caruaru.
01:08:14e terminar
01:08:16dessa filmagem
01:08:17no sábado
01:08:18e no domingo
01:08:18a gente tinha
01:08:19que estar filmando
01:08:20em São Bernardo
01:08:22do Campo
01:08:22num cemitério.
01:08:25Olha,
01:08:25você estava lá
01:08:26em Pernambuco
01:08:28filmando
01:08:29no sábado
01:08:31e no domingo
01:08:32tinha que filmar
01:08:33no ABC
01:08:34em São Bernardo.
01:08:36Era quase impossível.
01:08:39É importante o seguinte,
01:08:41tudo que eu disser,
01:08:42o pessoal aqui da frente
01:08:44tem que ir falando
01:08:45com o pessoal de trás.
01:08:48Para que todo mundo
01:08:49que esteja aqui
01:08:49possa ouvir,
01:08:50senão não adianta de nada.
01:08:54Tinha uma matéria
01:08:57no jornal
01:08:57Los Angeles Times,
01:09:00um articulista
01:09:01americano
01:09:01escreveu
01:09:03antes da eleição,
01:09:05primeira eleição
01:09:06do Lula,
01:09:06se o Brasil
01:09:09é um país
01:09:11dividido
01:09:12por um vidro
01:09:13enfumaçado
01:09:14que de um lado
01:09:16está a elite
01:09:17e do outro
01:09:18está o povo.
01:09:19Esse vidro
01:09:20enfumaçado,
01:09:21embaçado,
01:09:23não deixa
01:09:24que um
01:09:25tome conhecimento
01:09:26do outro.
01:09:27O
01:09:29candidato Lula
01:09:30é a única pessoa
01:09:32que é capaz
01:09:33de passar
01:09:35um pano molhado
01:09:36nesse vidro,
01:09:38desembaçar
01:09:39esse vidro
01:09:40e fazer com que
01:09:42um veja o outro.
01:09:44Hoje em dia
01:09:45não se percebe
01:09:46isso no Brasil,
01:09:47que aconteceu
01:09:49no Brasil
01:09:50uma grande
01:09:51revolução
01:09:53política,
01:09:54uma revolução
01:09:55no plano social
01:09:56e econômico,
01:10:00porque o Lula
01:10:01limpou esse vidro
01:10:03e hoje
01:10:04as pessoas
01:10:04se veem,
01:10:05se conhecem
01:10:06e se
01:10:08sabem dos problemas
01:10:10uns dos outros.
01:10:11Então,
01:10:12isso é que está
01:10:13possibilitando
01:10:14que esse país
01:10:16comece
01:10:18a virar
01:10:19uma nação,
01:10:20uma nação
01:10:22onde a população
01:10:23se integra
01:10:25uma com a outra
01:10:26e essa
01:10:28coisa
01:10:29não
01:10:31ainda
01:10:32não foi
01:10:33introjetada
01:10:34na classe
01:10:34dominante brasileira.
01:10:36Hoje
01:10:36está acontecendo
01:10:37aqui no Brasil
01:10:39uma situação
01:10:39muito perigosa,
01:10:42muito perigosa,
01:10:43mais perigosa
01:10:44do que aconteceu
01:10:45em 64,
01:10:46porque os interesses
01:10:47agora são muito
01:10:48maiores,
01:10:50muito maiores.
01:10:50e o Brasil
01:10:51é outro país,
01:10:52o povo brasileiro
01:10:54é um povo
01:10:55ingênuo.
01:10:57Nós estamos
01:10:58ainda
01:10:59parados
01:11:00nos anos
01:11:0130
01:11:02em matéria
01:11:02de análise
01:11:04política
01:11:04internacional.
01:11:06Não é à toa
01:11:07que se está
01:11:08querendo
01:11:10destruir
01:11:12a Petrobras.
01:11:14Essa maldição
01:11:16do petróleo
01:11:17já levou
01:11:18o nosso
01:11:19Getúlio Vargas
01:11:21ao suicídio.
01:11:22Por quê?
01:11:23Porque teve
01:11:23a coragem
01:11:25de enfrentar
01:11:26o grande
01:11:29truste
01:11:30internacional
01:11:30do petróleo
01:11:31e fundar
01:11:32uma empresa
01:11:33brasileira,
01:11:34desenvolver
01:11:35uma empresa.
01:11:36E nós estamos
01:11:37novamente
01:11:38nesse período
01:11:42uma sede
01:11:43de destruir
01:11:44a Petrobras.
01:11:45E junto
01:11:46com a Petrobras
01:11:46um conjunto
01:11:48de empresas
01:11:49que são
01:11:50essas empreiteiras
01:11:51que estão aí
01:11:51e que são
01:11:52as empresas
01:11:54são hoje
01:11:56um grande ativo
01:11:57econômico brasileiro.
01:11:59Agora,
01:11:59se os seus diretores
01:12:01procederam
01:12:02erradamente,
01:12:03vamos punir
01:12:04as pessoas,
01:12:05não as empresas.
01:12:06as empresas
01:12:07têm que ser
01:12:07preservadas.
01:12:08Então,
01:12:09é uma repetição
01:12:10hoje.
01:12:11Posso até
01:12:14me agradecer
01:12:16por ter vivido
01:12:16esse tempo todo
01:12:17para poder
01:12:19ver
01:12:19e dizer
01:12:21isso já aconteceu,
01:12:22esse filme
01:12:23eu já vi,
01:12:24esse filme
01:12:25eu já vi.
01:12:36Como é que você
01:12:37se sente
01:12:38recebendo as críticas
01:12:39dos produtores menores
01:12:40que se sentem
01:12:41ameaçados
01:12:42com a sua força,
01:12:43com o seu poder
01:12:43hoje que você é considerado
01:12:45o maior produtor brasileiro
01:12:47de cinema?
01:12:50Acontece o seguinte,
01:12:51a tosse não é psicológica,
01:12:53não.
01:12:53Acontece o seguinte,
01:12:54que eu
01:12:55não sou
01:12:56nenhuma potência
01:12:57aqui,
01:12:58eu sou um produtor
01:12:59independente.
01:13:00O cinema brasileiro
01:13:01não tem nenhum
01:13:01super produtor.
01:13:03Quer dizer,
01:13:03tem alguns produtores
01:13:05que tem
01:13:05um escritório
01:13:07e um corpo
01:13:08de funcionarizinho
01:13:09de quatro,
01:13:10cinco funcionários,
01:13:11quer dizer,
01:13:11isso já no Brasil
01:13:12é considerado
01:13:13um grande produtor.
01:13:15Mas, Luiz Carlos,
01:13:16até há pouco tempo
01:13:17você era um médio produtor
01:13:19e hoje você corre
01:13:19o risco
01:13:20de se transformar
01:13:21num milionário.
01:13:22Não,
01:13:23eu não tenho
01:13:24nenhuma
01:13:25nenhum medo
01:13:26de ganhar dinheiro,
01:13:27entende?
01:13:27Porque o dinheiro
01:13:28pra mim,
01:13:29o valor do dinheiro
01:13:30pra mim
01:13:30é o valor
01:13:31de poder fazer
01:13:31coisas com o dinheiro,
01:13:33não é acumular,
01:13:33não tenho
01:13:34nenhuma intenção
01:13:35de acumular dinheiro.
01:13:44se você quer
01:13:44por ali que vai
01:13:48para Brasília?
01:13:49Toda vida
01:13:49me perguntam assim,
01:13:51você poderia
01:13:51citar quais são
01:13:53os cinco melhores
01:13:55filmes
01:13:55dentre os
01:13:5680, 90
01:13:57que nós
01:13:58produzimos
01:14:01e
01:14:03eu
01:14:05sinceramente,
01:14:05eu não sei
01:14:07nunca
01:14:07definir isso,
01:14:09porque eu gosto
01:14:10de todo filme
01:14:11que a gente
01:14:11porque
01:14:12para fazer um filme
01:14:13a gente só
01:14:14faz o filme
01:14:15que a gente chegou
01:14:16à conclusão
01:14:16que tem que ser feito,
01:14:18é um filme
01:14:19que não pode
01:14:19deixar de ser feito,
01:14:20pode até
01:14:21que não seja bom,
01:14:22mas é um filme
01:14:24cujo assunto
01:14:25não podia
01:14:25ficar
01:14:27inédito,
01:14:28e
01:14:29eu tenho
01:14:30uma dificuldade
01:14:31nesse sentido
01:14:32de
01:14:34nomear
01:14:35o que é
01:14:36o bom,
01:14:38qual é o que eu gosto
01:14:39mais,
01:14:39o que não.
01:14:40Então,
01:14:41eu
01:14:42tive signos
01:14:43com toda a sinceridade
01:14:45que eu
01:14:46passei a adotar
01:14:47esse critério,
01:14:49que o melhor filme
01:14:49que a gente
01:14:50produz
01:14:51é sempre o último.
01:15:04O sonho com o Glauber
01:15:05é um sonho recorrente,
01:15:06de vez em quando
01:15:07eu sonho com o Glauber
01:15:08e com outros amigos também.
01:15:10A partir de uma determinada
01:15:11idade,
01:15:12a gente começa
01:15:12a sonhar
01:15:15com amigos
01:15:16sorreiros
01:15:17e tal,
01:15:17e são sonhos
01:15:18muito
01:15:20concretos.
01:15:21Outro dia,
01:15:22eu entreguei
01:15:22um exame de sangue
01:15:23para o meu clínico
01:15:25geral,
01:15:27um exame de sangue
01:15:28completo
01:15:29que ele mandou pedir.
01:15:32Aí ele olhou
01:15:33e falou assim,
01:15:33pô,
01:15:34pelo teu exame de sangue
01:15:35você vai aos 110 anos.
01:15:38Aí eu falei,
01:15:39
01:15:40eu quero ir aos 150.
01:15:43Aí,
01:15:45se não fizer bobagem,
01:15:48vai,
01:15:48tem chance.
01:15:50O ídolo
01:15:51se mantém em forma
01:15:52para corresponder
01:15:53às expectativas
01:15:54de seus fãs.
01:15:5860.
01:16:00Volou assim, hein?
01:16:01Tenho um sentimento
01:16:02de eternidade.
01:16:03Não tenho medo
01:16:04da morte,
01:16:05mas acho muito chato
01:16:06pensar na morte.
01:16:07E enquanto eu pensar
01:16:09na vida,
01:16:09eu quero pensar
01:16:10na vida produtiva.
01:16:12Quando eu perder
01:16:13esta alegria,
01:16:14eu renunciarei
01:16:16à vida.
01:16:39eu quero só dizer o seguinte,
01:16:41que o cinema brasileiro
01:16:43vive um momento
01:16:47excepcional,
01:16:48mas não é excepcional.
01:16:51Ele é um momento
01:16:52que o cinema brasileiro
01:16:54sempre devia ocupar
01:16:55e sempre ocupou.
01:16:57Ninguém liquida
01:16:59o cinema brasileiro.
01:17:00não há
01:17:02quem faça.
01:17:06Nós aqui no Brasil
01:17:08fazemos
01:17:08e continuaremos
01:17:09a fazer
01:17:10um cinema humano,
01:17:12humanista.
01:17:13E eu só quero
01:17:14que nossa família
01:17:15cinematográfica
01:17:17permaneça unida,
01:17:18lutando,
01:17:19e me alegra muito
01:17:20ver aqui
01:17:21todos esses rostos,
01:17:23essas caras
01:17:23que põem
01:17:24os filmes na tela.
01:17:25porque precisa
01:17:27é botar
01:17:27os filmes na tela.
01:17:28Então nós temos
01:17:30que dizer,
01:17:31chega de burocracia
01:17:33e vamos fazer cinema
01:17:35e botar
01:17:35tudo na tela.
01:17:42O cinema
01:17:43não é apenas
01:17:44um entretenimento,
01:17:46é entretenimento,
01:17:49mas é também
01:17:50uma fonte
01:17:51de conhecimento,
01:17:52de informação.
01:17:54Os filmes
01:17:55têm que ter
01:17:55uma função
01:17:56também social.
01:17:58No Grupo Cinema Novo
01:18:00a gente queria
01:18:01reunir
01:18:02os filmes
01:18:03todos
01:18:03até então feitos,
01:18:05documentários,
01:18:06filmes de ficção,
01:18:07e através
01:18:09desses filmes,
01:18:10numa edição
01:18:12de cenas
01:18:14desses filmes
01:18:15e compondo
01:18:16um quadro
01:18:18histórico,
01:18:19social,
01:18:20político e econômico
01:18:21do Brasil.
01:18:23Contando
01:18:24a história
01:18:24do Brasil
01:18:25através dos filmes
01:18:26brasileiros,
01:18:27que seria repartido
01:18:29em vários capítulos
01:18:30e ficaria sendo exibido,
01:18:32não só
01:18:34das televisões,
01:18:35em salas de cinema.
01:18:37Não é a história
01:18:38
01:18:38a história oficial,
01:18:41mas a história
01:18:44que está na vida brasileira
01:18:48sendo vivida
01:18:49no cotidiano.
01:18:52Se eu não conseguir
01:18:54ver esse filme
01:18:55feito,
01:18:56eu acho
01:18:57que é uma
01:18:59lacuna
01:19:00na nossa
01:19:02carreira
01:19:04cinematográfica,
01:19:05na nossa
01:19:06produção cinematográfica.
01:19:07terra
01:19:09brasíliis.
01:19:10Terra Brasíliis.
01:19:14Amém.
01:19:54Amém.
01:20:13Amém.
01:20:43Amém.
01:21:12Amém.
01:21:45Amém.
01:21:51Amém.
01:21:52Amém.
01:21:59Amém.
01:22:01Amém.
01:22:02É isso.
01:22:04Oi?
01:22:18Amém.
01:22:37O que será que será?
01:22:39Que andam suspirando pelas alcovas?
01:22:43Que andam sussurrando em versos de trovas?
01:22:46Que andam combinando no breu das tocas?
01:22:49Que anda nas cabeças, anda nas bocas?
01:22:52Que andam acendendo velas nos becos?
01:22:56Que estão falando alto pelos botecos?
01:22:59Que gritam nos mercados
01:23:01Que com certeza está na natureza?
01:23:04Será que será?
01:23:06O que não tem certeza nem nunca terá?
01:23:09O que não tem conserto nem nunca terá?
01:23:13O que não tem tamanho?
01:23:17O que será que será?
01:23:19Que vive nas ideias desses amantes?
01:23:22Que cantam os poetas mais delirantes?
01:23:25Que juram os profetas embriagados?
01:23:28Que está na romaria dos mutilados?
01:23:32Que está na fantasia dos infelizes?
01:23:36Que está na alegoria das meretrizes?
01:23:39Nos planos dos bandidos, dos desvalidos
01:23:42Em todos os sentidos?
01:23:44Será que será?
01:23:45O que não tem decência nem nunca terá?
01:23:49O que não tem censura nem nunca terá?
01:23:53O que não faz sentido?
01:23:56O que será que será?
01:23:59Que todos os avisos não vão evitar
01:24:02Porque todos os risos vão desafiar
01:24:05Porque todos os sinos irão repicar
01:24:08Porque todos os sinos irão consagrar
01:24:12E todos os meninos vão desinvestar
01:24:15E todos os destinos irão se encontrar
01:24:18E mesmo o padre eterno que nunca foi lá
01:24:22Olhando aquele inferno vai abençoar
01:24:25O que não tem governo nem nunca terá
01:24:28O que não tem vergonha nem nunca terá
01:24:32O que não tem juízo
01:24:37Seu milenço
01:24:37É a terra
01:24:54Ou não tem juízo
01:24:54O que não tem juízo
01:24:54O que não tem juízo
01:24:54É a terra
01:25:17Legenda Adriana Zanotto
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