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00:00Olá, bem-vindos e bem-vindas a mais um Ponto de Vista.
00:12O cinema pernambucano está em alta.
00:14Hoje, por exemplo, todo mundo está falando do premiado Agente Secreto de Kleber Mendonça Filho.
00:20O Último Azul de Gabriel Mascaro também foi premiado.
00:23Para falar sobre o cinema que cineastas pernambucanos estão fazendo, eu recebo hoje o professor e pesquisador da UFPE, crítico de cinema, Paulo Cunha,
00:34que também é doutor em artes e ciências das artes pela Sorbonne de Paris.
00:40Paulo é, antes de tudo, um apaixonado por cinema e também ele é cineasta.
00:46Paulo, seja muito bem-vindo e obrigado por ter aceitado o nosso convite.
00:49Obrigado por ter me chamado para cá. É um prazer vir conversar sobre o cinema pernambucano, que é um assunto que eu adoro.
00:55Pois é, vamos começar, Paulo, falando você como estudioso de cinema, né?
00:59Como é que você está acompanhando esse momento todo que a gente está vivendo do cinema pernambucano,
01:04tão em alta, né? Com Agente Secreto, com O Último Azul, do Gabriel Mascaro.
01:09Você como um pesquisador, uma pessoa que acompanha o cinema pernambucano há tanto tempo.
01:13O que é que está achando desse momento?
01:16Eu estou achando um momento muito importante, muito especial.
01:20É marcado, sobretudo, agora por esse brilho todo que está surgindo em torno do Agente Secreto, do Kleber, né?
01:29Mas, fora isso, é um momento também de... uma espécie de momento de glória para um cinema que vem batalhando já há um tempo.
01:37Outros cineastas que antecederam esse momento, que vêm trabalhando, consolidando essa nossa tradição.
01:44Tem muita gente que se pergunta assim, por que é que Pernambuco tem um cinema tão diferenciado, né?
01:49O que é que acontece aqui em Pernambuco, diferentemente de outros estados do Brasil, que não tem um cinema tão...
01:57Porque as pessoas estão meio que acostumadas mais a Rio e São Paulo, né?
02:00Isso, isso.
02:00Aí, quando surge um outro estado se destacando, as pessoas estranham, né?
02:05A pergunta vem, eu imagino, né? Não fazem muito essa pergunta a mim, mas eu imagino que quando façam essa pergunta a você, ela vem acompanhada quase de um estranhamento, né?
02:15Isso, isso.
02:15Por que tanto cineasta em Pernambuco, né?
02:18Isso, até porque nós somos um estado que não tem recursos aplicados à cultura num volume tão grande como, por exemplo, São Paulo, Rio de Janeiro, que tem muito mais dinheiro para aplicar em cultura.
02:31Mas o caso é que Pernambuco tem uma tradição histórica já, que começa lá atrás, nos anos 20, e vem se desenvolvendo ao longo das décadas, né?
02:40Dos anos 20, do século 20, e isso vem se desenvolvendo ao longo do tempo e vem sustentando essa nossa tradição de produzir um cinema diferenciado, um cinema com estilo muito próprio, um cinema com qualidade, um cinema ousado, de alguma forma, não é?
02:58Que propõe uma visão do Brasil que é um pouco particular desse nosso local aqui do Recife, de Pernambuco.
03:05O Agente Secreto até já vinha se destacando desde o ano passado, né?
03:10Ganhou prêmios em Cannes, né?
03:12E agora, no início do ano, ganhou esses dois Globos de Ouro nos Estados Unidos, né?
03:17Como é que a gente tem que comemorar muito esse momento, Paulo?
03:21Com certeza, com certeza.
03:22Isso, claro, isso afeta, na verdade, o cinema brasileiro como um todo, né?
03:26Isso é importante para o Brasil como um todo.
03:28Para Pernambuco, é uma sinalização de que essa tradição nossa, esse cinema praticado aqui em Pernambuco,
03:35é um cinema que consegue atingir um patamar realmente diferenciado, um patamar que poucos outros cineastas brasileiros conseguiram, né?
03:45Sejam daqui ou de outros lugares.
03:48A questão principal que eu acho é que a comemoração deve ser o que fazer, né?
03:54Como fazer com que esse momento tão especial, ele persevere, ele continue, ele se amplie.
04:01Isso eu acho que é o nosso grande desafio atualmente.
04:05A gente pode dizer que esse é o grande momento do cinema pernambucano?
04:09Eu acho que o cinema pernambucano teve grandes momentos, mas, de fato, do ponto de vista da internacionalização,
04:15é completamente um momento original, particular e pioneiro agora.
04:20Nós nunca tivemos uma penetração internacional nesse nível que tivemos.
04:25Outros cineastas daqui, desde os anos 90, ganharam festivais pelo mundo.
04:30Mas nesse nível de penetração desses filmes mais recentes, a gente nunca teve.
04:36Então, isso é importante, isso tem que ser celebrado e espero que isso seja apenas o início de uma fase promissora para o cinema feito aqui em Pernambuco.
04:46Que seja uma fase prolongada.
04:47Prolongada, exatamente.
04:49E não um momento assim que vai depois se extinguir e a gente vai ficar na memória de algo que passou.
04:56Eu acho que não vai acontecer isso.
04:58Até porque nós temos muitos cineastas que estão aí praticando.
05:03Já há diversas gerações que estão, de alguma maneira, trabalhando juntas.
05:09Você tem o pessoal que começou nos anos 90, tipo Lírio, Cláudio Assis, Pablo Caldas e outros.
05:18As gerações que vieram depois, que são importantes, Renata Pinheiro, Camilo Cavalcante,
05:27tanta gente que a gente vai vendo que vai chegando e vai se consolidando, vai assumindo posições importantes.
05:33E é importante que esse grupo de pessoas que vem já de um tempo para cá, continue trabalhando junto, continue de alguma maneira fortalecendo essa ideia
05:45de que um cinema fora do eixo Rio-São Paulo pode prosperar e sobreviver no Brasil.
05:52Agora, Paulo, o Agente Secreto trata de um tema, a ditadura militar nos anos 70, um tema que marcou muito a história brasileira recente.
06:02E no ano passado, a gente ganhou o Oscar com Ainda Estou Aqui, que também tratava da ditadura militar.
06:09É um período que a história, que o cinema e as artes, de um modo geral, devem tratar, devem fazer com que as pessoas não esqueçam que a gente passou por aquilo?
06:19Com certeza. Eu não tenho dúvida com relação a isso.
06:21Eu acho que o cinema, de alguma forma, é uma espécie de cura.
06:24É um momento de repensar, revisitar, entender naquilo tudo que aconteceu.
06:29De alguma maneira, interpretar isso a partir de um momento diferente da história.
06:35Mas, sobretudo, porque esses momentos muito duros, momentos de repressão, momentos de violência política,
06:43esses momentos, eles podem voltar.
06:46E é importante que o cinema trate disso, até para que a gente se proteja um pouco, na medida do possível,
06:52de que essas coisas aconteçam outra vez.
06:55O cinema, às vezes, é acusado de ser um cinema muito ideológico, um cinema que puxa por um determinado espectro ideológico e tal.
07:06Mas é a função do cinema ser um espelho da sociedade.
07:11Mostrar para a gente o que foi que aconteceu, fazer com que a gente pense e fazer com que a gente também sinta
07:18de que maneira a gente pode incorporar esse conhecimento, essas sensações de revisitar esses momentos que são momentos difíceis da história
07:30e fazer isso para que a gente possa continuar como sociedade, como comunidade, como pessoas que vivem juntas
07:37num país que a gente está inventando todos os dias.
07:39Mas eu acho, sobretudo, importante, Fernando, que as pessoas, a partir do conhecimento de um filme como
07:47Ainda Estou Aqui, o Agente Secreto, se preocupem também em conhecer outros filmes.
07:53Você citou, na abertura do programa, o filme do Mascaro, o Último Azul.
07:58É um filme belíssimo, é um filme lindo, com uma história muito importante.
08:03Um filme que projeta também uma imagem do Brasil muito crucial de ser pensada agora.
08:10A questão ambiental, a questão da velhice, a questão da terceiridade.
08:14E o filme do Mascaro, apesar de ser tão lindo e tão belo, não chegou a um milhão de espectadores.
08:21Foi pouco visto.
08:23Então é importante que as pessoas se interessem também em expandir o seu olhar
08:28para todos os filmes, se possível, para todos os filmes brasileiros e para os filmes pernambucanos, sobretudo.
08:34É importante fazer isso porque a presença do público é que faz a diferença.
08:39A gente tem algumas imagens aí do Agente Secreto, vamos rodar agora.
08:43E você, como crítico de cinema, eu queria que você desse a sua avaliação do que você achou do filme.
08:49Eu acho o filme de Kleber extremamente impactante.
08:52Ele é um filme que foi pensado com um elenco muito vasto, um elenco grande com pessoas.
09:00Claro, tem o Wagner Moura e tem outros atores conhecidos, atores de Pernambuco, atores de fora de Pernambuco.
09:08É um filme muito abrangente, com uma história muito impactante.
09:11Ele tem uma fotografia, isso dito pelo próprio diretor, que buscou uma fotografia típica dos filmes americanos da década de 70.
09:20Então, é um cinema também que tem essas referências.
09:25O Kleber sempre foi um cineasta muito cinéfilo.
09:29Kleber foi crítico antes de ser cineasta.
09:32E o fato de ele ter sido crítico de cinema ofereceu a ele, forneceu a ele, vou dizer assim, uma série de referências que ele cultua.
09:43Ele termina citando, fazendo citações de releituras disso nos filmes dele.
09:48Então, é um filme também que tem essas pistas para as pessoas que gostam muito de cinema, que assistem vários filmes diferentes,
09:56vão encontrar no Agente Secreto pistas muito legais de serem perseguidas.
10:02Mas é um filme que, com certeza, vai atrair a atenção das pessoas e vai provocar muita polêmica, como sempre, as coisas que ele faz.
10:10Agora, Paulo, ao longo da história, o cinema brasileiro viveu grandes fases, depois algumas fases mais, digamos, apagadas.
10:20Mas hoje, com o Oscar no ano passado, essas premiações todas no Urso de Prata de Berlim, Festival de Berlim, Festival de Cannes, Globo de Ouro agora,
10:32a gente pode dizer que o cinema brasileiro está vivendo a melhor fase dele?
10:37Olha, eu sou uma pessoa, eu gostaria de ser otimista, mas vou ser realista.
10:42Na verdade, essa fase do cinema brasileiro, ela chama muito a atenção por conta desses pontos fora da curva.
10:49Sim.
10:50Ainda estou aqui, o Agente Secreto.
10:52Para você ter uma ideia, nós fizemos, em 2025, 112 milhões de espectadores no Brasil.
11:00112 milhões.
11:02Espectadores para os filmes brasileiros, em torno de 12 milhões.
11:06A gente está a 10%, 11%, 12%.
11:09Ou seja, nós temos o mercado ainda muito ocupado pelos filmes de outros lugares.
11:16Sobretudo americanos.
11:17Com certeza.
11:18Praticamente tudo americano.
11:20Dentro dessa realidade, você tem esses filmes que fazem a diferença em termos de público
11:26e tem um monte de filmes que são produzidos, filmes muito bons, mas que têm plateias muito menores.
11:34E tem, para dizer a verdade, o problema maior de todos é que a gente tem muitos filmes
11:40que nem conseguem chegar no mercado exibidor.
11:43E que não são filmes necessariamente ruins.
11:45São filmes muito bons.
11:46Então, a gente vive uma fase muito impactante, com muita visibilidade.
11:53Visibilidade, inclusive, internacional.
11:56Mas não é necessariamente uma fase gloriosa.
11:58A gente precisa ter muito cuidado.
12:00O sistema de financiamento do Brasil, o Fundo Setorial do Audiovisual,
12:05que é isso que financia o cinema brasileiro.
12:06E aqui em Pernambuco, o Fucultura do Audiovisual, são fundos que estão carentes de ampliar os recursos disponíveis.
12:17E a gente teve, sobretudo no caso nacional, no caso do Fundo Setorial,
12:22uma quebra muito grande de financiamento no governo anterior.
12:25E a gente precisa recuperar isso.
12:28Precisa retomar isso.
12:29Porque não existe cinema sofisticado, industrialmente sustentável, sem financiamento estatal.
12:37Está certo?
12:38Em lugar nenhum do mundo.
12:40Então, não é admissível que um brasileiro, por exemplo,
12:44ah, o Brasil está gastando muito dinheiro com cinema, podia gastar dinheiro com outras coisas.
12:49A gente pode gastar dinheiro com várias coisas.
12:51Com várias coisas.
12:52Mas também com cinema, né?
12:53É claro, mas também com cinema.
12:55Porque o cinema é o espelho do que a gente é.
12:57O cinema é aquilo que mostra o que o brasileiro vê, aquilo que o brasileiro sente.
13:04É muito sofisticado do ponto de vista de representação daquilo que somos.
13:08Então, tem que ter financiamento.
13:10Então, tem que ter cada vez mais financiamento.
13:12Esse financiamento precisa ser muito mais bem distribuído.
13:15Você não pode jogar muito dinheiro só num filme e pouquinho dinheiro num outro,
13:19ou nenhum dinheiro para o outro.
13:21Então, tudo isso está...
13:23O seguinte, a gente está numa fase boa, sim, evidentemente, de muita visibilidade,
13:28mas a gente precisa cuidar para que isso continue, para que isso siga adiante.
13:32Muito bem, Paulo.
13:33A gente vai fazer um rápido intervalo.
13:35Você que está acompanhando, não saia daí.
13:37A gente volta já, já.
13:39Estamos de volta.
13:51Hoje, o Ponto de Vista recebe o professor e pesquisador da UFPE,
13:56Paulo Cunha, que também é crítico de cinema.
13:59Paulo, nos últimos filmes de Cleber Mendonça,
14:03ele sempre tem no elenco algum artista bastante conhecido.
14:07O Agente Secreto, com Wagner Moura, Sônia Braga, no Aquários e no Bacurau.
14:13E o Último Azul, do Gabriel Mascaro, também, com Denise Weinberg e Rodrigo Santoro.
14:20Isso é uma estratégia para conseguir uma divulgação maior do filme?
14:25Sim, sobretudo no caso desses atores que têm carreiras internacionais,
14:31é uma maneira de você abrir mercados para um filme, não é?
14:35Porque não é fácil você...
14:38Por coincidência, os três têm carreiras internacionais.
14:39Isso, os três, com certeza.
14:41Não é à toa que eles estão nos filmes,
14:43é porque eles representam um potencial de abertura para mercados estrangeiros,
14:47que é muito importante para o cinema.
14:49O cinema brasileiro, durante muito tempo, sobreviveu com as rendas nacionais.
14:54Mas hoje, a partir de um tempo para cá, aliás, ele está buscando outras formas de sustentação
15:02e, sobretudo, esses mercados de fora.
15:04Os filmes recentes, todos feitos aqui, em Pernambuco, inclusive,
15:10eles já partem desde o início com coproduções internacionais.
15:14Coproduções com a Holanda, com a França, com os Estados Unidos, com a Alemanha.
15:20São filmes que têm trabalhado essas fontes de recursos e de abertura de mercados internacionais.
15:29Isso abre portas em festivais, isso abre portas entre a crítica de outros países,
15:34isso levanta a renda dos filmes e isso faz com que o cinema se torne viável,
15:40que esses produtos se tornem sustentáveis.
15:46E, no caso, sim, eu diria que é uma estratégia.
15:49É uma estratégia não só para abertura para públicos, mas é uma abertura para mercados.
15:56É algo muito sofisticado.
15:57É uma estratégia válida, né?
15:58É uma estratégia válida.
15:59Os cineastas estão corretos em fazer isso.
16:03Embora existem outros cineastas que não praticam essas chamadas para esses atores muito conhecidos
16:10ou com carreiras internacionais,
16:12isso não faz com que os filmes dessas pessoas não sejam bons também.
16:15São filmes muito bons.
16:17No caso de Pernambuco, eu gosto muito de citar o caso de Camilo.
16:21Camilo Cavalcante, se eu pegar um filme que eu acho uma maravilha,
16:26um filme que ele fez chamado A História da Eternidade,
16:28é um filme com um elenco brasileiro.
16:31O ator principal é o Irandi e é um filme belíssimo e que se sustenta dessa maneira.
16:38Mas, na verdade, o que a gente tem hoje é uma série de estratégias para internacionalizar a produção.
16:45E alguns filmes estão conseguindo isso.
16:47E eu acho bom.
16:48Isso não é uma atitude obrigatória, não é um comportamento obrigatório,
16:55mas é um comportamento que facilita a penetração dos filmes em mercados de fora do Brasil.
16:59Eu queria agora, Paulo, falar um pouquinho de alguns nomes do cinema pernambucano.
17:03Alguns até você já falou também.
17:07Nomes dos anos 90 para cá, digamos.
17:11Lírio Ferreira, com Árido Mouve, Baile Perfumado.
17:15Cláudio Assis, Amarelo Manga.
17:18O Big Jato, já mais recente.
17:20Marcelo Gomes, com Cinema, Aspirina e Urubus.
17:23Viajo porque Preciso, Volto porque Te Amo.
17:28Um nome espetacular, né?
17:30São cineastas que continuam produzindo e só comprovam que o cinema pernambucano está bem vivo.
17:36Não só o cinema pernambucano, eles são pernambucanos, mas o cinema nacional.
17:40Isso.
17:41Vamos falar das mulheres.
17:43Nós temos cineastas mulheres extremamente competentes, né?
17:46Eu vou citar o caso de Renata Pinheiro, que é uma cineasta que eu gosto muito.
17:50Aprecio muito os filmes dela.
17:52A gente tem uma veterana, vamos chamar assim, que é a Kátia Mezel, que filma desde a década de 70
18:00e continua produzindo seus filmes, seus documentários, seus curtas.
18:05E você tem a meninada que está chegando, né?
18:09Essa meninada, ela está aí se preparando para assumir as posições que se colocarem no futuro
18:16quando essas pessoas forem saindo do jogo, do jogo do audiovisual.
18:21E é importante.
18:22Eu tive a notícia recentemente, não é, que uma garota daqui chamada Annie Stone, que foi aluna minha na universidade,
18:30ela começou a produzir agora o primeiro longa dela.
18:33Fiquei feliz porque é uma garota muito esforçada, ela não tem acesso a esses recursos todos que a gente está falando aqui,
18:40esses milhões todos para produzir os filmes.
18:42Pelo contrário, é uma batalhadora.
18:45E essa meninada, é essa meninada que vai garantir a sequência, não é?
18:50E aí se preparando como for possível.
18:53Eu gostaria também de citar o caso da Mariana Brenan.
18:56Estava pensando nela aqui enquanto você falava.
18:58Ela fez esse filme chamado Manas, que é uma maravilha.
19:02É um filme extremamente qualificado, extremamente impactante.
19:07É um filme que toca a sensibilidade do espectador de uma maneira muito intensa.
19:12Ela se colocou muito bem, inclusive internacionalmente.
19:15Ela conseguiu grandes apoios, sobretudo de pessoas conhecidas no mercado internacional.
19:22E é uma pessoa que merece a citação, porque ela é pernambucana, não é?
19:27Faz parte dessa discussão que a gente está tendo aqui.
19:30E ela fez um filme belíssimo e que as pessoas deveriam ir conhecer.
19:35Fazer cinema é muito caro também, né, Paulo?
19:37A gente sabe que tem muita gente que faz de maneira amadora, por pura paixão.
19:44Mas se a pessoa quiser fazer uma coisa profissional mesmo,
19:47precisa de um aporte financeiro que muitas vezes a pessoa não tem.
19:51Ela tem que buscar patrocínio e ir atrás de quem financie.
19:56É uma, digamos, uma coisa inerente a quem quer fazer cinema,
20:01ter que correr atrás desses patrocínios.
20:04Todo mundo, além de ser cineasta, tem que levar jeito para fazer marketing também.
20:10Na verdade, a gente precisa agradecer que também, ao lado dos cineastas,
20:15dos roteiristas, dos diretores de fotografia,
20:18já a gente está vendo o surgimento de uma grande nova geração de produtores.
20:24São essas pessoas que se encarregam de montar financeiramente os filmes
20:28e não necessariamente isso passa pelo trabalho direto do diretor ou do roteirista.
20:36Mas essa grande massa de novos produtores é que está garantindo essa qualidade.
20:42Mas cinema é muito caro.
20:44Você tem alguns exemplos, quando a gente estava conversando,
20:47do custo do Ainda Estou Aqui, do próprio agente secreto.
20:51Dá para falar um pouquinho desses valores?
20:53Então, o agente secreto, a estimativa que a gente tem hoje,
20:56é o que circula, a informação que circula no mercado audiovisual,
21:01é que custou 28 milhões.
21:03Desses 28 milhões, cerca de 8 milhões foram recursos captados estatais.
21:09Pela lei do audiovisual.
21:10O resto dos recursos foram captados de outras formas,
21:13sobretudo com as coproduções internacionais,
21:15com a França, com os Estados Unidos, com outros países.
21:17Então, é um filme muito caro, caríssimo.
21:21Qualquer pessoa não precisa exagerar
21:25e todo mundo vai constatar que 28 milhões é um recurso altíssimo.
21:29Mas você tem filmes desse porte, como o Agente Secreto,
21:33e tem gente fazendo filme com, sei lá, 500 mil reais, 600 mil reais.
21:40Não é fácil, não é difícil.
21:42E você vê por aí também as diferenças entre esses filmes.
21:45O que é que uma pessoa com um recurso tão pequeno pode fazer
21:49comparado com uma pessoa que tem tantos recursos para fazer.
21:53Então, tanto do ponto de vista dos equipamentos, das técnicas,
21:56dos profissionais que estão envolvidos,
21:59quanto do ponto de vista mesmo da tranquilidade
22:01de você poder trabalhar durante um ano, dois anos,
22:04num projeto e ser remunerado por isso.
22:07Então, tem gente que faz quase pagando para fazer
22:09e tem gente que faz com muitos recursos.
22:12Então, na verdade, eu acho que isso é uma coisa muito legal do cinema.
22:16Os cinemas são muitos cinemas, na verdade.
22:20Os cinemas são caros, cinemas que envolvem orçamentos altíssimos.
22:26E é também um cara que pega uma câmera, junta seus amigos,
22:31que é uma tradição também aqui em Pernambuco.
22:33Eu me lembro da época do ciclo do Super 8, aqui nos anos 70,
22:37que o cinema era isso.
22:38A gente comprava uma camerazinha, arrumava, um tio tinha,
22:42um, sei lá quem, emprestado de alguém.
22:45Você pegava uma camerazinha, comprava uns cartuchos de Super 8,
22:48juntava três, quatro, cinco amigos,
22:51e você ia para a rua e fazia seu cinema.
22:53Então, o cinema tem isso, o cinema é uma coisa abrangente.
22:56Agora, a gente está falando aqui de um cinema
22:58que está ocupando o mercado nos cinemas do mundo todo,
23:01e estamos fazendo outra de uma experiência
23:03de alguém que quer se expressar com imagens e com sonhos.
23:06Então, eu acho que isso é uma das qualidades do cinema,
23:12é permitir esse leque tão grande de experiências.
23:17E eu acho que isso é válido.
23:19Eu acho que Pernambuco mostra como isso é impactante.
23:22Recentemente, só para concluir isso,
23:25eu participei de dois projetos de resgate dos Super 8,
23:29de dois colegas nossos, inclusive, Fernando,
23:32Geneton Moraes Neto e Amin Stepley, jornalistas daqui
23:36que fizeram filme de Super 8.
23:38Então, foi possível pegar os originais em Super 8,
23:41digitalizar esses filmes,
23:43e a gente mostrou esses filmes em muitos lugares.
23:46E você sabe, a reação das pessoas
23:48era de espanto, de alegria, de surpresa,
23:52com aqueles produtos que foram feitos com tão pouco dinheiro,
23:55só com a vontade de se expressar,
23:59com a vontade de contar o seu jeito de entender o Brasil,
24:02de entender a vida e tal.
24:05Então, eu fico feliz que o cinema permita isso às pessoas.
24:09Agora, Paulo, como é que a gente faz
24:11para que essa boa fase do cinema,
24:13tanto pernambucano quanto brasileiro, continue?
24:16Aqui em Pernambuco, por exemplo,
24:17a gente tem cursos de cinema?
24:19Sim.
24:21Eu vou começar dizendo assim,
24:22cinema é um ecossistema, tá?
24:24É como uma floresta, cara.
24:26Então, você tem que ter a produção,
24:29grandes produtoras,
24:31empresas capazes de produzir,
24:33você tem que ter os talentos,
24:34os diretores, os roteiristas,
24:36os diretores de fotografia,
24:38cenógrafos, etc., etc.,
24:39diretores de arte.
24:41E você tem que ter boas escolas,
24:43você tem que ter preservação,
24:46você tem que ter cinematecas,
24:47você tem que ter mercado.
24:50O mercado brasileiro é muito concentrado.
24:53Hoje, o mercado,
24:54as salas de cinema no Brasil,
24:55hoje, Fernando,
24:56estão fundamentalmente,
24:58a maior parte delas,
24:59dentro de shopping centers.
25:00Verdade.
25:01Shopping centers são acessíveis
25:03para gente de classe média,
25:04classe média alta,
25:06gente rica.
25:07Tem muita gente da população brasileira
25:09que nunca entrou no cinema,
25:12porque não teve acesso,
25:14porque acha que isso é uma experiência
25:15que não faz parte da vida delas.
25:17Então, essas pessoas que moram,
25:19às vezes, em uma cidade interior,
25:20que não tem cinema nenhum.
25:22Então, quando elas vêm ao Recife,
25:23por exemplo,
25:24a passeio,
25:25a negócio,
25:26ou qualquer coisa,
25:27que elas vão até
25:27num shopping center,
25:28elas vão fazer outras coisas.
25:30Elas não têm o impulso de...
25:32Então, o cinema é tudo isso.
25:33O cinema é um sistema muito amplo.
25:36E, assim,
25:36para responder diretamente
25:37a sua pergunta,
25:38sim,
25:39a gente tem boas escolas de cinema.
25:41As escolas de cinema,
25:42sozinhas,
25:42elas não garantem
25:43um grande cineasta.
25:45Mas elas oferecem
25:46a essas pessoas
25:47algumas ferramentas
25:48a partir das quais
25:50elas podem
25:50começar a criar,
25:54começar a inventar
25:55seu próprio sonho.
25:56Então,
25:57aqui em Pernambuco,
25:58a gente tem um bom curso de cinema
25:59na Universidade Federal de Pernambuco,
26:01em que eu participei
26:02da criação dele
26:03e ensinei cinema brasileiro
26:05nesse curso
26:06durante muitos anos.
26:08Você tem cursos
26:09de mídias digitais,
26:11por exemplo,
26:11na Católica
26:12e você tem
26:13outras opções,
26:14cursos de fotografia
26:15ou disso,
26:16porque as pessoas
26:16não precisam necessariamente
26:18fazer um curso de cinema.
26:20Elas precisam fazer cursos
26:21que dêem a elas
26:22ferramentas
26:23para elas pensarem
26:24as imagens,
26:25pensarem os sonhos.
26:28Então,
26:28tem muita gente,
26:29por exemplo,
26:29se você pensar,
26:30Kleber Mendonça,
26:31Gabriel Mascaro
26:32e tantas outras pessoas,
26:33Lírio Ferreira,
26:34foram estudantes de jornalismo,
26:36não foram estudantes de cinema.
26:38Então,
26:38não é impossível
26:39que um estudante
26:40de sociologia
26:41ou de pedagogia
26:43ou de geografia
26:45não se transforme
26:46também num grande cineasta.
26:47Então,
26:48o cinema é acolhedor
26:50com relação às formações.
26:53E as pessoas
26:53podem ser,
26:54inclusive,
26:54autodidatas.
26:56Elas podem ter
26:57uma força interior
26:59tão grande
27:00que faça com que
27:01elas superem
27:01alguma deficiência
27:03de formação
27:04que elas tenham
27:04e elas consigam
27:06se exprimir
27:07do ponto de vista
27:07audiovisual.
27:08Então,
27:09o que eu acho
27:09importante
27:10é que a gente
27:11tenha todo
27:12esse ecossistema
27:13capaz
27:14de receber
27:15essas pessoas.
27:16As escolas,
27:17as produtoras,
27:19as cinematecas,
27:21os cinemas,
27:22mas o ponto central,
27:23eu acho,
27:24hoje,
27:25o ponto crítico
27:26do cinema
27:26no Brasil
27:27é a distribuição
27:28das salas.
27:29O preço do ingresso
27:30é caro,
27:32as salas
27:32estão muito concentradas
27:34e a gente
27:34precisa expandir isso.
27:36cinemas que ofereçam
27:38entradas mais baratas,
27:40filmes diferenciados,
27:42não só filmes
27:43comercialmente
27:45carimbados,
27:46entendeu?
27:47Filmes que permitam
27:48que as pessoas
27:48pensem,
27:49se espantem,
27:50porque,
27:50às vezes,
27:50você vai no cinema
27:51e se espanta com a coisa,
27:52você pensa,
27:52o que é isso
27:53que eu estou vendo?
27:54Mas isso faz parte
27:55da formação
27:56de um espectador.
27:59Muito bem,
27:59Paulo,
28:00infelizmente,
28:01nosso tempo acabou,
28:02eu queria agradecer
28:03muito pela entrevista
28:04e vamos torcer
28:05para que o Agente Secreto
28:06concorra e traga
28:08algum Oscar mais.
28:09Vamos sim,
28:09vamos sim.
28:10Muito obrigado
28:10por ter me chamado aqui,
28:11adorei a conversa.
28:13Obrigado então,
28:13Paulo.
28:14E a você que acompanhou
28:15até aqui,
28:16obrigado pela audiência
28:17e companhia.
28:18A gente volta
28:19na semana que vem.
28:20Tchau.
28:22Tchau.
28:23Tchau.
28:23Tchau.
28:24Tchau.
28:24Tchau.
28:25Tchau.
28:25Tchau.
28:26Tchau.
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28:30Tchau.