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00:08Olá, bem-vindas e bem-vindos a mais um Ponto de Vista.
00:12No programa de hoje, vamos abrir espaço para as dores crônicas.
00:17Você sabia que, segundo a OMS, a Organização Mundial da Saúde,
00:21cerca de 30% da população convive com algum tipo de dor crônica?
00:27Mas muitas dessas pessoas não recebem o diagnóstico adequado.
00:32Para falar sobre isso, nós convidamos o neurocirurgião Luiz Severo,
00:38especialista no tratamento das dores crônicas.
00:41Dr. Luiz Severo, muito obrigado por estar aqui com a gente hoje e seja muito bem-vindo.
00:47Obrigado pelo convite, sem dúvida uma temática importantíssima.
00:50Se a gente for colocar, 80 milhões de pessoas no nosso país sofrem com dor crônica.
00:54Falar sobre isso é fundamental.
00:56É, eu soube que, segundo a OMS, né, eu falei aí, 30%.
01:01É um percentual bastante alto.
01:03E eu li que no Brasil esse percentual é maior ainda.
01:07O senhor falou agora 80 milhões de pessoas, isso dá o quê?
01:10Uns 40%, 45%.
01:12Mais ou menos da nossa população.
01:14É muita gente, não é, doutor?
01:15Sim.
01:16Por isso a necessidade da gente estar falando sobre como diagnosticar e tratar essas dores crônicas.
01:21E entender o que é essa dor crônica.
01:24Porque é muito mais do que é uma alteração do exame.
01:28Mas dor crônica, pela definição da própria Organização Mundial de Saúde, dor,
01:32é uma experiência sensorial, subjetiva, emocional, desagradável.
01:37Essa dor, portanto, pode aparecer no exame de ressonância com a lesão do ombro,
01:44uma lesão de joelho, da coluna, mas pode não aparecer nada, como, por exemplo, nas enxaquecas, fibromialgia.
01:50Então é fundamental o diagnóstico preciso para que a gente desenhe um plano terapêutico adequado.
01:55Quais seriam as dores crônicas mais comuns?
01:59Quando a gente está falando desses 80 milhões de pessoas, até 80 milhões de pessoas no nosso país sofrendo dor
02:03crônica,
02:04primeira coisa, sem dúvida, é a dor lombar.
02:06A principal causa de afastamento no trabalho, impacto na vida social, na vida laboral, na vida sexual.
02:12É aquela dor lombar que corre pela perna e, na maioria das vezes, não é hérnia de disco a causadora,
02:19mas está ligado, sim, a contraturas musculares persistentes, a muito tempo sentado, a falta de atividade física.
02:26Dois, enxaqueca.
02:27Três vezes mais comum na mulher do que no homem, a enxaqueca crônica.
02:31Aquela dor de cabeça, latejante, náusea, vômito, a luz, o barulho incomoda,
02:37piora no período menstrual, o cheiro de alguma coisa desencadeia a crise.
02:41É a segunda doença que gera dor mais comum.
02:44Terceiro, são as dores articulares.
02:46Dor lombar, dores como pós-chikungunya, as dores de artrose no joelho, lesões de manguito rotador,
02:53são dores bastante frequentes.
02:55E, por fim, fibromialgia.
02:57Uma doença crônica com dores difusas pelo corpo, associada à fadiga,
03:02a dores difusas, à ansiedade, à insônia persistente.
03:05A fibromialgia é uma doença típica das mulheres ou o homem também pode sofrer de fibromialgia?
03:12Na fibromialgia, a gente tem uma prevalência aí de até nove pessoas, nove mulheres para um homem.
03:18Alguns estudos já colocando seis mulheres para um homem.
03:22Ou seja, é muito mais frequente na mulher.
03:24Como você percebeu, enxaqueca três vezes mais.
03:27Fibromialgia é seis a nove vezes mais.
03:30Dor lombar, quatro vezes mais.
03:32Dores articuladas, três vezes mais.
03:33Mas por que a mulher sofre tanto de dores crônicas comparada ao homem?
03:38Primeiro, a mulher tem flutuação hormonal.
03:40Como a dor é percebida no cérebro, esse cérebro desajustado,
03:44ele flutua também com a experiência de dor pela flutuação dos hormônios.
03:48Os hormônios femininos ativam esse cérebro e fazem com que ele experimente mais dor.
03:53Dois, a mulher sofre de mais ansiedade e depressão.
03:56E essas condições neuropsicológicas, elas também favorecem a experimentar mais dor.
04:01E três, a mulher foi criada para gestar.
04:05Ou seja, eu tenho um acúmulo de gordura guardada.
04:08E essa gordura geralmente também se torna inflamatória e experimenta mais dor.
04:12Agora, doutor, como é esse percentual tão alto aí?
04:15A gente falou 30% a nível mundial, 40% aqui no Brasil.
04:20Como é que isso se reflete no ambiente de trabalho, por exemplo?
04:23Conexão total.
04:24Estamos vivendo um boom de saúde mental, concorda?
04:27Estamos colocando que o Brasil é o país mais ansioso do mundo,
04:31um dos países mais depressivos do mundo,
04:33um dos países com mais afastamentos por ansiedade e burnout.
04:37E essa conexão saúde mental e dor é totalmente entendível.
04:43Imagina um cérebro.
04:44Esse cérebro, ele foi criado com a percepção de transmitir dor ou não,
04:49perceber bons relacionamentos, ter felicidade, cognição, energia.
04:54Quando eu tenho sobrecargas no trabalho, seja burnout, seja ansiedade, depressão,
04:59esses sintomas vão alterando a maquinaria.
05:02Então aquela maquinaria cerebral que foi criada para transmitir dor só em alguns momentos,
05:07começa a alarmar.
05:08É como se fosse uma chave e fechadura que foi ligada e não consegue desligar.
05:14Entra-se num padrão de sofrimento.
05:16A dor emocional e a dor física, ela não tem diferença no cérebro.
05:20O meu cérebro e o do paciente vai perceber da mesma maneira.
05:25O processamento da dor começa a se alterar.
05:28E é nesse processo de inflamação crônica, de medo do diagnóstico,
05:33de demora no diagnóstico e abuso medicamentoso,
05:36que vai amplificando essa percepção de dor.
05:39E o paciente se torna cada vez mais impactado.
05:42Agora, doutor, sem um diagnóstico preciso,
05:45o trabalhador também tenta um laudo médico,
05:50às vezes, e não consegue, em função dessa dor crônica,
05:53seja uma enxaqueca, seja fibromialgia.
05:57Isso significa que eles vão ter mais,
06:00esses trabalhadores vão ter mais dificuldades no trabalho também,
06:04porque ele não consegue provar que sente aquela dor.
06:08O médico não dá um laudo que ele precisaria apresentar.
06:12Então, ele, às vezes, não sei se tem, talvez tenha até dificuldade,
06:16em alguns casos, de conseguir um atestado, né?
06:19Sim.
06:20E isso se reflete no ambiente de trabalho,
06:22e ele pode ter, muitas vezes, até vítimas de,
06:27essas pessoas podem ser vítimas de preconceito no ambiente de trabalho também.
06:32Com certeza.
06:33Quando a gente está sob uma visão um pouco superficial do que é dor,
06:38eu quero justificar a dor por uma lesão que está na ressonância, no raio-x.
06:43Mas hoje, a neurociência da dor deixa claro que dor é uma experiência.
06:46Ou seja, eu tenho que acolher o sofrimento,
06:49eu tenho que acolher a lesão,
06:51e eu tenho que avaliar a neuroinflamação.
06:54Olha como é difícil uma avaliação, às vezes, superficial,
06:58feita pelo médico perito.
06:59Por isso, a necessidade de uma avaliação muito mais ampla.
07:03É óbvio, quando a gente está falando dentro do universo previdenciário,
07:06a gente tem que ter métricas, tem que ter pontos,
07:10e esses pontos são respeitados pelos médicos peritos.
07:12Mas a visão, ela tem que ser mais ampliada.
07:15Quando eu entendo que aquela minha paciente que tem fibromialgia,
07:18e que os exames laboratoriais, exames de ressonância não mostram nada,
07:22eu tenho que ampliar o meu escopo de avaliação.
07:26Então, existem questionários validados internacionalmente,
07:29que avaliam o impacto.
07:30Porque quando a gente está diante de um paciente com dor,
07:33muito mais importante do que saber a intensidade da dor de 0 a 10.
07:37Não, a importância é o que essa dor te tira de qualidade de vida.
07:41E essa incapacidade extrapola também a capacidade laboral.
07:45Então, o ponto fundamental do médico perito é avaliar o impacto laboral.
07:49O quanto que aquela doença o afasta de realizar aquela atividade que ele foi treinado.
07:55E aí, pensarmos em redução de carga horária, em mudança de funções dentro da empresa,
08:01daí é uma avaliação extremamente minuciosa, sendo feita por toda uma equipe multidisciplinar.
08:05Esses casos de dores que o paciente não consegue provar, não tem um laudo, não tem um atestado,
08:14isso causa um certo desconforto, para dizer o mínimo,
08:19no ambiente de trabalho, uma certa exclusão desse paciente.
08:24As pessoas começam a não contar tanto com aquela pessoa e, às vezes, até demissão.
08:29O senhor, no seu dia a dia, já encontrou pacientes com situações parecidas como essas que eu estou dizendo aqui?
08:37Sim, sim. A dor crônica, ela incapacita em todos os eixos.
08:40Então, não é incomum pacientes, por exemplo, de fibromialgia,
08:44em que tem tanta dificuldade de mostrar a real dor,
08:48porque a dor dos pacientes com fibromialgia são dores invisíveis.
08:51E a dor invisível não sangra.
08:53E ainda mais sendo uma mulher, em que dentro de uma sociedade machista e sexista,
08:58faz com que ela se prove muito mais para mostrar que aquela dor que não aparece nos exames incapacita.
09:05Então, não é infrequente a gente ter pacientes que,
09:08depois que retornam de um atestado de um período específico, serem demitidas,
09:13ou mesmo não serem enquadradas como potencial para ganhar mais, para ganharem promoção.
09:20Isso tudo vai impactando, porque, como eu disse, dor é uma experiência sensorial e emocional.
09:25Se a paciente que tem enxaqueca, ela percebe que ela está sendo escanteada,
09:29lá vai a maioria das dores, ela sempre tem crise de enxaqueca,
09:33nossa senhora, veja, como isso impacta no dia a dia,
09:37junto ao trabalho, junto à vida social, junto à família.
09:42Porque quem tem dor crônica não impacta só lá a pessoa,
09:45mas impacta todos ao seu redor.
09:47Então, com o CID-11, nós hoje no Brasil utilizamos o CID-10,
09:51que é a classificação internacional de doença, o CID-11 vai revolucionar
09:56a forma como nós enxergamos esses pacientes.
09:59Agora, já temos uma lei da dor crônica,
10:01em que dá visão e coloca o dia 5 de julho como o dia nacional da dor crônica,
10:08essa lei também amplifica a visão de que dor não é apenas a lesão.
10:12Consequentemente, todos envolvidos nesse processo,
10:15a parte judiciária, a parte previdenciária e a parte assistencial,
10:20ou seja, é o médico que atende, é a equipe multidisciplinar,
10:23é o médico do INSS, ou mesmo a sociedade vai começar a entender
10:29que o sofrimento dela é verdadeiro, ela existe, só que é funcional,
10:34é na forma como o cérebro programa a dor, e não estrutural, uma lesão, um tumor.
10:41O senhor naturalmente fez o curso de medicina, né?
10:43Como foi que surgiu o seu interesse pelo estudo da dor?
10:48Eu fiz faculdade de medicina na Federal de Ceará, sul cearense,
10:51vim para o Recife, onde eu fiz a residência de neurocirurgia no Hospital da Restauração,
10:56e ao longo da formação como neurocirurgião clássico,
10:59a gente aprende a operar, a gente aprende a salvar,
11:01a gente aprende a impactar a jornada do paciente naquele ponto e evitar que ele morra.
11:06Ou seja, o sangramento na cabeça, um tumor cerebral,
11:09uma lesão grave na coluna, cirurgicamente,
11:12nunca vão deixar de existir, e precisamos dessas intervenções.
11:16Só que eu comecei a entender que eu transformava muito mais a história do paciente
11:20quando eu melhorava a qualidade de vida,
11:22especialmente em doenças em que os exames não mostravam nada.
11:25Por exemplo, Parkinson, os exames de ressonância,
11:29geralmente não mostram alterações.
11:31Epilepsia, muitas das vezes os exames não são alterados.
11:34E dor crônica.
11:35Então veio a neurocirurgia funcional,
11:37que trata dores e doenças disfuncionais,
11:41de um cérebro doente.
11:43Quando eu entendi que tínhamos uma população de quase 80 milhões de pessoas
11:47sofrendo de dor crônica,
11:49por que não cuidar dessa população enorme no nosso país?
11:51É óbvio, sendo um dos médicos da dor,
11:54se eu tenho 80 milhões de pessoas no nosso país com dor crônica,
11:57quantos médicos da dor a gente tem?
11:58Só 1.500.
11:59Olha o desafio.
12:00É muito comum o paciente...
12:02Foi aí que o senhor resolveu direcionar o seu trabalho
12:06para o estudo e o tratamento da dor.
12:09Exatamente.
12:10Quando a gente entende que o paciente precisa de uma visão muito mais ampla.
12:13É muito comum se eu tenho uma dor no ombro,
12:15eu vou no ortopedista.
12:17Eu tenho uma dor de cabeça,
12:18eu vou no neurologista.
12:20Eu tenho uma dor crônica do pé,
12:22eu vou no ortopedista do pé.
12:24Eu tenho uma dor pós-cirurgia,
12:26eu vou no anestesista.
12:27Eu tenho uma dor pós-chikungun,
12:29eu vou no reumatologista.
12:31É muito comum essa visão fragmentada do cuidado.
12:33Quando eu me torno um médico da dor,
12:36eu entendo que o tratamento é feito pelo médico da dor,
12:39com o pilar de tratar a inflamação,
12:42tratar a causa e reorganizar o cérebro.
12:44E dessa maneira,
12:45eu impacto verdadeiramente a jornada do paciente.
12:48Doutor, em 2024,
12:49o seu interesse pelo assunto virou até um livro, né?
12:52Esse aqui,
12:53Você Não Precisa Sentir Dor.
12:55Pelo título do livro,
12:57a gente já fica pensando assim,
12:59o título é meio provocativo, né?
13:01Você não precisa sentir dor.
13:02Como assim eu não preciso sentir dor?
13:05O senhor pode explicar?
13:06Sim.
13:07A ideia é que,
13:07quando a gente está falando de dor crônica,
13:10educação em dor é o ponto-chave.
13:12É sobre educar o paciente.
13:14O porquê que eu tenho dor crônica?
13:16Quais são os fatores que permanecem a dor?
13:18Qual alimento piora a dor crônica?
13:20Tem pacientes, por exemplo, com enxaqueca,
13:22que nunca ouviram falar que a melancia piora a enxaqueca.
13:25Que o morango pode piorar a enxaqueca.
13:28Que o café é demais.
13:29Que alguns medicamentos.
13:30Além disso, a gente fala de tratamentos.
13:32O cerne do livro é sobre mudança do estilo de vida.
13:36Muito mais do que apenas um médico da dor
13:38prescrever um analgésico para paralisar a dor,
13:41a gente tem que sempre lembrar que eu tenho que,
13:43um, tratar a causa.
13:45Dois, tratar a inflamação.
13:46E três, reorganizar o cérebro.
13:48E a mudança do estilo de vida é fundamental.
13:49Quando eu tenho alimentação anti-inflamatória,
13:53com menos açúcar, menos glúteo, menos leite,
13:57associada à atividade física regular,
13:59associada ao controle do estresse e controle do sono,
14:03esse é o pilar para a nossa saúde mental.
14:05E, portanto, melhora das dores crônicas.
14:07Então, o livro, ele tem esse objetivo de falar de que
14:09você não precisa sentir dor porque eu te trago conhecimento,
14:13eu te trago educação,
14:15eu te trago formas de você entender o que está acontecendo.
14:20E quando a gente entende o que está acontecendo,
14:22a gente começa a perceber que existem caminhos.
14:25Porque é muito comum o paciente sentir de que nada melhora.
14:28Ele tem muita frustração, muito medo.
14:30Estamos falando de dores complexas.
14:32São pacientes que sofrem de dor dia e noite.
14:36Pode ser dor persistente ou dor episódica,
14:38que vai e que volta.
14:40Mas que está incapacitando a vida dele.
14:42Quando a gente mostra caminhos, isso transforma ele.
14:44Eu vi aqui que eu falei já que o livro foi lançado em 2024.
14:48São quase dois anos já do lançamento dele.
14:51De que forma ele tem sido recebido?
14:54Como é que o senhor avalia esses quase dois anos do livro?
14:57No primeiro ano, após o primeiro ano,
14:59a gente conseguiu fazer com que ele se tornasse um best-seller.
15:01Isso foi bem interessante.
15:03Então, a gente lançou a segunda edição com alguns outros ajustes.
15:06E o que a gente tem observado,
15:08recebendo feedback dos meus pacientes,
15:10pessoas nas redes sociais,
15:12é de que o livro consegue ajudar a ter algo muito simples
15:17para que ele entenda que exercícios podem melhorar a minha dor na lombar.
15:21Que alimentos eu posso utilizar que podem aliviar a minha dor.
15:25De que maneira a fé e a espiritualidade impactam verdadeiramente na experiência de dor crônica.
15:31São pontos que são centrais,
15:33que ultrapassam e que reforçam a necessidade de que a população precise entender
15:39que existe uma quantidade enorme de pessoas sofrendo com isso
15:42e que, portanto, entender o porquê que essa dor persiste e é tão complexa
15:46para que a gente consiga respeitar,
15:49consiga acolher e consiga tratar adequadamente.
15:51Muito bem.
15:52Doutor Luiz Severo, a gente vai fazer um rápido intervalo.
15:55Você que está acompanhando a gente,
15:56não saia daí.
15:57A gente volta já, já.
16:11O Ponto de Vista está de volta.
16:13Hoje eu estou recebendo aqui o neurocirurgião Luiz Severo.
16:17Doutor, vamos continuar a nossa conversa aqui.
16:20Eu falei que o senhor é neurocirurgião, né?
16:23Falei agora e falei logo no início do programa também.
16:27E eu queria saber o seguinte, as pessoas que têm dores crônicas,
16:30quando vão tratar, ficam pensando,
16:33mas será que eu vou precisar fazer uma cirurgia para me livrar dessa dor?
16:37O que é que o senhor responde a essas pessoas e a essa curiosidade que também eu tenho?
16:42Não.
16:42A grande maioria dos pacientes que têm dor crônica não precisam de cirurgia.
16:47O que eles precisam é de um tratamento otimizado.
16:49Estamos no julho verde,
16:51um mês dedicado ao tratamento e conscientização da dor crônica.
16:55Tratar a dor na lombar, dor no joelho,
16:58dores articulares não precisa de cirurgia.
17:01O que precisa é de um plano terapêutico adequado,
17:03em que eu sei qual é a causa,
17:05eu desinflamo o organismo e trato a alteração cerebral.
17:09Então, por exemplo,
17:09eu tenho um paciente com enxaqueca,
17:11uma dor persistente, incapacitante,
17:14que afeta a criancinha lá na atividade escolar
17:18até a adulto no período da menopausa.
17:21Essa dor de cabeça,
17:23cada vez mais a gente não precisa de tratamento cirúrgico.
17:26O que a gente precisa é de tratamento da causa.
17:29E hoje em dia, a causa, a gente entende que é acúmulo de uma substância,
17:32chamada CGRP.
17:34Se a causa é o acúmulo dessa substância,
17:37qual o tratamento?
17:38Retirar o CGRP.
17:39Então, estamos falando de vacina para enxaqueca,
17:41que retira o CGRP.
17:42Estamos falando de botox para enxaqueca,
17:44que retira o CGRP.
17:45No paciente de dor lombar, por exemplo,
17:47a principal causa não é uma hernia de disco comprimido nervo ciático.
17:52Na maioria das vezes, é muscular.
17:54Então, o tratamento é baseado em quê?
17:56Primeiro, exercícios físicos específicos.
17:59Então, eu preciso de um fisioterapeuta,
18:01de um osteopata,
18:02que alinque, que organize esse corpo
18:05que está muitas das vezes sem se movimentar.
18:07Dois, eu preciso diminuir a inflamação do corpo.
18:10Então, uma alimentação com menos açúcar,
18:13menos glúteo é fundamental.
18:15Três, muitas das vezes o paciente tem muito medo de se movimentar.
18:18Então, psicoterapia, acompanhamento psicológico,
18:21faz toda a diferença.
18:22Olha como é estranho, muitas vezes, né?
18:24Nossa, eu tenho dor na lombar e o meu doutor está prescrevendo
18:27um acompanhamento psicológico, sim.
18:30E quando a gente entende que esse componente emocional
18:33está alimentando e retroalimentando a experiência de dor,
18:36faz toda a diferença, porque aí sim o resultado vem.
18:38Como é que o senhor vê tratamentos como a acupuntura, por exemplo?
18:42A acupuntura, ela já é uma recomendação feita pelo nosso Ministério da Saúde
18:47e pela Organização Mundial de Saúde.
18:49Estamos falando de práticas integrativas.
18:51Isso deve ser o cerne dos tratamentos de dor crônica.
18:54A Organização Mundial de Saúde, no ano passado,
18:56fez uma recomendação para todo mundo
18:58de que pacientes com dor crônica, ansiedade, depressão, burnout
19:03devem ser oferecidos como um tratamento complementar à acupuntura.
19:08De que maneira a acupuntura, ela melhora a dor crônica?
19:11A gente vem falando aqui que dor é uma experiência sensorial.
19:14Ou seja, o meu cérebro, os mais de 86 milhões de neurônios,
19:18eles estão transmitindo percepção de dor.
19:22Ou seja, criou-se um padrão, uma memória da dor.
19:25Quando utilizamos a acupuntura, na ponta da agulha,
19:28em pontos específicos, estudados de maneira milenar.
19:32Estamos falando de uma medicina ancestral, uma medicina milenar.
19:35E foram mapeados pontos em que eu coloco nas mãos,
19:39no ombro, nos braços, nos pés.
19:41E a ponta da agulha, ela faz um estímulo elétrico,
19:45um estímulo químico e um estímulo hormonal.
19:48Ou seja, aquele ponto de agulha, ele libera substâncias
19:52que equilibram a serotonina, a dopamina, o cortisol,
19:57que estão todos alterados no paciente com dor crônica.
19:59Portanto, quando a gente utiliza a acupuntura
20:02e outras práticas integrativas,
20:04dentre elas a massoterapia, a osteopatia,
20:07os óleos essenciais, a utilização de massagens,
20:11todas essas práticas liberadas pelo Ministério da Saúde
20:14e a Organização Mundial de Saúde,
20:15reforçam a necessidade de entender esse paciente
20:18uma visão corpo, mente e espírito.
20:21E quando se entende isso, a gente impacta verdadeiramente.
20:24O paciente começa a desacelerar,
20:26o cérebro volta num padrão melhor,
20:28melhora o sono, melhora a ansiedade,
20:30melhora o humor e melhora a dor.
20:32Quer dizer, tudo tem que ser tratado como um todo,
20:35não é uma coisa só.
20:39Visão 360.
20:40Exato, a gente precisa ver todas as variáveis,
20:44digamos assim, da vida da pessoa
20:48para poder tratá-la melhor.
20:49Exatamente, porque é muito como, por exemplo,
20:51nossa, uma mulher chega para mim com a dor no quadril.
20:53O que pode ser uma dor no quadril?
20:55Uma visão superficial seria o quê?
20:57Fazer um exame do ressonância de quadril
20:59e ver se tem artrose no quadril ou não.
21:01Mas se eu não perguntar à minha paciente
21:04como é que está o período da menopausa?
21:06A senhora já está na menopausa?
21:07Como é que estão os exames laboratoriais
21:09para haver grau de inflamação?
21:11Como é que está a sua alimentação e o nível de estresse?
21:13Se eu não ancorar todos esses pontos,
21:16eu vou falhar no tratamento.
21:17É o que acontece na maioria das vezes.
21:19É por isso que a gente tem muitos pacientes com dor crônica.
21:21Porque se a gente tiver uma visão apenas mecanicista,
21:24o resultado é fraco.
21:26Mas quando eu englobo o meu paciente,
21:28eu entendo.
21:28Ah, é um paciente com mais de 45 anos,
21:31no período da menopausa,
21:32em que existe, da mesma forma que a pele
21:34fica mais enrugada,
21:36a vagina fica com o aspecto mais ressecado,
21:39os tendões do ombro,
21:41os tendões do quadril,
21:42também vão ficar ressecados.
21:43Então, essa paciente, muitas das vezes,
21:45precisa fazer reposição hormonal
21:47para tratar efetivamente a dor crônica do quadril.
21:50É essa visão 360 que o paciente precisa ser colocado.
21:54E então, a gente impacta de maneira real.
21:57E quando eu tiro o remédio,
21:58a dor dela não volta.
21:59O senhor falou que, na maioria das vezes,
22:01o tratamento da dor não passa por cirurgia.
22:05Passa por quais tratamentos,
22:07além do que o senhor já falou,
22:08quais seriam os principais tratamentos?
22:11Então, o primeiro tratamento,
22:13sem dúvida,
22:13quando estou falando de dor crônica,
22:15é acompanhamento multidisciplinar.
22:16Então, a gente vai oferecer e recomendar ao paciente
22:19o acompanhamento nutricional, psicológico e fisioterápico.
22:22Isso é a base.
22:23É o que tem maior evidência em congressos nacionais e internacionais.
22:27Dois, eu tenho que tratar a inflamação.
22:30Então, eu tenho que verificar
22:31como é o nível de vitamina D, vitamina B12,
22:35homocisteína, proteína serrativa.
22:37São exames laboratoriais que a gente colhe
22:39e avalia no paciente.
22:41Se estiverem alterados, tem que ser tratados,
22:43porque se não trata a inflamação,
22:44o paciente vai voltar a ter dor.
22:46Terceiro, eu tenho que entender o que eu estou tratando.
22:49Eu estou tratando uma dor lombar?
22:51Qual é a causa daquela dor lombar?
22:53Então, eu posso tratar com o que?
22:55Já que não é cirurgia.
22:56A gente vai tratar, além de exercícios,
22:58vai tratar com toxina botulínica,
23:01pode tratar com radiofrequência,
23:03porque a ideia qual é?
23:04Os nervos estão transmitindo dor.
23:06Mas se aquela dor, se eu paralisar esse nervo,
23:09a dor some.
23:10Então, a radiofrequência,
23:12ou os bloqueios e infiltrações,
23:14são procedimentos minimamente invasivos,
23:16sem cortes,
23:17em que a gente coloca uma agulha
23:18no local onde o nervo está transmitindo a dor.
23:20E eu paraliso essa dor.
23:22Da mesma forma, a medicina regenerativa.
23:25Até agora, o Conselho Federal de Medicina
23:26liberou, inclusive,
23:28a utilização do plasma rico em plaqueta,
23:30em que a gente tira sangue do paciente,
23:32um sangue puro,
23:34processa e as plaquetas
23:35que são colocadas na articulação do joelho,
23:38do ombro,
23:38e regeneram aquela cartilagem.
23:41Então, veja que existe uma porção de possibilidades.
23:43E um dos tratamentos
23:44que tem ganhado muita evidência
23:46é o que a gente chama de neuromodulação.
23:48O que é?
23:49É o terceiro passo do tratamento.
23:50Se eu quero tratar o cérebro,
23:52e esse cérebro está persistentemente transmitindo dor,
23:54ele se acostumou a transmitir dor.
23:56A neuromodulação são estímulos elétricos
23:58que eu coloco aqui na cabeça,
24:00estímulos na orelha,
24:01estímulos muito simples,
24:02em que esses estímulos reorganizam
24:05o padrão do cérebro.
24:06E o cérebro apaga a memória da dor.
24:08E isso vai transformando
24:09e faz com que o paciente
24:10vá melhorando gradativamente.
24:11Porque se eu trato com a neuromodulação,
24:13eu melhoro o sono,
24:14eu melhoro o humor,
24:15eu melhoro a dor.
24:16Quando a gente trata esses pilares do cérebro,
24:20que é o sono,
24:21o humor,
24:22a energia e a memória,
24:24começam a melhorar.
24:25Quando o senhor diz no livro
24:26você não precisa sentir dor,
24:29isso significa que é possível superar qualquer dor?
24:32Toda dor tem tratamento.
24:34Toda dor tem tratamento.
24:36Ninguém precisa ficar sentindo dor o tempo todo.
24:38Sim.
24:39Toda dor tem tratamento.
24:40E você pode perguntar,
24:41isso quer dizer que dor crônica tem cura?
24:44Não.
24:45Estamos falando de uma condição crônica
24:47igual a hipertensão,
24:49diabetes,
24:49colesterol,
24:50igual a doenças crônicas
24:52como a gente conhece.
24:54Só que essas doenças crônicas,
24:56como dor crônica,
24:56não precisa ser feito tratamento medicamentoso
24:59a vida toda.
25:00Quando eu trato,
25:01eu coloco a medicação.
25:03Junto com essa medicação,
25:04eu mudo o estilo de vida,
25:05eu coloco o paciente
25:06para fazer atividade física,
25:07eu perco peso,
25:08eu desinflamo,
25:09eu trato a causa,
25:10eu tiro a medicação
25:11e a dor não volta.
25:13Só que, claro,
25:14estamos falando de dores complexas.
25:16As dores complexas
25:18exigem um tratamento mais prolongado,
25:20mas que trazem efetivamente.
25:22O que a gente sempre fala
25:23nesse mês de julho verde
25:24é reforçar isso,
25:25de que dor crônica tem tratamento,
25:28dor crônica e toda dor tem o história.
25:29Não tem cura,
25:30mas tem tratamento.
25:31Não tem cura,
25:31mas tem tratamento.
25:32E a grande ideia do médico da dor
25:35é transformar o medo em esperança,
25:38a dor em resolução.
25:40O objetivo do médico da dor
25:42é tirar a dor 10,
25:44de 0 a 10 muito intensa,
25:45e chegar a 2, 1, 2.
25:47Uma dor que não incapacita,
25:48uma dor ausente.
25:49Esse é o objetivo.
25:50E para isso,
25:51tem que lançar a mão
25:52de diversas estratégias.
25:54Veja que mal falei
25:55de tratamento medicamentoso,
25:56porque o medicamento
25:57não é o cerne.
26:00Dor não é falta de remédio,
26:01insônia não é falta de remédio,
26:03ansiedade não é falta de remédio.
26:04Tudo isso está condicionado
26:05em um cérebro doente.
26:06E quando a gente reorganiza esse cérebro,
26:09a gente impacta na vida do paciente.
26:11A gente já viu que as mulheres
26:12têm mais problemas no trabalho
26:14por causa das dores crônicas.
26:16Quais as razões?
26:17Por que as mulheres sofrem mais
26:19com essas doenças do que os homens?
26:21A mulher tem mais insônia,
26:22a mulher tem mais ansiedade e depressão.
26:24E a maquinaria que processa a dor
26:26é a mesma maquinaria das emoções.
26:29Então, concorda que
26:29em uma sociedade machista, sexista,
26:32em que coloca à prova
26:33aquela mulher que quer mostrar
26:35que ela tem dois exames no móstolo,
26:36olha o impacto que isso gera
26:38na cabeça dessa paciente.
26:40Por isso que a mulher sofre de mais dor.
26:42Além disso, a mulher,
26:42ela sofre mais com alterações hormonais.
26:45Então, na menopausa,
26:47ela vai sentir mais dor.
26:48No período da menstruação,
26:49ela tem mais dor.
26:50Durante a relação sexual,
26:52pode sentir mais dor.
26:53Veja um impacto real que ocorre.
26:55Então, a mulher,
26:56ela sofre e experimenta
26:58muito mais dor do que o homem.
26:59A grande questão é
27:00como a gente vai diagnosticar?
27:03Tem estudos mostrando
27:04que a mulher passa
27:05três vezes mais por médicos
27:06do que o homem
27:07para ser validada,
27:09para ser confirmado o diagnóstico,
27:11para receber um laudo.
27:12Quer dizer, o preconceito
27:13está também nos consultórios médicos.
27:15Sim, o preconceito.
27:16Porque nós, médicos,
27:18somos reflexos da nossa sociedade.
27:19Uma sociedade machista, sexista,
27:22faz com que nós,
27:23muitas das vezes,
27:24questionemos isso.
27:25Só que, claro,
27:26quando estamos diante
27:27de um médico da dor,
27:28a nossa visão é diferente.
27:29A nossa visão é,
27:30ok, a sua dor é verdadeira,
27:32a sua dor existe.
27:33Vamos encontrar a forma
27:34de como paralisar ela.
27:36Não é sobre questionar
27:37a validade,
27:38a existência dela.
27:39Porque dor é uma experiência.
27:41Ela está no cérebro.
27:42Eu não consigo mostrar
27:44que o meu cérebro sofre,
27:45mas eu consigo quantificar
27:47em questionários
27:48o grau de impacto
27:49que esse sofrimento
27:50tem trazido na vida do paciente.
27:52Então, quando a gente acolhe,
27:54esse é o diferencial.
27:55A gente respeita,
27:56a gente aceita
27:57e não questiona
27:58a presença dessa dor.
27:59O que resta agora
28:00é o que vamos fazer
28:01a partir daqui.
28:02Estamos juntos nessa.
28:04Muito bem.
28:04Doutor Luiz Severo,
28:06acho que foi bastante esclarecedor
28:07a conversa aqui.
28:08Muito obrigado pela entrevista.
28:10Obrigado mais uma vez
28:11pelo convite.
28:12E para você que acompanhou
28:13até aqui,
28:14obrigado também
28:14por sua audiência e companhia.
28:16a gente volta
28:17na semana que vem.

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