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00:09Olá, começa agora mais um Ponto de Vista e hoje nós vamos falar de um livro recém-lançado
00:16que é uma homenagem ao ex-governador Eduardo Campos.
00:20Esse livro aqui, para falar sobre ele e também sobre a convivência com Eduardo Campos,
00:26eu recebo aqui o jornalista e escritor Evaldo Costa, que foi assessor de imprensa e também secretário de Eduardo.
00:34Evaldo, seja muito bem-vindo e obrigado por ter aceitado o nosso convite.
00:39Eu que agradeço, Fernando, pela oportunidade de vir aqui na TV Tribuna e para falar sobre esse livro,
00:45que é um trabalho que eu e meu amigo, meu colega Ítalo Rocha, fizemos com muito carinho,
00:50para homenagear, como você diz, mas também para compartilhar conhecimento e informação
00:56sobre a trajetória de uma grande liderança política, conhecimento sobre métodos de ação,
01:04sobre maneira de pensar de Eduardo Campos, que nós acreditamos que sejam úteis nesse momento
01:10na vida brasileira, na política e na sociedade brasileira.
01:13Eu quero começar falando exatamente, o livro reúne 48 histórias, foram selecionadas por você e por Ítalo Rocha Leitão,
01:22o outro autor do livro, e eu queria saber como foi o processo de escolha de cada uma das histórias
01:28que estão aqui.
01:29A ideia era que a gente contasse um pouco da vida de Eduardo, que fosse uma trajetória,
01:36um tipo de uma biografia, uma abordagem biográfica, mas sem ser propriamente biográfica.
01:42E a única maneira de fazer isso é que fosse contando histórias e que as histórias fossem minimamente engraçadas.
01:48São histórias sérias que descrevem processos decisórios complexos, em momentos críticos,
01:58alguns em momentos altamente críticos, mas sempre tendo uma mensagem final de esperança, de leveza, de alegria.
02:06Então, qual foi o critério? Existem mil e uma histórias sobre Eduardo, que poderiam ser contadas,
02:18mas nós escolhemos aquelas que têm esses ensinamentos, que têm esses conteúdos construtivos e que fossem leves e engraçadas.
02:27É verdade que o livro foi um pedido dos filhos dele, João e Pedro?
02:32Sim. Na verdade, é o seguinte, nós planejamos, a família planejou, algumas pessoas, alguns amigos planejaram,
02:39fazer algumas publicações em homenagem a Eduardo por ocasião do aniversário dele.
02:46Em 10 de agosto do ano passado, ele teria completado 60 anos, para você ver como ele morreu jovem.
02:53Muito cedo, é. Morreu com 49, né?
02:56Morreu com 49 anos, já tendo feito tudo o que ele fez.
03:00Então, a ideia era fazer alguma publicação.
03:02A família apoiou o deputado Pedro Campos, com quem eu trabalho cotidianamente,
03:07eu trabalho no gabinete do deputado Pedro Campos.
03:10Foi uma espécie de editor, um editor muito instigante, porque...
03:15Rigoroso.
03:16Rigoroso.
03:19Buscando a precisão da informação, eu estou acostumado.
03:22Nós, eu e Ítalo, estamos acostumados com isso como jornalistas, mas é sempre bom ter alguém que pede as checagens
03:29todas.
03:30Então, Pedro deu uma contribuição muito importante e João também contribuiu.
03:35Então, foi um processo feito coletivamente com o apoio da família.
03:40O livro foi lançado no dia 9 de abril, né?
03:43Já se encontra nas livrarias?
03:45Quem quiser comprar o livro, já encontra nas livrarias?
03:48Sim, sim.
03:49Você encontra na livraria Jaqueira do Parque da Jaqueira e ali perto do Parque da Jaqueira,
03:55e em outras livrarias de shoppings, você encontra.
03:59Você pode comprar pelo site da própria editora, da Ed Ouro.
04:04Ed Ouro.
04:04É uma grande editora brasileira, da Ed Ouro, pela Amazon, por exemplo.
04:10A Amazon, houve gente que comprou aqui no Recife e recebeu no dia seguinte sem frete.
04:15Então, é um livro fácil de adquirir, custa menos de 70 reais e se lê muito rapidamente, entendeu?
04:23É um livro que eu e Ítalo tivemos uma certa felicidade no trato, porque fizemos um texto leve, um texto
04:32gostoso de ler.
04:34Eu queria saber até, assim, você e Ítalo, quando se sentaram para ver que histórias nós vamos colocar nesse livro,
04:40né?
04:41Como foi que vocês se dividiram, né?
04:43Quem conta o quê?
04:44Quem vai buscar a história onde, né?
04:46Eu sei que tanto você quanto o Ítalo tiveram muita aproximação com o Eduardo Campos, né?
04:51Nós fizemos o seguinte, para começo de conversa, traga o que você conseguir e a gente depois peneira.
04:59O que tiver coincidente, se junta.
05:03Houve casos de que eu comecei uma história e Ítalo também começou e a gente juntou, fundiu, alguém fundiu.
05:11E, na maioria dos casos, as histórias nasceram independentes e se somaram e chegou um determinado momento que tínhamos que
05:20ter todas as fases.
05:22Porque tem a história de Eduardo criança, adolescente, Eduardo deputado estadual, deputado federal, ministro, governador.
05:30Então, tem várias fases e era preciso que, pelo menos, essas fases fossem contempladas com alguma história.
05:36O critério era pessoas que tinham convivido com o Eduardo, por exemplo, o ex-senador de Brasília, Hollenberg.
05:46Rodrigo Hollenberg.
05:47Rodrigo Hollenberg.
05:48Eu sabia, eu convivi com ele aqui e eu sabia que havia uma história, uma história muito boa, que ele
05:54queria ser...
05:55Ele tinha um convite para integrar, assumir o secretariado daquele governador de Brasília que foi preso, o Arruda.
06:03Ele tinha um convite para assumir aquele secretariado, estava querendo assumir, porque era uma oportunidade política que parecia boa a
06:10ele.
06:10Ele estava de férias no Ceará e ele disse a Eduardo isso por telefone.
06:14Essa história nem está aí.
06:17Nem sei se...
06:18E Eduardo disse, vem aqui.
06:20Ele interrompeu o fim de semana de férias lá em Canoa Quebrada.
06:24veio ao Recife e Eduardo disse, você é doido, você vai sujar, vai limpar a biografia de Arruda sujando a
06:33sua.
06:34Ele não foi e uma semana depois Arruda foi preso e deposto.
06:38Então, eu sabia que havia essa história, mas para contá-la eu precisava do relato vivo,
06:46precisava dessa cor que a entrevista com o ex-senador permitiu.
06:53Uma coisa que me chamou muita atenção é que em várias histórias vocês destacam muito que Eduardo tinha pressa, né?
07:02Tinha pressa para fazer as coisas, para concluir as coisas, né?
07:06Eu queria que você citasse alguns exemplos dessa pressa que ele tinha.
07:10Acho que Eduardo tinha...
07:13Eu não sou um místico, não sou um místico,
07:16mas quando você considera que Eduardo morreu com 49 anos de idade
07:20e quando você considera que o avô dele, Miguel Arraes,
07:25se elegeu governador de Pernambuco pela segunda vez,
07:27veja, pela segunda vez ele ainda se elegeria uma terceira e deputado federal duas vezes.
07:33Quando Arraes se elegeu pela segunda vez, tinha 71 anos.
07:37Eduardo morreu com 49, tendo cumprido dois mandatos de governador.
07:40Ele tinha pressa talvez por uma consciência inconsciente,
07:49por um sentimento não consciente de que tinha que fazer algumas coisas...
07:54Tinha que fazer as coisas rápido.
07:55Rapidamente.
07:56E ele fazia.
07:57Ele foi um gestor extremamente aplicado,
08:01que exigia de quem trabalhava com ele,
08:03não só de quem era servidor,
08:05mas, por exemplo, se você fosse um empresário
08:07e tivesse um contrato com o governo do Estado para tomar conta,
08:12você tinha que correr, andar no ritmo das passadas dele,
08:15porque ele não tolerava rame-rame,
08:21pequenas picuinhas.
08:22Ele exigia que as coisas facilitassem.
08:24Tem até uma frase dele que é muito boa,
08:27que ele dizia o seguinte,
08:28tem gente, inclusive está nesse livro,
08:29tem gente que ama problema,
08:32tem gente que leva o problema para casa no final do expediente,
08:35leva o problema para a praia no domingo,
08:38leva o problema para passear no parque.
08:40Eu não.
08:40Quando o problema aparece,
08:42eu procuro resolver logo, imediatamente.
08:44Tem até uma frase que ele diz,
08:45eu não dou intimidade, né?
08:47Não dou...
08:47É, dentro desse contexto...
08:49Não dou intimidade a problema.
08:49Eu não dou intimidade a problema.
08:51Então, isso traduz muito claramente
08:54esse sentimento de pressa,
08:56mas de precisão.
08:58Ele é um cara que não fazia nada aleatório,
09:01que não fazia nada por uma ideia preconcebida,
09:05que tudo o que ele pensava,
09:07ele contrastava com o pensamento de outras pessoas,
09:12com leitura, com pesquisa.
09:14Ele não ia pela primeira impressão
09:17e não decidia nada sozinho.
09:19Todos os gabinetes de Eduardo Campos
09:21caracterizavam por esse tipo de coisa.
09:24Tinha uma sala onde tem um biru com quatro cadeiras,
09:26onde tinha uma mesa de reunião com oito a dez cadeiras,
09:30onde tinha uma sala ao lado com uma sala em U,
09:33aquelas salas, mesa em U,
09:36com trinta, quarenta cadeiras.
09:37E era muito comum ele estar colocando os assuntos
09:41mais importantes em discussão naquela mesa,
09:44como se fosse uma pesquisa qualitativa,
09:48qualificada.
09:48Com secretários, políticos, amigos,
09:51qualquer pessoa que chegasse...
09:52Ele ouvia várias opiniões, né?
09:55Generava essas opiniões antes de tomar qualquer decisão.
09:59Com isso, ele conseguia fazer as coisas rapidamente
10:01e sem ter que refazer ou ter que voltar atrás,
10:07sempre caminhando na direção do sucesso,
10:09do resultado positivo.
10:10Além dessa coisa da pressa de conseguir os resultados positivos,
10:15que outra característica vocês destacaram de Eduardo
10:19que quem lê esse livro vai encontrar?
10:22É a criatividade, né?
10:24É a criatividade de estar atento às coisas.
10:27Tem aí a história sobre a criação de um programa
10:31que é um dos marcos fundamentais da gestão dele,
10:33que é o programa Ganha o Mundo.
10:38Sim.
10:39Eduardo chegou ao Ganha o Mundo
10:41quando estava negociando intercâmbio para os filhos maiores viajar.
10:48Quando ele viu que o preço era alto,
10:51mas que para o governo não era.
10:55Então, eu me lembro que ele disse que era muito mais barato
10:59mandar um jovem sertanejo ou agrestino ou do Recife
11:05passar seis meses estudando língua no exterior
11:07era mais barato do que manter um jovem na FUNDAC,
11:12naquela instituição de correção.
11:14De correção dos menores infratores.
11:18Era mais barato.
11:19Então, ele fez e durante vários anos,
11:22todos os anos,
11:23mandava mil jovens de todos os municípios do Estado,
11:29passar seis meses, ou nos Estados Unidos, ou na Inglaterra,
11:32ou na Argentina, ou na Espanha,
11:33estudando uma segunda língua.
11:35E isso começou quando ele viu resolver um problema familiar,
11:42o problema da família dele,
11:44que era mandar os meninos, os filhos dele estudar fora,
11:47e ele resolveu que isso era possível
11:49e que os filhos das famílias sem recursos,
11:54que estudam nas escolas públicas,
11:56também poderiam ter esse direito.
11:58Muito bem.
11:59Como era você que trabalhou diretamente com o Eduardo,
12:02como é que era ele no trabalho,
12:04quando aparecia algum problema,
12:06ou até alguma crise,
12:09que ele, como governador,
12:11tinha a obrigação de gerir essa crise,
12:14ver como sair da crise?
12:15Governar é resolver crise, né?
12:18Eu fui secretário de comunicação.
12:19O secretário de comunicação,
12:20ele está em todas as crises.
12:22Ele é um do elemento fundamental na gestão de crises.
12:25Tem uma crise na saúde,
12:27está lá o pessoal da saúde,
12:28mas está o pessoal da comunicação.
12:30Tem uma crise na educação,
12:31na segurança.
12:33E Eduardo, ele era muito ativo nisso.
12:38E você sabia quão preocupado ele estava
12:40quando você...
12:42o quanto que ele se exaltava, às vezes.
12:45Às vezes você via ele muito preocupado,
12:47falando alto, reclamando.
12:49Eu sabia que aquele era um problema menor.
12:52Mas quando o problema era grande,
12:55quando havia uma crise com repercussões muito graves,
12:59muito profundas,
13:00ele ficava absolutamente sereno,
13:03como se estivesse gelado,
13:06ou com a consciência de que a cabeça tinha que funcionar
13:09mais do que os outros órgãos do corpo,
13:12porque não se poderia tirar solução daquilo.
13:16Eu me lembro disso claramente,
13:17uma grave crise que teve no primeiro governo de Eduardo,
13:20na crise da saúde pública,
13:22que era o movimento dos médicos,
13:24que pediam demissão do Estado
13:26e deixava os hospitais,
13:28sobretudo as grandes emergências,
13:30sem médico, sem atendimento.
13:32Eu me lembro de Eduardo,
13:33dias e dias,
13:34ligando para Cid Gomes, no Ceará,
13:37e para Ricardo Coutinho, na Paraíba,
13:40e para Teotônio Vilela Filho, em Alagoas,
13:42para mandar pacientes graves para serem atendidos
13:46nos padecristados.
13:48Então, na crise séria,
13:49ninguém viu o Eduardo da Petit.
13:50Nesse momento,
13:52ele era frio, calmo,
13:53e chegou à conclusão
13:56de que era preciso negociar
13:58com os líderes do movimento,
14:01com os líderes do movimento,
14:02encontrar uma solução.
14:03E foi feito um acordo tão proveitoso
14:05que durante todos os governos
14:08nunca mais houve esse tipo de movimento.
14:10Muito bem, a gente vai continuar falando sobre Eduardo Campos.
14:13Vamos fazer um rápido intervalo.
14:15Você que está acompanhando,
14:16não saia daí.
14:17A gente volta já, já.
14:31Ponto de Vista está de volta.
14:33Hoje eu estou recebendo aqui
14:34o jornalista Evaldo Costa
14:36para falar sobre o livro
14:38que ele escreveu junto com Ítalo Leitão.
14:41Esse livro aqui,
14:42Eduardo Campos, em Histórias.
14:45Evaldo, eu queria continuar falando.
14:48Eu, como jornalista,
14:49tive várias oportunidades
14:51de acompanhar eventos
14:53com o governador,
14:55fazer até algumas entrevistas, né?
14:57E sempre me chamou muita atenção
14:58a forma como o Eduardo falava
15:01com qualquer público, né?
15:04fossem professores,
15:06fossem delegados de polícia, né?
15:08Eu lembro que uma vez
15:09ele estava em um evento
15:11falando para delegados de polícia,
15:13não sei se era uma turma
15:14de delegados que estava se formando,
15:16e ele falou praticamente
15:17de todos os problemas
15:19que a categoria levantava,
15:21ele discutia sem nenhum problema, né?
15:23Discutia quase de igual para igual, né?
15:27Quase como se ele também
15:28fosse um delegado de polícia.
15:32O mesmo depois eu vi
15:33no encontro dele
15:35com os professores da rede estadual.
15:38Essa coisa de falar para o público
15:40era uma característica dele mesmo?
15:43Você que acompanhou ele
15:44muito mais do que eu,
15:45percebia isso?
15:46Era um...
15:47Ele tinha uma facilidade
15:49não só de expressão verbal,
15:51mas de pensar,
15:52de aprender as informações,
15:54de traduzir, de processar dados
15:56e incomum,
15:58absolutamente incomum.
15:59Um bom exemplo para isso
16:00é o telespectador
16:01se fizer no Google lá
16:03a participação dele
16:04no programa Roda Viva
16:07em 2004,
16:09logo uns três meses depois
16:11dele assumir
16:11o Ministério de Ciência e Tecnologia.
16:13O Eduardo era um político
16:15tradicional,
16:16um político nordestino,
16:17nomeado para o Ministério
16:18de Ciência e Tecnologia,
16:19que era uma pasta
16:20praticamente só usada
16:21por professores,
16:22que não tinha
16:23nenhuma repercussão
16:24política ou social,
16:26quase não era falada.
16:28O que é que o Eduardo
16:29vai fazer nesse Ministério?
16:30O Eduardo ficou lá
16:31três meses
16:31e a primeira aparição dele
16:34foi no Roda Viva.
16:36E ele falou
16:38sobre as dificuldades,
16:40os desafios
16:42da ciência e tecnologia
16:43num país do terceiro mundo
16:44como o Brasil,
16:46das necessidades
16:47de conhecimento,
16:48de fazer esse conhecimento
16:49chegar na vida das pessoas.
16:51com tal habilidade,
16:53com tal proficiência
16:54que espantou todo mundo,
16:56parecia um catedrático.
16:58Essa era a habilidade.
17:00Eu nunca vi ninguém
17:00com a habilidade de Eduardo.
17:02Eu posso dizer o seguinte,
17:04era comum a gente participar
17:05de preparação dele
17:06para debates,
17:07debates de candidatos.
17:09Então,
17:09todo mundo contribuía,
17:11algum levava
17:11um texto escrito
17:13com ensaios
17:14de possíveis respostas
17:16para questões.
17:17A gente se reunia
17:18numa mesa daquela,
17:18rodava para lá,
17:19rodava para cá
17:20e pronto.
17:21Começava o debate
17:22e a Eduardo tocava
17:24todos aqueles assuntos.
17:25Tudo que aquelas sugestões
17:29continham,
17:30mas de uma maneira
17:31tão mais completa,
17:33tão mais rica
17:35que envergonhava
17:36quem tinha feito
17:37aquelas sugestões.
17:39Não é que...
17:40É que ele tinha capacidade,
17:43era como se fosse
17:43uma IA humana.
17:46ele tinha a capacidade
17:47de pegar
17:48essas coisas dispersas,
17:50a contribuição
17:51de um jornalista experiente,
17:54mas com a contribuição
17:55de um economista,
17:56de um gestor qualquer,
17:58juntar aquilo tudo,
18:00aquele conhecimento,
18:01aquelas informações
18:02pariam filhotes
18:04mais bonitos,
18:05mais interessantes.
18:07E é isso,
18:08mais ou menos,
18:08que ele fez.
18:09Aqui uma parte do livro
18:11que vocês falam
18:11da relação
18:12do Eduardo Campos
18:14com o avô dele,
18:15Miguel Arraes.
18:16A influência de Arraes
18:18na carreira política dele
18:19foi muito grande?
18:21Foi,
18:21foi muito grande,
18:22porque Eduardo Campos
18:23foi...
18:25Quando o Eduardo...
18:26Quando o Arraes
18:26chegou do exílio,
18:27em 79,
18:27o Eduardo tinha 14 anos
18:28e ele grudou
18:30no Arraes.
18:32Ele ficava por perto.
18:34Ele morava um vizinho,
18:35né?
18:36Era vizinho.
18:37Ele grudou,
18:37ele chegava junto,
18:39ele ficava ouvindo.
18:40Era muito atrevido.
18:42estava vendo uma conversa
18:44de adulto,
18:44de lideranças políticas,
18:45ele vinha,
18:46dava opinião.
18:47O avô gostou dele
18:48e ele acompanhou.
18:49Então,
18:49essa formação dele,
18:51ele teve uma universidade
18:52política muito qualificada.
18:54Segundo,
18:54ele assumiu a responsabilidade
18:56muito cedo,
18:57muito precocemente.
18:58Com 20 e poucos anos,
18:59ele era secretário de Estado.
19:0125,
19:02era deputado estadual,
19:03o segundo mais votado
19:05do Estado.
19:06Então,
19:07ele...
19:07Arraes ajudou muito isso,
19:09mas ele era ele.
19:10Ele fez a parte dele também,
19:12digamos.
19:13Eu me lembro claramente
19:14de uma conversa,
19:14eu, ele e Miguel Arraes,
19:16e alguém perguntou
19:18o que tem em comum
19:19Eduardo e Arraes.
19:21Doutor Arraes,
19:21olha,
19:22temos coisa em comum,
19:24mas temos muitas diferenças.
19:26Eu nasci em 1915
19:27no sertão do Ceará
19:29e Eduardo nasceu
19:3050 anos depois
19:32numa cidade grande
19:33do Nordeste,
19:34do Recife.
19:35Então,
19:36nossas maneiras de ver o mundo
19:37são necessariamente diferentes,
19:39mas nós temos afinidade
19:40políticas,
19:42compromissos,
19:43os mesmos compromissos.
19:45Eu entendo isso,
19:46que as políticas de Eduardo,
19:48Eduardo foi lá,
19:49o chapéu de palha,
19:50o programa chapéu de palha
19:51para assistir
19:52os trabalhadores rurais.
19:53Foi feito
19:54porque era uma herança
19:55do Guto de Arraes.
19:57Queria falar um pouquinho
19:58também do Eduardo família, né?
20:00Eduardo foi casado
20:01com Renata Campos, né?
20:03Tiveram cinco filhos,
20:04e aqui,
20:05nesse livro,
20:05uma história que me chamou
20:06muita atenção,
20:07foi um dia que Eduardo
20:08chegou em casa,
20:10decidiu ir almoçar em casa,
20:12mas tinha pouco tempo,
20:14disse que não ia tirar
20:15nem o paletó.
20:16Quando chegou em casa,
20:17o filho dele,
20:17José,
20:18acho que com sete,
20:19oito anos na época,
20:20pediu,
20:21pai,
20:21vamos jogar bola?
20:22Ele prontamente
20:24tirou o paletó,
20:25trocou de roupa,
20:26foi jogar bola
20:2615 minutos ali
20:28com o filho,
20:29depois tomou banho,
20:30almoçou e foi embora.
20:31essa relação dele
20:32com a família,
20:33ele,
20:34com todos os compromissos
20:35que tinha,
20:36ele encontrava tempo
20:37para a família.
20:38Sim,
20:38ele fabricava tempo.
20:39Eduardo ia para trabalhar,
20:41ele levava os meninos
20:42na escola,
20:44ele ia levar,
20:44ele participava
20:45de todas as reuniões
20:46de pais e mestres,
20:47todas as festas da escola,
20:49da escola,
20:50ele participava.
20:51E ele tinha
20:53uma mania
20:54que é de filho,
20:56eu sou de família
20:57de classe média baixa,
20:58de pobres,
20:59aquela coisa
20:59de encapar os cadernos
21:01e os livros
21:02das crianças
21:02no começo do ano.
21:03Ele fazia aquilo
21:04pessoalmente,
21:05comprar o plástico,
21:06o durex,
21:07para fazer.
21:07Então,
21:08ele tinha muito cuidado
21:09com os filhos,
21:10os filhos aprenderam
21:11muito com ele,
21:12ele levava os filhos
21:13para o trabalho,
21:14Renata Campos
21:15ajudava muito isso.
21:17Fim de semana
21:18inteiros
21:19que se passava
21:20no palácio,
21:21Renata chegava
21:22com os meninos
21:22para almoçar
21:23com a gente,
21:25membros da equipe
21:25que estavam
21:26em alguma tarefa.
21:27Então,
21:28isso ajudou.
21:30ele a ter
21:30uma relação
21:31com os filhos ricos,
21:32uma relação
21:34produtiva
21:35para ele,
21:36que não se privava
21:37da presença
21:38da esposa
21:39e dos filhos,
21:40para os filhos
21:41que o viam,
21:42que se sentiam
21:42cuidados
21:43e para nós,
21:45colegas,
21:46membros da equipe
21:47dele,
21:47que vimos
21:48o compromisso
21:49dele com a família
21:50e, de certo modo,
21:51nos cobrava,
21:53nos sentíamos
21:54cobrados também
21:55a ter comportamento
21:56parecido
21:57com nossas famílias.
21:58era um aprendizado
22:01muito importante.
22:02Queria pular
22:03no tempo agora
22:04para 2014,
22:06agosto de 2014,
22:08dia 14 de agosto,
22:09quando aconteceu
22:10o acidente aéreo
22:11que vitimou...
22:12O acidente foi 13,
22:13né?
22:1413 de agosto,
22:14exato,
22:15quando aconteceu
22:15o acidente aéreo
22:17que vitimou o Eduardo
22:18e mais seis pessoas.
22:20como você viveu
22:22aquele momento?
22:23Muito de perto.
22:25Eu tinha estado
22:26em São Paulo
22:26dias antes,
22:27lá com ele,
22:28tinha almoçado
22:29eu, ele e Renata,
22:30e depois nós
22:31nos encontramos
22:31no dia 9 de agosto,
22:33presta atenção,
22:34telespectador,
22:34que a calamidade,
22:37o desastre aéreo
22:38foi no dia 13 de agosto.
22:40No dia 9,
22:41nós almoçamos
22:42em Patos,
22:43na Paraíba.
22:44Por acaso,
22:44eu estava em Patos,
22:45ele foi lá
22:45fazer uma atividade política
22:47e nós almoçamos
22:48no restaurante
22:49no Centro de Patos
22:49e depois saímos
22:50numa van,
22:52ele indo para o aeroporto
22:53e eu ia
22:54seguir meu destino
22:55por lá mesmo.
22:56Quando a gente
22:58ia no carro,
22:58íamos no carro,
22:59eu,
23:00o motorista da van,
23:01que eu não sei quem é,
23:02não tenho nenhuma lembrança
23:03dessa pessoa,
23:03e todas aquelas pessoas
23:05que morreram.
23:06E Eduardo ia falando
23:08sobre como ele iria
23:10vencer aquela eleição.
23:12Ele dizia,
23:13ele dizia,
23:14vai ser igual
23:15a Pernambuco
23:15em 2006.
23:16eles vão se atacando
23:18de um lado
23:19para o outro
23:19e eu vou seguindo
23:20aqui na minha,
23:22apresentando propostas,
23:23discutindo com a população
23:25nessas cidades médias
23:27do Nordeste.
23:27Ele estava em Patos,
23:29tinha passado
23:29por Arapiraca,
23:31vou correr o Brasil,
23:32essas cidades do Nordeste
23:33e a grande São Paulo,
23:35quando eles virem,
23:37Palmeirinha
23:37já terá batido
23:39essa carteira,
23:39como ele chamava
23:40ele mesmo
23:41em determinadas situações.
23:44O que é rapidinho
23:44explica o que é
23:45o Palmeirinha.
23:45Palmeirinha era um time
23:46de infância dele,
23:47um time que ele jogava bola,
23:48era um time que não era
23:49muito bom,
23:50mas que às vezes
23:51ganhava jogos
23:51que eram considerados
23:52impossíveis.
23:53Então, toda vez
23:54que ele estava
23:54num desafio muito grande
23:56como esse,
23:57ele dizia,
23:57olha, Palmeirinha,
23:58que era ele,
23:59vai ganhar essa parada.
24:01E aí,
24:02eu estava na Paraíba
24:04e no dia corte,
24:06três dias depois,
24:07ele voltou para o Recife,
24:08dia 10,
24:09era o dia do aniversário
24:10dele,
24:10dia dos pais,
24:11no dia 11 foi para São Paulo,
24:13no dia 12 foi para o Rio
24:14e no dia 13 foi para Santos,
24:16onde aconteceu o desastre.
24:17Eu estava em João Pessoa,
24:20ia passando junto de um carro
24:22que estava com a porta aberta
24:23e estava o rádio dizendo,
24:26sintonizado na CBN,
24:28dizendo que um helicóptero
24:29tinha caído em Santos.
24:31Quando eu vi aquilo,
24:32chamou a atenção,
24:33mas depois,
24:34não,
24:34Eduardo não vai estar em helicóptero
24:36em Santos,
24:36eu sabia que ele estaria de avião.
24:38continuei
24:39e o telefone começou
24:40a me chamar,
24:40porque todos os meus amigos
24:42jornalistas do Rio,
24:43de São Paulo e Brasília,
24:44que me acompanharam
24:45do lado dele,
24:46me ligando,
24:47me ligando,
24:47eu digo,
24:48essas pessoas pensam
24:49que eu tenho informação
24:49sobre a agenda de Eduardo.
24:50Eu aqui em João Pessoa,
24:52Eduardo em Santos,
24:53como é que eu vou saber?
24:53Mas era insistente,
24:55até que minha esposa,
24:56jornalista Nade Alencar,
24:57me ligou e dizendo,
24:59olha,
24:59é melhor eu atender o telefone,
25:00porque estão dizendo
25:01que o avião do Eduardo caiu.
25:03Eu disse,
25:04não,
25:04eu vi no rádio,
25:05não foi um avião,
25:06foi um helicóptero.
25:07Aí ela disse,
25:08olha,
25:08estão dizendo que foi um avião.
25:09Eu atendi
25:10e fui conformada,
25:12fui confirmada,
25:13eu vim embora para Recife,
25:14escrevi um artigo
25:15para o Jornal do Comércio,
25:17que saiu no dia 14,
25:19e nesse artigo eu dizia,
25:21por maior que fosse a dor,
25:23que seja a dor dos amigos,
25:25de gente que trabalhou com ele,
25:27da família,
25:28sobretudo,
25:29imagino que foi para João
25:31e Pedro Campos,
25:33adolescentes,
25:33ficarem sem um pai,
25:34com a mãe
25:35e dois irmãos pequenos
25:36para tomar conta,
25:38o processo de adultecimento brutal
25:41que aqueles jovens passaram,
25:44mas para mim
25:45a perda maior
25:46era do Brasil,
25:47porque o Brasil ficou
25:49sem a liderança moderna,
25:51a primeira liderança moderna
25:54pós-ditadura,
25:56e era um gestor
25:57que era ao mesmo tempo
25:58um grande administrador
25:59e um grande militante político,
26:01um grande articulador,
26:02era alguém que sabia
26:04ser grande no parlamento
26:05e grande no executivo,
26:08e alguém que sabia construir
26:09diálogo,
26:10entendimento,
26:11eu dizia,
26:12e eu reafirmo essa percepção hoje,
26:14se Eduardo não tivesse
26:16morrido naquele 13 de agosto
26:18de 2014,
26:19não teria havido
26:20o bolsonarismo,
26:22o bolsonarismo não teria acontecido,
26:23porque o bolsonarismo
26:24não tem 50%
26:26da população brasileira,
26:28ele tem uns 20%,
26:29ele junta a eles
26:3130% desencantados,
26:34pessoas que perderam a esperança
26:35na política,
26:36na sociedade,
26:37e que são atraídos
26:38por aquele discurso
26:39de crítica
26:41à política,
26:42que é feito
26:43paradoxalmente
26:44por políticos,
26:45como se eles não fossem políticos,
26:47então isso engana as pessoas,
26:48se Eduardo estivesse no cenário,
26:49ele aglutinaria
26:51essas pessoas,
26:52e o Brasil viveria hoje
26:54um momento diferente.
26:55Para concluir,
26:56eu queria que você
26:57resumisse em uma frase
26:59o legado
27:00de Eduardo Campos.
27:01O legado é que
27:03é possível
27:04fazer política
27:05somando,
27:06unindo,
27:07não abdicando
27:08de convicção,
27:09não unindo
27:10pelo caminho mais fácil,
27:11não fazendo
27:12o que precisa fazer
27:13por causa
27:14de acordões,
27:16não,
27:17fazendo
27:18o que precisa ser feito,
27:19enfrentando
27:20os problemas reais,
27:21mas dialogando,
27:23negociando,
27:24juntando
27:25as convergências,
27:28enfrentando
27:28as divergências
27:29no outro momento
27:30e no outro processo,
27:32mas não
27:34permitindo
27:35que as divergências
27:36sejam obstáculos
27:37à solução
27:38dos problemas.
27:39Esse é o grande legado
27:40que a gente precisa
27:41manter vivo
27:41e que esse livro
27:42é uma tentativa
27:44de fazer
27:45com que esse legado
27:46permaneça.
27:47Muito bem,
27:48Evaldo,
27:48acabamos o nosso
27:49tempo de entrevista,
27:51queria agradecer,
27:51foi uma conversa
27:52muito boa
27:53de lembrança mesmo,
27:55de tudo que
27:55Eduardo Campos
27:56representou
27:57para o Estado,
27:58para a política
27:59de Pernambuco
27:59e do Brasil.
28:00Muito obrigado.
28:01Eu que agradeço,
28:02Fernando,
28:02é uma honra
28:02trabalhar,
28:04partilhar com você,
28:05um jornalista,
28:06com sua experiência,
28:07sua competência,
28:07a história que eu acompanho
28:08desde a universidade,
28:10porque eu tenho orgulho
28:11de ter feito
28:12a sua banca
28:14de trabalho
28:15de conclusão
28:16lá pelo século XX.
28:18Final dos anos 80,
28:20por ali.
28:21Muito obrigado,
28:21Evaldo.
28:23Obrigado a você também
28:24que acompanhou até aqui,
28:25obrigado pela companhia
28:25e audiência.
28:26A gente volta
28:27na semana que vem.